A justiça de Deus e a dignidade dos últimos

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução: quando Deus subverte nossos critérios

As leituras do 25º Domingo do Tempo Comum nos colocam diante de uma das questões mais profundas da experiência de fé: os caminhos de Deus não coincidem necessariamente com os nossos critérios de justiça, mérito e recompensa. A Liturgia propõe Is 55,6-9; Fl 1,20c-24.27a e Mt 20,1-16a; textos que, lidos em conjunto, revelam um Deus cuja justiça é inseparável da misericórdia e cuja lógica não pode ser reduzida à lógica da competição, da acumulação e do mérito individual.

Essa perspectiva possui enorme importância para a Teologia Latino-americana e para as Comunidades Eclesiais de Base. Em sociedades marcadas por desigualdades profundas, não basta perguntar quem “merece” mais. É necessário perguntar: quem está ficando para trás? Quem não foi contratado? Quem permanece à margem? Quem chega à praça e ninguém chama para trabalhar?

A Palavra de Deus deste domingo nos convida a olhar a realidade a partir daqueles que normalmente são deixados por último.

1. “Os meus pensamentos não são os vossos”: Isaías e a lógica desconcertante de Deus

Isaías 55,6-9 pertence à parte final do livro de Isaías, ou seja: o Terceiro Isaías, e está inserido no contexto da esperança do povo que experimentou o exílio e começa a vislumbrar um novo tempo. O profeta anuncia a possibilidade de retorno a Deus: “Procurai o Senhor enquanto se pode encontrar; invocai-o enquanto está perto”.

A conversão não é apresentada apenas como mudança de práticas religiosas. O ímpio é chamado a abandonar seu caminho e seus pensamentos. Logo depois aparece a afirmação fundamental: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, os vossos caminhos não são os meus caminhos”.

O contexto é decisivo. Israel havia experimentado a derrota, o exílio e a humilhação. Deus, entretanto, abre um caminho novo. A misericórdia divina ultrapassa aquilo que os seres humanos poderiam considerar razoável. O Deus de Isaías não é prisioneiro dos nossos critérios de merecimento.

A Teologia Latino-americana encontra aqui uma chave hermenêutica preciosa: Deus olha a história a partir de uma perspectiva que frequentemente contraria os critérios estabelecidos pelos poderosos.

Nossa sociedade costuma medir as pessoas pelo rendimento, pela produtividade, pelo patrimônio, pela escolaridade, pela posição social ou pela capacidade de consumo. Deus, porém, não olha o ser humano a partir dessas categorias.

A graça não é salário. A dignidade não é prêmio. A vida não é mercadoria. A pessoa humana não vale pelo que produz.

Essa mensagem possui consequências sociotransformadoras. Uma Igreja que proclama o Deus de Isaías não pode aceitar tranquilamente uma sociedade na qual alguns acumulam excessivamente enquanto outros não conseguem sequer satisfazer suas necessidades fundamentais.

2. Paulo: “Para mim, viver é Cristo”

Na Carta aos Filipenses, Paulo escreve em situação de prisão. Ele se encontra diante de uma espécie de dilema existencial: partir e estar com Cristo seria, para ele, algo desejável; permanecer vivo, porém, é necessário por causa da comunidade.

A frase “para mim, viver é Cristo” não expressa desprezo pela vida terrena. Pelo contrário, Paulo reconhece que permanecer neste mundo possui sentido porque sua vida pode continuar sendo serviço.

Esse aspecto é fundamental.

A vida cristã não pode ser compreendida apenas como busca individual da salvação. Viver em Cristo significa colocar a própria existência a serviço da comunidade e da missão. Por isso Paulo conclui exortando os filipenses a viverem “de maneira digna do Evangelho de Cristo”.

Na perspectiva das CEBs, essa afirmação ganha enorme força. Uma comunidade cristã não existe simplesmente para reunir pessoas que buscam conforto espiritual. Ela existe para testemunhar o Evangelho na realidade concreta.

Viver dignamente o Evangelho significa transformar a fé em compromisso.

Significa celebrar a Eucaristia e, ao mesmo tempo, preocupar-se com quem não tem pão. Significa proclamar a fraternidade e combater o racismo e todas as formas de discriminação. Significa falar da criação como dom de Deus e defender a Casa Comum. Significa rezar pelos pobres e, simultaneamente, caminhar com eles. Significa fazer da comunidade um espaço de acolhida para quem a sociedade descarta.

Paulo apresenta, assim, uma espiritualidade profundamente comunitária e missionária: Cristo é a razão da vida, e a vida em Cristo torna-se serviço aos outros.

3. Os trabalhadores da vinha: uma parábola que incomoda

É, contudo, o Evangelho de Mateus 20,1-16a que coloca diante de nós a provocação mais desconcertante.

Jesus compara o Reino dos Céus a um proprietário que sai de madrugada para contratar trabalhadores para sua vinha. Ele combina com os primeiros um denário. Depois retorna várias vezes à praça e encontra outros trabalhadores sem ocupação. Alguns são chamados pela manhã, outros ao meio-dia, outros às três da tarde e outros somente às cinco.

No final do dia, todos recebem o mesmo pagamento. É justamente aqui que surge o conflito.

Os trabalhadores da primeira hora reclamam porque aqueles que trabalharam apenas uma hora recebem o mesmo valor. O proprietário responde: “Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja porque sou bom?”

A parábola, portanto, não é uma simples lição sobre administração empresarial. É uma provocação sobre a lógica do Reino de Deus.

O denário corresponde ao necessário para a subsistência diária. Na parábola, o proprietário não permite que os trabalhadores da última hora retornem para casa sem o suficiente para viver. O que está em jogo não é premiar a improdutividade, mas garantir a vida. A lógica do Reino não é: “receba aquilo que você merece”. A lógica do Reino é: ninguém deve ficar sem aquilo que necessita para viver com dignidade.

Essa leitura é particularmente importante para uma hermenêutica latino-americana.

4. Quem são os trabalhadores da última hora?

É aqui que a realidade dos pobres, marginalizados e excluídos nos ajuda a reler a parábola. Quem são hoje aqueles que permanecem na praça esperando?

São os desempregados. São os trabalhadores informais. São os moradores das periferias que enviam currículos e nunca são chamados. São os jovens sem oportunidade. São as pessoas em situação de rua. São os migrantes e refugiados. São os trabalhadores submetidos à precarização. São os idosos descartados pelo mercado. São pessoas com deficiência que encontram barreiras para sua inclusão. São povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais frequentemente tratados como obstáculos ao desenvolvimento. São tantas pessoas que permanecem, simbolicamente, “na praça”, esperando que alguém lhes dê uma oportunidade.

A pergunta de Jesus continua atual: “Por que ficais aqui o dia inteiro sem trabalhar?” E a resposta daqueles trabalhadores é profundamente reveladora: “Porque ninguém nos contratou.”

Não dizem: “não queremos trabalhar”. Dizem: “ninguém nos contratou”. Há uma diferença enorme.

A parábola, portanto, também questiona uma sociedade que frequentemente responsabiliza os pobres por sua própria pobreza sem perguntar pelas estruturas que produzem a exclusão.

5. A justiça que não aceita deixar ninguém para trás

A Teologia Latino-americana insiste que a fé precisa ser lida a partir da realidade concreta dos pobres. Não porque Deus ame somente os pobres, mas porque a situação do pobre revela a existência de uma injustiça que contradiz o projeto de Deus.

Na parábola, o proprietário volta repetidamente à praça. Ele poderia ter contratado somente os primeiros. Mas volta. E volta novamente. E novamente. Até o final do dia.

Essa insistência é profundamente significativa: Deus continua procurando aqueles que ninguém procura. Aqui encontramos uma imagem muito bonita para a missão das Comunidades Eclesiais de Base.

A Igreja não pode esperar que os últimos cheguem espontaneamente à comunidade. É necessário sair ao encontro deles.

A comunidade cristã precisa ir às periferias, às ocupações, aos assentamentos, às comunidades rurais, aos territórios indígenas e quilombolas, às periferias urbanas, aos espaços onde vivem os migrantes, os desempregados, os dependentes químicos, as pessoas em situação de rua e todos aqueles que muitas vezes não encontram lugar nos espaços tradicionais da sociedade.

O Deus da parábola é um Deus que sai. Que vai ao encontro. E uma Igreja configurada ao Evangelho também precisa sair.

6. “Estás com inveja porque eu sou bom?”

Talvez essa seja uma das frases mais provocadoras do Evangelho. Os trabalhadores da primeira hora não reclamam porque receberam menos. Receberam exatamente aquilo que havia sido combinado. Eles reclamam porque os outros receberam também.

É uma crítica poderosa à mentalidade da escassez: a ideia de que, para que alguém ganhe, outro necessariamente precisa perder.

O Reino de Deus funciona segundo outra lógica. A graça não diminui quando é compartilhada. A dignidade de uma pessoa não ameaça a dignidade de outra. A promoção dos pobres não significa diminuir os ricos; significa construir uma sociedade na qual todos possam viver com dignidade.

A inclusão do excluído não ameaça a comunidade; enriquece a comunidade.

As CEBs são chamadas justamente a construir essa outra lógica: uma economia da partilha, da solidariedade, da cooperação e do cuidado.

7. A dimensão sociotransformadora da Palavra

Os três textos deste domingo podem ser sintetizados em uma única afirmação: Deus chama a humanidade para uma existência fundada na graça, no serviço e na solidariedade, e não na competição e na exclusão.

Isaías convida-nos a abandonar pensamentos incompatíveis com os caminhos de Deus.

Paulo ensina que viver em Cristo significa colocar a existência a serviço da comunidade.

Jesus revela que a justiça do Reino não aceita que aqueles que chegaram por último sejam privados do necessário para viver.

A Palavra, portanto, não pode terminar na igreja. Ela precisa chegar à vida.

Precisa questionar estruturas que produzem pobreza. Precisa iluminar a luta por trabalho digno. Precisa fortalecer a defesa dos territórios dos povos originários. Precisa inspirar políticas públicas que garantam direitos. Precisa alimentar a solidariedade com migrantes e refugiados. Precisa defender a Casa Comum. Precisa promover a participação das mulheres, dos jovens e dos pobres na vida eclesial. Precisa formar cristãos capazes de unir oração e compromisso social.

8. Uma pastoral que saia à procura dos últimos

Para as Comunidades Eclesiais de Base, este domingo pode transformar-se em um verdadeiro programa pastoral. A comunidade pode começar perguntando: quem são os trabalhadores da última hora no contexto em que estamos inseridos?

Depois, pode mapear as situações concretas de exclusão: desemprego, fome, falta de moradia, violência, abandono dos idosos, juventude sem perspectivas, migração, sofrimento das famílias, destruição ambiental.

A partir daí, a Palavra pode conduzir à ação.

Uma comunidade que lê Mateus 20 não deveria permanecer indiferente diante de uma família que não possui o necessário para sobreviver.

Uma comunidade que medita Filipenses 1 deveria perguntar de que modo pode colocar seus dons a serviço dos outros.

Uma comunidade que escuta Isaías 55 deveria permitir que Deus transforme seus próprios critérios e preconceitos.

A leitura bíblica torna-se, assim, Leitura Orante da realidade: escutamos a Palavra, contemplamos a realidade, discernimos à luz do Evangelho e assumimos compromissos concretos.

Conclusão: a vinha é de todos

O 25º Domingo do Tempo Comum nos apresenta um Deus cuja justiça ultrapassa os critérios humanos. Seus pensamentos não são os nossos pensamentos; seus caminhos não são os nossos caminhos.

Na vinha do Reino, não existem trabalhadores de primeira classe e trabalhadores de segunda classe.

Há pessoas chamadas em momentos diferentes. Há pessoas que tiveram oportunidades desde cedo. Há outras que passaram grande parte da vida esperando. Há aquelas que chegaram quase no fim do dia. Mas o proprietário da vinha não deseja que ninguém volte para casa sem o necessário para viver.

Esta é uma mensagem profundamente evangélica e profundamente transformadora.

As Comunidades Eclesiais de Base são chamadas a reconhecer que a vinha de Deus não pode ser cercada por muros de exclusão. A Igreja precisa continuar saindo às praças da história para encontrar aqueles que ninguém chama. E talvez a grande conversão exigida de nós seja justamente esta: abandonar a pergunta “quanto cada um merece?” e aprender a perguntar “do que meu irmão e minha irmã precisam para viver?”

Porque a justiça de Deus não se limita a distribuir recompensas. Ela cria comunhão. Ela restitui dignidade. Ela inclui os últimos. Ela transforma a praça em vinha. E, quando a Igreja assume essa missão, a Palavra deixa de ser apenas proclamada e começa a tornar-se realidade: o Reino de Deus acontece quando ninguém é deixado para trás.


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