Por Karina Moreti
Ao longo desta caminhada, vimos que Deus nunca inicia sua obra fora da história humana. Chamou Abraão enquanto habitava uma terra concreta (cf. Gn 12,1-4). Sustentou seu povo através de mulheres e homens marcados pelas tensões do seu tempo. Levantou Samuel em meio à crise religiosa (cf. 1Sm 3,1-10). Formou reis, profetas e testemunhas dentro dos conflitos reais da existência. Agora, ao nos aproximarmos dos discípulos de Jesus, percebemos novamente este mesmo movimento: Deus continua chamando pessoas comuns no interior das relações humanas.
Nas margens do mar da Galileia, entre barcos, redes e jornadas de trabalho, Jesus encontra irmãos. Não encontra homens retirados do mundo, mas trabalhadores que sustentavam suas casas através da pesca (cf. Mt 4,18-22; Mc 1,16-20). Primeiro aparecem André e Simão. Depois surgem Tiago e João.
O evangelho apresenta um detalhe importante: Tiago não está sozinho quando é chamado. Ele está com seu irmão João e com seu pai Zebedeu dentro do barco. O texto diz que Jesus “os chamou” e que eles, imediatamente, deixaram o barco e o pai para segui-lo (cf. Mt 4,21-22). O chamado nasce dentro da família e do trabalho. Antes de serem apóstolos, eram irmãos. Antes do anúncio do Reino, existia o esforço cotidiano para sobreviver.
Marcos acrescenta um dado que costuma passar despercebido: havia empregados com Zebedeu (cf. Mc 1,20). Isso sugere que aquela família talvez tivesse certa estabilidade quando comparada a outros trabalhadores da região. Ainda assim, o chamado de Jesus não acontece para pessoas livres de responsabilidades. Tiago e João deixam redes, pai e embarcação para seguir um caminho cuja direção ainda não conheciam plenamente.
Esse movimento não significa rejeição da família nem desprezo pelo trabalho. O evangelho não apresenta fuga, mas reorganização da vida a partir de um encontro. O Reino não destrói a história anterior; ele a transforma e lhe oferece um novo horizonte.
Tiago aparece diversas vezes ao lado de João e de Pedro formando um núcleo mais próximo de Jesus. Estão presentes na ressurreição da filha de Jairo (cf. Mc 5,37), na transfiguração (cf. Mc 9,2-8) e na oração angustiada no Getsêmani (cf. Mc 14,33). Isso revela algo importante: proximidade com Jesus não significa privilégio, mas maior participação nos momentos de dor, revelação e responsabilidade.
Ao mesmo tempo, Tiago e João não são retratados como discípulos idealizados. Jesus lhes dá o nome de “Boanerges”, isto é, “filhos do trovão” (cf. Mc 3,17). O apelido parece indicar um temperamento intenso. Em determinado momento, ambos desejam fazer cair fogo do céu sobre uma aldeia que não acolheu Jesus (cf. Lc 9,54).
Em outro episódio, aproximam-se de Jesus pedindo lugares de honra no Reino (cf. Mc 10,35-37; Mt 20,20-21). A resposta de Jesus muda completamente o horizonte da conversa. Em vez de prometer posições ou reconhecimento, ele pergunta: “por acaso vocês podem beber o cálice que eu vou beber?” (Mc 10,38). Na tradição bíblica, o cálice não representa glória fácil, mas participação no caminho daquele que se entrega.
Tiago ainda não compreendia plenamente o que estava pedindo. Sonhava com proximidade e grandeza; Jesus falava de serviço e fidelidade. Mesmo assim, Jesus não rejeita aquele discípulo impulsivo. Recebe seu desejo ainda incompleto e o conduz. O chamado não acontece depois da maturidade; ele acontece durante o processo de transformação. Deus não espera discípulos prontos. Ele trabalha com pessoas reais.
Talvez seja por isso que o final da história de Tiago tenha tanta força. Entre os Doze, ele ocupa um lugar singular: foi o primeiro apóstolo a morrer por causa do anúncio do Evangelho. O livro dos Atos registra que o rei Herodes “mandou matar à espada Tiago, irmão de João” (At 12,2). O homem que havia deixado as redes para seguir Jesus agora entrega a própria vida como testemunho.
Existe algo profundamente significativo nesse percurso. Tiago começou sua caminhada dentro de um barco, ao lado do irmão, sem compreender totalmente para onde estava indo. Ao longo do caminho descobriu que seguir Jesus não era conquistar um lugar de honra, mas aprender a entregar a própria vida.
Ao olharmos para Tiago, percebemos novamente que Deus nos chama a partir da história. O chamado não acontece depois da vida começar nem quando tudo está resolvido. Deus chama dentro dos barcos, entre irmãos, no meio do trabalho e das perguntas humanas. Porque o Evangelho nunca começou longe da vida — começou sempre onde alguém teve coragem de responder.

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.
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