“Todos comeram e ficaram satisfeitos.” (Mt 14,20)
Depois de apresentar o Reino dos Céus como uma realidade que é oferecida pela Graça a toda a humanidade (Mt 13,1-23), como uma força transformadora, irreversível e que cresce à medida que é acolhido e vivido pelo coração humano (Mt 13-24-43), e também como um bem incalculável oferecido por pura gratuidade, mas que exige a renúncia de todos os outros valores (Mt 13,44-52), a liturgia da Palavra, neste domingo, através do milagre da multiplicação dos pães, apresenta este Reino passando da teoria para a prática. Um reino que se manifesta não como uma mera ideia bucólica, mas como uma pessoa: Jesus Cristo.
Na primeira leitura (Is 55,1-3), ouvimos um oráculo proclamado pelo profeta Isaías e situado no período do fim do Exílio Babilônico. O povo sofreu de formas inimagináveis na escravidão. E esqueceu que seu próprios erros e pecados o tinha levado àquela situação de exílio. Diante do anúncio da libertação, o povo dividiu-se em dois grupos: aqueles que voltaram a almejar o regresso à terra prometida, e aqueles que já haviam criado raízes familiares no exílio e começavam a desejar ficar definitivamente na Babilônia.
Através da missão de Isaías, Deus convoca o seu Povo a deixar a terra da escravidão e a voltar a terra prometida. O profeta buscar reanimar aqueles haviam perdido a esperança, anunciando a volta para o lar. E assim nascem os “oráculos da consolação.” Quando o profeta, através de imagens alegóricas e poéticas, convida para comer e beber com fartura não está se limitando aos alimentos físicos abundantes. A fartura a que se refere o profeta é sobretudo a realização plena das necessidades do ser humano. No entanto, para aqueles que atendendo ao convite, voltaram do Exílio para Israel, estas promessas não se realizaram de modo instantâneo. Eles tiveram que reconstruir não só a cidade santa que havia sido destruída, mas também toda sua cultura. A promessa feita neste oráculo, assim como todas as outras promessas feitas nos oráculos dos outros profetas somente se realizaram, cinco séculos mais tarde no acontecimento da Encarnação do Verbo de Deus, evento que dá início a Nova Aliança, pelo anúncio do Evangelho de Jesus que veio para que todos tivessem vida e vida em abundância.
Na segunda leitura (Rm 8,35.37-39) o Apóstolo Paulo proclama e canta um hino que possui duas forças impulsionadoras. Ele recorda o inesgotável amor de Deus aos seres humanos, mas também nos exorta à confiança em sua providência. É esse amor que nos faz compreender porque Deus enviou ao mundo o seu próprio Filho, a fim de nos convidar para o banquete da vida eterna. Todavia somente poderemos ser testemunhas deste mesmo amor se nos deixarmos transformar pela ternura do Cristo! Escutemos e respondamos, portanto, ao seu convite para segui-lo, apesar do pouco alimento que temos para oferecer para a partilha. Pouco tempo, pouca coragem, pouca força, etc. Não importa se pouca é a nossa esperança, pouca a fé. Confiemos Nele e ofereçamos o pouco que temos. Como outrora Ele o fez, haverá também de multiplicar nossas virtudes e nos saciará de vida e de paz!
No Evangelho (Mt 14,13-21) em meio às catequeses que apresentavam os valores do Reino do Céus, o evangelista Mateus apresenta este mesmo reino manifestado de forma concreta na pessoa de Jesus Cristo e na partilha do pão consagrado.
A narração inicia fazendo menção ao martírio de João Batista e trazendo referências ao Maná, a Moisés e os profetas Elias e Eliseu. É assim que ele comunica o encerramento do Antigo Testamento. Ao manifestar sua compaixão pelo povo que o busca em meio ao deserto, Jesus, enquanto multiplica os pães, realiza em plenitude aquilo que Moisés, Elias e Eliseu, iniciaram. Moisés alimentou o povo no deserto (Ex 16). Elias alimentou a viúva de Sarepta, durante período de seca em Israel (1Rs 17,8-24). E Eliseu alimentou cem pessoas depois de abençoar vinte pães de cevada (2Rs 4,42-44).
O episódio da milagrosa multiplicação dos pães aparece em vários relatos (Mt 14,13-21; 15,32-39; Mc 6,30-44; 8,1-10; Lc 9,10-17; Jo 6,1-16). E apesar das palavras diferentes nos diversos relatos, todos desejam anunciar a mesma verdade: Através de Moisés, Deus alimentou seu povo no deserto dando-lhe o maná e codornizes, enquanto rumavam à terra prometida; na plenitude os tempos, Jesus, também no deserto, alimenta a comunidade da nova aliança, rumo à nova terra prometida, o Reino de Céus.
Nesta nova etapa da história, Jesus revela que a compaixão, já demonstrada por Deus no AT, é a atitude que guia sua ação missionária e messiânica. E nesta sua atitude se compreende que o alimento a ser oferecido não se reduzirá ao pão material. Mais do que farinha e azeite, o senhor alimenta de amor, de ternura e compaixão. Um alimento que alcança os ouvidos e o coração, porque vêm através da sua Palavra de vida eterna.
Mas se no Antigo Testamento Deus faz surgir de forma misteriosa o maná e as codornizes, a compaixão de Jesus revela que o milagre de Deus acontece mediante a abertura do coração humano. Deus não é um garçom mágico que estala os dedos atendendo nossos desejos. O Evangelho anuncia que todos os discípulos devem agir para que o Reino dos Céus aconteça. Por isso, Jesus solicita que o alimento possuído pela comunidade seja apresentado.
A quantidade apresentada parece risível de tão ínfima que é: cinco pães e dois peixes (5+2 = 7). Todavia sete é o número da totalidade. Em um mundo no qual tudo é pago, tudo deve oferecer lucro, pois tudo é movido pela obsessão do retorno econômico e do interesse pessoal, a graça de Deus se revela numa pequena porção de pão e peixe. A atitude de Jesus ecoa e grita as palavras divinas da primeira leitura: “Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa? Ouvi-me com atenção e alimentai-vos bem! Inclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida!” (Is 55,2-3). A bênção realizada por Jesus faz com que graça multiplique de forma impensável o pouco alimento que foi oferecido graças ao coração humano que venceu o egoísmo mediante o anúncio do Evangelho.
Os cinco mil homens alimentados representam a totalidade de Israel, os primeiros a receber a promessa e logo, os primeiros saciados. E os doze cestos que sobraram representam a missão dos doze apóstolos que deverão, até o fim dos tempos, saciar o povo da nova aliança com a Eucaristia. A Igreja perpetua, em obediência a ordem de Jesus, na história, ao celebrar a eucaristia, a missão de multiplicar o pão eucarístico para todos.
A Igreja permanece fiel ao mandamento do Senhor na Última Ceia e continua a celebrar este mistério, em memória de Jesus Cristo, até a sua vinda gloriosa (cf. CIC, n. 1333, Instrução Geral do Missal Romano, n. 79 d). Uma atitude compassiva que não é resultado de uma mágica, mas fruto da milagrosa graça divina que fortalece o compromisso de continuar servindo a todos “em memória Dele”.
Em cada celebração litúrgica, sintamo-nos parte desta missão. Ouçamos o chamado da Igreja para fortalecer nossa devoção e piedade eucarísticas. Sejamos fiéis na participação consciente e piedosa da Santa Missa todos os dias e sobretudo nos domingos. Contemplemos o Senhor também na adoração ao Santíssimo Sacramento. Mas também não esqueçamos de o contemplar no rosto daqueles que ainda hoje estão como ovelhas sem pastor, no rosto dos que sofrem por causa do egoísmo desmedido que impede o verdadeiro Alimento e a verdadeira Palavra de chegar a todos os filhos de Deus.
Pe. Paulo Sergio Silva
Diocese de Crato
Deixe um comentário