Por Pe. Hermes A. Fernandes
Neste Terceiro Domingo da Quaresma, a Liturgia nos apresenta o Evangelho de João 2,13-25, no qual Jesus confronta o poder do Templo e suas contradições. A religião de Israel no tempo de Jesus fazia memória das várias intervenções de Javé em favor do povo simples e marginalizado, quando em situações de opressão. O cativeiro no Egito, o exílio na Babilônia, a ocupação helênica… E mesmo tendo nas escrituras sagradas a memória deste Deus libertador, o Templo sediava opressão, exploração, marginalização. O judaísmo formativo marginalizava mulheres, doentes, pobres. Via-os como uma relé pecadora. As Leis do impuro e puro serviam para excluir e explorar. Eram marginalizados aqueles que estavam em pecado público, ou situação de impureza. E, para ser reintegrados na religião e sociedade, precisavam pagar o preço do sacrifício. Não bastando a religião subsidiar a exclusão, ainda era o mecanismo de exploração, com seu comércio da benção. Não muito diferente de algumas lideranças religiosas de nosso tempo, não acham?
Como pensar uma sociedade que, em passado muito recente, clamava pelo fim das liberdades? Que cidadão e cidadã é esse que pleiteia pelo retrocesso de direitos e discursa contra a paz?
A sociedade sofre com as consequências das mentalidades equivocadas de seus cidadãos, particularmente dos atores políticos, formadores de opinião e líderes diversos. Incontestavelmente, as percepções, interpretações e juízos definem dinâmicas e rumos, determinam avanços e retrocessos. E as perdas não são poucas, pesam sobre a vida de todos. Esse passivo relaciona-se com graves problemas na articulação entre conhecimentos, informações, interesses, sentido social e político, exercício da cidadania. Por subjugar-se a mentalidades questionáveis, a sociedade brasileira não aproveita todo o seu potencial, considerando privilégio de uma elite desumana as riquezas naturais que integram o tesouro do Brasil. Perde-se a chance de edificar uma nação mais solidária, fraterna, com apreço à justiça e à cultura da paz.
Na contramão dessas possibilidades todas, a sociedade brasileira desconsidera suas riquezas naturais, culturais, artísticas e relacionadas à religiosidade, que poderiam qualificar sua identidade. Com isso, naufraga no lamaçal da corrupção, da indiferença com os mais pobres, dos interesses que favorecem oligarquias. As mentalidades oligárquicas – um sentido falso de cidadania – impedem o surgimento de novos cenários no contexto nacional. Não há compromisso com a igualdade e, desse modo, convive-se passivamente com situações de miséria. A doença da ganância limita entendimentos, impede que demandas urgentes sejam consideradas, gerando, assim, incompetência para que se dê um passo novo no caminho que leva ao bem de todos.
A falta de dinâmicas capazes de imprimir velocidade no desenvolvimento integral do conjunto da sociedade não se deve à carência de referências tecnológicas ou de recursos intelectuais. Um percurso acadêmico, a conquista de conhecimentos técnicos, pouco valem para promover avanços sociais se não houver também qualificada mentalidade, pois se torna inviável o lúcido entendimento do contexto atual, da cultura e das oportunidades para que o bem de todos seja alcançado. Se o conhecimento técnico não se alicerça em valores, princípios e inventividades que configurem o compromisso com o bem comum, os retrocessos são inevitáveis. Esse conhecimento permanece enjaulado nos interesses mesquinhos ou na leitura equivocada da realidade.
Fenômeno estarrecedor é a distorcida visão de indivíduos que não conseguem enxergar “para além de um palmo adiante do nariz”, conforme o dito popular. Essa cegueira causa impactos não apenas no âmbito pessoal, mas também no contexto familiar, na comunidade religiosa, nas dinâmicas de uma cidade – grande ou pequena. Sem enxergar o que está para além dos próprios interesses, todos permanecem na mediocridade e sacrificam o bem comum. E diante dessa situação, a sociedade continua a conviver de forma apática com os retrocessos.
A falta de lucidez tem sérias consequências que requerem muito tempo e esforço para serem reparadas. Urge um tratamento sistêmico da mentalidade vigente, sobretudo no mundo da política e em todos os outros segmentos que deveriam ser construtores de uma sociedade pluralista. Trata-se de caminho que leva à clarividência necessária para compreender o verdadeiro sentido de desenvolvimento integral. Trilhá-lo permitirá conquistar práticas e legislações que poderão tirar o Brasil da obscuridade.
Muitas situações devem ser ponto de partida para romper com a mediocridade, que se manifesta, claramente, nas dificuldades que a representação política tem para elaborar as reformas, para que sejam vetores de avanços, e nunca de retrocessos, no respeito à dignidade humana. Entre muitos parâmetros e princípios, a mentalidade contemporânea precisa orientar-se pela busca do bem comum. Esse é o fundamento da ética social, que possibilita o respeito à vida humana, o reconhecimento de sua sacralidade. A ética social, quando assumida como princípio, resulta no desabrochar da competência para a criatividade e o discernimento, permitindo o aproveitamento das oportunidades que levam a novas e esperadas respostas. Por isso, desafiadora e muito necessária é a tarefa de retrabalhar mentalidades para que, em lugar de retrocessos, a sociedade deslize sobre os trilhos dos avanços.
Quando uma religião e uma sociedade não se atenta às necessidades dos vulneráveis, repete os erros do Judaísmo Formativo, onde o Templo não escolhe o Bem, a Justiça e o Direito. Ao contrário, promove a marginalização, a exploração, o comércio da fé. Uma religião e sociedade assim, são inimigas de Jesus e de seu Projeto.
Faz-se mister uma mudança. Não somente política. Converter-se a identidade. Optar pela ética da vida. Pelo bem, sobretudo, dos vulneráveis. Bem nos advertiu o saudoso Dom Pedro Casaldáliga: “Na dúvida, fique do lado dos pobres!”
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