A Ressurreição que gera Comunidade e Serviço
Por Pe. Hermes A. Fernandes
A Liturgia da Sexta-feira da 24ª Semana do Tempo Comum coloca diante de nós dois textos que, à primeira vista, parecem abordar temas diferentes. Na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo proclama a centralidade da ressurreição de Cristo e afirma que, sem ela, a fé cristã perderia seu fundamento. No Evangelho de Lucas, encontramos Jesus percorrendo cidades e povoados, anunciando a Boa-Nova do Reino de Deus, acompanhado pelos Doze e por um grupo de mulheres que participavam ativamente de sua missão. A liturgia, porém, estabelece uma profunda unidade entre os dois textos: a fé no Ressuscitado não pode permanecer uma afirmação abstrata; ela se transforma em caminho comunitário, serviço, participação e compromisso com a vida.
É justamente nessa perspectiva que a Teologia Latino-americana e a experiência das Comunidades Eclesiais de Base podem nos ajudar a compreender a Palavra de Deus como Palavra viva, capaz de iluminar a realidade e provocar sua transformação.
1. “Cristo ressuscitou dos mortos”: a esperança que enfrenta a cultura da morte
Em 1Cor 15, Paulo entra no núcleo fundamental da fé cristã. Alguns membros da comunidade de Corinto afirmavam que não existia ressurreição dos mortos. Paulo percebe a consequência lógica dessa afirmação: se os mortos não ressuscitam, então Cristo também não ressuscitou; e, se Cristo não ressuscitou, a pregação apostólica e a fé da comunidade são vazias (1Cor 15,12-14).
A argumentação paulina não pretende simplesmente responder a uma questão filosófica sobre a existência depois da morte. Está em jogo o próprio significado da existência cristã. A ressurreição proclama que a morte não possui a última palavra sobre a história humana. Deus tomou partido da vida ao ressuscitar Jesus, aquele que havia sido condenado, torturado e executado pelo poder.
A expressão final do texto é particularmente significativa: Cristo ressuscitou como “primícias dos que morreram” (1Cor 15,20). A imagem das primícias, ligada à primeira parte da colheita oferecida a Deus, indica que a ressurreição de Jesus inaugura aquilo que Deus deseja realizar em toda a humanidade. A vida nova do Ressuscitado é promessa de vida para aqueles que nele depositam sua esperança.
A partir da Teologia Latino-americana, essa afirmação adquire uma dimensão histórica e social extraordinária. Ressurreição não significa fuga das contradições deste mundo, nem espiritualização do sofrimento dos pobres. Pelo contrário: o Deus que ressuscita Jesus é o mesmo Deus que não permanece indiferente diante das vítimas da história.
Por isso, proclamar a ressurreição em uma sociedade marcada pela fome, pelo desemprego, pelo racismo, pela violência, pela concentração da terra e da riqueza, pela destruição da Casa Comum e pela exclusão de tantos homens e mulheres significa afirmar que nenhuma dessas realidades deve ser considerada definitiva.
A esperança cristã torna-se, assim, uma força histórica contra a cultura da morte.
2. A ressurreição como memória dos crucificados da história
A cruz e a ressurreição não podem ser separadas. O Ressuscitado é precisamente aquele que foi crucificado. A Páscoa de Jesus não apaga a cruz; Deus transforma a cruz em lugar de revelação da força da vida.
Essa perspectiva é particularmente importante para a leitura bíblica realizada pelas Comunidades Eclesiais de Base. Nas CEBs, a Palavra de Deus é lida a partir da realidade concreta do povo. A pergunta não é somente: “O que o texto significou no passado?”, mas também: “O que Deus está dizendo hoje às pessoas que sofrem?”
Nesse horizonte, 1Cor 15,12-20 pode ser lido a partir dos crucificados de hoje: pessoas que vivem em situação de rua, trabalhadores submetidos à precarização, famílias expulsas de seus territórios, povos indígenas e comunidades tradicionais ameaçados, migrantes, mulheres vítimas de violência, jovens sem perspectivas, pessoas discriminadas e todos aqueles cuja dignidade é negada.
A proclamação de que Cristo ressuscitou significa que Deus não legitima os mecanismos que produzem morte. A ressurreição é a confirmação divina de que a vida, a dignidade, a justiça e a esperança possuem a última palavra.
Por isso, a fé pascal não pode produzir acomodação. Uma comunidade que acredita verdadeiramente na ressurreição precisa tornar-se comunidade que luta pela vida.
3. Jesus caminha com os pobres e também com as mulheres
O Evangelho de Lc 8,1-3 apresenta uma característica marcante da missão de Jesus: ele “andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa-Nova do Reino de Deus”. Os Doze estavam com ele, mas não estavam sozinhos. Lucas destaca também a presença de várias mulheres: Maria Madalena, Joana, Susana e “várias outras”. Elas acompanhavam Jesus e contribuíam para a missão com os seus bens.
O detalhe não é secundário. Na sociedade patriarcal do século I, a presença de mulheres como participantes do movimento de Jesus possui forte significado. Lucas não as apresenta simplesmente como beneficiárias passivas da ação de Jesus. Elas são sujeitos do caminho, da missão e da comunidade.
Maria Madalena, Joana, Susana e as demais mulheres não estão apenas “perto” de Jesus; elas integram o grupo que participa concretamente da missão. Algumas foram libertadas de sofrimentos e doenças; depois dessa experiência de libertação, passam a colaborar com a missão evangelizadora.
Aqui encontramos uma dinâmica fundamental do Evangelho: quem experimenta a libertação torna-se sujeito da libertação de outros.
Essa lógica encontra profunda ressonância na experiência das CEBs. A comunidade cristã não deve ser organizada segundo a lógica de espectadores e protagonistas. A missão pertence ao povo de Deus. Mulheres, homens, jovens, idosos, trabalhadores, pobres, agentes pastorais e lideranças comunitárias são chamados a participar da construção do Reino.
4. Uma Igreja que caminha, escuta e serve
Há ainda um verbo muito importante no texto: Jesus “andava”. O Evangelho não apresenta um Jesus instalado, distante das periferias da vida. Ele caminha pelos lugares onde vivem as pessoas.
Essa Igreja em saída encontra uma expressão concreta na experiência das Comunidades Eclesiais de Base. A comunidade não existe para se fechar em torno de si mesma, mas para escutar a realidade, anunciar a Palavra, celebrar a fé e organizar a esperança.
O Reino anunciado por Jesus possui, portanto, uma dimensão espiritual e social inseparável. Não se trata apenas de preparar pessoas para uma realidade futura. Trata-se de permitir que os sinais do Reino apareçam já no presente: na solidariedade, na defesa da vida, na partilha, na justiça, na fraternidade, na participação popular e no cuidado com a Casa Comum.
Quando Lucas afirma que aquelas mulheres ajudavam Jesus e os discípulos com os bens que possuíam, o texto também questiona uma espiritualidade que separa fé e responsabilidade social. Os bens podem ser colocados a serviço do Reino. A economia da comunidade cristã precisa estar submetida à lógica da partilha e da solidariedade, e não à acumulação e ao individualismo.
5. A fé pascal precisa produzir transformação
Os dois textos litúrgicos podem ser unidos por uma pergunta: o que acontece quando uma comunidade acredita verdadeiramente que Cristo ressuscitou?
Paulo responde: a esperança ganha fundamento. Lucas mostra: essa esperança se transforma em caminhada e serviço.
A ressurreição, portanto, não é uma doutrina desencarnada. Ela gera uma comunidade comprometida com a vida. O Ressuscitado continua presente quando seus discípulos e discípulas se colocam a caminho, sobretudo ao lado daqueles que a sociedade abandona.
Essa perspectiva desafia as CEBs a manterem sua vocação profética. Uma comunidade eclesial de base não pode limitar-se à celebração litúrgica, embora a celebração seja essencial. A Eucaristia e a Palavra devem conduzir ao compromisso com a realidade.
A partir desses textos, a ação pastoral pode assumir concretamente algumas prioridades: acompanhar as famílias em situação de vulnerabilidade; defender os direitos dos pobres e trabalhadores; fortalecer a participação das mulheres nos espaços de decisão e ministério; acolher migrantes e pessoas excluídas; defender os territórios dos povos indígenas e comunidades tradicionais; enfrentar todas as formas de violência e discriminação; e cuidar da Casa Comum.
Nesse sentido, a fé pascal também se transforma em compromisso com a ecologia integral. Não é possível proclamar que Deus é Deus da vida e, ao mesmo tempo, permanecer indiferente à destruição dos rios, das florestas, dos territórios e das condições de sobrevivência das populações mais vulneráveis.
6. “Cristo ressuscitou”: uma esperança que se organiza
A grande mensagem desta sexta-feira da 24ª Semana do Tempo Comum poderia ser sintetizada assim: a ressurreição de Cristo gera uma comunidade que caminha e serve.
Paulo nos recorda que nossa esperança não está fundamentada em uma ilusão. Deus ressuscitou aquele que a sociedade havia condenado à morte. Lucas, por sua vez, mostra que o anúncio do Reino acontece em movimento, com homens e mulheres que colocam suas vidas e seus recursos a serviço da missão.
Aqui se encontra uma chave profundamente latino-americana de leitura da Palavra: a fé deve ser capaz de gerar esperança organizada e compromisso histórico com os pobres.
As CEBs são chamadas a testemunhar que a ressurreição começa também quando aquilo que parecia morto recupera vida: quando uma família reencontra dignidade, quando uma comunidade se organiza, quando uma mulher rompe o ciclo da violência, quando um trabalhador conquista seus direitos, quando um povo recupera seu território, quando uma juventude reencontra esperança, quando a natureza é defendida contra a destruição.
Celebrar o Ressuscitado, portanto, significa colocar-se do lado da vida.
O Evangelho nos mostra Jesus caminhando. Paulo nos anuncia Cristo ressuscitado. E as CEBs são chamadas a unir essas duas experiências: crer no Ressuscitado e caminhar com os crucificados da história.
Porque a ressurreição não nos permite fugir do mundo. Ela nos envia para dentro dele, para que, pela força do Evangelho, aquilo que produz morte seja transformado e a vida abundante desejada por Jesus possa alcançar, sobretudo, os pobres, os marginalizados e os excluídos.
A fé na ressurreição torna-se verdadeira quando se transforma em serviço, solidariedade, profecia e compromisso com a vida.
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