“A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos”
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
Poucos textos do Evangelho de Mateus sintetizam tão bem a missão de Jesus quanto Mt 9,32-38. Nele, encontram-se reunidos os principais elementos da prática de Jesus: libertação dos oprimidos, enfrentamento das forças do mal, compaixão pelas multidões e o chamado para que novos trabalhadores assumam a missão do Reino de Deus.
Entretanto, esse texto frequentemente é utilizado apenas para incentivar vocações sacerdotais e religiosas. Embora essa interpretação não seja incorreta, ela é claramente insuficiente. O próprio contexto do Evangelho mostra que o chamado missionário é dirigido a toda a comunidade dos discípulos e discípulas.
A Teologia Latino-americana amplia essa compreensão ao afirmar que a “messe” não é apenas a comunidade eclesial, mas toda a humanidade marcada pelas injustiças sociais. A missão da Igreja, portanto, não consiste apenas em aumentar o número de fiéis, mas em colaborar com Deus na construção histórica do Reino.
Contexto histórico e literário
Mateus escreve para comunidades cristãs de origem judaica, provavelmente entre os anos 80 e 90 d.C., vivendo tensões profundas após a destruição de Jerusalém e do Templo, ocorrida no ano 70. Essas comunidades enfrentavam perseguições, conflitos internos e dificuldades para compreender sua identidade diante do judaísmo rabínico que começava a reorganizar-se.
Os capítulos 8 e 9 apresentam uma sucessão organizada de milagres. Não se trata simplesmente de demonstrar o poder sobrenatural de Jesus. Mateus deseja mostrar que o Reino de Deus acontece onde a vida é restaurada. Cada cura representa a derrota das forças que impedem a vida plena. Assim, o texto prepara o envio missionário do capítulo seguinte.
Antes de enviar os discípulos, Jesus mostra como deve ser a missão.
O mudo possuído
O texto inicia dizendo:
“Apresentaram-lhe um homem mudo, possuído pelo demônio.”
Na mentalidade do primeiro século, enfermidades frequentemente eram interpretadas como ação demoníaca. Hoje sabemos que essa associação não corresponde à compreensão científica da doença. Contudo, a linguagem utilizada pelo evangelista revela algo muito maior. O homem encontra-se privado da palavra. Não consegue falar.
Na Bíblia, perder a palavra significa perder dignidade.
Perder cidadania.
Perder participação na comunidade.
Quem não possui voz torna-se invisível. A exclusão social aparece simbolizada na incapacidade de comunicar-se. A expulsão do demônio representa muito mais que uma cura física.
É a devolução da voz.
É a restituição da dignidade.
É a reintegração social.
Quem continua sem voz hoje?
A Leitura Popular da Bíblia faz imediatamente essa pergunta.
Quem são os mudos de hoje?
São os moradores das periferias.
Os povos indígenas.
As comunidades quilombolas.
As pessoas em situação de rua.
Os migrantes.
Os desempregados.
As vítimas da violência.
As mulheres submetidas às diversas formas de discriminação.
As pessoas com deficiência frequentemente invisibilizadas.
Os idosos abandonados.
Os jovens criminalizados.
O Evangelho continua perguntando:
Quem lhes devolverá a palavra?
O conflito com os fariseus
Após o milagre, o povo admira-se. Os fariseus, porém, afirmam:
“É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios.”
Mateus apresenta aqui o conflito entre duas maneiras de compreender Deus. De um lado, Jesus. Do outro, uma religião preocupada em preservar seu poder. Não conseguem negar o bem realizado. Então procuram desacreditá-lo. Essa estratégia continua presente. Sempre que alguém luta pela dignidade dos pobres, frequentemente surgem acusações. Foi assim com muitos profetas. Foi assim com tantos cristãos comprometidos com a justiça social.
Na América Latina, numerosos agentes pastorais, catequistas, religiosas, padres, bispos e lideranças leigas sofreram perseguições justamente porque compreenderam que anunciar o Evangelho implica também denunciar estruturas de pecado.
Como lembrava Dom Hélder Câmara:
“Quando dou comida aos pobres, chamam-me de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista.”
Essa frase continua atual.
Jesus percorre todas as cidades
O evangelista resume a missão de Jesus:
“Percorria todas as cidades e povoados…”
Mateus utiliza três verbos fundamentais:
Ensinar.
Anunciar.
Curar.
Esses verbos descrevem uma evangelização integral:
Jesus educa.
Jesus proclama.
Jesus cuida.
Não existe separação entre evangelização e promoção humana.
A Teologia Latino-americana insiste exatamente nesse ponto. A missão da Igreja não pode limitar-se aos sacramentos. Ela precisa alcançar as estruturas da sociedade.
Como ensina José Comblin, evangelizar significa fazer nascer sujeitos capazes de transformar a história.
A compaixão de Jesus
O centro do texto encontra-se no versículo 36.
“Vendo as multidões, teve compaixão delas.”
A palavra grega utilizada por Mateus é splagchnizomai. É uma das palavras mais fortes do Novo Testamento. Indica uma comoção que nasce das entranhas. Não é pena. Não é sentimentalismo. É um amor que mobiliza. É impossível sentir essa compaixão e permanecer indiferente. A compaixão de Jesus produz ação.
A Igreja latino-americana frequentemente recorda que essa compaixão constitui o fundamento da opção preferencial pelos pobres. Não se trata de uma escolha ideológica. É uma consequência da maneira como Deus olha para a humanidade.
Ovelhas sem pastor
Jesus afirma que o povo estava:
“Cansado e abatido como ovelhas sem pastor.”
Na tradição bíblica, os pastores representam os governantes políticos e religiosos. Mateus faz uma crítica profunda. O problema não é a ausência de religião. O problema são lideranças incapazes de cuidar do povo.
Essa denúncia permanece atual. Sempre que autoridades civis ou religiosas utilizam seu poder para benefício próprio, deixam o povo abandonado.
A imagem das ovelhas sem pastor continua presente onde existem fome, desigualdade, corrupção, violência, abandono da saúde pública, destruição ambiental e exclusão social.
A messe é grande
Jesus conclui:
“A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos.”
Durante muito tempo, essa frase foi reduzida ao incentivo às vocações sacerdotais. Entretanto, Mateus fala de discípulos. Todos os discípulos. Toda a comunidade. Toda pessoa batizada.
A messe é toda realidade humana onde a vida precisa florescer:
As escolas.
As universidades.
Os hospitais.
As comunidades.
Os sindicatos.
Os movimentos populares.
As pastorais sociais.
Os ambientes digitais.
Os espaços políticos.
Ali está a messe.
A Leitura Popular da Bíblia
A Leitura Popular da Bíblia pergunta continuamente:
Quem são hoje os trabalhadores?
São todas as pessoas comprometidas com a vida.
Catequistas.
Lideranças comunitárias.
Educadores.
Profissionais da saúde.
Assistentes sociais.
Agentes da Pastoral da Criança.
Pastorais Carcerária, da Juventude, da Pessoa Idosa, da Moradia, da Terra e tantas outras expressões do serviço eclesial.
Jovens.
Mulheres.
Homens.
Religiosos e religiosas.
Leigos.
Ninguém está dispensado da missão.
Pistas pastorais para hoje
Este Evangelho desafia profundamente nossas comunidades.
Em primeiro lugar, é necessário abandonar uma pastoral centrada apenas na manutenção das estruturas paroquiais e recuperar uma Igreja em saída, missionária e próxima das periferias existenciais e geográficas.
Em segundo lugar, a catequese precisa formar discípulos comprometidos com a realidade. Evangelizar não é apenas transmitir conteúdos doutrinais, mas despertar uma espiritualidade encarnada que conduza ao serviço, à solidariedade e ao cuidado com os mais vulneráveis.
Também é indispensável fortalecer os ministérios leigos, reconhecendo os carismas distribuídos pelo Espírito Santo a todo o povo de Deus. A missão não pertence exclusivamente aos ministros ordenados, mas é responsabilidade de toda a comunidade cristã.
Além disso, a ação pastoral deve privilegiar a escuta das pessoas que historicamente tiveram sua voz silenciada. A Igreja é chamada a tornar-se espaço onde os pobres, as mulheres, os povos originários, as pessoas negras, os migrantes, as pessoas com deficiência e todos os excluídos encontrem acolhida, participação e protagonismo.
Por fim, o anúncio do Reino exige uma presença efetiva junto às feridas da sociedade. A comunidade cristã deve comprometer-se com iniciativas que promovam justiça, paz, defesa dos direitos humanos, cuidado da criação e superação das desigualdades, tornando visível, na história, a compaixão de Jesus.
Conclusão
Mateus 9,32-38 apresenta uma síntese luminosa da missão de Jesus: libertar quem perdeu a voz, curar as feridas que desumanizam, anunciar a Boa-Nova do Reino e olhar para o povo com uma compaixão que se transforma em compromisso concreto. À luz da Teologia Latino-americana e da Leitura Popular da Bíblia, esse Evangelho interpela a Igreja a superar uma pastoral de conservação e a assumir uma presença profética nas periferias da vida.
Os “mudos” do relato continuam existindo em nossos bairros, campos e cidades: são aqueles cuja dignidade foi negada pelas estruturas de injustiça, pela pobreza, pelo racismo, pela violência, pela exclusão e pelo abandono. Evangelizar, portanto, significa devolver-lhes a palavra, reconhecer seu protagonismo e caminhar ao seu lado na construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.
Quando Jesus afirma que “a messe é grande”, ele não convida apenas a rezar por novos ministros, mas a despertar toda a comunidade para a missão. Cada cristão e cada cristã é chamado a ser trabalhador do Reino, levando esperança onde há desânimo, justiça onde há opressão e vida onde a exclusão insiste em produzir morte. Assim, a Igreja realiza sua vocação mais profunda: tornar visível, na história, a compaixão libertadora de Deus e colaborar para que o Reino anunciado por Jesus continue florescendo no coração da humanidade.
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