Reflexão para Quarta-feira da 24ª Semana do Tempo Comum

O AMOR QUE SE FAZ COMUNIDADE E TRANSFORMA A REALIDADE

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A liturgia da Quarta-feira da 24ª Semana do Tempo Comum coloca diante de nós dois textos que se iluminam mutuamente. Em 1Cor 12,31–13,13, Paulo apresenta o amor como “um caminho ainda mais excelente”, colocando-o acima dos dons, dos carismas, do conhecimento e até mesmo das grandes obras realizadas em nome da fé. Em Lc 7,31-35, Jesus denuncia a incapacidade de sua geração de acolher a novidade de Deus, comparando-a a crianças que, sentadas na praça, recusam tanto a austeridade de João Batista quanto a proximidade misericordiosa do próprio Jesus.

Lidos à luz da Teologia Latino-americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos nos convidam a perguntar: que amor é esse que Paulo considera indispensável à comunidade cristã? E por que uma sociedade pode rejeitar tanto a profecia quanto a misericórdia? A resposta passa por uma fé que não se limita ao culto, mas se torna compromisso com a vida, especialmente com a vida dos pobres, marginalizados e excluídos.

1. “Um caminho ainda mais excelente”

A Primeira Carta aos Coríntios nasceu em uma comunidade marcada por conflitos. Corinto era uma cidade importante do mundo greco-romano, atravessada por desigualdades sociais, disputas de prestígio e diferentes concepções religiosas. A própria comunidade cristã reproduzia, em certa medida, essas divisões.

Nos capítulos 12–14, Paulo trata dos carismas. Havia diversos dons concedidos pelo Espírito, mas alguns membros pareciam considerar determinados carismas superiores aos demais. Paulo não rejeita a diversidade. Pelo contrário, reconhece que o Espírito distribui dons diferentes e que todos são necessários para a edificação da comunidade.

Entretanto, existe algo maior: “um caminho ainda mais excelente” (1Cor 12,31). Esse caminho é o amor.

O conhecido “hino à caridade” não deve ser interpretado como uma simples reflexão romântica sobre o amor individual. Ele está inserido no contexto concreto de uma comunidade dividida. Paulo está dizendo, em outras palavras, que nenhum carisma tem valor quando não está a serviço da comunhão, da dignidade do outro e da construção do bem comum.

Por isso, ele afirma que mesmo falar línguas, possuir conhecimento, ter fé capaz de transportar montanhas, distribuir os próprios bens ou entregar-se heroicamente não significa nada sem amor (1Cor 13,1-3).

O amor descrito por Paulo é paciente, bondoso, não busca seus próprios interesses, não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade (1Cor 13,4-6). Trata-se de uma realidade profundamente concreta. Não é mero sentimento interior. É uma maneira de relacionar-se com o outro.

A comunidade cristã precisa, portanto, perguntar não apenas “quais dons possuímos?”, mas sobretudo: “a serviço de quem colocamos nossos dons?”

2. O amor como força sociotransformadora

A Teologia Latino-americana ajuda-nos a compreender que o amor cristão possui consequências históricas. Amar não significa apenas ter compaixão individual pelo necessitado. Significa reconhecer a dignidade do outro e comprometer-se com a transformação das estruturas que produzem pobreza, exclusão e sofrimento.

Se Paulo afirma que o amor “não se alegra com a injustiça” (1Cor 13,6), então não podemos falar de amor cristão permanecendo indiferentes diante da fome, da violência, do racismo, da exploração do trabalho, da concentração da terra e da riqueza, da ausência de moradia, da destruição ambiental ou da marginalização de povos e comunidades.

O amor bíblico possui uma dimensão profética.

Nas CEBs, isso significa colocar os dons e carismas a serviço da comunidade e da vida. O conhecimento bíblico deve ajudar a iluminar a realidade; a liderança deve ser serviço e não instrumento de poder; a liturgia deve alimentar a missão; a catequese deve formar discípulos comprometidos com o Reino; a espiritualidade deve fortalecer aqueles que lutam por justiça e dignidade.

Assim, o “caminho mais excelente” de Paulo não é uma espiritualidade de fuga do mundo. É justamente o contrário: é uma espiritualidade que nos envia ao encontro do mundo ferido.

3. Uma geração que não sabe acolher

No Evangelho, Jesus utiliza uma imagem provocadora: “A quem hei de comparar os homens desta geração?” (Lc 7,31). Ele os compara a crianças que brincam na praça e reclamam porque os outros não seguem suas expectativas.

João Batista veio com um estilo austero, e disseram: “Ele está possuído pelo demônio”. Jesus veio comendo e bebendo, aproximando-se das pessoas, e disseram: “Eis aí um comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores” (Lc 7,33-34).

O problema, portanto, não estava no comportamento de João ou de Jesus. O problema estava na incapacidade de seus contemporâneos de reconhecer a ação de Deus quando ela não correspondia às suas expectativas.

João representa a dimensão profética, exigente, capaz de denunciar o pecado. Jesus manifesta a proximidade misericordiosa de Deus, sentando-se à mesa com aqueles que eram considerados pecadores e socialmente indesejáveis.

Ambos são rejeitados.

A conclusão de Jesus é significativa: “A Sabedoria foi justificada por todos os seus filhos” (Lc 7,35). A verdadeira sabedoria não é reconhecida necessariamente pelos poderosos ou pelos especialistas em religião. Ela é reconhecida por seus frutos.

Aqui encontramos uma importante chave para a Leitura Popular da Bíblia: a pergunta decisiva não é apenas o que dizemos sobre Deus, mas que frutos nossa fé produz na vida concreta do povo.

4. Quando a religião rejeita a novidade de Deus

O Evangelho denuncia uma tentação que continua atual: querer controlar a maneira como Deus deve agir.

Às vezes, determinadas expressões religiosas aceitam Jesus enquanto ele confirma suas próprias ideias, mas rejeitam o Jesus que se aproxima dos pobres, dos pecadores, dos doentes, dos excluídos e daqueles que a sociedade religiosa prefere manter à distância.

O Jesus do Evangelho rompe fronteiras.

Por isso, Lc 7,31-35 pode ser lido como uma advertência às comunidades cristãs de hoje. Podemos rejeitar a profecia quando ela incomoda nossas estruturas e rejeitar a misericórdia quando ela nos obriga a acolher aqueles que preferiríamos excluir.

A comunidade pode cair na armadilha de valorizar mais seus ritos, seus cargos, seus movimentos, seus carismas e suas disputas internas do que a vida concreta do povo.

Paulo responderia: sem amor, tudo isso perde seu sentido.

5. O amor que se torna compromisso com os pobres

A aproximação entre 1Cor 13 e Lc 7 é particularmente fecunda para as CEBs. Paulo apresenta o amor como critério para discernir os carismas; Jesus apresenta a capacidade de acolher a ação de Deus como critério para discernir a verdadeira sabedoria.

Em ambos os casos, somos chamados a superar uma religião centrada em nós mesmos.

O amor cristão precisa alcançar aqueles que estão nas margens. Ele deve chegar às periferias urbanas e rurais, às comunidades camponesas, aos povos indígenas e quilombolas, aos trabalhadores precarizados, às pessoas em situação de rua, aos migrantes, aos desempregados, aos enfermos e a tantos outros que permanecem invisíveis.

É justamente aí que a Palavra de Deus se torna carne na história.

As CEBs podem ser espaços privilegiados dessa experiência porque sua força não está apenas na reunião religiosa, mas na capacidade de reunir fé e vida. A Bíblia é lida a partir da realidade e a realidade é iluminada pela Palavra.

Uma comunidade que lê 1Cor 13 precisa perguntar: onde falta paciência, bondade e justiça em nosso território? Quem está sendo tratado como descartável? Quem está sendo silenciado? Quem sofre por causa da indiferença?

E, diante de Lc 7, deve perguntar: que profetas estamos rejeitando? Que sinais da presença de Deus não conseguimos reconhecer porque vêm de lugares ou pessoas que não correspondem às nossas expectativas?

6. Uma pastoral do amor concreto

A ação pastoral inspirada nesses textos pode começar por um exercício simples: transformar a celebração da Palavra em compromisso comunitário.

Depois da leitura dos textos, a comunidade pode identificar as principais situações de sofrimento presentes no território. Em seguida, pode discernir quais dons e recursos possui para responder a essas situações.

Quem sabe organizar uma visita aos enfermos? Quem pode acompanhar uma família em situação de vulnerabilidade? Quem possui conhecimento jurídico para orientar trabalhadores? Quem pode colaborar com ações de defesa da Casa Comum? Quem pode fortalecer a organização comunitária? Quem pode acompanhar crianças, jovens e idosos? Quem pode ajudar na formação bíblica?

Dessa maneira, os carismas deixam de ser instrumentos de prestígio individual e tornam-se serviço.

É essa a lógica de 1Cor 13: o dom só encontra sua plenitude quando se transforma em amor concreto.

Conclusão: o amor é o caminho da comunidade

Paulo não apresenta o amor como mais um carisma entre tantos outros. Ele o apresenta como o caminho que dá sentido a todos os demais. Jesus, por sua vez, denuncia uma geração incapaz de reconhecer a ação de Deus porque está presa às próprias expectativas.

Para as Comunidades Eclesiais de Base, a mensagem é profundamente atual: uma Igreja verdadeiramente evangelizadora é aquela que sabe reconhecer onde Deus está agindo e coloca seus dons a serviço da vida.

O amor de que fala Paulo não é sentimentalismo. É compromisso com a verdade, rejeição da injustiça, cuidado com o outro, perseverança e construção da comunhão. A misericórdia de Jesus não é indiferença diante do pecado e da injustiça; é aproximação dos que foram colocados à margem e abertura de caminhos de vida nova.

Por isso, a liturgia desta Quarta-feira da 24ª Semana do Tempo Comum nos convida a um sério exame de consciência comunitário: de que adianta possuir dons, conhecimento, estruturas e discursos religiosos se não conseguimos amar concretamente os pequenos?

O caminho mais excelente continua aberto diante de nós. É o caminho do amor que acolhe, da profecia que denuncia, da misericórdia que restaura e da comunidade que se coloca a serviço dos pobres e excluídos.

Porque, no horizonte do Evangelho, amar é fazer com que a vida do outro tenha lugar, dignidade e futuro.


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