Reflexão para o 27º Domingo do Tempo Comum – Ano A

A Vinha de Deus e os Frutos da Justiça

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A liturgia do 27º Domingo do Tempo Comum apresenta-nos uma das imagens mais fortes da tradição bíblica: a vinha. Isaías canta a vinha cuidadosamente plantada por Deus; o salmo responsorial retoma a súplica pelo cuidado dessa vinha; Paulo convida a comunidade de Filipos a permanecer na oração, na prática do bem e na paz; e Jesus, no Evangelho de Mateus, retoma a imagem da vinha para denunciar a infidelidade daqueles que receberam a responsabilidade de cuidar dela.

Lidos a partir da Teologia Latino-americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos nos conduzem a uma pergunta fundamental: que frutos Deus espera encontrar na vinha que nos confiou? A resposta de Isaías é inequívoca: Deus espera justiça. O problema da vinha não é sua fertilidade, mas a incapacidade daqueles que a administram de produzir os frutos esperados.

1. Isaías 5,1-7: Deus espera justiça da sua vinha

Isaías 5 apresenta o conhecido “cântico da vinha”. O profeta utiliza uma linguagem poética, quase uma canção de amor, para falar da relação entre Deus e seu povo. O proprietário prepara cuidadosamente a vinha: escolhe uma terra fértil, retira as pedras, planta videiras selecionadas, constrói uma torre e prepara o lagar. Tudo indica que haverá uma excelente colheita.

Entretanto, a vinha produz frutos ruins. O texto conduz os ouvintes a uma espécie de julgamento: “Que mais poderia ter sido feito à minha vinha?” A pergunta prepara a revelação do verdadeiro significado da parábola: “A vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são sua plantação querida. Ele esperava deles o direito, mas houve sangue derramado; esperava justiça, e eis gritos de socorro” (Is 5,7).

Aqui está a chave exegética do texto. Os frutos ruins não são simplesmente uma metáfora para pecados individuais. Eles correspondem à injustiça social e à violência que atingem os vulneráveis. O contraste hebraico entre justiça e derramamento de sangue, entre direito e clamor, revela que a fidelidade a Deus passa necessariamente pela maneira como a sociedade trata seus membros mais frágeis.

Para a Teologia Latino-americana, essa perspectiva é decisiva. A pergunta bíblica não pode ser reduzida a “sou uma boa pessoa?”. Ela precisa alcançar a vida comunitária e social: que tipo de sociedade estamos construindo? Quem se beneficia dos frutos da vinha? Quem trabalha nela e permanece sem participar da colheita? Quem está sendo esmagado pelas estruturas de injustiça?

A vinha de Deus não pode ser confundida com uma propriedade privada entregue à apropriação de alguns. Ela pertence ao Senhor. Sua finalidade é produzir vida, justiça e fraternidade.

2. Filipenses 4,6-9: uma espiritualidade que se transforma em prática

A segunda leitura poderia parecer, à primeira vista, afastar-se da temática da vinha. Paulo fala de oração, súplica, ação de graças, paz e pensamentos que correspondam à verdade, à justiça, à pureza e ao bem.

Contudo, o texto termina com uma expressão fundamental: “Praticai o que aprendestes e recebestes, o que ouvistes e observastes em mim” (Fl 4,9). Portanto, Paulo não apresenta uma espiritualidade de fuga dos conflitos da existência. A oração deve formar uma comunidade capaz de viver aquilo que proclama.

A “paz de Deus” não significa simplesmente tranquilidade individual diante dos problemas. No horizonte bíblico, a paz — shalom — possui uma dimensão relacional e comunitária: vida reconciliada, relações justas, cuidado mútuo e comunhão.

Essa perspectiva é especialmente importante para as CEBs. Uma comunidade que se reúne para rezar, celebrar a Palavra e participar da Eucaristia precisa transformar sua oração em prática solidária. A espiritualidade cristã não pode servir como anestesia diante do sofrimento dos pobres.

Por isso, a oração deve conduzir ao discernimento. O que estamos vendo? Quem está sofrendo? Quais são as causas desse sofrimento? O que podemos fazer comunitariamente?

A espiritualidade das CEBs encontra aqui um caminho de integração entre oração e compromisso: contemplar, discernir, agir e novamente contemplar a realidade à luz da Palavra.

3. Mateus 21,33-43: quando os administradores se tornam donos

No Evangelho, Jesus retoma deliberadamente a imagem de Isaías. O proprietário planta uma vinha, constrói tudo o que é necessário e a arrenda a agricultores. Quando chega o tempo da colheita, envia seus servos para receber os frutos. Os arrendatários, porém, espancam, apedrejam e matam os enviados. Finalmente, o proprietário envia o próprio filho, mas também ele é assassinado.

O contexto de Mateus é importante. Jesus encontra-se em Jerusalém, em tensão com as autoridades religiosas. A parábola funciona como uma denúncia profética contra aqueles que receberam uma responsabilidade diante do povo, mas passaram a agir como proprietários daquilo que pertence a Deus.

O problema central não é simplesmente “não entregar a colheita”. É a apropriação indevida daquilo que foi confiado para o bem de todos.

A parábola, portanto, precisa ser lida com cuidado para não transformar-se em instrumento de condenação do povo judeu. Jesus está inserido na tradição profética de Israel e utiliza justamente essa tradição para confrontar determinados comportamentos de liderança. A crítica é dirigida à infidelidade daqueles que exercem responsabilidade religiosa e social, não a uma condenação étnica ou religiosa coletiva.

O ponto culminante encontra-se na pergunta sobre o que fará o proprietário. A resposta conduz Jesus à afirmação: “O Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá seus frutos” (Mt 21,43).

O Reino não pertence àqueles que simplesmente ocupam lugares de autoridade. Ele é confiado a quem produz frutos.

4. Quem são hoje os trabalhadores e os frutos da vinha?

A pergunta do Evangelho torna-se particularmente provocadora para a Igreja latino-americana. Também hoje existe o risco de transformar a vinha em propriedade de poucos, quando ela é dom confiado por Deus para o bem comum.

A realidade dos pobres, dos trabalhadores explorados, das pessoas sem moradia, dos migrantes, dos povos indígenas, das comunidades quilombolas, das populações periféricas e de tantas pessoas descartadas pela sociedade coloca diante da Igreja a mesma pergunta feita por Isaías: onde estão os frutos da justiça?

A vinha contemporânea também é a Casa Comum. Seus frutos não podem ser produzidos à custa da destruição das águas, das florestas, dos territórios e das comunidades. A exploração predatória dos bens naturais questiona diretamente a responsabilidade humana diante da criação.

As CEBs podem assumir, nesse contexto, uma missão profundamente profética: ler a realidade com os olhos da Palavra, escutar o clamor dos pobres, identificar as estruturas que produzem exclusão e organizar respostas comunitárias concretas.

Essa perspectiva está em sintonia com a afirmação de Evangelii Gaudium de que a fé em Cristo, que se aproximou dos pobres e marginalizados, chama cada cristão e cada comunidade a tornar-se instrumento de sua libertação e promoção.

5. Uma pastoral que produza frutos

A liturgia deste domingo não nos permite contentar-nos com uma pastoral preocupada apenas com a manutenção das estruturas eclesiais. A pergunta sobre os frutos precisa alcançar nossas comunidades.

Precisamos nos perguntar:

  • Nossa comunidade acolhe realmente os pobres ou apenas fala sobre eles?
  • Os excluídos encontram espaço para falar, participar e decidir?
  • Nossa oração gera solidariedade concreta?
  • Nossa celebração da Eucaristia produz compromisso com aqueles que não têm o necessário para viver?
  • Nossa ação pastoral defende a dignidade humana e a Casa Comum?
  • Somos administradores da vinha ou estamos nos comportando como seus proprietários?

A opção pelos pobres não significa simplesmente realizar ações assistenciais. Significa reconhecer, à luz do Evangelho, sua dignidade e seu lugar privilegiado no coração de Deus. Evangelii Gaudium afirma que essa opção possui uma dimensão teológica e que os pobres também evangelizam a Igreja, pois possuem muito a ensinar à comunidade cristã.

Por isso, a pastoral das CEBs precisa unir caridade e transformação social: cesta básica e organização comunitária; acolhida e defesa de direitos; oração e compromisso; solidariedade imediata e busca das causas estruturais da pobreza.

Conclusão: que frutos estamos produzindo?

A imagem da vinha atravessa toda a liturgia deste 27º Domingo do Tempo Comum como uma pergunta dirigida à comunidade cristã.

Deus plantou. Deus cuidou. Deus confiou. Agora espera frutos.

Isaías identifica esses frutos como Justiça e Direito. Paulo ensina que a oração deve conduzir à prática. Jesus denuncia aqueles que transformam uma missão recebida em instrumento de apropriação e poder.

Para as CEBs, a Palavra torna-se um convite à conversão pastoral. A vinha é de Deus, não nossa. A comunidade é servidora, não proprietária. A autoridade é serviço, não privilégio. A fé é compromisso, não fuga.

Por isso, celebrar a Eucaristia neste domingo significa perguntar, diante do Senhor da vinha, se nossa vida comunitária está produzindo os frutos que Ele espera.

E talvez a pergunta mais importante seja justamente aquela que atravessa Isaías e chega até Jesus: quando Deus olha para a vinha que nos confiou, encontra justiça, solidariedade e vida — ou encontra o clamor daqueles que continuam esperando por seus frutos?

A resposta não deverá ser apenas verbal. Precisará aparecer na prática pastoral, na defesa dos pobres, na acolhida dos excluídos, na proteção da Casa Comum e na construção de comunidades onde ninguém seja tratado como descartável.

Assim, a Eucaristia não será somente a celebração da vinha do Senhor. Será também o compromisso de cultivá-la para que seus frutos sejam partilhados por todos.


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