Por Juacy da Silva
Em 22 de Abril anualmente há mais de 55 anos celebramos o Dia da Terra, um chamado ao despertar da consciência ecológica sobre a importância de melhor cuidarmos de nosso Planeta, nossa Casa Comum.
Desde a realização da Conferência de Estocolmo em 1972, quando a ONU, pela primeira vez conseguiu reunir centenas de chefes de Governo e de Estado, para dialogar sobre os desafios relacionados com a degradação do Meio Ambiente, uma série de reuniões internacionais, convenções, acordos, protocolos e outras conferências sobre o clima, a biodiversidade, a questão dos oceanos, das florestas e dos plásticos, da desertificação, entre outras e outras tem enfatizado a necessidade de um melhor cuidado com a “saúde” do Planeta Terra.
Antes mesmo deste primeiro grande evento convocado pela ONU, uma outra organização, o Clube de Roma, encomendou em 1971, um grande estudo, transformado em livro com o nome de “Os Limites do crescimento”.
Neste estudo, a hipótese era de que se cinco variáveis continuassem com crescimento exponencial, como estava, e em certo sentido ainda está, sem alteração e qual o impacto desta volúpia de crescimento sem limites sobre o nosso planeta, ou seja, até quando o Planeta Terra conseguiria aguentar, “sobreviver” adotando um ou vários modelos predatórios?
No modelo original do relatório “Limites do Crescimento”, cinco variáveis críticas foram analisadas, todas assumidas para crescer de forma exponencial, por décadas, séculos indefinidamente, refletindo seus padrões históricos de expansão: população mundial, industrialização, produção de alimentos e o esgotamento dos recursos naturais.
Antes da publicação do Relatório na forma de Livro “Os Limites do Crescimento” que ocorreu em 1972, alguns meses após a Conferência de Estocolmo, o mesmo foi apresentado de forma preliminar com suas conclusões e “descobertas” em dois Encontros Internacionais, no Rio de Janeiro e em Moscou, em 1971.
A partir de 1971 e 1972, contando com um grande acervo de dados científicos e validados por diversas Instituições de Pesquisas e Universidades, as reflexões sobre as questões ambientais e suas interações com diversas outras variáveis econômicas, sociais, políticas e culturais passaram a formar um corpo de conhecimento importante na busca de alternativas e soluções para reduzir, barrar ou mitigar os efeitos negativos da falta de cuidado com o planeta terra.
Foi nesta época também em que se constatou que só existe um planeta terra e que o mesmo tem limites, daí o surgimento dos conceitos do “ponto do não retorno” e do “limite da sobrecarga da terra”, indicando que os recursos naturais e outros fatores importantes para todos os sistemas de produção, de trabalho e consumo são limitados e que expor o planeta a uma super exploração pode levar a catástrofes ambientais com impactos e consequências extremamente negativas em relação ao “nosso futuro comum”, titulo do Relatório Brundtland, um documento oficial publicado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU em 1987, outro marco significativo para o movimento ambientalista mundial.
Neste mesmo contexto, diante de uma tragédia mundial de natureza ambiental que aconteceu nos EUA, sob a liderança do Senador Gaylord Nelson, do Partido Democrata, de forma pioneira, antes de todos esses eventos mencionados aqui nesta reflexão, no dia 22 de Abril de 1970 promoveu uma grande manifestação que reuniu/mobilizou em torno de 20 milhões de pessoas em protesto, em diversas cidades americanas, contra a degradação ambiental, principalmente contra a degradação das águas e a poluição do ar.
Em 1970 os Estados Unidos era governado pelo então Presidente Richard Nixon e graças a esta grande manifestação e outras que se seguiram o Governo americano criou em 1970 a Agência de Proteção Ambiental (EPA em inglês “Environment Protection Agency), que, desde então, principalmente nos governos do Partido Democrata a agenda e legislação ambientais avançaram muito naquele país.
Apesar de a ONU organizar, coordenar, liderar uma série de eventos como as COPs – Conferências do Clima, desde 1995; as Conferências sobre Biodiversidade, a organização Painel Intergovernamental do clima (o IPCC), diversas décadas e anos especiais sobre temas ambientais, apoiado e incentivado diversos tratados e acordos internacionais, apresentado os Objetivos do Milênio, somente 40 anos depois, em 2009 é que a ONU , através de Resolução Aprovada em sua Assembleia Geral aprovou, oficialmente, a criação do DIA DA TERRA, a ser celebrado, como já vinha acontecendo desde 1970, no dia 22 de Abril de cada ano, escolhendo um tema para servir de bússola às celebrações e ações relativas aos cuidados que precisamos, que o mundo precisa ter em relação ao nosso planeta.
O Tema do DIA DA TERRA de 2026 é o seguinte “Nosso Poder, Nosso Planeta”, sendo que o foco este ano está na mobilização das pessoas, governantes, lideranças políticas, religiosas, estudantes, professores, lideranças comunitárias sobre a crise climática e suas consequências.
As mobilizações e ações tem como objetivos combater efetivamente a produção e uso de combustíveis fósseis (petróleo e seus derivados; carvão e gás natural), responsáveis por 70% a 75% das emissões de gases de efeito estufa, pelo aquecimento global e pela já mencionada crise climática.
Essas mobilizações tem como meta triplicar o uso de energias renováveis na matriz energética mundial até 2030, quando será o marco ou horizonte temporal para a Agenda 2030, da ONU, consubstanciada na efetivação dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e suas 167 metas, aprovadas pela ONU em 2015, mesmo ano da Publicação da Encíclica Laudato Si e da aprovação do Acordo de Paris, na COP 21, homologado por 196 países e que entrou em vigor no ano seguinte (2016).
Dentre os 17 ODS e suas 167 metas, inúmeros objetivos, metas e indicadores estão relacionados diretamente com questões ambientais e o cuidado que se requer tenhamos com o nosso planeta para garantir nossa sobrevivência e todas as formas de vida existentes.
Na verdade, o grande desafio ou o chamado “nó gordio” quando falamos em Dia da Terra, se chama Transição Energética e eficiência energética e suas relações com inúmeras outras variáveis, como uso de recursos naturais (mineração, exploração madeireira, uso do solo para fins de produção de alimentos e outras matérias primas, uso da água para abastecimento humana, produção agropastoril, desmatamento, degradação dos solos, poluição urbana (principalmente sistemas de transportes), poluição das águas e do ar e outras mais.
Na concepção dos sistemas tradicionais e modernos de produção sempre aprendemos que os três fatores fundamentais são: Terra (recursos naturais), Trabalho e Capital. Atualmente a energia é , talvez o mais importante fator de produção, ao lado da tecnologia, razão mais do que racional para nos preocuparmos com os problemas decorrentes do uso de combustíveis fósseis que representam 84% da matriz energética mundial em 2025, enquanto as fontes renováveis representam apenas 11%, razão desta meta estabelecida, triplicar esta participação até 2030.
Para atingir a meta de triplicar a presença da energia renovável na Matriz Energética o mundo é necessário adicionar, em média, cerca de 1.000 GW por ano entre 2025 e 2030.
Relatórios indicam que é necessário triplicar o investimento atual, chegando a pelo menos US$ 1,4 trilhão por ano entre 2025-2030, ou seja, pelo menos US$7,0 trilhões de dólares.
Este é um grande desafio, principalmente em decorrência da oposição dos principais países produtores e usuários de combustíveis fósseis que, sistematicamente, como tem acontecido em todas as COPs , como nas três últimas (COPS 30, 29 e 29) e outros foros internacionais se recusam a abandonar o uso de combustíveis fósseis,
Esses países contam com apoio dos poderosos grupos econômicos mundiais ligados aos combustíveis fósseis, à indústria automobilista e o rodoviarismo como política pública de transporte e logística, contribuindo sobremaneira para o aumento da poluição e degradação socioambiental.
Existem inúmeras ações, principalmente de natureza mitigatória, que contribuem para um melhor cuidado com o nosso planeta, incluindo diversas ações locais, estaduais e nacionais como a redução do consumismo, do desperdício, a implementação da economia circular, a reciclagem, a agricultura de baixo carbono, agricultura regenerativa, a redução do desmatamento, o uso mais racional dos solos, economia solidária, a agroecologia e, também, o uso de energia solar e eólica, como uma nova matriz limpa.
Todavia, o impacto de todas essas ações quando confrontadas com os impactos produzidos pelo uso de combustíveis fósseis tem efeito tênue, principalmente se considerarmos também os aspectos e fatores geopolíticos e estratégicos existentes no planeta.
Ao longo das cinco ou seis últimas décadas, conforme inúmeros dados científicos tem demonstrado, com exceção de poucos países e continentes (como alguns países europeus) todos os demais países tem aumentado o consumo de combustíveis fósseis e tem aumentado rapidamente o volume de emissão de gases de efeito estufa.
Entre os anos de 1970 até 2025 ano após ano, com exceção do período da pandemia da convid-19, houve um aumento significativo da emissão dos gases de efeito estufa, principalmente pelos países com os maiores PIB, tanto os que participam do G7 quanto do G20, impondo uma quota de sacrifício a centenas de outros países de renda média e baixa e que emitem um percentual marginal desses gases que contribuem para o agravamento da crise climática e suas consequências sobre todos os países, mas que afetam, como já comprovadamente já amplamente demonstrado, as pessoas e paises mais pobres.
Esta foi a razão pela qual o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si (Ecologia Integral) reforçou duas ideias fundamentais, a primeira, “tudo está interligado”, neste planeta, ou seja os danos e degradação ambiental não reconhecem e nem seguem/obedecem limites geográficos e fronteiras nacionais, e, segundo “o grito, o gemido da terra é também o grito dos pobres, oprimidos, excluidos e injustiçados “, no mundo todo e em todos os países.
Por exemplo, em relação aos dez países que mais poluíram o planeta em 2025: China, EUA, Índia, Rússia, Indonésia, Brasil, Japão, Irã, Arábia Saudita, e Canadá, os mesmos, em conjunto são responsáveis por 66% das emissões de gases de efeito estufa, se adicionarmos a União Europeia, este percentual chega a 77%.
Diante desses números e dados estatísticos confiáveis e atuais, não podemos deixar, neste DIA MUNDIAL DO PLANETA TERRA, de refletirmos sobre dois conceitos fundamentais, que bem de perto estão relacionados com um desastre já, sobejamente, anunciado que são: “ponto do não retorno”, ou seja, já atingimos em 2023, em alguns lugares do planeta uma situação de degradação ambiental em que nem a mitigação e muito menos a recuperação do que já foi destruído pode acontecer.
O outro conceito é sobre “os limites o planeta” ou a “sobrecarga da terra”.
O Dia de Sobrecarga da Terra (24 de Julho), também conhecido como Dia do excesso de capacidade da Terra, marca a “data em que a demanda da humanidade por recursos e serviços ecológicos em um determinado ano excede o que a terra pode regenerar neste mesmo período de tempo” explica a Global Footprint Network, uma organização internacional de pesquisa que calcula e organizada essas métricas.
Já os limites do planeta ou planetários, também conhecidos como fronteiras planetárias, é um conceito que define os limites dentro dos quais a humanidade e seus sistemas produtivos, de trabalho e de consumo e as expectativas das novas gerações, podem coexistir, para garantir que o Planeta Terra continue a ser um sistema universal seguro, habitável e que garanta todas as formas de vida, vegetal, animal e, principalmente, a vida humana.
Esses são aspectos que precisamos refletir utilizando tanto o conhecimento científico, quanto os saberes tradicionais, ancestrais, dentro de um quadro amplo de respeito aos direitos fundamentais das pessoas, da dignidade humana e dos direitos das futuras gerações, onde a ética, a justiça, o diálogo e a solidariedade não podem ser deixados/deixadas de lado, em nome de interesses econômicos de poucos, do lucro e com uma visão imediatista.
Tudo isto, precisa estar presente quando celebramos O DIA MUNDIAL DO PLANETA TERRA, neste 22 de Abril de 2026, no Brasil e pelo mundo afora!
Finalizando, apesar da existência do 22 de Abril ser um dia Especial, na verdade, todos os Dias em todos os anos precisamos cuidar melhor do Planeta Terra e não apenas em um dia.

Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, Sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. Email profjuacy@yahoo.com.br Instagram @profjuacyy Whats app 65 9 9272 0052
Deixe um comentário