Por Karina Moreti
Entre as primeiras pessoas chamadas por Jesus estava João. Ele não apareceu sozinho. Veio acompanhado de André, ambos vindos das margens do mar da Galileia, do trabalho duro da pesca e das expectativas frustradas de um povo marcado pela opressão. Seu chamado nasce dentro da história concreta de Israel, em um tempo de sofrimento político, crise religiosa e intensa esperança messiânica.
João surge a partir das periferias da Palestina, longe dos palácios, dos centros de prestígio religioso e das estruturas de poder. Sua história começa entre redes, barcos e águas marcadas pela exploração econômica do Império Romano. Como tantos homens e mulheres de sua época, carregava as marcas de um povo submetido à violência política, às desigualdades sociais e à crise espiritual provocada por instituições religiosas que já não conseguiam responder plenamente às dores do povo simples.
O Evangelho da comunidade joanina narra que André era discípulo de João Batista e, ao ouvir o profeta anunciar Jesus como o “Cordeiro de Deus” (Jo 1,36), começou a segui-lo. O texto também menciona outro discípulo que acompanhava André naquele momento. A tradição cristã antiga reconhece nesse personagem o próprio João. Antes mesmo de encontrar Jesus, João já demonstrava inquietação espiritual. Seu coração buscava algo que o sistema religioso de Jerusalém já não conseguia oferecer plenamente ao povo simples da Palestina.
A tradição cristã posterior identificou João, filho de Zebedeu, como o “discípulo amado” mencionado no quarto Evangelho. Entretanto, o próprio texto bíblico não declara explicitamente essa identificação. O Evangelho preserva essa figura de maneira misteriosa, talvez porque desejasse apresentar alguém cuja história ultrapassa os limites da biografia individual, tornando-se um modelo de discipulado marcado pela intimidade com Jesus, pela fidelidade e pelo testemunho em meio às perseguições.
Grande parte dos estudiosos entende que o quarto Evangelho nasceu da experiência da chamada comunidade joanina, formada ao longo de décadas pela memória, reflexão e experiência espiritual dos primeiros discípulos de Jesus. Essa comunidade parece ter vivido conflitos com as estruturas religiosas oficiais e experiências concretas de exclusão e perseguição. Assim, ao falar do “discípulo amado”, talvez estejamos diante de uma figura que reúne memória e símbolo: a recordação de um discípulo concreto e a representação de uma comunidade inteira que aprendeu a permanecer fiel a Jesus em meio às tensões da história.
Diversos pesquisadores também observam o forte protagonismo feminino presente na tradição joanina. Personagens como Marta, Maria de Betânia e Maria Madalena ocupam posições teológicas centrais no Evangelho, algo relativamente incomum para o contexto patriarcal do século I. Marta, por exemplo, realiza uma das mais profundas confissões de fé cristológica do Novo Testamento: “Sim, Senhor. Eu acredito que tu és o Messias, o Filho de Deus que devia vir a este mundo” (Jo 11,27), enquanto Maria Madalena torna-se a primeira testemunha da ressurreição (cf. Jo 20,11-18).
Por isso, algumas correntes da pesquisa bíblica contemporânea levantam a hipótese de que mulheres discípulas tenham exercido liderança importante na preservação e transmissão dessa tradição, possivelmente em torno das redes comunitárias ligadas à família de Lázaro, em Betânia. Ainda que tais hipóteses não possam ser comprovadas de forma definitiva, elas revelam a riqueza, a complexidade e a profundidade histórica da comunidade joanina, cuja espiritualidade foi marcada pela resistência, pela memória e pela esperança em Jesus como a Palavra feita carne no meio dos sofrimentos humanos.
A Palestina do século I vivia sob o domínio do Império Romano. Roma exercia controle militar, econômico e político sobre a região, cobrando impostos pesados e sustentando uma estrutura marcada pela desigualdade social. Os camponeses, pescadores e trabalhadores viviam constantemente ameaçados pela pobreza e pela violência institucional. A religião, que deveria ser espaço de esperança, muitas vezes encontrava-se associada às elites que colaboravam com o poder imperial.
O Templo de Jerusalém concentrava a vida religiosa, econômica e política da nação. A aristocracia sacerdotal mantinha relações próximas com Roma para preservar privilégios e estabilidade. Enquanto isso, o povo simples carregava o peso das taxas religiosas, das interpretações rígidas da Lei e da exclusão social. Muitos já não viam nas instituições religiosas uma resposta concreta para suas dores e esperanças.
É nesse contexto que João surge. Ele não nasce nos palácios, nem entre os sacerdotes ligados ao Templo. Surge entre pescadores da Galileia, uma região frequentemente desprezada pelas elites de Jerusalém. A Galileia era vista como território periférico, marcada por misturas culturais e cercada por influências estrangeiras. Mesmo assim, é justamente ali, longe dos centros de poder, que Deus começa algo novo.
João era filho de Zebedeu (Mc 1,19-20) e trabalhava ao lado de seu irmão Tiago. Os Evangelhos sugerem que a família possuía certa organização econômica, já que Marcos menciona empregados na barca de Zebedeu (cf. Mc 1,20). Ainda assim, mesmo famílias relativamente estruturadas estavam submetidas ao pesado controle romano. A pesca no mar da Galileia era fiscalizada, tributada e dependia das concessões políticas ligadas ao governo de Herodes Antipas.
A vida dos pescadores era dura. O peixe representava alimento, comércio e sobrevivência, mas estava igualmente inserido em um sistema de exploração econômica controlado pelas estruturas políticas de Roma e pelas elites locais. João conhecia de perto o peso da dominação, das desigualdades sociais e da violência cotidiana sofrida pelo povo da Galileia. Talvez por isso a tradição joanina seja tão marcada pelos contrastes entre luz e trevas, verdade e mentira, vida e morte. O quarto Evangelho nasce das dores e das esperanças de comunidades que experimentaram a exclusão, os conflitos religiosos e a perseguição, descobrindo que a luz de Deus continua brilhando mesmo nas trevas da história.
O primeiro grande despertar espiritual daquele discípulo aconteceu através de João Batista. O Batista representava uma ruptura profunda com o sistema religioso centralizado no Templo de Jerusalém. Enquanto os sacerdotes concentravam poder religioso, econômico e político junto às estruturas dominantes, João surgia no deserto, longe dos centros de prestígio, anunciando que Deus continuava falando a partir das margens da história.
Sua pregação atraía multidões formadas por pobres, camponeses, pescadores, soldados e pecadores públicos (cf. Lc 3,10-14). O deserto ultrapassava sua dimensão geográfica e assumia profundo significado teológico. Recordava o Êxodo, o tempo em que Israel aprendeu a depender de Deus no meio da vulnerabilidade e da caminhada. Ao chamar o povo para fora das estruturas oficiais, João Batista denunciava a corrupção religiosa de seu tempo e anunciava a necessidade de conversão concreta da vida.
Seu anúncio possuía forte dimensão social e política. João denunciava publicamente as injustiças cometidas por Herodes Antipas (cf. Mc 6,17-18), confrontando um sistema sustentado pela violência, exploração econômica e alianças entre poder político e religião. O batismo realizado nas águas do Jordão simbolizava não apenas purificação espiritual; representava um compromisso com a reconstrução de Israel a partir da justiça, da fidelidade e da esperança profética.
Foi nesse ambiente de expectativa messiânica, tensão política e busca espiritual que aquele discípulo identificado mais tarde pela tradição cristã como o “discípulo amado” iniciou sua caminhada. Antes mesmo de conhecer plenamente Jesus, já carregava em si a inquietação daqueles que percebiam que Deus não podia ser aprisionado pelas estruturas religiosas do poder.
Foi dentro dessa espiritualidade profética que aconteceu o encontro transformador com Jesus. Quando Jesus passa diante deles, João Batista proclama: “Eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1,36). A partir desse momento, aquele discípulo começa a seguir Jesus. Então Cristo dirige aos discípulos uma pergunta que atravessa não apenas aquele encontro, mas toda a experiência humana: “O que é que vocês estão procurando?” (Jo 1,38).
A pergunta de Jesus não é superficial. Ela toca as profundezas da existência humana, alcançando igualmente as feridas históricas daquele povo. O que João procurava? Talvez procurasse a libertação de Israel do domínio romano, que sufocava economicamente os camponeses e alimentava o sentimento de humilhação nacional. Ou buscasse sentido diante de uma realidade marcada pela pobreza, pela violência e pelas alianças entre poder político e religião. Quem sabe desejasse encontrar o Reino de Deus anunciado pelos profetas, um tempo de justiça, paz e restauração para os pequenos e excluídos.
Como tantos judeus de sua época, João vivia em meio às expectativas messiânicas que atravessavam a Palestina do século I. Muitos aguardavam um libertador enviado por Deus, capaz de restaurar a dignidade do povo e inaugurar uma nova era na história de Israel. As promessas de Isaías, Jeremias e Ezequiel alimentavam a esperança daqueles que se recusavam a acreditar que a opressão tivesse a última palavra. João certamente compartilhava desse anseio coletivo, dessa sede por uma intervenção divina capaz de transformar a realidade concreta dos pobres e humilhados.
Entretanto, a pergunta de Jesus desloca o olhar para algo ainda mais profundo. Antes de oferecer respostas, Jesus convida João a reconhecer sua própria busca. O Reino que Ele anuncia não ignora as feridas da história, mas começa pela transformação do coração humano. A libertação esperada por João e por seu povo não viria através da força das armas nem da conquista do poder político, mas pelo encontro com aquele que revelava o rosto misericordioso de Deus no meio da história.
Jesus, porém, não oferece um projeto político baseado na violência armada nem propõe acomodação diante das injustiças do mundo. Seu convite é outro: “venham, e vocês verão” (Jo 1,39). Trata-se de um chamado à experiência, ao discipulado e à transformação interior. João aceita caminhar com Jesus e, a partir desse momento, sua vida torna-se testemunho.
Os Evangelhos apresentam João em momentos decisivos da missão de Jesus. Ele está presente na transfiguração (cf. Mc 9,2) e acompanha Jesus no Getsêmani (cf. Mc 14,33). O quarto Evangelho, por sua vez, apresenta o discípulo amado junto à cruz (cf. Jo 19,25-27), figura que a tradição cristã posteriormente identificou com João, filho de Zebedeu. Enquanto muitos discípulos fogem por medo da repressão romana, essa figura permanece próxima de Jesus em seu momento de maior sofrimento.
A cruz, no mundo romano, não era apenas um símbolo religioso. Era um instrumento político utilizado para humilhar rebeldes, escravos e todos aqueles considerados ameaça ao império. Ver Jesus crucificado significava contemplar o choque entre o Reino de Deus e as estruturas de morte sustentadas por Roma. João testemunha essa violência e percebe algo ainda mais profundo: Deus permanece ao lado dos vencidos da história.
No Evangelho produzido pela tradição joanina, Jesus não aparece apenas como mestre ou profeta. É apresentado como o Verbo eterno de Deus: “No começo a Palavra já existia: a Palavra estava voltada para Deus, e a Palavra era Deus” (Jo 1,1). Essa afirmação possui enorme profundidade teológica e também dimensão política. Em um mundo onde o imperador reivindicava títulos divinos e Roma proclamava sua própria “boa notícia”, a tradição joanina anuncia outro Senhor, outro Reino e outra esperança.
Por isso, o Evangelho joanino proclama: “essa luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram apagá-la” (Jo 1,5). A experiência com Jesus leva a tradição joanina a compreender que Deus entra na história concreta da humanidade. Não se revela nos palácios imperiais nem nos sistemas religiosos fechados em si mesmos, mas nas dores do povo, nas margens da sociedade e na esperança dos pequenos.
O chamado de João continua profundamente atual. A memória preservada pela tradição joanina nos recorda que seguir Jesus implica abandonar redes materiais e romper com estruturas religiosas endurecidas, projetos de poder e espiritualidades incapazes de gerar compaixão e justiça. Deus continua chamando pessoas a partir da história concreta, mesmo em tempos de crise, violência e desesperança.
A pergunta feita por Jesus às margens do Jordão continua ecoando através dos séculos: “O que procurais?” Talvez a resposta comece quando encontramos coragem para deixar nossas seguranças e caminhar ao encontro daquele que continua fazendo novas todas as coisas.

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.
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