Por Pe. Hermes A. Fernandes
A Liturgia da Exaltação da Santa Cruz coloca diante de nós dois textos que, à primeira vista, podem parecer estranhos entre si: a narrativa de Nm 21,4b-9, na qual uma serpente de bronze é levantada no deserto, e o diálogo de Jesus com Nicodemos em Jo 3,13-17, no qual Jesus interpreta sua própria morte à luz daquela experiência do povo de Israel. Entretanto, os dois textos estabelecem uma profunda relação entre crise, sofrimento, olhar, cura e vida. À luz da Teologia Latino-americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), essa relação nos ajuda a compreender a cruz não como glorificação do sofrimento, mas como revelação do Deus que se coloca ao lado daqueles que sofrem e transforma a morte em caminho de vida.
1. O deserto, a murmuração e a serpente: quando a caminhada se torna insuportável
O texto de Nm 21 está inserido na longa caminhada de Israel pelo deserto. O povo experimenta cansaço, insegurança e escassez. A narrativa afirma que os israelitas “se impacientaram” no caminho e passaram a falar contra Deus e contra Moisés. O problema não é simplesmente uma falta de fé individual. Trata-se de um povo submetido às condições duras de uma travessia histórica.
O deserto é lugar de passagem, mas também de vulnerabilidade. Ali não existem as seguranças do Egito nem ainda a estabilidade da Terra Prometida. O povo está entre um passado de escravidão e um futuro ainda não alcançado. Sua murmuração nasce dessa tensão.
Há que se acrescentar que o deserto se tornará futuramente o lugar teológico do encontro e aprofundamento da intimidade com Deus e seu projeto, conforme podemos ver nas narrativas acerca do Profeta Elias (cf. 1Rs 19,5-18) e de Jesus (cf. Mt 4,1-11; Mc 1,12-13; Lc 4,1-13). Sobre esse tema, falaremos mais em nossa próxima reflexão.
Voltando ao texto de Nm 21,4-9, a narrativa utiliza então a imagem das serpentes abrasadoras. As pessoas são mordidas e muitas morrem. O povo reconhece sua situação e pede a Moisés que interceda. Deus orienta a construção de uma serpente e determina que ela seja colocada sobre uma haste: quem olhar para ela depois de ser mordido viverá.
É importante perceber que o texto não deve ser lido como uma explicação científica da doença ou como uma receita mágica. Trata-se de uma narrativa teológica. O gesto de olhar para a serpente levantada simboliza o reconhecimento da própria situação e a abertura à ação salvadora de Deus.
O povo precisa olhar de frente para aquilo que o ameaça. A cura começa quando a realidade da morte deixa de ser ignorada.
Aqui encontramos uma chave profundamente atual para a leitura latino-americana da Bíblia. Os pobres e excluídos não podem ser convidados a fechar os olhos diante das estruturas que produzem sofrimento. A fé bíblica não é alienação. Ela ensina a ver, discernir e transformar.
As CEBs nasceram precisamente dessa pedagogia do olhar: olhar a realidade à luz da Palavra, reconhecer as causas do sofrimento e descobrir, na ação comunitária, caminhos de libertação. A Bíblia deixa de ser apenas um livro para ser lido e torna-se uma Palavra que ilumina a história.
2. Da serpente levantada à cruz de Cristo
O Evangelho de João retoma explicitamente a imagem do Livro dos Números: “Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem”.
O verbo “levantar” possui aqui uma riqueza extraordinária. Em João, a cruz não é simplesmente o lugar da execução de Jesus. Ela se torna o lugar de sua exaltação. O condenado pelos poderes deste mundo é apresentado pelo evangelista como aquele que manifesta a glória de Deus.
Essa afirmação precisa ser compreendida cuidadosamente. A fé cristã não afirma que Deus tenha prazer no sofrimento humano nem que a violência seja boa. Jesus não procura a cruz por amor à dor. Ele assume as consequências de sua fidelidade ao Reino de Deus, à justiça, à misericórdia e à dignidade dos pequenos.
A cruz revela, portanto, até onde pode chegar a violência de um sistema que se sente ameaçado por uma vida comprometida com os pobres e marginalizados. Mas revela também até onde pode chegar o amor de Deus: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho único”.
A cruz é, simultaneamente, denúncia e revelação. Denuncia a violência humana e revela a radicalidade do amor divino.
Por isso, a Exaltação da Santa Cruz não deveria transformar o sofrimento em objeto de culto. Não celebramos a cruz porque a dor seja boa. Celebramos porque, na cruz de Cristo, Deus se solidariza definitivamente com as vítimas da história e mostra que a violência, a opressão e a morte não possuem a última palavra.
3. “Para que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna”
O objetivo da cruz, segundo João, é a vida: “para que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna”.
Na linguagem joanina, vida eterna não significa apenas uma existência futura depois da morte. É participação, desde agora, na vida que procede de Deus. É uma existência transformada pelo amor, pela fraternidade e pela comunhão.
Essa perspectiva possui enorme força sociotransformadora.
Em uma sociedade na qual milhões de pessoas continuam submetidas à fome, à pobreza, ao desemprego, à falta de moradia, ao racismo, à violência, à exploração do trabalho, às migrações forçadas e à destruição ambiental, anunciar que Cristo veio para dar vida exige perguntar: que vida estamos defendendo?
Não podemos proclamar “vida eterna” enquanto permanecemos indiferentes às vidas concretas que estão sendo destruídas.
A cruz de Cristo nos conduz às cruzes de hoje: a cruz da criança que passa fome; da família sem casa; do trabalhador explorado; da população negra vítima da violência; dos povos indígenas ameaçados em seus territórios; das comunidades quilombolas privadas de seus direitos; das mulheres vítimas de violência; das pessoas migrantes e refugiadas; dos moradores das periferias; daqueles que são descartados porque não produzem ou não consomem segundo a lógica do mercado.
A Teologia Latino-americana nos recorda que a opção pelos pobres não é um apêndice da fé cristã. Ela nasce do próprio modo como Deus se revela na história. O Deus que escuta o clamor dos oprimidos é o mesmo Deus revelado plenamente em Jesus crucificado e ressuscitado.
4. A cruz e as Comunidades Eclesiais de Base
As CEBs podem encontrar nesses textos uma verdadeira espiritualidade do olhar comprometido.
No deserto, o povo precisa olhar para a serpente levantada. No Evangelho, somos convidados a contemplar o Cristo levantado na cruz. Mas contemplar não significa permanecer passivo. O verdadeiro olhar contemplativo transforma aquele que olha.
As CEBs são chamadas a olhar para a realidade com os olhos da fé e, ao mesmo tempo, a olhar a fé com os olhos da realidade. É o movimento próprio da Leitura Popular da Bíblia: partir da vida, escutar a Palavra, iluminar a realidade e retornar à vida com novos compromissos.
Nesse processo, a cruz de Jesus impede qualquer espiritualidade desencarnada. Não basta venerar o crucificado nos altares se não somos capazes de reconhecer os crucificados de nossa sociedade.
A cruz exige solidariedade.
A comunidade cristã não pode simplesmente perguntar: “Quem são os pobres?”. Precisa perguntar também: “Quais estruturas estão produzindo pobreza? Quem está sendo excluído? Quem está sendo silenciado? Quem está pagando o preço de um modelo econômico e social que transforma pessoas e natureza em mercadoria?”
É nesse ponto que a espiritualidade da cruz se encontra com a defesa da Casa Comum. O sofrimento dos pobres e a destruição ambiental não são problemas separados. Frequentemente, aqueles que menos contribuem para a degradação ambiental são os primeiros a sofrer seus efeitos. Povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares, populações periféricas e comunidades afetadas pela mineração experimentam concretamente essa realidade.
A cruz de Cristo nos ensina a permanecer ao lado das vítimas e a organizar a esperança.
5. Uma pastoral que nasce da cruz
A celebração da Exaltação da Santa Cruz pode tornar-se, portanto, ocasião para renovar uma pastoral comprometida com a vida.
As comunidades podem realizar uma verdadeira pedagogia do olhar: olhar para os territórios, identificar os sofrimentos, escutar os clamores e reconhecer os sinais de esperança. A Palavra de Deus deve ser lida junto com a vida do povo.
Isso significa fortalecer círculos bíblicos, Leitura Orante, visitas às famílias vulnerabilizadas, ações solidárias, defesa dos direitos humanos, cuidado com a Casa Comum, participação cidadã e articulação com pastorais sociais e movimentos populares.
Também significa superar uma compreensão individualista da salvação. Jesus não morreu simplesmente para resolver problemas individuais entre cada pessoa e Deus. Sua vida, morte e ressurreição inauguram uma humanidade nova, reconciliada com Deus, com os irmãos e com a criação.
A cruz, portanto, não nos convida à resignação diante da injustiça. Ela nos convoca à resistência amorosa e profética.
Conclusão: exaltar a cruz é levantar a vida
Nm 21,4b-9 e Jo 3,13-17 nos conduzem de uma imagem do deserto à cruz de Cristo. O povo ferido olha e encontra vida. Jesus é levantado na cruz e, paradoxalmente, esse instrumento de morte torna-se sinal do amor que vence a morte.
A Exaltação da Santa Cruz não é a exaltação da dor, da violência ou do sofrimento. É a exaltação do amor que permanece fiel no meio do sofrimento. É a exaltação de uma vida entregue para que outras vidas tenham vida.
Para as CEBs, contemplar o Crucificado significa reconhecer os crucificados de ontem e de hoje. Significa colocar-se ao lado dos pobres, marginalizados e excluídos, não como quem oferece apenas assistência, mas como quem caminha com eles na construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.
No deserto, Deus ensinou seu povo a olhar. Na cruz, Deus nos ensina a amar.
Por isso, celebrar a Santa Cruz é assumir uma missão: olhar para os crucificados da história, escutar seu clamor, denunciar aquilo que produz sua crucifixão e participar da construção de caminhos de ressurreição.
A cruz cristã somente será verdadeiramente exaltada quando a vida dos pequenos, dos pobres e dos excluídos também for levantada.
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