Por Pe. Hermes A. Fernandes
A Comissão Pastoral da Terra (CPT) constitui uma das mais importantes experiências pastorais da Igreja Católica na América Latina. Sua história se confunde com a história das lutas dos povos do campo, das águas e das florestas, tornando-se expressão concreta da opção preferencial pelos pobres assumida pela Igreja latino-americana, especialmente a partir das Conferências Episcopais de Medellín (1968) e Puebla (1979). Muito mais do que uma organização voltada para a defesa dos trabalhadores rurais, a CPT representa uma maneira de compreender a missão evangelizadora da Igreja: anunciar o Reino de Deus caminhando ao lado daqueles cuja dignidade é constantemente ameaçada.
As origens da Comissão Pastoral da Terra
A CPT nasceu oficialmente em junho de 1975, durante um encontro de bispos e agentes pastorais realizado em Goiânia, em pleno período da ditadura militar brasileira. Seu surgimento não ocorreu por acaso. Naquele contexto, a expansão do agronegócio, dos grandes projetos de colonização da Amazônia e da concentração fundiária provocava expulsões violentas de pequenos agricultores, povos indígenas, posseiros, quilombolas e comunidades tradicionais.
Bispos como Dom Pedro Casaldáliga, Dom Tomás Balduíno, Dom José Gomes, Dom Adriano Hypólito e tantos outros percebiam que milhares de famílias eram privadas não apenas da terra, mas da própria condição humana. Defender essas populações significava colocar a Igreja ao lado dos crucificados da história.
A inspiração vinha diretamente da Sagrada Escritura. O Deus revelado por Jesus Cristo é o mesmo Deus do Êxodo, Iahweh libertador, que “ouve o clamor do seu povo” (Ex 3,7), liberta os escravizados e estabelece uma Aliança baseada na justiça. A terra, nas Escrituras, nunca aparece como simples mercadoria. Ela é dom de Deus destinado à vida de todo o povo.
Nesse sentido, a CPT nasceu como uma pastoral profundamente bíblica. Seu trabalho sempre procurou ler a realidade a partir da Palavra de Deus e interpretar a Palavra à luz da realidade vivida pelos pobres do campo.
A terra como Dom de Deus
Na perspectiva bíblica, a terra pertence ao Senhor:
“Ao Senhor pertence a terra e tudo o que ela contém” (Sl 24,1).
Essa afirmação possui enorme alcance político e espiritual. Se a terra pertence a Deus, ninguém pode absolutizar sua propriedade em detrimento da vida humana. O direito de propriedade encontra seu limite na função social e na dignidade das pessoas.
A tradição profética denuncia continuamente aqueles que acumulam terras às custas da miséria dos pequenos:
“Ai dos que ajuntam casa a casa e campo a campo, até não haver mais lugar para ninguém” (Is 5,8).
Jesus retoma essa tradição ao proclamar bem-aventurados os pobres e anunciar um Reino baseado na justiça, na fraternidade e na partilha.
Por isso, desde sua origem, a CPT compreendeu que evangelizar significava também defender a reforma agrária, os direitos humanos, o acesso à terra, à água, à moradia e ao trabalho digno.
A Teologia Latino-americana e a missão da CPT
A Comissão Pastoral da Terra tornou-se uma das expressões mais concretas da Teologia Latino-americana.
Gustavo Gutiérrez afirmava que a libertação cristã deve alcançar todas as dimensões da existência humana. Leonardo Boff insistia que a espiritualidade cristã não pode separar oração e compromisso histórico. Jon Sobrino recordava que Cristo continua crucificado nos pobres. José Comblin compreendia a missão da Igreja como presença libertadora do Espírito na história. Essas intuições encontraram enorme ressonância na prática pastoral da CPT!
Sua atuação nunca consistiu apenas em prestar assistência jurídica ou produzir estatísticas sobre violência no campo. Seu trabalho sempre buscou fortalecer comunidades, formar lideranças, estimular a organização popular, celebrar a fé e alimentar a esperança.
A Leitura Popular da Bíblia tornou-se um instrumento privilegiado dessa caminhada. Nas comunidades rurais, o Êxodo passou a ser lido como experiência permanente de libertação. Os profetas inspiravam a denúncia das injustiças. O Evangelho revelava um Jesus profundamente identificado com os pobres, os pequenos agricultores, os pescadores, os trabalhadores e todos aqueles considerados invisíveis pela sociedade.
Os mártires da terra
A história da CPT também é uma história de martírio.
Centenas de agentes pastorais, trabalhadores rurais, lideranças indígenas, quilombolas e defensores dos direitos humanos perderam suas vidas em conflitos fundiários.
Entre esses mártires (cruentos e incruentos) destacam-se Dom Pedro Casaldáliga, que enfrentou ameaças permanentes durante décadas; Padre Josimo Tavares, assassinado em 1986 por defender trabalhadores rurais; Irmã Dorothy Stang, assassinada em Anapu, Pará, em 2005; Padre Ezequiel Ramin, morto em Rondônia em 1985; além de inúmeras lideranças camponesas anônimas que deram a vida pela justiça.
Na perspectiva latino-americana, esses homens e mulheres testemunham que o martírio continua presente na história da Igreja. Não morreram porque buscavam conflitos, mas porque permaneceram fiéis ao Evangelho da justiça.
Como afirmava Dom Pedro Casaldáliga:
“Na dúvida, fique sempre ao lado dos pobres.”
Os novos desafios do século XXI
Os desafios enfrentados pela CPT mudaram de forma, mas permanecem profundamente atuais.
A expansão do agronegócio intensificou conflitos fundiários. O avanço do garimpo ilegal ameaça povos indígenas, e aqui se destaca a lamentável história dos Yanomani em Roraima. A destruição dos biomas brasileiros compromete o equilíbrio climático. Grandes projetos econômicos continuam deslocando comunidades inteiras.
Ao mesmo tempo, novas formas de exclusão surgem no campo:
- mudanças climáticas que atingem sobretudo pequenos agricultores;
- contaminação por agrotóxicos;
- criminalização de movimentos sociais;
- violência contra povos indígenas e quilombolas;
- grilagem de terras públicas;
- precarização do trabalho rural;
- migração forçada de jovens para as cidades.
A defesa da terra tornou-se também defesa da Casa Comum.
A Ecologia Integral e a missão da CPT
A encíclica Laudato Si’ ampliou ainda mais o horizonte da pastoral da terra.
O Papa Francisco demonstrou que não existe separação entre crise ambiental e crise social. Ambas possuem a mesma raiz: um modelo econômico baseado na exploração ilimitada da natureza e das pessoas.
A CPT já vivia essa compreensão décadas antes da publicação da encíclica.
- Quando defende as florestas, protege também os povos tradicionais.
- Quando denuncia o desmatamento, protege a biodiversidade.
- Quando luta pela reforma agrária, promove segurança alimentar.
- Quando acompanha comunidades indígenas, preserva culturas ancestrais.
- Quando fortalece a agricultura familiar, contribui para uma economia solidária e sustentável.
A Ecologia Integral confirma aquilo que a experiência pastoral da CPT sempre ensinou: cuidar da terra é cuidar da vida.
A espiritualidade da esperança
Talvez a maior contribuição da Comissão Pastoral da Terra seja sua espiritualidade. Não se trata de uma espiritualidade desencarnada, voltada apenas para a vida futura. É uma espiritualidade construída nas assembleias comunitárias, nas celebrações da Palavra, nas romarias da terra, nas caminhadas dos mártires, nas ocupações pacíficas, nas pequenas comunidades rurais, nas lutas cotidianas pela sobrevivência.
Essa espiritualidade nasce da certeza de que Deus continua caminhando com seu povo.
- É a espiritualidade do Êxodo.
- É a espiritualidade das Bem-aventuranças.
- É a espiritualidade da cruz que conduz à ressurreição.
Conclusão
Celebrar a história da Comissão Pastoral da Terra é reconhecer uma das expressões mais autênticas do Evangelho vivido na América Latina. Ao longo de mais de cinco décadas, a CPT fez da defesa da terra uma defesa da vida, da dignidade humana e da criação. Sua atuação mostrou que evangelizar não é apenas anunciar verdades de fé, mas tornar visível o Reino de Deus por meio da justiça, da solidariedade e da esperança.
À luz da Teologia Latino-americana, a CPT continua sendo um sinal profético para a Igreja e para a sociedade. Em um tempo marcado pela concentração de riquezas, pela devastação ambiental e pela exclusão de povos tradicionais, sua missão permanece urgente: caminhar com os pobres, defender os direitos dos que vivem da terra e anunciar que a criação é dom de Deus destinado a todos. A fidelidade ao Evangelho exige uma Igreja que escute o clamor dos camponeses, dos povos indígenas, dos quilombolas e de todos os que lutam pela vida. Assim, a Comissão Pastoral da Terra permanece como testemunha de que a fé cristã não pode ser indiferente às injustiças, mas deve transformar-se em compromisso concreto com a construção de uma sociedade fraterna, sustentável e verdadeiramente inspirada no Reino de Deus.
Deixe um comentário