Reflexão para Sábado da 14ª Semana do Tempo Comum – (Mateus 10,24-33)

Mateus 10,24-33: “Não tenhais medo!”

Por Pe. Hermes A. Fernandes

O Evangelho de Mateus apresenta, no capítulo 10, o grande discurso missionário de Jesus. Depois de escolher os doze, enviá-los para anunciar o Reino e adverti-los sobre as perseguições inevitáveis, Jesus oferece um conjunto de orientações espirituais para sustentar a missão em meio às dificuldades. O trecho de Mateus 10,24-33 é um dos textos mais consoladores e, ao mesmo tempo, mais desafiadores do Novo Testamento. Nele, Jesus insiste por três vezes: “Não tenhais medo.”

Essa repetição não é casual. O medo sempre foi um instrumento de dominação. Os impérios, os poderes econômicos, as elites religiosas e todas as estruturas injustas utilizam o medo para conservar privilégios e impedir que os pobres organizem sua própria libertação. Por isso, a coragem evangélica não é simples virtude individual; ela é uma atitude profundamente política e espiritual, nascida da confiança em Deus e do compromisso com o Reino.

A Teologia Latino-americana reconhece nesse texto um chamado à profecia. A Leitura Popular da Bíblia, por sua vez, convida as comunidades a identificarem os “medos” que hoje impedem a vivência plena do Evangelho e a descobrirem, na Palavra de Deus, a força para superá-los.

O contexto histórico do texto

O Evangelho de Mateus foi escrito aproximadamente entre os anos 80 e 90 d.C., quando as comunidades cristãs viviam um período de profundas tensões. Após a destruição de Jerusalém, em 70 d.C., o judaísmo reorganizou-se em torno das sinagogas, e muitos cristãos de origem judaica foram excluídos por confessarem Jesus como o Messias.

Ao mesmo tempo, o Império Romano mantinha rígido controle sobre movimentos que pudessem ameaçar sua estabilidade política. Embora a perseguição ainda não fosse sistemática em todas as regiões, havia um ambiente de suspeita e repressão. Os discípulos de Jesus eram frequentemente alvo de hostilidade por recusarem o culto ao imperador e anunciarem um Reino cujo verdadeiro Senhor era Cristo.

Nesse contexto, Mateus escreve para fortalecer comunidades fragilizadas, recordando-lhes que o sofrimento não significa abandono de Deus, mas faz parte da fidelidade ao Evangelho.

“O discípulo não está acima do mestre”

Jesus afirma:

“O discípulo não está acima do mestre, nem o servo acima do seu senhor.”

A primeira afirmação é um convite ao realismo. Quem segue Jesus deve esperar encontrar o mesmo destino do Mestre.

O Reino anunciado por Jesus confrontava interesses religiosos, econômicos e políticos profundamente enraizados. Sua crucifixão não foi resultado de um acidente, mas consequência de sua fidelidade ao projeto do Pai.

Da mesma forma, o discípulo não pode esperar uma missão sem conflitos quando assume o compromisso com os pobres, denuncia injustiças e promove a dignidade humana.

Na América Latina, essa palavra encontra ressonância na vida de inúmeros mártires que compreenderam que seguir Jesus significava também compartilhar sua cruz. Bispos, religiosas, padres, leigos, lideranças indígenas, quilombolas, agentes pastorais e defensores dos direitos humanos sofreram perseguições por colocarem o Evangelho acima dos interesses dos poderosos.

“Se chamaram Belzebu ao dono da casa…”

Jesus lembra que ele próprio foi acusado de agir em nome do mal. As autoridades religiosas procuraram desqualificar sua missão porque não conseguiam responder à força libertadora de seus gestos.

Também hoje, quem luta pela justiça frequentemente sofre campanhas de difamação. Defender os pobres pode ser interpretado como ideologia. Defender os direitos humanos pode ser confundido com partidarismo. Denunciar a destruição ambiental pode ser considerado obstáculo ao progresso econômico.

Jesus ensina que a calúnia faz parte da história dos profetas. A missão não depende da aprovação dos poderosos, mas da fidelidade ao Reino.

“Não tenhais medo”

Três vezes Jesus repete a mesma exortação. Na Bíblia, quando uma expressão aparece repetidamente, ela possui enorme importância.

O medo paralisa.
O medo impede a denúncia.
O medo destrói a solidariedade.
O medo favorece os opressores.

Por isso, Jesus combate o medo mostrando que a verdade sempre encontrará seu caminho.
Nada permanecerá oculto para sempre.

As estruturas injustas podem esconder seus mecanismos de violência por algum tempo, mas a luz do Reino revela aquilo que produz morte.

A Teologia Latino-americana insiste que a esperança cristã não nasce da ingenuidade, mas da certeza de que Deus age na história ao lado dos crucificados de todos os tempos.

“Proclamai sobre os telhados”

Na Palestina, os telhados planos das casas eram espaços de convivência e comunicação. Jesus utiliza essa imagem para afirmar que o Evangelho não deve permanecer escondido. A Boa Nova possui dimensão pública. Ela ilumina todas as dimensões da vida. Por isso, a missão da Igreja não pode limitar-se ao espaço interno dos templos.

O anúncio do Reino alcança as periferias urbanas, os campos, as aldeias indígenas, as escolas, os ambientes de trabalho, os hospitais, os presídios e todos os lugares onde a vida humana é ameaçada.

Evangelizar é tornar pública a esperança.

“Não tenhais medo dos que matam o corpo”

Essa afirmação precisa ser compreendida corretamente.

Jesus não despreza a vida humana.
Ao contrário, valoriza-a profundamente.

Sua preocupação é impedir que o medo da violência faça os discípulos abandonarem a missão. Ao longo da história latino-americana, inúmeros cristãos permaneceram fiéis ao Evangelho mesmo diante de ameaças.

Seu testemunho recorda que a dignidade da pessoa humana vale mais do que qualquer privilégio conquistado pelo silêncio.

“Até os cabelos de vossa cabeça estão contados”

Essa é uma das imagens mais delicadas do Evangelho. Jesus apresenta um Deus profundamente próximo. Não se trata de um Deus distante que observa o sofrimento humano. É um Pai que conhece cada pessoa. A imagem dos pardais reforça essa ideia.

Se Deus cuida até das pequenas aves, quanto mais cuidará daqueles que assumem a missão do Reino. Na Leitura Popular da Bíblia, essa afirmação devolve dignidade aos pobres.

Num mundo em que tantas pessoas são tratadas como descartáveis, Deus conhece cada rosto, cada história, cada lágrima e cada esperança.

Ninguém é invisível aos olhos do Pai.

“Quem me reconhecer diante dos homens”

Reconhecer Jesus não significa apenas professar uma doutrina. No Evangelho de Mateus, reconhecer Cristo é viver seu projeto.

É alimentar os famintos.
Acolher os estrangeiros.
Vestir os nus.
Visitar os presos.
Cuidar dos doentes.

Mais adiante, em Mateus 25, Jesus identificará sua própria presença nos pequenos e excluídos. Assim, confessar Jesus implica assumir compromisso concreto com aqueles que sofrem. Não basta proclamar “Senhor, Senhor”. É necessário tornar visível o Reino por meio da prática da justiça.

A dimensão sociotransformadora do texto

A principal denúncia presente nesse trecho dirige-se à cultura do medo. Na América Latina, o medo assume muitas formas.

É o medo da violência.
Do desemprego.
Da fome.
Da perseguição política.
Do preconceito racial.
Da discriminação religiosa.
Da exclusão social.
Do abandono.

Os sistemas de opressão alimentam esses medos para impedir que os pobres se organizem. Jesus rompe essa lógica.

A confiança em Deus gera liberdade.
A liberdade produz organização comunitária.
A organização fortalece a luta por direitos.
A fé transforma-se em compromisso histórico.

Por isso, o anúncio do Reino torna-se também defesa da democracia, dos direitos humanos, da justiça socioambiental, da economia solidária e da dignidade de todos os povos.

Uma leitura popular do texto

Quando uma comunidade periférica lê Mateus 10,24-33, logo identifica seus próprios medos. São os medos provocados pela violência, pela pobreza, pela ausência de oportunidades e pelas diversas formas de exclusão.

Ao mesmo tempo, a Palavra revela que Deus não abandona aqueles que resistem. Nas pequenas comunidades, nas Comunidades Eclesiais de Base, nos grupos de reflexão bíblica e nas pastorais sociais, essa certeza fortalece a esperança.

Os pobres descobrem que sua história é conhecida por Deus.
Sua luta não é invisível.
Seu sofrimento não é esquecido.

Sua organização comunitária torna-se espaço onde o Reino já começa a florescer.

Pistas pastorais para a Igreja de hoje

Mateus 10,24-33 desafia a Igreja a cultivar uma pastoral da coragem e da esperança. Isso significa formar cristãos capazes de unir espiritualidade e compromisso social; fortalecer as Comunidades Eclesiais de Base e os círculos bíblicos como espaços de escuta da Palavra e de organização popular; apoiar as pastorais sociais que acompanham migrantes, pessoas em situação de rua, trabalhadores precarizados, povos indígenas, comunidades quilombolas e moradores das periferias; promover uma formação bíblica que ajude os fiéis a discernir as estruturas de pecado presentes na sociedade; e incentivar uma presença pública da Igreja em defesa da vida, da paz, da justiça e da Casa Comum.

Ao mesmo tempo, a ação pastoral precisa testemunhar que o seguimento de Jesus não é marcado pelo medo, mas pela confiança. Uma comunidade que vive essa confiança torna-se sinal de esperança para os que sofrem e fortalece o protagonismo dos pobres na construção de uma sociedade mais fraterna.

Conclusão

Mateus 10,24-33 é um convite permanente à coragem evangélica. Jesus não promete aos discípulos uma existência sem conflitos, mas assegura-lhes que nenhuma perseguição, nenhuma calúnia e nenhuma ameaça podem destruir o projeto do Reino de Deus. O discípulo participa do destino do Mestre e encontra na presença amorosa do Pai a força para perseverar.

À luz da Teologia Latino-americana, esse texto recorda que a missão da Igreja não pode ser separada da defesa da vida e da opção preferencial pelos pobres. A coragem de reconhecer Jesus diante do mundo concretiza-se quando as comunidades cristãs denunciam as estruturas de morte e anunciam, por palavras e ações, uma sociedade fundada na justiça, na solidariedade e na fraternidade.

A Leitura Popular da Bíblia permite que os pobres se reconheçam como protagonistas dessa missão. Eles descobrem que Deus conhece seus nomes, acompanha suas lutas e transforma sua resistência cotidiana em testemunho do Reino. Assim, a Igreja permanece fiel ao Evangelho quando, vencendo o medo, caminha ao lado dos marginalizados e excluídos, fazendo ressoar, em cada tempo e lugar, a palavra consoladora e libertadora de Jesus: “Não tenhais medo.”


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