Chegamos ao XIII Domingo do Tempo Comum. Neste, celebramos a Solenidade de São Pedro e São Paulo. Pretendemos hoje apresentar uma reflexão a partir do Evangelho desta Liturgia, ou seja: Mateus 16,13-19. A perícope nos apresenta a profissão de fé de Pedro em Jesus, como o Messias esperado. Ao professar sua fé, Pedro não fala somente de si. Sua palavra reflete os seus irmãos e irmãs no seguimento de Jesus. Daquele tempo e do nosso. Daí a importância deste texto e da solenidade que estamos a celebrar. Na pessoa dos apóstolos se abrigam todos nós, herdeiros da fé das primeiras comunidades. Em Pedro e Paulo temos a referência das comunidades que optaram por seguir o Messias, Jesus de Nazaré, fazendo de sua pessoa e ensinamentos a razão fontal da fé e da vida. Nós, Igreja de Jesus, nos colocamos diante dele e somamos nossa voz à Pedro e seus companheiros ao dizer: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).
Contextualizando o Evangelho de Mateus
Desde os tempos do Exílio da Babilônia (de 586 a 538 a.C.), os profetas anunciavam a vinda de um messias justo, que iria restaurar a dignidade de seu povo. A princípio pensava-se em um messias que restaurasse a glória da dinastia davídica. Todavia, o messias galileu revelou uma ousadia maior nos planos de Deus, restaurando a dignidade de toda humanidade. Somos convidados a participar do banquete da vida, sentando-nos à mesa com ele, em condição filial, enquanto família de Jesus. Para resgatar a esperança em tempos de sofrimento pela ocupação romana, a comunidade de Mateus escreve seu Evangelho, resgatando o esperançar que brotava no coração do povo, desde os tempos do Segundo Isaías.
Como dissemos na premissa inicial de nossa contextualização, assim como no tempo do Exílio da Babilônia, nos tempos de Jesus fazia-se imperativo restaurar a esperança. Por este motivo, a comunidade mateana reúne as memórias das palavras e ações de Jesus, organizando-as em um texto que deve sempre ser entendido a partir da perspectiva em que viviam estes seguidores e seguidoras de Jesus. Em 70 d.C. o Império Romano invadiu a Palestina, que já era sua colônia e lhe pagava tributos. Sufocou o movimento judaico revolucionário, tomou Jerusalém e destruiu o Templo. Os judeus tiveram que se dispersar e se reorganizar. As comunidades cristãs, que viviam nas imediações de Jerusalém, já haviam se dispersado. Algumas foram para Pela, no lado oriental do Rio Jordão, outras se espalharam pela Síria e Fenícia. De forma especial, se refugiaram junto à comunidade de Antioquia, na Síria. E foi em Antioquia, por volta do ano 80 d.C., que Mateus escreveu seu Evangelho para essas comunidades que haviam nascido nos recôncavos da Palestina. Diante destas referências históricas, se explicam as preocupações de Mateus e sua comunidade. Ele é um judeu convertido aos ensinamentos de Jesus e se dirige ao mesmo tipo de pessoas. Os destinatários primeiros de seu Evangelho são judeus que aceitaram a Palavra e a Ação de Jesus como caminho para suas vidas.
Neste sentido, a teologia mateana percorre um caminho criativo e profícuo. Primeiro quer mostrar que Jesus e sua ação realizam tudo que o Primeiro Testamento anunciava, pedia e prometia. Depois, que o cristianismo também é ruptura com a religião judaica oficial, cristalizada em formas de vivência religiosa que já estavam muito distantes do projeto de Deus revelado e realizado em Jesus. Finalmente, quer mostrar que as comunidades de seguidores e seguidoras de Jesus não devem ficar fechadas em si mesmas, mas se abrir para todos e todas, levando em todos os tempos e lugares a Palavra e a Ação de Jesus que liberta para a Vida Nova.
Em síntese, sobre o Evangelho de Mateus, precisamos ter sempre seu contexto em perspectiva o que nos obriga a pontuar:
O Evangelho de Mateus foi escrito provavelmente entre os anos 80 e 90 d.C., algumas décadas após a destruição de Jerusalém pelos romanos, ocorrida em 70 d.C.
As comunidades mateanas viviam uma situação difícil:
- Sofriam tensões com o judaísmo rabínico que estava se reorganizando.
- Enfrentavam perseguições políticas e religiosas.
- Necessitavam reafirmar sua identidade.
- Buscavam compreender quem era Jesus e qual deveria ser sua missão no mundo.
Mateus procura mostrar que Jesus é o Messias esperado por Israel, mas também o Senhor de uma comunidade nova, aberta a todos os povos.
1. Mateus 16,13-19: A Confissão de Pedro e a Construção da Comunidade do Reino
Feita a devida contextualização sobre o Evangelho de Mateus, dediquemo-nos a comentar a perícope presente na liturgia da Solenidade de São Pedro e São Paulo sempre na perspectiva das contribuições exegéticas apresentadas acima. Assim, a profissão de fé de Pedro representa, ao mesmo tempo, a fé do discípulo histórico e a fé da própria comunidade cristã.
O texto de Mateus 16,13-19 ocupa um lugar central na tradição cristã. Nele encontramos a célebre profissão de fé de Pedro, a declaração de Jesus acerca da edificação da Igreja sobre a “pedra” e a entrega das “chaves do Reino dos Céus”. Ao longo da história, essa passagem foi utilizada para fundamentar reflexões sobre a identidade de Jesus, a missão de Pedro, a autoridade na Igreja e a natureza da comunidade cristã.
Entretanto, quando aproximamos a exegese bíblica da Leitura Popular da Bíblia, descobrimos que o texto não trata apenas da autoridade de Pedro, mas da experiência de um povo que reconhece Jesus como o Messias libertador e assume a responsabilidade de construir uma comunidade comprometida com a vida.
2. Cesareia de Filipe: um lugar carregado de significado
O texto começa dizendo:
“Jesus foi à região de Cesareia de Filipe” (Mt 16,13)
A localização não é casual. Cesareia de Filipe situava-se ao norte da Palestina, numa região fortemente marcada pela presença da cultura e religiosidade pagãs.
Ali existiam:
- Templos dedicados a divindades adversas à tradição israelita.
- Santuários de culto imperial romano.
- Monumentos que exaltavam o poder político.
Era um espaço onde diferentes divindades e poderes reivindicavam autoridade sobre a vida das pessoas.
É justamente nesse ambiente que Jesus pergunta:
“Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (Mt 16,13b)
A pergunta possui uma dimensão profundamente política e religiosa. Diante dos deuses do império e dos senhores deste mundo, Jesus questiona: Quem sou eu para vocês? A pergunta continua atual.
Hoje vivemos cercados por outros “deuses”:
- o dinheiro;
- o mercado;
- o consumismo;
- o poder;
- o individualismo;
- a tecnologia transformada em ídolo.
Também diante desses poderes Jesus continua perguntando: Quem sou eu para vocês?
3. As opiniões do povo sobre Jesus
Os discípulos respondem:
“Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; Outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas” (Mt 16,14)
Essas respostas mostram que Jesus era visto como alguém extraordinário. João Batista representava a denúncia profética. Elias era o profeta esperado para os tempos messiânicos. Jeremias simbolizava a fidelidade em meio às perseguições. O povo reconhecia em Jesus um homem de Deus. Mas isso ainda era insuficiente.
A questão decisiva não é aquilo que os outros pensam. Por isso Jesus conduz os discípulos para uma resposta pessoal.
4. A pergunta decisiva
Jesus pergunta:
“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15)
Aqui o texto atinge seu ponto culminante. A fé cristã não nasce da opinião pública. Não nasce do costume. Não nasce da tradição recebida mecanicamente. Ela nasce do encontro pessoal com Jesus. A pergunta é dirigida a cada geração. A cada comunidade. A cada cristão e cristã. A Leitura Popular da Bíblia insiste que esta pergunta deve ser feita a partir da vida concreta.
Quem é Jesus para:
- os pobres?
- os desempregados?
- os trabalhadores explorados?
- as mulheres marginalizadas?
- os povos indígenas?
- a população negra?
- os migrantes?
- aqueles que sofrem violência?
A resposta não pode ser apenas doutrinal. Ela deve surgir da experiência histórica da presença de Deus na caminhada do povo.
5. A profissão de fé de Pedro
Pedro responde:
“Tu és o Cristo (o Messias), o Filho do Deus vivo.” (Mt 16,16)
Essa é uma das mais importantes profissões de fé do Novo Testamento.
Cristo e Messias
A palavra “Cristo” significa “Ungido”. Corresponde ao termo hebraico “Messias”. Pedro reconhece que Jesus é o enviado de Deus para instaurar seu Reino. Mas é importante lembrar: O Messias esperado por muitos judeus era um líder político e militar. Jesus redefine completamente essa expectativa.
Ele é um Messias:
- servidor;
- pobre;
- perseguido;
- crucificado.
Reconhecer Jesus como Cristo implica aceitar seu caminho. E juntar-se a ele.
Filho do Deus vivo
A expressão possui enorme força. No mundo romano o imperador era chamado de “filho dos deuses”. Ao proclamar Jesus como Filho do Deus vivo, Pedro desafia toda pretensão imperial.
A comunidade cristã afirma: O verdadeiro Senhor não é César. O verdadeiro Senhor é Jesus. Essa afirmação possuía profundas consequências políticas e sociais.
6. A revelação vem de Deus
Jesus responde:
“Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu.” (Mt 16,17)
A fé não é resultado apenas da inteligência humana. Ela é dom. É revelação.
Na Bíblia, Deus frequentemente revela seus mistérios aos pequenos:
- Moisés era pastor.
- Amós era agricultor.
- Maria era uma jovem pobre da Galileia.
- Os apóstolos eram, na sua maioria, pescadores.
A Leitura Popular da Bíblia destaca exatamente esse aspecto. Os pobres não são apenas destinatários da Palavra. São sujeitos da interpretação. Deus continua revelando seu projeto através daqueles que vivem as dores e esperanças da história.
7. Pedro e a pedra
Jesus prossegue:
“Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja” (Mt 16,18)
Aqui encontramos um conhecido jogo de palavras.
Em grego:
- Pedro = Petros (Πέτρος)
- Pedra = Petra (πέτρα)
A imagem da pedra aparece frequentemente na Bíblia. Ela simboliza firmeza, estabilidade e fundamento. Historicamente, a tradição católica vê nesse texto uma referência ao ministério singular de Pedro e de seus sucessores. Essa interpretação possui raízes muito antigas e ocupa lugar importante na eclesiologia católica.
Entretanto, a exegese moderna também observa algo interessante:
Pedro não é fundamento por suas qualidades pessoais. Pouco depois, no mesmo capítulo, ele será repreendido por Jesus (cf. Mt 16,23). A pedra não é simplesmente o indivíduo Pedro. A pedra é Pedro enquanto homem de fé. A pedra é sua profissão de fé. A pedra é o reconhecimento de Jesus como Messias. Portanto, a Igreja se sustenta não sobre o poder humano, mas sobre a fé em Cristo.
8. O significado da Igreja
Jesus afirma:
“Sobre esta pedra edificarei minha Igreja” (Mt 16,18). A palavra utilizada é ekklesia. Significa assembleia convocada. Comunidade reunida. Povo chamado por Deus. É importante notar que Jesus não fala de uma instituição poderosa. Não fala de palácios. Não fala de privilégios. Fala de uma comunidade.
Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, a Igreja nasce quando homens e mulheres se reúnem em torno do projeto de Jesus.
Por isso, as Comunidades Eclesiais de Base ajudam a compreender profundamente este texto. Quando o povo: lê a Bíblia; partilha a vida; organiza a solidariedade; luta por justiça; celebra sua fé; ali a Igreja está sendo edificada. A Igreja não é apenas uma estrutura. É um povo em caminhada.
9. As portas do inferno não prevalecerão
Jesus declara:
“e o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (Mt 16,18b)
Na mentalidade bíblica, o inferno (Hades) representa o poder da morte. As portas simbolizam estruturas de dominação. Jesus não promete uma Igreja sem conflitos. Não promete ausência de perseguições. Não promete sucesso imediato. Ele promete que a morte não terá a última palavra. A esperança cristã nasce dessa certeza.
Ao longo da história:
- impérios caíram;
- perseguições aconteceram;
- ditaduras surgiram;
- injustiças pareceram triunfar.
Mas o projeto de Deus continua vivo. A ressurreição é mais forte que a morte.
10. As chaves do Reino
Jesus diz:
“Eu te darei as chaves do Reino dos Céus.” (Mt 16,19)
No Antigo Testamento, as chaves simbolizavam responsabilidade administrativa. Não representam privilégio. Representam serviço. Quem recebe as chaves torna-se responsável pela casa. Na perspectiva popular, isso significa que a autoridade cristã existe para abrir portas e não para fechá-las.
Uma Igreja fiel ao Evangelho:
- abre portas aos pobres;
- abre portas aos excluídos;
- abre portas aos pecadores;
- abre portas aos que buscam sentido para suas vidas.
Quando a autoridade se transforma em dominação, trai o sentido do Evangelho.
11. Ligar e desligar
Jesus conclui:
“Tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.” (Mt 16,19b)
No judaísmo, “ligar” e “desligar” eram expressões utilizadas pelos rabinos para indicar decisões comunitárias.
Referiam-se à capacidade de discernir:
- o que favorece a vida;
- o que impede a vida;
- o que está de acordo com a vontade de Deus.
Mateus retomará essa mesma autoridade para toda a comunidade em Mt 18,18. Isso mostra que a missão não pertence apenas a Pedro. Pertence também à Igreja inteira. A comunidade é chamada a discernir os caminhos do Reino.
12. Uma leitura a partir dos pobres
A Leitura Popular da Bíblia pergunta:
O que este texto diz aos pobres hoje?
A resposta é profunda.
Pedro não é escolhido porque possui riqueza.
Não é escolhido porque possui poder.
Não é escolhido porque pertence à elite.
É um pescador da Galileia.
Um homem simples.
Deus continua construindo sua Igreja a partir dos pequenos.
Por isso, as comunidades populares podem se reconhecer neste Evangelho.
Elas também escutam a pergunta:
“Quem dizeis que eu sou?”
E respondem:
Jesus é aquele que caminha conosco.
Jesus é aquele que escuta nosso clamor.
Jesus é aquele que fortalece nossa luta por dignidade.
Jesus é aquele que nos reúne como povo.
Conclusão
Mateus 16,13-19 é muito mais do que um texto sobre a autoridade de Pedro. Trata-se de uma profunda profissão de fé que nasce no coração da comunidade cristã.
A exegese bíblica nos mostra que a passagem foi escrita para fortalecer uma Igreja que buscava sua identidade em meio às crises do final do primeiro século. A Leitura Popular da Bíblia, por sua vez, nos ajuda a perceber que essa identidade não se constrói a partir do poder, mas da fé dos pequenos que reconhecem em Jesus o Messias libertador.
Pedro torna-se pedra não por sua força pessoal, mas porque acolhe a revelação de Deus e confessa que Jesus é o Cristo. A Igreja é edificada quando essa mesma fé continua viva nas comunidades que escutam a Palavra, partilham a vida e assumem o compromisso com o Reino.
Assim, a pergunta de Jesus atravessa os séculos e continua ecoando em nossas comunidades:
“E vós, quem dizeis que eu sou?”
A resposta não é dada apenas com palavras. Ela é construída diariamente quando os discípulos e discípulas transformam sua profissão de fé em compromisso concreto com a justiça, a fraternidade, a solidariedade e a defesa da vida, especialmente da vida dos pobres, dos excluídos e dos crucificados da história. Nessa caminhada, a Igreja continua sendo edificada sobre a pedra da fé, sustentada pela certeza de que nenhuma força de morte poderá vencer o projeto de Deus revelado em Jesus Cristo.
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