Reflexão para a Segunda-feira da 26ª Semana do Tempo Comum

ENTRE O SOFRIMENTO DOS PEQUENOS E A GRANDEZA DO SERVIÇO

Comentário à Liturgia Eucarística da Segunda-feira da 26ª Semana do Tempo Comum – (Jó 1,6-22 e Lc 9,46-50)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A Liturgia Eucarística da Segunda-feira da 26ª Semana do Tempo Comum coloca diante da comunidade dois textos que, à primeira vista, parecem tratar de assuntos muito diferentes. A primeira leitura apresenta Jó diante da experiência devastadora da perda; o Evangelho mostra os discípulos discutindo sobre quem seria o maior e Jesus colocando uma criança no centro da comunidade. Entretanto, os dois textos convergem para uma questão fundamental: como compreender Deus e a missão do seu povo quando a vida humana é marcada pelo sofrimento, pela vulnerabilidade e pelas disputas de poder?

Lidos à luz da Teologia Latino-americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos convidam a Igreja a deslocar seu olhar: do poder para o serviço, da explicação fácil do sofrimento para a solidariedade, da competição para a acolhida dos pequenos.

Jó: quando o sofrimento coloca em crise as imagens de Deus

O livro de Jó pertence à tradição sapiencial de Israel e desenvolve, de maneira dramática, a questão da retribuição. Segundo uma concepção religiosa muito difundida no antigo Israel, o justo deveria ser recompensado e o malvado castigado. O prólogo de Jó, porém, começa a desmontar essa lógica.

A cena de Jó 1,6-12 apresenta uma reunião dos “filhos de Deus”, na qual aparece também o satan, termo que originalmente significa o acusador ou adversário. O texto não deve ser interpretado como uma descrição jornalística do céu, mas como uma construção literária destinada a colocar diante do leitor uma pergunta teológica: a fidelidade de Jó é gratuita ou depende das bênçãos que recebe?

Jó é apresentado como homem íntegro, correto e temente a Deus. Possui família, terras e numerosos rebanhos. O acusador questiona justamente a autenticidade de sua fé: “Será por nada que Jó teme a Deus?” (Jó 1,9). A questão é profunda: Deus é amado por aquilo que é ou apenas pelos benefícios que concede?

Em seguida, uma sucessão de tragédias destrói os bens, a segurança e a família de Jó. O personagem rasga o manto, raspa a cabeça e se prostra. Sua reação — “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei” — expressa a consciência da radical fragilidade humana. O texto conclui afirmando que Jó não pecou nem acusou Deus de injustiça.

É importante, porém, não utilizar essa passagem para afirmar que o sofrimento é simplesmente vontade de Deus ou que os pobres devem aceitar passivamente sua condição. O conjunto do livro de Jó, sobretudo seus capítulos posteriores, questionará justamente explicações religiosas simplistas para o sofrimento. A narrativa inicial prepara uma grande crise da chamada teologia da retribuição.

Essa perspectiva é especialmente importante na América Latina. Durante séculos, pessoas pobres, indígenas, negras, camponesas, mulheres, trabalhadores e populações marginalizadas foram, muitas vezes, levadas a interpretar sua situação de sofrimento como destino inevitável ou como uma espécie de “vontade de Deus”. A Leitura Popular da Bíblia rompe com essa utilização ideológica da religião. Deus não pode ser transformado em justificativa da fome, da violência, da exploração ou da exclusão.

Jó nos ensina a levar o sofrimento humano a sério. Antes de procurar explicações, é necessário escutar o grito. Antes de oferecer respostas religiosas, é preciso permanecer junto daquele que sofre.

Lc 9,46-50: Jesus coloca os pequenos no centro

No Evangelho, a situação é completamente diferente, mas a questão do poder permanece. “Surgiu entre os discípulos uma discussão sobre qual deles seria o maior.”

Lucas apresenta esse episódio logo depois de Jesus anunciar novamente sua paixão. Os discípulos, entretanto, parecem não compreender a lógica do caminho de Jesus. Enquanto o Mestre caminha para a entrega de sua vida, eles discutem posições, importância e precedência.

Jesus não responde indicando quem merece ocupar o primeiro lugar. Ele toma uma criança e a coloca junto de si. A criança, naquele contexto social, não possuía o status que frequentemente lhe atribuímos atualmente. Era alguém dependente, vulnerável e socialmente pouco relevante. Por isso, o gesto de Jesus constitui uma inversão radical dos critérios de grandeza.

“Quem receber esta criança em meu nome, estará recebendo a mim.” Acolher o pequeno é acolher o próprio Cristo. E Jesus conclui: “Pois aquele que entre todos vós for o menor, esse é o maior”.

O Evangelho não está simplesmente ensinando uma virtude individual chamada humildade. Jesus está propondo uma nova compreensão da comunidade. O centro não deve ser ocupado pelos que possuem poder, prestígio, títulos ou reconhecimento. O centro deve ser aberto aos pequenos.

A segunda parte do Evangelho aprofunda ainda mais essa perspectiva. João afirma que encontraram alguém expulsando demônios em nome de Jesus e tentaram impedi-lo porque “não anda conosco”. A resposta de Jesus é contundente: “Não o proibais, pois quem não está contra vós está a vosso favor”.

Aqui aparecem duas tentações permanentes das comunidades religiosas: a busca de poder e a apropriação exclusiva da missão. Os discípulos querem saber quem é o maior e, ao mesmo tempo, querem controlar quem pode agir em nome de Jesus.

Jesus desmonta as duas pretensões. A missão não pertence a um pequeno grupo que deseja monopolizá-la. O Reino de Deus é maior do que nossas estruturas, grupos e fronteiras.

A leitura das Comunidades Eclesiais de Base: Deus está onde a vida clama

A aproximação entre Jó e Lucas torna-se particularmente fecunda quando realizada a partir da realidade das Comunidades Eclesiais de Base. Nas CEBs, a Palavra de Deus é lida a partir da vida concreta. A Bíblia não é utilizada para fugir da realidade, mas para iluminá-la e transformá-la.

Jó pode ser encontrado hoje nos rostos daqueles que perderam a casa por causa de enchentes, dos trabalhadores submetidos à precarização, das famílias que convivem com a fome, das comunidades ameaçadas por grandes projetos econômicos, dos povos tradicionais que lutam pela terra e pelo território, das pessoas em situação de rua, dos migrantes e de tantos outros que experimentam formas contemporâneas de abandono.

A pergunta de Jó continua atual: onde está Deus quando a vida dos pequenos é destruída?

A resposta cristã não pode ser uma explicação que legitime o sofrimento. Ela precisa tornar-se presença solidária, denúncia das estruturas que produzem morte e compromisso com a reconstrução da vida.

Por sua vez, Lc 9,46-50 pergunta às comunidades cristãs: quem está no centro de nossa ação pastoral? O texto exige que a Igreja examine suas próprias práticas. Uma comunidade pode celebrar belas liturgias e, ao mesmo tempo, manter invisíveis aqueles que Jesus colocou no centro.

Por isso, a pastoral inspirada no Evangelho precisa criar espaços reais de participação para pobres, crianças, jovens, mulheres, idosos, trabalhadores, pessoas com deficiência, migrantes, povos indígenas, comunidades quilombolas e todos aqueles que historicamente tiveram sua voz diminuída.

Uma Igreja que não disputa grandeza, mas serve

A mensagem desses textos possui consequências pastorais concretas. As CEBs são chamadas a construir uma Igreja na qual liderança seja compreendida como serviço e não como privilégio. O agente de pastoral, o ministro ordenado, a coordenação comunitária e todas as formas de liderança devem perguntar não “qual é o meu lugar?”, mas “quem precisa ser acolhido e servido?”

A comunidade cristã também precisa superar a tentação de considerar-se proprietária exclusiva da ação de Deus. O episódio de João recorda que o Espírito pode suscitar sinais do Reino para além das nossas estruturas. Isso exige diálogo, cooperação e capacidade de reconhecer o bem realizado por pessoas e grupos que não pertencem necessariamente ao nosso círculo.

A pastoral social, portanto, não pode ser um apêndice da evangelização. Defender a dignidade humana, acompanhar famílias vulneráveis, lutar contra a fome, proteger a Casa Comum, apoiar trabalhadores, defender territórios ameaçados e denunciar toda forma de violência contra os pequenos fazem parte da própria missão evangelizadora.

Conclusão: o pequeno revela o rosto de Deus

Jó nos conduz ao território sagrado do sofrimento humano e nos ensina a não banalizar a dor. Lucas nos coloca diante de Jesus, que toma uma criança e a coloca no centro. Um texto pergunta como permanecer diante do sofrimento; o outro pergunta onde deve estar o centro da comunidade.

A resposta da Teologia Latino-americana e das CEBs nasce da própria experiência da caminhada: Deus não se encontra na justificativa da opressão, mas no compromisso com a vida ameaçada.

A Palavra proclamada nesta segunda-feira da 26ª Semana do Tempo Comum desafia a Igreja a abandonar a competição por grandeza e a assumir a lógica do serviço. A grandeza cristã não está em subir acima dos outros, mas em aproximar-se daqueles que foram colocados por baixo. Não está em controlar a missão, mas em colaborar para que a vida floresça.

Assim, Jó e o Evangelho de Lucas se encontram numa mesma convocação: escutar o grito dos que sofrem, acolher os pequenos, reconhecer a ação de Deus para além de nossas fronteiras e fazer da comunidade cristã um espaço de dignidade, participação, solidariedade e esperança.

Nas CEBs, a Eucaristia torna-se verdadeiramente memória viva de Jesus quando a mesa do altar conduz à mesa da vida e quando o Cristo celebrado no pão é reconhecido também no rosto dos pequenos. É aí que a Palavra deixa de ser apenas texto proclamado e se transforma em compromisso histórico com o Reino de Deus.


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