Mateus 8,23-27 à luz da Leitura Popular da Bíblia: a travessia da tempestade e a esperança dos pobres
Por Pe. Hermes A. Fernandes
O relato de Mateus 8,23-27 apresenta um dos episódios mais conhecidos dos Evangelhos: Jesus acalma a tempestade. À primeira vista, trata-se de uma narrativa sobre o poder de Jesus diante das forças da natureza. No entanto, quando lido à luz da Leitura Popular da Bíblia, esse texto revela dimensões históricas, sociais, políticas e pastorais que iluminam a caminhada das comunidades cristãs, especialmente aquelas que vivem em contextos de pobreza, exclusão e violência.
O contexto do Evangelho de Mateus
O Evangelho de Mateus foi escrito para comunidades cristãs que enfrentavam profundas dificuldades após a destruição de Jerusalém, no ano 70 d.C. A guerra promovida pelo Império Romano provocou sofrimento, deslocamentos, fome e insegurança. Muitos discípulos perguntavam-se se Deus ainda permanecia presente em meio às tempestades da história.
Nesse contexto, Mateus e sua comunidade organizam em seu Evangelho uma série de milagres (Mt 8–9), não como demonstrações espetaculares de poder, mas como sinais da chegada do Reino de Deus. Cada cura, libertação ou intervenção de Jesus revela que Deus não abandonou seu povo e continua caminhando com ele.
A narrativa da tempestade ocupa um lugar estratégico. Depois de ensinar sobre o discipulado e antes de realizar novos sinais do Reino, Jesus conduz os discípulos para uma travessia. A vida cristã não consiste em permanecer na margem segura, mas em atravessar mares desconhecidos.
A barca: imagem da comunidade
Na tradição bíblica, o mar simboliza o caos, as forças da morte e tudo aquilo que ameaça a vida. Diferentemente da mentalidade moderna, o mar não era visto como lugar de lazer, mas como espaço de perigo permanente. A pequena embarcação representa a comunidade dos discípulos. Não é um navio poderoso, mas uma frágil barca, vulnerável às ondas.
Essa imagem continua profundamente atual. A Igreja é chamada a navegar em meio às tempestades da história. Não está isenta das dificuldades, mas aprende a confiar na presença do Senhor. Também nossas comunidades populares se reconhecem nessa barca: pequenas, pobres, frequentemente sem recursos, enfrentando ventos contrários produzidos pela desigualdade econômica, pela violência, pelo racismo, pelo desemprego, pela destruição ambiental e pelas diversas formas de exclusão.
O sono de Jesus
Um detalhe chama a atenção: Jesus dorme. À primeira vista, esse sono parece ausência ou indiferença. Os discípulos experimentam exatamente esse sentimento:
“Senhor, salva-nos! Estamos perecendo!”
Quantas vezes os pobres da América Latina fazem a mesma pergunta?
Onde está Deus quando falta alimento?
Onde está Deus diante da violência urbana?
Onde está Deus diante das migrações forçadas?
Onde está Deus quando povos indígenas perdem seus territórios?
Onde está Deus quando jovens negros são vítimas da violência?
A narrativa acolhe essas perguntas sem condená-las. A fé bíblica não elimina o medo; ela o transforma em oração.
O sono de Jesus, porém, não significa abandono. É um recurso literário que provoca os discípulos a amadurecerem na confiança. Jesus está presente na embarcação, mesmo quando parece silencioso.
“Por que tendes medo, homens de pouca fé?”
A repreensão de Jesus não condena o medo humano. O que ele questiona é uma fé incapaz de reconhecer sua presença em meio às crises. A expressão “homens de pouca fé” aparece diversas vezes em Mateus. Ela não descreve pessoas sem fé, mas discípulos cuja confiança ainda precisa crescer. A verdadeira fé não consiste em esperar uma vida sem tempestades. Consiste em continuar navegando apesar delas.
Para as comunidades populares, essa palavra torna-se profundamente libertadora. Deus não promete eliminar imediatamente todas as estruturas injustas. Ele fortalece seu povo para continuar lutando pela vida.
O domínio sobre o mar
Depois da repreensão, Jesus ordena ao vento e ao mar que se acalmem. Na tradição do Antigo Testamento, somente Deus possui autoridade sobre as águas caóticas. Assim, Mateus apresenta Jesus como aquele que manifesta plenamente a ação libertadora de Deus. Mas esse milagre possui também uma dimensão simbólica.
Os ventos representam tudo aquilo que ameaça a dignidade humana.
São os ventos da fome.
Da concentração de renda.
Da corrupção.
Do autoritarismo.
Do preconceito.
Da destruição da natureza.
Da cultura do descarte.
O Reino de Deus não aceita essas forças como inevitáveis.
Jesus inaugura uma nova ordem, onde a vida vale mais que o lucro e onde a dignidade humana prevalece sobre qualquer sistema de morte.
A travessia como experiência das comunidades latino-americanas
A Leitura Popular da Bíblia aproxima imediatamente essa passagem da realidade dos povos latino-americanos.
Nossa história também é marcada por tempestades.
Milhões enfrentam desemprego.
Famílias convivem com a insegurança alimentar.
Comunidades inteiras sofrem com a violência.
Povos tradicionais resistem à devastação ambiental.
Migrantes atravessam fronteiras buscando dignidade.
Mulheres continuam vítimas de inúmeras formas de violência.
Jovens enfrentam ausência de oportunidades.
Mesmo assim, a Palavra anuncia que Jesus permanece na embarcação da história.
Ele não abandona os pobres.
Ao contrário, revela-se precisamente no interior de suas lutas.
Uma leitura sociotransformadora
A Leitura Popular evita interpretar essa passagem apenas como um convite à resignação espiritual.
A tempestade não é apenas interior.
Ela possui causas históricas.
Existem estruturas econômicas que produzem pobreza.
Políticas públicas insuficientes.
Modelos de desenvolvimento que excluem milhões.
Formas de exploração do trabalho.
Racismo estrutural.
Patriarcado.
Destruição ambiental.
Tudo isso produz ondas que ameaçam a vida.
A ação de Jesus inspira seus discípulos a enfrentarem essas tempestades de forma organizada.
Não basta rezar.
É necessário construir justiça.
Não basta esperar milagres.
É preciso transformar estruturas.
Não basta pedir paz.
É necessário combater as causas da violência.
A fé cristã torna-se compromisso histórico com a construção do Reino de Deus.
A dimensão pastoral
Essa passagem inspira inúmeras atitudes concretas para nossas comunidades.
Primeiramente, convida a fortalecer comunidades que navegam juntas. A barca não é individual; ninguém atravessa sozinho.
Em seguida, desperta uma espiritualidade da esperança. Mesmo quando Deus parece silencioso, sua presença continua sustentando a caminhada.
Também impulsiona a formação de lideranças comprometidas com o serviço e não com o poder. Em meio às tempestades, a comunidade necessita de pessoas capazes de fortalecer a esperança coletiva.
Além disso, desafia a Igreja a permanecer ao lado dos pobres, ouvindo seus clamores e caminhando com eles na defesa da vida, dos direitos humanos e da justiça social.
Por fim, recorda que toda pastoral precisa unir oração e compromisso. A confiança em Deus jamais dispensa a responsabilidade humana na transformação da sociedade.
Conclusão
Mateus 8,23-27 continua profundamente atual. A tempestade permanece presente na vida de milhões de pessoas. As ondas mudaram de nome, mas continuam ameaçando a dignidade humana: fome, desigualdade, violência, racismo, intolerância, destruição ambiental e exclusão social.
Entretanto, o Evangelho anuncia que Jesus permanece na embarcação junto com seu povo. Sua presença não elimina automaticamente as dificuldades, mas gera coragem para continuar a travessia.
A Leitura Popular da Bíblia reconhece nessa narrativa um chamado permanente à esperança organizada. A fé cristã não conduz à passividade diante das injustiças; ela desperta comunidades capazes de enfrentar as tempestades da história com solidariedade, participação e compromisso com os pobres.
Assim, cada comunidade que luta pela vida, promove a justiça, acolhe os marginalizados e organiza ações concretas em favor dos excluídos torna-se sinal da presença daquele que continua acalmando as tempestades e conduzindo seu povo rumo às margens do Reino de Deus.
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