ENTRE O TRONO DE DEUS E A TENDA DOS POBRES
Terça-feira da 26ª Semana do Tempo Comum – Festa dos Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael
Por Pe. Hermes A. Fernandes
A Liturgia Eucarística desta terça-feira da 26ª Semana do Tempo Comum, celebrando os Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael, coloca diante de nós dois textos profundamente marcados pela revelação de Deus como aquele que intervém na história humana: Daniel 7,9-10.13-14 e João 1,47-51. Embora pertençam a gêneros literários e contextos históricos diferentes, ambos apresentam uma imagem decisiva: a presença de Deus não é indiferente diante da realidade humana. Deus julga os poderes que produzem morte e manifesta a sua autoridade em favor da vida.
Lidos à luz da Teologia Latino-americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos nos convidam a superar uma compreensão meramente espiritualista dos anjos e da salvação. A ação de Deus alcança a história concreta, os conflitos sociais, os povos submetidos à violência e, particularmente, aqueles que vivem à margem dos sistemas de poder. A fé cristã não pode permanecer contemplando o céu enquanto a terra continua ferindo os seus pobres.
1. Daniel 7: quando os impérios são julgados
O capítulo 7 de Daniel pertence ao universo da literatura apocalíptica. O texto nasce em um contexto de dominação, violência e perseguição, no qual os grandes impérios parecem possuir poder absoluto sobre a história. As imagens dos animais e das forças monstruosas utilizadas na primeira parte do capítulo representam, simbolicamente, poderes políticos que se apresentam como invencíveis.
É justamente nesse cenário que Daniel contempla uma visão extraordinária: “um Ancião sentou-se” e seu trono é descrito em imagens de fogo e majestade (Dn 7,9-10). O simbolismo é forte. Os poderes terrestres, que pareciam possuir a última palavra, são agora colocados diante do tribunal de Deus. A história não pertence definitivamente aos impérios, aos tiranos ou aos sistemas que transformam seres humanos em instrumentos de dominação.
Em seguida aparece “alguém semelhante a um filho de homem” vindo “com as nuvens do céu” (Dn 7,13). Diferentemente das feras que simbolizam os impérios, a figura humana representa uma forma de governo que recebe de Deus “poder, glória e realeza” e cujo domínio alcança todos os povos (Dn 7,14).
A expressão “Filho do Homem” será posteriormente fundamental na cristologia dos Evangelhos. No contexto de Daniel, porém, ela está vinculada à esperança de que Deus concederá o domínio não às forças bestiais que devoram e oprimem, mas a uma realidade humana submetida a Deus. O contraste entre as feras e o humano é teologicamente significativo: o poder que se torna desumano é representado como monstruoso; o poder recebido de Deus manifesta-se na humanidade restaurada.
Aqui encontramos uma chave importante para a Teologia Latino-americana. A história bíblica não olha para os pobres como simples objetos de assistência. Eles são sujeitos da esperança de Deus. A justiça divina questiona estruturas que naturalizam a fome, a exploração, a violência, o racismo, o abandono, a concentração da riqueza e a destruição da Casa Comum.
As CEBs, portanto, podem ler Daniel 7 a partir das “feras” presentes na realidade contemporânea: sistemas econômicos que descartam pessoas, formas de violência que atingem sobretudo os pobres, estruturas que expulsam comunidades de seus territórios e mecanismos que transformam a dignidade humana em mercadoria.
A visão de Daniel proclama que esses poderes não são eternos. Há um julgamento de Deus sobre toda forma de dominação que contradiga a vida.
2. João 1:47-51 – “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade”
O Evangelho de João apresenta o encontro entre Jesus e Natanael. Filipe anuncia que encontrou aquele de quem falaram Moisés e os profetas. Natanael, inicialmente desconfiado, pergunta: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?”
A pergunta revela algo muito humano: a tendência de julgar a realidade a partir de preconceitos. Nazaré era uma localidade sem grande importância aos olhos das estruturas religiosas e sociais daquele período. Natanael precisa fazer uma experiência pessoal para superar uma visão construída à distância.
Jesus, ao encontrá-lo, declara: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade” (Jo 1,47). Natanael pergunta como Jesus o conhece. A resposta conduz ao mistério: “Antes que Filipe te chamasse, quando estavas debaixo da figueira, eu te vi” (Jo 1,48).
A narrativa culmina com a promessa: “Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (Jo 1,51). A referência recorda o sonho de Jacó em Betel (Gn 28,10-17). O céu e a terra encontram-se. Jesus é apresentado como o lugar da comunicação entre Deus e a humanidade.
Essa imagem é particularmente significativa na festa dos Arcanjos. Miguel, Gabriel e Rafael não devem ser compreendidos como personagens destinados a alimentar uma religiosidade de medo ou de fuga da realidade. Na linguagem bíblica, os mensageiros de Deus apontam para a ação divina: anunciam, protegem, conduzem e participam da realização do projeto de Deus.
A tradição bíblica associará Miguel à luta contra as forças do mal, Gabriel ao anúncio da vontade de Deus e Rafael ao caminho da cura e da proteção. Lidos pastoralmente, esses símbolos podem recordar à Igreja três dimensões inseparáveis de sua missão: defender a vida, anunciar a esperança e cuidar dos feridos da história.
3. Do céu aberto à realidade dos pobres
Existe uma tentação recorrente na experiência religiosa: olhar para o céu e esquecer a terra. Entretanto, o Evangelho de João afirma justamente o contrário. O céu está aberto sobre o Filho do Homem. A comunicação entre Deus e a humanidade acontece em Jesus e, portanto, alcança a vida concreta.
As CEBs são chamadas a viver essa espiritualidade encarnada. A Palavra proclamada na celebração precisa encontrar a realidade do bairro, da periferia, da comunidade rural, dos povos indígenas, das comunidades quilombolas, dos trabalhadores, das mulheres vítimas de violência, das crianças em situação de vulnerabilidade, das pessoas sem moradia e de todos aqueles que experimentam diferentes formas de exclusão.
A leitura bíblica popular não pergunta apenas: “O que este texto significava?” Pergunta também: “O que Deus está dizendo hoje à nossa comunidade?” E, sobretudo: “Que compromisso esta Palavra provoca em nós?”
Daniel nos ensina a discernir os poderes que produzem desumanização. João nos ensina a reconhecer a presença de Deus onde muitas vezes os preconceitos humanos não esperam encontrá-la. Nazaré, aparentemente insignificante, torna-se lugar de revelação. O Filho do Homem, aparentemente vulnerável, torna-se sinal do domínio de Deus.
Essa perspectiva possui enorme força pastoral. Deus continua podendo manifestar sua presença através daqueles que a sociedade considera insignificantes. O pobre não é um obstáculo à missão da Igreja; é lugar privilegiado para o discernimento do Evangelho. A periferia não é simplesmente território para onde a Igreja leva sua ação pastoral; é também lugar de onde a Igreja pode aprender a escutar Deus.
4. Uma espiritualidade dos Arcanjos comprometida com a vida
Celebrar Miguel, Gabriel e Rafael significa, para as CEBs, renovar uma espiritualidade profundamente missionária.
Miguel pode recordar à comunidade que é necessário enfrentar tudo aquilo que ameaça a dignidade humana. Não se trata de uma batalha contra pessoas, mas contra estruturas, práticas e mentalidades que produzem violência, exclusão e morte.
Gabriel recorda que o Evangelho precisa ser anunciado. Porém, anunciar não é simplesmente repetir fórmulas religiosas. É comunicar uma Boa-Nova que devolva esperança aos pobres, fortaleça os pequenos e convoque a comunidade para a transformação da realidade.
Rafael recorda o Deus que acompanha os caminhos e cura as feridas. Uma pastoral inspirada por essa dimensão precisa aproximar-se das pessoas concretas, escutar seus sofrimentos e construir redes comunitárias de cuidado, solidariedade e proteção.
Assim, a festa dos Arcanjos não deve conduzir as comunidades para uma espiritualidade desencarnada. Ao contrário, pode fortalecer uma mística da presença, na qual a Igreja reconhece que o Deus que abre o céu também envia seus discípulos para caminhar sobre a terra.
5. As CEBs diante das “feras” do nosso tempo
A grande pergunta pastoral que Daniel e João deixam para nossas comunidades é: de que lado estamos na história?
De um lado, permanecem as “feras” que devoram: a indiferença diante da pobreza, o individualismo, o racismo, a violência, a exploração do trabalho, a destruição ambiental, a concentração de riquezas, a exclusão dos povos e a cultura do descarte.
De outro, encontra-se o projeto do Filho do Homem: uma humanidade reconciliada, na qual o poder deixa de ser instrumento de dominação e passa a estar a serviço da vida.
É aqui que a missão das CEBs se torna concreta. A comunidade pode organizar ações de solidariedade, fortalecer a participação popular, defender os direitos sociais, acompanhar famílias vulnerabilizadas, cuidar da Casa Comum, apoiar trabalhadores, promover a dignidade das mulheres e da juventude e construir espaços de escuta e participação.
A celebração da Eucaristia, então, não termina no altar. O pão repartido torna-se compromisso com aqueles que não têm pão; a Palavra proclamada transforma-se em defesa da vida; a comunhão celebrada converte-se em solidariedade concreta.
Conclusão
Daniel contempla o julgamento dos poderes que se tornaram “feras”; João contempla o céu aberto sobre o Filho do Homem. Entre os dois textos emerge uma mesma esperança: o poder de Deus não está a serviço da opressão, mas da vida e da dignidade humana.
Celebrando os Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael, somos convidados a recuperar uma espiritualidade que una céu e terra, contemplação e compromisso, oração e transformação social. As CEBs são chamadas a permanecer com os olhos voltados para Deus, mas com os pés firmemente plantados na realidade dos pobres.
O Deus que abre os céus é o mesmo Deus que escuta o clamor dos pequenos. O Filho do Homem é aquele em quem a humanidade reencontra sua dignidade. E os mensageiros de Deus nos recordam que a fé verdadeira não nos retira da história: envia-nos para dentro dela, especialmente para junto daqueles que mais precisam de vida, justiça, cuidado e esperança.
É nessa perspectiva que a Eucaristia se torna verdadeiramente missão: contemplar o Cristo, reconhecer sua presença nos pequenos e transformar a comunhão celebrada em compromisso com os pobres, marginalizados e excluídos de ontem e de hoje.
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