UMA IGREJA EDIFICADA SOBRE CRISTO E ENVIADA AO ENCONTRO DOS POBRES
Por Pe. Hermes A. Fernandes
1. Uma Igreja que acolhe e reconhece a dignidade de todos
A liturgia da festa dos santos Simão e Judas, apóstolos, celebrada em 28 de outubro, apresenta duas dimensões inseparáveis da missão cristã: a construção de uma comunidade alicerçada em Jesus Cristo e a formação de discípulos enviados a servir o povo. Efésios 2,19-22 e Lucas 6,12-19 iluminam a vocação de uma Igreja que não existe para si mesma, mas para testemunhar o Reino de Deus na história, especialmente junto aos pobres, marginalizados e excluídos.
A partir da Teologia Latino-americana, essa Palavra nos interpela a superar uma compreensão meramente institucional da Igreja. Ser comunidade de Cristo significa participar de uma missão que transforma relações, enfrenta as estruturas de exclusão e promove a vida em todas as suas dimensões. Essa perspectiva encontra expressão concreta nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), na Comissão Pastoral da Terra (CPT) e no Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que, em diferentes campos de atuação, testemunham a relação entre fé, justiça e compromisso com os povos.
2. Efésios 2,19-22: pedras vivas de uma comunidade sem excluídos
A Carta aos Efésios proclama: “Já não sois mais estrangeiros nem migrantes, mas concidadãos dos santos. Sois da família de Deus” (Ef 2,19). Essa afirmação precisa ser compreendida no contexto das primeiras comunidades cristãs, marcadas pela aproximação entre judeus e gentios. A superação das antigas barreiras de pertencimento, sustentada pela obra reconciliadora de Cristo, anuncia uma nova realidade comunitária: pessoas de origens diferentes são chamadas a participar da mesma família de Deus.
A imagem da construção, nos versículos seguintes, aprofunda essa compreensão. Os apóstolos e os profetas constituem o fundamento, enquanto Jesus Cristo é a pedra principal, aquela que dá unidade e sustentação a todo o edifício. Não se trata de uma construção feita de pedras isoladas, mas de uma realidade na qual cada elemento encontra seu lugar em relação aos demais. A comunidade torna-se, assim, templo santo e morada de Deus pelo Espírito.
Essa imagem oferece uma chave de leitura fundamental para a Igreja latino-americana. Uma comunidade que confessa Cristo como pedra angular não pode aceitar tranquilamente que determinados grupos sejam tratados como descartáveis. A fome, o racismo, a concentração fundiária, a violência contra os povos indígenas, a precarização do trabalho e a negação de direitos contradizem a fraternidade anunciada pelo Evangelho.
A opção preferencial pelos pobres, reafirmada pelo Magistério da Igreja e desenvolvida pela Teologia Latino-americana, não constitui um apêndice da evangelização: expressa uma exigência da própria fé. Se todos são chamados a integrar a família de Deus, a Igreja deve reconhecer a dignidade daqueles que a sociedade frequentemente mantém à margem. Não basta abrir as portas do templo; é necessário transformar as relações e as práticas que impedem a participação plena dos pobres na vida comunitária e social.
As CEBs concretizam essa vocação quando reúnem o povo para ler a Bíblia a partir da realidade, celebrar a fé, fortalecer a solidariedade e organizar ações comunitárias. A Palavra proclamada torna-se discernimento, e o discernimento conduz ao compromisso. A Igreja edifica-se quando as pessoas deixam de ser simples destinatárias da assistência religiosa e se reconhecem como sujeitos da evangelização e da transformação da sociedade.
3. Lucas 6,12-19: Jesus ora, escolhe os apóstolos e desce ao encontro do povo
O Evangelho apresenta Jesus passando a noite em oração na montanha antes de escolher os Doze apóstolos. Em Lucas, a oração ocupa lugar decisivo nas grandes escolhas da missão de Jesus. A escolha dos Doze não é uma decisão improvisada nem uma iniciativa destinada à formação de um grupo fechado de prestígio. Ela se insere no projeto de reunir e renovar o povo de Deus, preparando testemunhas para a continuidade de sua missão.
Simão e Judas, cuja festa celebramos, pertencem a esse grupo apostólico. Embora os Evangelhos não nos ofereçam muitos detalhes sobre suas trajetórias individuais, sua presença entre os Doze recorda que a missão não depende da notoriedade pessoal, mas da vocação recebida e da fidelidade ao seguimento de Jesus.
Depois de escolher os apóstolos, Jesus desce com eles e para num lugar plano. Ali encontra uma multidão proveniente de diferentes regiões, reunida para escutá-lo e buscar cura. Lucas afirma que as pessoas vinham para ouvi-lo e serem curadas de suas enfermidades; até aqueles atormentados por espíritos impuros encontravam nele libertação. O poder que sai de Jesus manifesta uma autoridade voltada à restauração da vida.
A sequência narrativa é significativa: Jesus reza, escolhe os apóstolos e vai ao encontro do povo. A oração não o afasta dos sofrimentos humanos; prepara-o para a missão. Do mesmo modo, a escolha dos apóstolos não os separa da multidão, mas os introduz numa responsabilidade de serviço. A autoridade apostólica encontra seu sentido na continuidade da prática libertadora de Jesus.
Essa dinâmica questiona toda pastoral que se contenta com atividades internas, sem escutar os clamores que vêm das periferias urbanas, do campo, das aldeias indígenas e dos territórios ameaçados. A Igreja não pode permanecer indiferente diante das enfermidades, da fome, da violência e da negação da dignidade humana. Evangelizar significa anunciar a salvação integral, cuidar dos feridos e colaborar para que as pessoas recuperem sua voz, seus direitos e sua esperança.
4. CEBs, CPT e CIMI: a fé que se torna compromisso com a vida
A aproximação entre as duas leituras revela que a Igreja é, simultaneamente, comunidade edificada em Cristo e comunidade enviada ao encontro das pessoas. Essa compreensão ganha força na caminhada da Igreja latino-americana, especialmente a partir de Medellín e Puebla, que aprofundaram a relação entre evangelização, justiça social e opção preferencial pelos pobres.
As Comunidades Eclesiais de Base constituem espaços privilegiados dessa experiência quando articulam a Leitura Popular da Bíblia, a celebração, a formação da consciência crítica e a solidariedade concreta. Nelas, homens e mulheres das periferias podem reconhecer-se como pedras vivas da Igreja, capazes de interpretar a realidade à luz da Palavra e de participar ativamente da missão.
A Comissão Pastoral da Terra (CPT), por sua vez, contribui para que a fé se comprometa com os trabalhadores e trabalhadoras do campo, com as famílias ameaçadas pela concentração da terra e com aqueles que sofrem conflitos e violências em territórios rurais. À luz de Efésios, defender a dignidade dessas pessoas significa questionar práticas que transformam a terra, fonte de vida e sustento, em instrumento de exclusão. À luz de Lucas, significa aproximar-se de quem sofre, escutar suas experiências e colaborar na construção de caminhos de justiça.
O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) testemunha, no campo da missão junto aos povos indígenas, a importância do respeito às culturas, aos territórios, à autonomia e aos direitos desses povos. A fraternidade cristã não exige apagar diferenças nem uniformizar identidades. A imagem paulina de uma construção integrada permite compreender que a unidade não elimina a diversidade: cada povo possui história, memória, saberes e modos próprios de se relacionar com a terra e com a comunidade. A missão deve realizar-se pelo diálogo, pelo respeito e pela defesa da vida, jamais pela imposição cultural.
Essas três experiências pastorais recordam que a evangelização exige presença, escuta e compromisso. Não basta falar em nome dos pobres; é preciso caminhar com eles, reconhecer seu protagonismo e favorecer sua participação nas decisões que afetam suas vidas. Também não basta defender abstratamente a criação: é necessário promover relações responsáveis com a Casa Comum e enfrentar as práticas que destroem territórios, comunidades e ecossistemas.
5. Uma Igreja que se constrói servindo
A Palavra de Deus proclamada na festa dos santos Simão e Judas convida-nos a examinar a qualidade de nossa vida eclesial. Sobre qual fundamento estamos edificando nossas comunidades? Que lugar reservamos aos pobres, aos trabalhadores rurais, aos povos indígenas, às mulheres, aos migrantes e a todos os que têm sua dignidade negada? Nossa oração nos conduz ao encontro dessas realidades ou se limita a alimentar uma religiosidade sem compromisso com a história?
Celebrar a Eucaristia significa acolher Cristo, pedra angular da Igreja, e deixar que sua presença transforme nossas relações. O altar não pode ser separado da vida cotidiana, assim como a comunhão sacramental não pode ser indiferente à fome, à violência e à injustiça. A comunidade reunida em torno da Palavra e do Pão é chamada a tornar-se sinal de uma fraternidade que ultrapassa as paredes do templo.
Que o testemunho dos santos Simão e Judas fortaleça nossas comunidades na fidelidade à missão apostólica. Que as CEBs continuem a cultivar uma Igreja próxima do povo; que a CPT persevere na defesa da vida dos trabalhadores e trabalhadoras do campo; e que o CIMI siga contribuindo para uma presença missionária respeitosa da dignidade e dos direitos dos povos indígenas.
Edificada sobre Cristo e animada pelo Espírito Santo, a Igreja será morada de Deus quando acolher os que foram excluídos, proteger os ameaçados, escutar os silenciados e trabalhar pela justiça. Afinal, as pedras vivas da Igreja não se reconhecem pelo lugar que ocupam nas estruturas de poder, mas pela comunhão que constroem e pelo amor que se faz serviço aos pequenos.
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