“Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10)
Por Pe. Hermes A. Fernandes
A história da Igreja na América Latina é marcada pelo testemunho de homens e mulheres que compreenderam o Evangelho não apenas como uma promessa para a vida eterna, mas como um chamado à transformação da realidade histórica. Entre esses nomes destaca-se Zilda Arns, cuja missão tornou-se um dos mais belos testemunhos da opção preferencial pelos pobres assumida pela Igreja latino-americana.
Sua vida demonstra que a evangelização não pode ser separada da promoção da dignidade humana. Alimentar uma criança, orientar uma mãe, combater a mortalidade infantil, ensinar cuidados básicos de saúde e fortalecer as comunidades constituem formas concretas de anunciar o Reino de Deus.
A vida de uma mulher comprometida com os pequenos

Zilda Arns Neumann nasceu em 25 de agosto de 1934, em Forquilhinha, Santa Catarina, em uma família profundamente marcada pela fé cristã e pelo espírito comunitário.
Formou-se em Medicina, especializando-se em Pediatria e Saúde Pública. Desde cedo percebeu que muitas crianças morriam não por doenças incuráveis, mas por pobreza, abandono, desnutrição e falta de acesso às informações mais elementares sobre cuidados com a saúde. Essa constatação marcou definitivamente sua vocação.
Não limitou seu trabalho aos hospitais, compreendeu que era necessário chegar às periferias, às comunidades rurais, às favelas e aos lugares onde o Estado quase nunca chegava.
Foi exatamente aí que sua missão encontrou o Evangelho.
A criação da Pastoral da Criança

Em 1983 nasceu a Pastoral da Criança, fruto da parceria entre a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e organismos internacionais preocupados com a mortalidade infantil. Entretanto, Zilda Arns deu à iniciativa uma identidade profundamente eclesial.
Sua proposta era simples e revolucionária: não esperar que os pobres chegassem aos serviços de saúde; mas formar líderes comunitários para que a própria comunidade se tornasse promotora da vida.
Inspirada na multiplicação dos pães, a Pastoral organizou milhares de voluntários que passaram a visitar famílias, acompanhar gestantes, pesar crianças, orientar sobre alimentação, incentivar o aleitamento materno e fortalecer os vínculos comunitários.
A metodologia valorizava o protagonismo popular. Os pobres deixavam de ser objetos da caridade para tornarem-se sujeitos da transformação. Essa intuição dialoga profundamente com a Teologia Latino-Americana e com a Leitura Popular da Bíblia.
A opção preferencial pelos pobres
A Conferência de Medellín (1968) afirmou que a pobreza é consequência de estruturas injustas. Puebla (1979) aprofundou essa reflexão ao declarar que os pobres possuem um rosto concreto: crianças, mulheres, indígenas, negros, trabalhadores, idosos e tantos outros marginalizados.
A missão de Zilda Arns nasce exatamente nesse horizonte. Ela não combatia apenas doenças. Combatia as causas sociais da morte. Sabia que uma criança não morre apenas por patologias clinicamente diagnosticáveis. Ela morre pela desigualdade. Morre pela fome. Morre pelo desemprego dos pais. Morre pela falta de saneamento. Morre porque a sociedade naturalizou a exclusão.
Sua prática revelava aquilo que a Teologia Latino-Americana chama de pecado estrutural. Não bastava tratar sintomas. Era necessário cuidar da vida em todas as suas dimensões.
O Reino de Deus começa na comunidade
Um dos aspectos mais belos da missão de Zilda Arns foi sua confiança no povo. Ela acreditava que qualquer pessoa poderia tornar-se agente da vida quando recebesse formação adequada. Essa convicção rompe com modelos paternalistas.
A Pastoral da Criança nunca foi construída por especialistas isolados. Foi edificada por milhares de mulheres simples. Donas de casa, avós, agricultoras, moradoras das periferias, catequistas, lideranças populares. A comunidade tornava-se sujeito da missão.
É exatamente essa a eclesiologia das Comunidades Eclesiais de Base. O Reino cresce quando cada pessoa descobre que possui dons colocados a serviço dos demais.
A espiritualidade da encarnação
A espiritualidade de Zilda Arns nunca foi desencarnada. Sua oração encontrava continuidade na visita às famílias. Sua fé tornava-se alimento distribuído. Transformava-se em vacinação, em orientação nutricional, em escuta, em abraço, em promoção da dignidade.
Essa espiritualidade recorda Tiago:
“A fé sem obras é morta.”
A Teologia Latino-Americana insiste que Deus continua assumindo a carne sofrida dos crucificados da história. Encontramos Cristo nas crianças desnutridas, nas mães desesperadas, nos idosos abandonados, nos refugiados, nos migrantes, nos povos indígenas, nas pessoas em situação de rua. Ali continua acontecendo a Encarnação.
Uma mártir da solidariedade
Em 12 de janeiro de 2010, Zilda Arns estava em Porto Príncipe, no Haiti, realizando uma missão humanitária. Naquele dia, um terremoto devastador destruiu grande parte da cidade. Ela havia acabado de proferir uma palestra sobre a importância do cuidado com as crianças quando o edifício desabou. Sua morte possui forte significado simbólico.
- Morreu servindo.
- Morreu anunciando esperança.
- Morreu junto de um povo profundamente ferido pela pobreza e pelas injustiças históricas.
Na tradição cristã, o martírio não consiste apenas em derramar sangue por causa da perseguição religiosa. Também existe o martírio daqueles que entregam inteiramente sua vida ao serviço do Reino. Sua memória permanece como testemunho dessa entrega.
O que Zilda Arns ensina à Igreja de hoje?

Vivemos tempos marcados pelo individualismo, pela indiferença e por uma espiritualidade frequentemente reduzida ao âmbito privado.
Ao mesmo tempo, persistem graves desafios: fome, desigualdade, violência, abandono de crianças, crises migratórias e fragilidade das políticas públicas.
Nesse contexto, a vida de Zilda Arns continua sendo um apelo profético. Ela recorda que evangelizar é defender a vida.
- É cuidar da infância.
- É fortalecer as famílias.
- É promover saúde, educação e justiça.
- É reconhecer que cada criança é imagem de Deus.
Uma Igreja que celebra a Eucaristia, mas ignora crianças famintas, contradiz o próprio Cristo. Uma pastoral que não toca a dor do povo perde sua credibilidade. A missão de Zilda Arns mostra outro caminho.
- Uma Igreja que visita.
- Que escuta.
- Que forma lideranças.
- Que organiza comunidades.
- Que promove cidadania.
- Que transforma sofrimento em esperança.
Conclusão
Zilda Arns permanece como uma das maiores testemunhas da caridade organizada na história recente da Igreja latino-americana.
Sua vida demonstra que a santidade pode vestir jaleco de médica, caminhar pelas periferias, ensinar mães a preparar o soro caseiro e formar milhares de voluntários comprometidos com a defesa da vida.
Sua missão traduz, em gestos concretos, o sonho do Reino de Deus anunciado por Jesus.
À luz da Teologia Latino-Americana, sua trajetória revela que a evangelização acontece quando a fé se torna compromisso histórico com os pobres e quando a Igreja assume, de forma corajosa, a missão de fazer florescer a vida onde a morte insiste em reinar.
Enquanto houver uma criança ameaçada pela fome, pela violência ou pelo abandono, a memória de Zilda Arns continuará ecoando como um chamado à conversão pastoral: seguir Jesus é colocar-se ao lado dos pequenos, pois é neles que o Reino de Deus já começa a acontecer.
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