Nossa Senhora Aparecida: patrimônio de todo o povo brasileiro

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar singular na história e na cultura do Brasil. Para milhões de católicos, ela é Mãe, intercessora e expressão profunda da fé do povo. Mas sua importância ultrapassa os limites da Igreja Católica. A devoção a Nossa Senhora Aparecida integra a memória, a cultura, a religiosidade popular e a própria história social brasileira.

Encontrada nas águas do rio Paraíba do Sul, em 1717, a pequena imagem tornou-se, ao longo dos séculos, sinal de esperança para um povo marcado por alegrias e sofrimentos, pela pobreza e pela superação, pelas lutas cotidianas e pela busca de dignidade. Aos pés de Aparecida chegaram pessoas de diferentes regiões, classes sociais e histórias de vida. Ali se encontram o Brasil profundo, o Brasil popular e o Brasil plural.

Por isso, Nossa Senhora Aparecida não deve ser apropriada como símbolo exclusivo de qualquer grupo, partido, corrente ideológica ou projeto eleitoral. Sua imagem pertence à memória religiosa dos católicos, mas também faz parte do patrimônio cultural brasileiro. Respeitar essa dimensão significa reconhecer a pluralidade de nosso povo e a importância da religiosidade popular na formação de nossa identidade nacional.

A fé não pode ser instrumentalizada para alimentar disputas políticas, discursos de ódio ou estratégias eleitorais. Tampouco o patrimônio religioso e cultural pode ser transformado em instrumento de exclusão. Nossa Senhora Aparecida, justamente por sua história, nos recorda que aquilo que nasce no coração do povo não deve ser sequestrado por interesses particulares.

Em Aparecida, podemos contemplar uma imagem que fala de acolhida, esperança e proximidade com os pequenos. Uma devoção que atravessou gerações e que continua reunindo pessoas muito diferentes ao redor de uma mesma experiência de fé, memória e pertença.

Nossa Senhora Aparecida é, portanto, Rainha e Padroeira do Brasil, mas também um dos grandes símbolos da cultura religiosa e da memória do nosso povo. Aos católicos, ela continuará sendo Mãe e intercessora. A todos os brasileiros, independentemente de sua fé ou de sua opção religiosa, cabe respeitar e reconhecer o significado histórico e cultural que ela adquiriu em nossa sociedade.

Que Aparecida não seja usada para dividir o Brasil, mas para recordar aquilo que precisamos construir juntos: um país onde a fé não seja instrumento de poder, a religião não seja mercadoria eleitoral e os símbolos do povo sejam respeitados em sua dignidade, pluralidade e liberdade.

Aparecida é do povo. E um patrimônio que pertence à memória de um povo não pode ficar refém de ideologias, interesses policiais ou projetos eleitoreiros.


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