Reflexão para Quarta-feira da 23ª Semana do Tempo Comum

O Reino de Deus e a transformação do mundo

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

A liturgia da Quarta-feira da 23ª Semana do Tempo Comum coloca diante de nós dois textos que, à primeira vista, parecem tratar de assuntos diferentes. Paulo fala aos cristãos de Corinto sobre casamento, celibato, sofrimento e a brevidade do tempo; Lucas apresenta as bem-aventuranças e as advertências de Jesus aos ricos. Entretanto, uma leitura contextualizada revela uma profunda convergência: o discípulo de Jesus é chamado a não absolutizar as estruturas, os bens e as condições passageiras deste mundo, porque o Reino de Deus inaugura uma nova ordem de relações humanas.

Lidos a partir da Teologia latino-americana e da caminhada das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos não significam fuga da realidade. Ao contrário, convidam a olhar criticamente para ela e a perguntar: que estruturas fazem alguns viverem na abundância enquanto outros permanecem na fome, na exclusão e no sofrimento?

1. 1Cor 7,25-31: viver no mundo sem fazer do mundo um absoluto

A Primeira Carta aos Coríntios foi escrita por Paulo para uma comunidade marcada por conflitos internos e situada em uma cidade importante do mundo greco-romano. Corinto era um centro comercial, cultural e religioso, atravessado por desigualdades sociais. No capítulo 7, Paulo responde a questões concretas apresentadas pela comunidade acerca do casamento, da vida celibatária e das condições de vida dos cristãos.

Paulo começa reconhecendo que, nesse assunto específico, não possui um mandamento direto do Senhor, mas oferece seu discernimento como alguém que recebeu misericórdia e confiança. Isso é importante: Paulo distingue uma palavra explícita de Jesus de seu próprio discernimento pastoral diante de uma situação histórica concreta.

O apóstolo menciona uma “situação de angústia” ou “crise presente” (1Cor 7,26). Não é possível determinar com absoluta certeza qual circunstância específica está em vista. O importante é perceber que Paulo não está elaborando uma doutrina universal contra o matrimônio. Ele mesmo afirma que casar-se não constitui pecado. Seu conselho nasce de uma situação concreta de dificuldade e da expectativa de que o tempo presente é passageiro.

Por isso, a afirmação “o tempo se fez curto” (7,29) precisa ser compreendida dentro da esperança escatológica das primeiras comunidades cristãs. A chegada do Reino de Deus relativiza todas as condições históricas. Paulo menciona sucessivamente os casados, os que choram, os que se alegram, os que compram e os que utilizam os bens deste mundo.

O ponto central não é abandonar a vida, a família, o trabalho ou os bens. É não transformar nenhuma dessas realidades em absoluto. O mundo, tal como está organizado, não possui a última palavra: “a aparência deste mundo passa” (7,31).

Para a Teologia latino-americana, essa afirmação possui uma dimensão profundamente crítica. Se as estruturas históricas são passageiras, também são transformáveis. Nenhuma estrutura de exploração pode ser apresentada como eterna; nenhuma desigualdade pode ser considerada vontade imutável de Deus.

Assim, a fé cristã não conduz à acomodação. Pelo contrário, permite discernir que a realidade presente não corresponde plenamente ao projeto de Deus.

2. Lc 6,20-26: o Reino de Deus começa pelos pobres

Se 1Cor 7 nos ensina a relativizar as estruturas deste mundo, Lc 6 mostra qual é a direção da transformação desejada por Deus.

O texto faz parte do chamado “Sermão da Planície”. Jesus dirige inicialmente suas palavras aos discípulos, diante de uma multidão que o procura em razão de suas palavras e de suas ações de cura.

Lucas apresenta quatro bem-aventuranças e quatro “ais”. Essa estrutura é fundamental para a interpretação. Jesus proclama:

  • felizes os pobres;
  • felizes os que têm fome;
  • felizes os que agora choram;
  • felizes os perseguidos por causa do Filho do Homem.

Depois, apresenta o contraponto:

  • “ai de vós, ricos”;
  • “ai de vós que agora estais fartos”;
  • “ai de vós que agora rides”;
  • “ai de vós quando todos falarem bem de vós”.

Diferentemente de Mateus, que fala dos “pobres em espírito”, Lucas utiliza simplesmente “pobres”, colocando-os em contraste direto com os ricos. A leitura exegética do texto aponta, portanto, para uma pobreza também concreta, socioeconômica.

Jesus não está dizendo que a pobreza, a fome ou o sofrimento sejam bons em si mesmos. Não existe aqui uma espiritualização da miséria. O que está sendo proclamado é que Deus toma o partido daqueles que sofrem e promete a transformação de sua situação.

O “ai de vós, ricos” também não deve ser reduzido a uma condenação automática de toda pessoa que possui bens. O problema está na riqueza transformada em segurança absoluta, na abundância que se fecha diante da fome do outro e na satisfação que não deixa espaço para a justiça. O rico é aquele que já encontrou sua “consolação” neste mundo e, por isso, não percebe que sua segurança pode estar construída sobre a exclusão de outros.

Lucas apresenta, portanto, uma inversão das situações. O Reino de Deus não confirma a ordem social estabelecida. O Reino questiona-a e anuncia uma nova realidade.

3. A opção pelos pobres como consequência da Palavra

É precisamente nesse ponto que a Teologia Latino-americana encontra uma chave privilegiada para interpretar esses textos.

A Palavra de Deus não pode ser lida separada da vida concreta. A pergunta não é apenas “o que o texto significou?”, mas também: o que Deus está dizendo hoje às comunidades que vivem em meio à pobreza, à desigualdade e à exclusão?

Quando Jesus afirma “felizes vós, os pobres”, ele não está legitimando a pobreza. Pelo contrário: está anunciando que a pobreza não terá a última palavra.

Essa distinção é fundamental. Uma leitura alienante poderia dizer ao pobre: “aceite sua pobreza, porque você é bem-aventurado”. Uma leitura libertadora afirma: Deus está ao lado de você e, por isso, a situação que produz sua pobreza precisa ser transformada.

A fome, a falta de moradia, o desemprego, o trabalho precarizado, o racismo, a violência, a exclusão dos povos indígenas e quilombolas, o abandono das periferias e a destruição ambiental não podem ser tratados como fatalidades.

O Evangelho exige discernir suas causas e enfrentá-las.

4. As CEBs e a transformação da realidade

As Comunidades Eclesiais de Base encontram nesses textos uma orientação pastoral muito concreta.

A primeira tarefa é ler a realidade à luz da Palavra. O círculo bíblico não deve terminar na explicação do texto. É necessário perguntar: quem são hoje os pobres, os famintos e os que choram? Quem são aqueles que estão sendo excluídos? Quem acumula riqueza e poder? Quais estruturas produzem essa desigualdade?

A segunda tarefa é transformar a solidariedade em organização. A comunidade pode promover ações contra a fome, apoiar famílias vulneráveis, fortalecer cooperativas, defender trabalhadores, participar de conselhos comunitários e políticas públicas, apoiar a agricultura familiar e defender os territórios dos povos indígenas e quilombolas.

A terceira é recuperar a dimensão profética da fé. O discípulo não pode buscar apenas aprovação. Jesus termina suas bem-aventuranças advertindo contra a situação em que “todos falam bem” dos seus seguidores. A fidelidade ao Evangelho pode gerar conflito com interesses estabelecidos.

As CEBs precisam, portanto, ser comunidades que consolam os que choram, alimentam os que têm fome, acolhem os excluídos e denunciam as estruturas que produzem sofrimento.

5. “A aparência deste mundo passa”: esperança que transforma

A expressão de Paulo — “a aparência (a figura) deste mundo passa” — pode ser facilmente interpretada como convite ao desprezo pelas realidades terrestres. Entretanto, no conjunto do texto, ela significa outra coisa: não absolutizar aquilo que é provisório.

Para as CEBs, essa palavra pode tornar-se uma fonte de esperança ativa. Se as estruturas de injustiça não são eternas, elas podem ser modificadas. Se a fome não corresponde ao projeto de Deus, precisamos combatê-la. Se o racismo destrói a dignidade humana, precisamos enfrentá-lo. Se a concentração da riqueza produz exclusão, precisamos construir relações econômicas mais justas.

A esperança cristã não é esperar passivamente que Deus faça tudo. É reconhecer, pela fé, que nossas ações de justiça já podem ser sinais do Reino.

Conclusão

1Cor 7,25-31 e Lc 6,20-26 convergem numa mensagem profundamente atual: não podemos transformar as condições presentes em absolutos.

Paulo recorda que o mundo, em sua configuração atual, passa. Jesus revela que o Reino de Deus coloca os pobres no centro e questiona a segurança daqueles que encontram sua consolação na riqueza, na fartura e no reconhecimento social.

Para a Teologia Latino-americana, esses textos revelam um Deus que não permanece neutro diante da desigualdade. O Deus de Jesus Cristo escuta os que sofrem e inaugura uma nova ordem marcada pela justiça, pela fraternidade e pela partilha.

A liturgia desta Quarta-feira da 23ª Semana do Tempo Comum convida, portanto, as Comunidades Eclesiais de Base a fazer uma escolha: não absolutizar o mundo tal como ele está, mas trabalhar para que ele se transforme segundo o projeto do Reino.

A comunidade cristã é chamada a estar junto dos pobres, não apenas para ajudá-los, mas para caminhar com eles; não apenas para falar por eles, mas para reconhecer sua voz; não apenas para aliviar consequências, mas para enfrentar as causas da exclusão.

Assim, a Palavra celebrada torna-se ação pastoral: uma Igreja que chora com os que choram, partilha o pão com os famintos, acolhe os excluídos e se compromete com a transformação das estruturas que produzem morte.

Porque, para Jesus, a última palavra não pertence à riqueza, ao poder ou à desigualdade. A última palavra pertence ao Reino de Deus e à vida dos pequenos.


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