Corpo, Terra e Libertação: Sara como chave teológica para uma leitura do Êxodo

Por Seny Giannini*

O presente texto analisa a narrativa de Gn 12,10-20 como uma configuração narrativa de antecipação do Êxodo, isto é, uma forma que antecipa, em nível narrativo, elementos estruturantes posteriormente consolidados na tradição exodal. A partir de uma abordagem que articula a crítica histórico-redacional, a análise narrativa e a hermenêutica feminista latino-americana contemporânea em diálogo com a ecologia integral, conforme desenvolvida no magistério recente da Igreja, especialmente na Laudato Si’, argumenta-se que a figura de Sara constitui um lugar hermenêutico central para a compreensão da dinâmica da opressão e da intervenção divina. Sustenta-se que sua experiência, marcada pelo silenciamento e pela objetificação, condensa em nível individual aquilo que o Êxodo desenvolverá em dimensão coletiva. Ao mesmo tempo, a intervenção divina por meio das pragas revela, ainda que em forma narrativa e simbólica, uma desordem da criação decorrente da injustiça, evidenciando a inseparabilidade entre corpo feminino, corpo social e corpo da terra. Conclui-se que o Êxodo, enquanto categoria teológica estruturante, exige uma releitura que integre justiça social, equidade de gênero e cuidado com a criação.

A experiência do Êxodo constitui o núcleo hermenêutico fundamental da fé de Israel, não apenas como evento fundador, mas como categoria teológica estruturante, capaz de reorganizar a memória e reorientar a leitura das tradições no interior da economia da salvação. Desse modo, o Êxodo ultrapassa sua localização histórica e passa a operar como princípio interpretativo, a partir do qual o passado é relido à luz da ação histórica e libertadora de Deus.

É nesse horizonte que se insere a presente análise. Ela articula a crítica histórico-redacional, a análise narrativa e a hermenêutica feminista latino-americana contemporânea, em consonância com abordagens que aprofundam a compreensão da dignidade humana à luz da tradição cristã, em diálogo com a perspectiva da ecologia integral, conforme desenvolvida no magistério recente da Igreja, especialmente na Laudato Si’. Adota-se, portanto, uma abordagem qualitativa de caráter bibliográfico e analítico-interpretativo. Tal perspectiva permite compreender o processo de formação do texto e, simultaneamente, identificar relações de poder, mecanismos de silenciamento e dinâmicas de resistência que atravessam o relato.

A hipótese central que orienta este estudo é que Gn 12,10-20 pode ser compreendido como uma antecipação narrativa do Êxodo, isto é, uma forma que antecipa, em nível redacional, elementos posteriormente consolidados no relato exodal. Embora frequentemente interpretado como relato etiológico ou tradição independente, o texto permite igualmente uma leitura teológica à luz da memória do Êxodo. Este estudo não pretende estabelecer dependência literária direta entre os textos, mas evidenciar convergências teológicas e estruturais no processo de formação do Pentateuco. Nesse horizonte interpretativo, como observa Kibuuka (2019), a Torá deve ser compreendida como uma unidade dinâmica, na qual diferentes tradições dialogam e se iluminam mutuamente. Dessa forma, este artigo contribui para o campo da teologia bíblica ao propor a leitura de Sara como chave hermenêutica de antecipação do Êxodo, articulando exegese, teologia feminista e ecologia integral em horizonte católico.

A figura de Sara emerge, assim, como chave hermenêutica decisiva. Sua experiência não apenas antecipa a opressão que será vivida coletivamente por Israel, mas amplia o horizonte da libertação ao revelar sua dimensão patriarcal. A violência que a atinge não é episódica; possui caráter estrutural. É precisamente por isso que sua trajetória permite compreender, em escala concentrada, a lógica que culminará no Êxodo. Se este se organiza a partir de uma experiência de deslocamento, crise e opressão, é significativo que Gn 12,10-20 se inicie com uma descida motivada pela fome, elemento recorrente nas tradições patriarcais como fator de vulnerabilidade. O verbo ירד (yarad) indica mais do que deslocamento geográfico, configurando entrada em um espaço de instabilidade.

A partir disso, aquilo que se apresenta inicialmente como estratégia de sobrevivência transforma-se rapidamente em cenário de apropriação, deslocando o foco do relato para o corpo de Sara. O uso do verbo לקח (laqach) sugere uma prática inserida em relações de poder, revelando uma lógica que transforma sujeitos em objetos. Nesse contexto, a ausência de fala de Sara deve ser compreendida como silenciamento narrativo deliberadamente construído. Seu silêncio não é passividade. É efeito de uma estrutura que impede a fala. Nesse ponto, torna-se evidente o caráter de antecipação do Êxodo, pois a experiência de Sara antecipa, em nível individual, a lógica de desumanização que será vivida coletivamente.

À luz dessa dinâmica, não se pode atribuir a opressão exclusivamente ao poder externo, uma vez que o texto evidencia que ela também se articula no interior das relações patriarcais. A estratégia de Abraão ao apresentar Sara como sua irmã introduz uma ambiguidade ética fundamental: ao buscar preservar a própria vida, expõe o corpo feminino à violência. Tal tensão impede leituras idealizadas e exige abordagem crítica, como propõe a hermenêutica feminista em sua dimensão de suspeita. O corpo de Sara torna-se, assim, espaço de convergência de múltiplas formas de poder — político, social e patriarcal — evidenciando que a opressão se configura de modo inter-relacional. Sara não é periférica. Ela é hermenêutica.

Nesse contexto, a intervenção divina manifesta-se como ação histórica de Deus que desestabiliza uma ordem fundada na injustiça. Por meio das pragas, rompe-se o equilíbrio de um sistema que sustenta a opressão, revelando, ainda que em linguagem narrativa e simbólica, uma desordem da criação enquanto ruptura da ordem querida por Deus. A violência exercida sobre o corpo de Sara não permanece restrita ao âmbito humano, mas repercute sobre o conjunto da criação, indicando que corpo feminino, corpo social e corpo da terra constituem dimensões interligadas de uma mesma realidade ferida.

A mesma lógica que permite a apropriação do corpo feminino sustenta, posteriormente, a exploração coletiva e o controle dos recursos naturais. A violência, portanto, não é episódica; é sistêmica. A narrativa antecipa, assim, uma compreensão que hoje se expressa na perspectiva da ecologia integral, segundo a qual não há separação entre crise social e crise ambiental. A ação divina revela que a libertação, enquanto ação de Deus na história, não se limita à interrupção da opressão, mas implica a restauração das relações que sustentam a vida.

Como consequência dessa ruptura, a saída de Abraão e Sara torna-se inevitável, não como resultado de negociação, mas como expressão da impossibilidade de manutenção de um sistema desestabilizado. O fato de partirem levando bens indica que a libertação envolve também reversão das relações de exploração, antecipando, em forma concentrada, aquilo que será plenamente desenvolvido no Êxodo.

Dessa forma, a leitura de Gn 12,10-20 como antecipação narrativa do Êxodo permite reconhecer que a experiência de Sara constitui uma síntese daquilo que o Êxodo desenvolverá em escala coletiva. Ao colocá-la no centro do relato, o texto amplia o horizonte da teologia da libertação e evidencia que a libertação permanece incompleta enquanto persistirem relações que oprimem o corpo feminino e desestabilizam a criação. Trata-se, portanto, de uma chave interpretativa que desloca o eixo da leitura exodal para uma perspectiva que integra experiência individual e memória coletiva. Sara, portanto, não é apenas personagem, mas chave hermenêutica a partir da qual o próprio Êxodo pode ser teologicamente reconfigurado, evidenciando que a ação libertadora de Deus se manifesta de forma inseparável na história, nos corpos e na criação, configurando-se como exigência permanente para a reflexão teológica contemporânea no interior da tradição católica.

Referências

BÍBLIA SAGRADA. Tradução da CNBB. São Paulo: Paulinas, 2023.

CROATTO, José Severino. Êxodo: uma hermenêutica da liberdade. São Paulo: Paulinas, 1981.

CORDEIRO, Ana Luisa Alves; SCHINELO, José Edmilson. Pentateuco e Livros Históricos. Campo Grande: UCDB, 2023.

FRANCISCO. Carta encíclica Laudato Si’. São Paulo: Paulinas, 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html. Acesso em: 22 abr. 2026.

GASS, Ildo Bohn (org.). Formação do Império de Davi e Salomão. São Leopoldo: CEBI; São Paulo: Paulus, 2005.

KIBUUKA, Brian. A Torá Comentada. São Paulo: Fonte Editorial, 2019.

MESTERS, Carlos. Por trás das palavras. Petrópolis: Vozes, 1984.

SCHWANTES, Milton. Projetos de esperança. São Paulo: Paulinas, 1987.

TAMEZ, Elsa. Contra toda condenação. São Paulo: Paulus, 1995.

*Seny Giannini – Bacharelanda em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB)


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