Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
O Evangelho de Mateus 8,18-22 apresenta um breve diálogo entre Jesus e dois candidatos ao discipulado. À primeira vista, as palavras de Jesus parecem duras e até contraditórias com os valores familiares tão importantes na cultura judaica. No entanto, quando lidas à luz da Leitura Popular da Bíblia, elas revelam um convite radical à construção do Reino de Deus, colocando a vida, a justiça e a solidariedade acima das estruturas que produzem morte, exclusão e opressão.
A Leitura Popular da Bíblia, desenvolvida a partir da caminhada das Comunidades Eclesiais de Base e da reflexão latino-americana, procura ler o texto bíblico a partir da vida do povo. Nessa perspectiva, a Palavra de Deus não é apenas objeto de estudo, mas fonte de organização comunitária, esperança e compromisso transformador.
O contexto do Evangelho
O capítulo 8 de Mateus marca o início da atividade pública de Jesus após o Sermão da Montanha. O evangelista apresenta uma sequência de curas: um leproso é reintegrado à sociedade, o servo de um centurião é curado, a sogra de Pedro volta à vida comunitária e inúmeros doentes encontram libertação.
Depois dessas manifestações do Reino, Jesus decide atravessar o lago, afastando-se das multidões. É nesse momento que aparecem dois personagens que desejam segui-lo.
O texto diz:
“As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça.”
E, em seguida:
“Segue-me e deixa que os mortos enterrem os seus mortos.”
Essas palavras não devem ser interpretadas como desprezo pela família ou pelos deveres religiosos, mas como um chamado à urgência do Reino de Deus.
A exegese do texto
O escriba: o entusiasmo que precisa tornar-se compromisso
O primeiro personagem é um escriba, alguém pertencente ao grupo dos especialistas da Lei.
Ele afirma:
“Eu te seguirei para onde quer que fores.”
A resposta de Jesus surpreende:
“O Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.”
A expressão “Filho do Homem” remete tanto à humanidade de Jesus quanto à figura messiânica do livro de Daniel. Entretanto, Mateus destaca sobretudo sua condição de servo itinerante, sem propriedades, sem privilégios e sem segurança econômica.
Enquanto raposas e aves possuem abrigo, Jesus escolhe viver entre os pobres, caminhando pelas estradas da Galileia, compartilhando a insegurança daqueles que não possuem terra, casa ou poder.
Seguir Jesus significa abandonar a lógica da acumulação e assumir uma vida marcada pela confiança em Deus e pela solidariedade.
Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, Jesus se identifica com os sem-teto, os migrantes, os refugiados, os trabalhadores precarizados e todos aqueles que vivem sem garantias sociais.
O segundo discípulo: a urgência do Reino
O segundo personagem pede:
“Senhor, permite-me primeiro ir sepultar meu pai.”
Não se trata necessariamente de um pai já falecido. A expressão podia significar permanecer junto da família até a morte do pai para depois assumir um novo projeto de vida.
Jesus responde:
“Segue-me e deixa que os mortos enterrem os seus mortos.”
A frase utiliza um jogo de palavras. Os “mortos” que enterram seus mortos representam aqueles que permanecem presos a uma ordem social incapaz de produzir vida nova. São pessoas que continuam reproduzindo estruturas religiosas e políticas que legitimam desigualdades, enquanto o Reino exige uma resposta imediata.
Jesus não condena o amor familiar nem os ritos funerários. Ele afirma que nenhuma instituição, tradição ou interesse pessoal pode impedir o compromisso com a vida dos que sofrem.
O discipulado na comunidade de Mateus
A comunidade de Mateus enfrentava perseguições, conflitos com o judaísmo oficial e dificuldades econômicas. Seguir Jesus significava correr riscos, perder prestígio social e construir uma nova família baseada na fraternidade. O evangelista mostra que o discipulado não é privilégio dos perfeitos, mas caminho de quem aceita colocar o Reino em primeiro lugar.
Essa comunidade experimentava aquilo que Jesus havia anunciado:
- viver sem privilégios;
- compartilhar os bens;
- acolher os pequenos;
- romper barreiras sociais;
- formar comunidades igualitárias.
A Leitura Popular da Bíblia
A Leitura Popular parte da convicção de que Deus continua falando na história dos pobres. Quando as comunidades populares leem esse texto, descobrem que Jesus não convida para uma espiritualidade alienada, mas para uma prática concreta de libertação.
Não possuir onde reclinar a cabeça significa estar ao lado daqueles que vivem nas periferias urbanas, nas ocupações, nos assentamentos, nas aldeias indígenas, nos quilombos e nas comunidades esquecidas pelas políticas públicas.
Deixar os mortos enterrarem seus mortos significa romper com a indiferença, com o individualismo e com a lógica que naturaliza a pobreza e a exclusão.
A dimensão sociotransformadora
Este texto denuncia uma sociedade construída sobre privilégios e convida à criação de relações baseadas na partilha.
Jesus não promete conforto, riqueza ou sucesso. Ele oferece um caminho de liberdade que nasce do compromisso com os últimos.
Hoje continuam sem lugar para repousar a cabeça:
- famílias em situação de rua;
- migrantes e refugiados;
- trabalhadores informais;
- desempregados;
- povos indígenas ameaçados;
- comunidades quilombolas;
- mulheres vítimas de violência;
- jovens negros vítimas do racismo estrutural;
- idosos abandonados.
Seguir Jesus é assumir a causa dessas pessoas como prioridade da missão cristã.
Pistas para a ação pastoral
Este Evangelho inspira comunidades que desejam viver uma fé comprometida com a transformação da realidade.
Algumas iniciativas pastorais podem tornar esse texto uma experiência concreta:
1. Fortalecer comunidades acolhedoras
Criar espaços onde ninguém seja tratado como estranho, promovendo escuta, partilha e solidariedade.
2. Defender o direito à moradia
A frase sobre o Filho do Homem interpela as comunidades a apoiar iniciativas de moradia digna, economia solidária e políticas públicas voltadas aos mais vulneráveis.
3. Formar discípulos missionários comprometidos
O seguimento de Jesus exige formação bíblica, consciência crítica e participação ativa na vida social e política.
4. Valorizar as Comunidades Eclesiais de Base
As pequenas comunidades continuam sendo espaços privilegiados para ler a Bíblia a partir da vida, celebrar a fé e organizar ações concretas em favor dos pobres.
5. Promover uma espiritualidade da caminhada
Jesus é o Mestre itinerante. A Igreja também é chamada a sair de seus espaços de conforto, encontrando Cristo nas periferias geográficas e existenciais.
Conclusão
Mateus 8,18-22 apresenta um discipulado exigente, mas profundamente libertador. Jesus não convida para uma religião de privilégios nem para uma espiritualidade intimista. Seu chamado é para caminhar ao lado dos pobres, assumindo a insegurança de quem aposta no Reino de Deus como projeto de vida.
À luz da Leitura Popular da Bíblia, este Evangelho continua convocando as comunidades cristãs a fazer da Palavra uma força de transformação social. O seguimento de Jesus passa pela defesa da dignidade humana, pela organização popular, pela construção da justiça e pela opção preferencial pelos pobres.
Assim, a Igreja torna-se sinal do Reino quando escolhe caminhar com aqueles que o mundo descarta, anunciando que Deus continua fazendo dos pequenos os protagonistas de uma nova história, onde a fraternidade vence a exclusão, a esperança supera o medo e a vida triunfa sobre todas as formas de morte.
Deixe um comentário