Reflexão para Terça-feira da 24ª Semana do Tempo Comum, Memória Litúrgica da Bem-aventurada Virgem Maria das Dores

AOS PÉS DA CRUZ: A DOR QUE SE TRANSFORMA EM SOLIDARIEDADE E ESPERANÇA

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A liturgia da terça-feira da 24ª Semana do Tempo Comum, na Memória da Bem-aventurada Virgem Maria das Dores, coloca diante de nós duas passagens profundamente unidas pelo mistério do sofrimento: Hb 5,7-9 apresenta Jesus como aquele que experimentou, na própria carne, a angústia, o clamor e as lágrimas; Jo 19,25-27 mostra Maria permanecendo de pé junto à cruz e recebendo do próprio Filho uma nova missão: tornar-se mãe do discípulo e, nele, mãe da comunidade dos discípulos. A liturgia de 15 de setembro de 2026 propõe esses textos como leituras próprias da memória.

Lidos a partir da Teologia Latino-americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos nos ajudam a superar uma compreensão passiva ou resignada do sofrimento. Deus não se revela como aquele que deseja a dor, a opressão e a morte dos seus filhos. O Deus da Bíblia escuta o clamor dos que sofrem e chama seu povo à solidariedade, à resistência e à construção de uma sociedade onde a vida tenha a última palavra.

1. Jesus que clama no meio do sofrimento

A Carta aos Hebreus apresenta uma imagem de Jesus muito humana e, justamente por isso, profundamente reveladora de Deus. “Nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte” (Hb 5,7).

O texto não apresenta um Cristo distante da experiência humana. O Filho de Deus conhece o medo, a angústia, a fragilidade e o sofrimento. Seu clamor não é sinal de falta de fé. Ao contrário, é expressão de uma confiança que se dirige a Deus precisamente quando todas as seguranças humanas parecem desaparecer. A tradição litúrgica associa esse texto à paixão de Cristo e à sua entrega até a morte.

Há aqui uma mensagem muito importante para a leitura popular da Bíblia. Deus não é indiferente ao grito dos pobres. O sofrimento humano não passa despercebido diante dele. O mesmo Deus que escutou o clamor dos escravizados no Egito continua escutando o clamor daqueles que, hoje, sofrem com a fome, o desemprego, a violência, o racismo, a exclusão, a falta de moradia, a exploração do trabalho, a expulsão de suas terras e a destruição da Casa Comum.

Por isso, quando Hebreus afirma que Jesus “aprendeu o que significa a obediência […] por aquilo que sofreu” (Hb 5,8), não devemos interpretar o sofrimento como algo desejado por Deus. Jesus aprende, no caminho concreto da existência humana, a fidelidade radical ao projeto do Pai. Sua obediência não é submissão servil à injustiça, mas fidelidade ao Reino de Deus, mesmo quando essa fidelidade entra em conflito com estruturas de poder que produzem morte.

A cruz, portanto, não legitima a opressão. Pelo contrário: revela até onde pode chegar a violência de um sistema que rejeita aquele que anuncia uma nova ordem fundada na justiça, na misericórdia e na dignidade humana.

2. Maria permanece de pé junto à cruz

O Evangelho de João nos conduz ao Calvário: “Perto da cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas e Maria Madalena” (Jo 19,25).

A expressão “estar de pé” possui grande força simbólica. Maria não está simplesmente presente como espectadora de uma tragédia. Ela permanece junto ao Filho quando quase todos desapareceram. Sua presença é uma presença solidária.

Na perspectiva da Teologia Latino-americana, Maria das Dores pode ser contemplada como ícone de tantas mães que permanecem de pé diante das cruzes produzidas pela sociedade. Ela representa as mães que choram filhos assassinados pela violência; as mulheres que acompanham familiares encarcerados; as famílias expulsas de suas terras; as mães que veem seus filhos partir em busca de trabalho; as mulheres que lutam contra a fome, o racismo, a violência doméstica e tantas formas de exclusão.

Maria não contempla uma dor abstrata. Ela contempla o sofrimento de seu próprio Filho, vítima da violência política e religiosa de seu tempo. A cruz romana era instrumento de execução pública e intimidação. Jesus morre como vítima de uma estrutura que não suporta sua mensagem libertadora.

Nesse sentido, contemplar Maria junto à cruz significa aprender a permanecer junto daqueles que sofrem. A espiritualidade das CEBs não pode ser uma espiritualidade que olha a cruz de longe. É preciso aproximar-se dela, reconhecer os crucificados de nosso tempo e perguntar: quem são aqueles que hoje estão sendo colocados nas cruzes produzidas pela nossa sociedade?

3. “Eis o teu filho”: a comunidade nasce da solidariedade

Jesus olha para sua mãe e para o discípulo amado e diz: “Mulher, eis o teu filho”. Depois diz ao discípulo: “Eis a tua mãe” (Jo 19,26-27). O discípulo, então, acolhe Maria consigo.

O episódio pode ser lido para além de uma simples preocupação de Jesus com o futuro de sua mãe. João constrói a cena com forte significado comunitário. O discípulo amado representa aquele que permanece fiel e que recebe Maria em sua casa. Surge uma nova relação, uma nova família constituída não apenas pelos vínculos de sangue, mas pela fidelidade ao projeto de Jesus.

Essa perspectiva possui enorme relevância para as Comunidades Eclesiais de Base. A Igreja não é somente uma instituição à qual pertencemos; é uma comunidade de pessoas que se acolhem, cuidam umas das outras e assumem juntas a missão de testemunhar o Reino.

O verbo “acolher” torna-se fundamental. Acolher Maria significa acolher a pessoa concreta, sobretudo aquela que se encontra em situação de sofrimento. Uma comunidade cristã que celebra Nossa Senhora das Dores, mas permanece indiferente às dores dos pobres, corre o risco de transformar a devoção em uma prática sem consequências sociais.

Maria nos ensina outra coisa: permanecer junto dos crucificados e construir relações de cuidado, solidariedade e compromisso.

4. Das dores de Maria às dores do povo

A espiritualidade popular latino-americana encontrou em Maria uma companheira de caminhada. Ela não é uma figura distante, colocada acima das dores humanas. É a mulher que conhece a pobreza, a insegurança, a migração, a perseguição e a perda do Filho.

Por isso, Maria das Dores pode ser contemplada ao lado das mulheres pobres, negras, indígenas, camponesas, quilombolas e periféricas que sustentam suas famílias e suas comunidades em meio às adversidades.

Nas CEBs, essa memória pode transformar-se em oração e ação. O sofrimento de Maria não deve ser utilizado para ensinar que os pobres precisam simplesmente “aceitar sua cruz”. Ao contrário, a cruz de Cristo denuncia todas as estruturas que crucificam seres humanos.

A leitura sociotransformadora da Bíblia pergunta: o que está produzindo sofrimento em nosso território? Quem está sendo excluído? Quem está sendo silenciado? Quem está perdendo sua terra? Quem não tem acesso à saúde, à educação, à moradia ou ao trabalho digno? Quem são os novos crucificados?

Essas perguntas fazem a Palavra de Deus sair do livro e entrar na vida.

5. Uma espiritualidade que permanece de pé

Hebreus mostra Jesus clamando e chorando. João mostra Maria permanecendo de pé. Os dois textos nos apresentam uma espiritualidade que não foge da realidade.

A fé cristã não elimina automaticamente o sofrimento, mas transforma a maneira de enfrentá-lo. Jesus não enfrenta sua paixão sozinho. Maria permanece com ele. O discípulo amado permanece. E, depois da Páscoa, essa pequena comunidade se tornará testemunha de uma vida nova.

Aqui está uma importante inspiração para as CEBs: ninguém deveria enfrentar sozinho a sua cruz. A comunidade cristã existe para que os sofrimentos possam ser compartilhados e para que a esperança seja construída coletivamente.

Isso significa organizar a solidariedade, visitar os enfermos, acompanhar famílias vulneráveis, defender pessoas ameaçadas, apoiar trabalhadores, proteger povos indígenas e comunidades tradicionais, cuidar da Casa Comum, combater o racismo e toda forma de discriminação, denunciar a violência e participar das lutas por justiça e dignidade.

A compaixão cristã não pode ser reduzida a sentimento. Ela precisa tornar-se compromisso histórico.

6. Uma ação pastoral a partir de Maria das Dores

A memória de Nossa Senhora das Dores pode ser celebrada nas CEBs como uma verdadeira escola de solidariedade. Depois de contemplar Maria junto à cruz, a comunidade é chamada a identificar as cruzes presentes em seu próprio território.

Uma celebração comunitária poderia começar com a leitura orante de Hb 5,7-9 e Jo 19,25-27, seguida de um momento no qual cada participante nomeasse as dores existentes na comunidade. Depois, essas dores poderiam ser transformadas em compromissos concretos: acompanhar uma família em dificuldade, visitar uma pessoa enferma, organizar uma ação contra a fome, apoiar uma luta por moradia ou terra, defender uma comunidade ameaçada, participar de iniciativas de cuidado ambiental ou fortalecer a presença pastoral junto às pessoas marginalizadas.

Assim, a devoção a Maria das Dores torna-se prática de misericórdia e justiça.

As CEBs são chamadas a permanecer “de pé” junto aos crucificados de hoje. Não para glorificar o sofrimento, mas para lutar para que ele deixe de existir. Maria permaneceu junto à cruz, mas a história não terminou no Calvário. A cruz conduz à Páscoa.

Conclusão: permanecer de pé com os crucificados

Hb 5,7-9 e Jo 19,25-27 apresentam-nos um Deus que não é indiferente ao sofrimento humano. Em Jesus, Deus entra na história e experimenta a condição daqueles que sofrem. Em Maria, encontramos a imagem da mulher que permanece de pé diante da cruz e não abandona aquele que ama.

Para a Teologia Latino-americana e para as Comunidades Eclesiais de Base, essa mensagem possui uma consequência pastoral decisiva: não basta contemplar o sofrimento; é preciso permanecer junto daqueles que sofrem e transformar as condições que produzem sofrimento.

Maria das Dores nos ensina a enxergar os crucificados de nosso tempo. Jesus nos ensina que o clamor do sofredor pode tornar-se oração, resistência e fidelidade. E a comunidade nos ensina que ninguém precisa carregar sozinho a sua cruz.

Celebrar Nossa Senhora das Dores, portanto, é assumir o compromisso de estar junto das mães que choram, dos pobres que resistem, dos povos que defendem seus territórios, dos trabalhadores explorados, dos migrantes, dos excluídos e de todos aqueles cuja dignidade é ameaçada.

Aos pés da cruz, a Igreja aprende novamente que sua missão não é permanecer distante da realidade, mas estar onde estão os que sofrem, defender a vida e anunciar, com gestos concretos, que nenhuma cruz terá a última palavra. A última palavra pertence à vida, à esperança e à Ressurreição.


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