Jacques Maritain: pensamento a serviço da pessoa, da fé e do bem comum

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

Jacques Maritain (1882–1973) foi uma das figuras mais importantes do pensamento cristão no século XX. Filósofo, pensador político, professor, diplomata e intelectual católico, dedicou sua vida a mostrar que a fé cristã não precisava se fechar diante da modernidade, mas podia dialogar criticamente com a cultura contemporânea, com a democracia, com os direitos humanos, com as ciências, com a arte e com os grandes desafios sociais e políticos de seu tempo.

Sua obra, porém, não nasceu no isolamento. Maritain foi um pensador profundamente marcado pela amizade. Ao redor dele e de sua esposa, Raïssa Maritain, formou-se uma ampla rede de filósofos, teólogos, poetas, artistas, escritores, religiosos e militantes cristãos. Essas relações constituíram uma verdadeira comunidade intelectual, na qual a busca da verdade se unia à vida espiritual, ao compromisso ético e à responsabilidade histórica.

Entre seus amigos e interlocutores estiveram nomes como Raïssa Maritain, Charles Péguy, Georges Rouault, Léon Bloy, Étienne Gilson, Emmanuel Mounier, Yves Congar, Henri de Lubac, Nicolas Berdiaev, Simone Weil, Paul Claudel e muitos outros. Nem todos pensavam da mesma maneira, e alguns mantiveram divergências importantes com Maritain. Contudo, o diálogo entre eles ajudou a renovar o pensamento cristão e preparou, em diferentes aspectos, o ambiente intelectual que favoreceria o Concílio Vaticano II.

Estudar Jacques Maritain e seus amigos intelectuais é, portanto, compreender uma parte decisiva da história do cristianismo contemporâneo. É também perceber que a renovação da Igreja não depende apenas de documentos e instituições, mas da formação de comunidades capazes de pensar, rezar, dialogar, criar e agir em favor da dignidade humana.

1. Jacques Maritain: uma trajetória de busca pela verdade

Jacques Maritain nasceu em Paris, em 18 de novembro de 1882, em uma família de tradição protestante. Durante seus estudos na Sorbonne, entrou em contato com o ambiente intelectual francês do início do século XX, marcado pelo positivismo, pelo cientificismo e por uma visão frequentemente reduzida da razão humana.

Na universidade, conheceu Raïssa Oumançoff, jovem de origem judaico-russa, que se tornaria sua esposa, companheira intelectual e espiritual. Ambos compartilhavam uma profunda inquietação diante de uma cultura que parecia incapaz de responder às grandes perguntas sobre o sentido da vida, a verdade, o sofrimento e o destino humano.

A amizade entre Jacques e Raïssa foi decisiva para toda a trajetória de Maritain. Eles não viveram a filosofia como uma atividade puramente acadêmica. Para ambos, pensar significava procurar a verdade e abrir-se ao mistério. A filosofia, a poesia, a oração e a vida cotidiana estavam profundamente unidas.

Por influência do escritor Léon Bloy, Jacques e Raïssa aproximaram-se do catolicismo. Em 1906, receberam o batismo na Igreja Católica. A conversão não significou abandono da inteligência, mas uma nova compreensão da razão. Maritain passou a defender que a fé não destrói a razão; ao contrário, amplia seus horizontes e permite que a inteligência humana se abra às dimensões mais profundas da realidade.

Poucos anos depois, Maritain encontrou em São Tomás de Aquino uma fonte decisiva para seu pensamento. O tomismo oferecia-lhe uma visão da realidade capaz de unir razão e fé, natureza e graça, pessoa e comunidade, liberdade e verdade. Contudo, Maritain não desejava simplesmente repetir fórmulas medievais. Seu objetivo era dialogar com o mundo moderno a partir da tradição cristã.

Por isso, sua filosofia pode ser compreendida como um tomismo aberto e criativo, capaz de enfrentar questões contemporâneas como a democracia, os direitos humanos, a educação, a cultura, a política, a arte e a dignidade da pessoa.

2. Raïssa Maritain: companheira de vida, fé e pensamento

Não é possível compreender Jacques Maritain sem reconhecer a importância de Raïssa Maritain (1883–1960). Escritora, poeta, filósofa e mística, ela foi muito mais do que esposa do filósofo. Foi interlocutora, colaboradora e presença decisiva na elaboração de sua visão espiritual e intelectual.

Raïssa possuía uma sensibilidade profunda para a poesia, a contemplação e a experiência do mistério. Sua obra mostra que a inteligência não se reduz ao raciocínio lógico. Existe também uma forma de conhecimento que nasce da contemplação, da beleza, da experiência espiritual e do amor.

A casa dos Maritain tornou-se um espaço de encontro para intelectuais, artistas e cristãos. Ali se discutiam filosofia, teologia, literatura, política e cultura, mas também se rezava e se buscava viver uma espiritualidade marcada pela simplicidade e pela amizade.

A relação entre Jacques e Raïssa revela uma dimensão importante do pensamento cristão: a verdade pode ser procurada comunitariamente. O conhecimento não é apenas resultado do esforço individual; ele amadurece no diálogo, na escuta e na partilha.

A presença de Raïssa também ajudou a impedir que a filosofia de Jacques se tornasse excessivamente abstrata. Sua dimensão poética e contemplativa contribuiu para que o pensamento maritainiano permanecesse atento ao mistério, à beleza e à interioridade humana.

3. Léon Bloy: o amigo que conduziu à conversão

Entre as influências mais fortes sobre Jacques e Raïssa esteve o escritor francês Léon Bloy (1846–1917). Autor de estilo intenso e provocador, Bloy era conhecido por sua crítica radical à burguesia, ao conformismo religioso e à indiferença diante dos pobres.

Foi ele quem apresentou aos jovens Maritain uma visão do cristianismo marcada pela radicalidade do Evangelho. Para Bloy, a fé não podia ser reduzida a convenções sociais ou a uma moral confortável. Seguir Cristo exigia conversão, pobreza espiritual, coragem e abertura ao mistério.

A influência de Bloy foi decisiva na conversão dos Maritain ao catolicismo. Entretanto, Jacques não adotou todos os aspectos de seu pensamento. Com o tempo, desenvolveu uma filosofia própria, mais sistemática e aberta ao diálogo racional.

Mesmo assim, permaneceu nele a convicção de que o cristianismo não pode servir para justificar privilégios ou proteger estruturas injustas. A fé deve provocar transformação pessoal e histórica.

Essa herança é particularmente importante para o presente. Em uma sociedade marcada pela desigualdade, pela exclusão e pela concentração de riqueza, o pensamento cristão é chamado a recuperar sua dimensão profética. A fé não pode ser usada para legitimar a indiferença diante dos pobres.

4. Charles Péguy: fé, justiça e compromisso histórico

Outro importante interlocutor foi Charles Péguy (1873–1914), poeta, escritor e pensador francês. Péguy refletiu profundamente sobre a relação entre fé, justiça, esperança e responsabilidade histórica.

Embora sua trajetória fosse marcada por tensões e mudanças, sua obra expressava uma forte preocupação com os pobres, com a dignidade dos trabalhadores e com a verdade. Péguy criticava tanto o materialismo quanto uma religião desligada da vida concreta.

Para ele, a fé cristã não deveria afastar as pessoas da história, mas ajudá-las a assumir responsabilidade pelo mundo. A esperança não era fuga da realidade; era força para transformar a realidade.

Essa perspectiva dialoga profundamente com a teologia contemporânea e com a experiência das Igrejas latino-americanas. A esperança cristã não significa esperar passivamente por uma solução futura. Ela exige compromisso com a justiça, com a paz e com a dignidade dos povos.

A amizade intelectual entre Maritain e o ambiente cultural de Péguy ajudou a fortalecer a convicção de que a fé deve estar presente no mundo sem se confundir com os poderes do mundo.

5. Georges Rouault: a arte como revelação da dignidade humana

O pintor Georges Rouault (1871–1958) foi um dos grandes amigos dos Maritain. Sua obra artística apresenta figuras marcadas pelo sofrimento, pela pobreza, pela solidão e pela exclusão.

Em muitas de suas pinturas aparecem rostos de trabalhadores, prostitutas, juízes, palhaços e pessoas marginalizadas. Rouault não idealizava a realidade humana. Ele mostrava suas feridas, mas também revelava a dignidade que permanece mesmo em meio à dor.

A amizade entre Rouault e Maritain contribuiu para a reflexão sobre a relação entre arte e fé. Maritain defendia que a arte possui uma autonomia própria. O artista cristão não precisa produzir apenas obras religiosas ou moralizantes. Sua missão é criar com autenticidade e revelar a profundidade da realidade.

A beleza pode tornar-se caminho de conhecimento. A arte é capaz de mostrar aquilo que os conceitos nem sempre conseguem expressar.

Essa compreensão continua atual. Em uma cultura marcada pela rapidez, pelo consumo de imagens e pela superficialidade, a arte pode recuperar a capacidade de contemplar, denunciar e humanizar.

Além disso, a obra de Rouault recorda que os pobres e excluídos não devem ser vistos apenas como problemas sociais. São pessoas portadoras de história, dignidade e mistério.

6. Étienne Gilson e a renovação do pensamento tomista

Étienne Gilson (1884–1978) foi um dos grandes historiadores da filosofia medieval e um importante representante da renovação do pensamento de São Tomás de Aquino.

Gilson e Maritain compartilhavam a convicção de que a filosofia tomista possuía grande capacidade de dialogar com o mundo moderno. Contudo, cada um desenvolveu caminhos próprios.

Gilson dedicou-se especialmente ao estudo histórico do pensamento medieval e à compreensão do ser. Maritain procurou aplicar a inspiração tomista às questões culturais, políticas, educacionais e sociais de seu tempo.

A contribuição dos dois foi importante para superar a ideia de que a tradição medieval seria apenas um conjunto de doutrinas ultrapassadas. Eles mostraram que a tradição pode ser uma fonte viva de reflexão.

A fidelidade à tradição não significa repetição mecânica. Significa recuperar seus princípios fundamentais e colocá-los em diálogo com novas situações.

Esse ensinamento permanece relevante para a Igreja atual. A tradição cristã não deve ser utilizada como instrumento de fechamento ou nostalgia. Ela precisa ser interpretada de modo vivo, em diálogo com os desafios históricos.

7. Emmanuel Mounier e o personalismo comunitário

Emmanuel Mounier (1905–1950), fundador da revista Esprit, foi um dos grandes representantes do personalismo cristão. Embora existissem diferenças entre Mounier e Maritain, ambos defendiam a centralidade da pessoa humana e criticavam tanto o individualismo liberal quanto os sistemas totalitários.

O personalismo afirmava que a pessoa não é uma coisa, um instrumento econômico ou um simples elemento da sociedade. Cada pessoa possui dignidade própria e não pode ser reduzida à sua utilidade.

Ao mesmo tempo, a pessoa não vive isolada. Ela se realiza nas relações, na comunidade, na solidariedade e na participação social.

Essa visão pode ser resumida na expressão pessoa em comunidade. A liberdade não é apenas a possibilidade de escolher individualmente; é também a capacidade de participar da construção do bem comum.

Mounier foi particularmente sensível às crises sociais de seu tempo. Criticou o capitalismo desumanizador, o individualismo e as formas autoritárias de organização política.

O diálogo entre Mounier e Maritain ajudou a construir uma visão cristã que recusava tanto o egoísmo individualista quanto o coletivismo que elimina a liberdade pessoal.

Hoje, essa reflexão continua fundamental. As sociedades contemporâneas enfrentam a solidão, a fragmentação social, a precarização do trabalho e o enfraquecimento dos vínculos comunitários. O personalismo recorda que a dignidade humana exige relações de solidariedade e participação.

8. Yves Congar e Henri de Lubac: caminhos para a renovação da Igreja

Jacques Maritain também dialogou com teólogos que contribuíram para a renovação católica do século XX, entre eles Yves Congar (1904–1995) e Henri de Lubac (1896–1991).

Yves Congar desenvolveu uma profunda reflexão sobre a Igreja, o ecumenismo, a participação dos leigos e a necessidade de renovação eclesial. Defendia que a Igreja deveria retornar às fontes bíblicas e patrísticas para responder aos desafios contemporâneos.

Henri de Lubac, por sua vez, contribuiu para recuperar a dimensão comunitária e histórica da fé cristã. Sua teologia questionava interpretações excessivamente individualistas e abstratas do cristianismo.

Esses teólogos, juntamente com outros pensadores, ajudaram a preparar o caminho para o Concílio Vaticano II (1962–1965).

Embora Maritain não possa ser considerado o único inspirador do Concílio, sua reflexão sobre a pessoa, a liberdade, a democracia, os direitos humanos e a presença dos cristãos no mundo influenciou o ambiente intelectual que tornou possível a renovação conciliar.

A Constituição Gaudium et Spes apresenta uma Igreja chamada a dialogar com as alegrias, as esperanças, as tristezas e as angústias da humanidade. Essa visão possui forte afinidade com a preocupação de Maritain em construir uma relação aberta e responsável entre fé e mundo.

9. Simone Weil: amizade, sofrimento e busca da verdade

Simone Weil (1909–1943) foi uma filósofa, militante e mística francesa. Sua relação com os Maritain foi marcada por profunda admiração e diálogo.

Weil dedicou-se à reflexão sobre o sofrimento, a injustiça, o trabalho operário e a opressão. Trabalhou em fábricas para conhecer diretamente a realidade dos trabalhadores e denunciou estruturas sociais que transformavam pessoas em instrumentos de produção.

Sua experiência espiritual foi intensa, embora tenha permanecido em uma relação complexa com a Igreja institucional.

Maritain reconhecia a profundidade de sua busca e valorizava sua preocupação com os pobres e os sofredores.

A presença de Simone Weil no círculo intelectual ligado aos Maritain mostra que a amizade cristã não exige uniformidade. É possível dialogar com pessoas que vivem experiências religiosas e filosóficas diferentes.

A busca sincera pela verdade pode criar vínculos mesmo quando existem divergências.

Sua reflexão continua atual diante das novas formas de exploração do trabalho, da precarização, da pobreza e da invisibilidade social.

10. Nicolas Berdiaev e a liberdade espiritual

Nicolas Berdiaev (1874–1948), filósofo russo de tradição cristã ortodoxa, também esteve ligado ao ambiente intelectual dos Maritain.

Berdiaev defendia que a pessoa humana possui uma vocação criadora e livre. Criticava sistemas políticos e religiosos que transformavam a fé em instrumento de controle.

Sua visão espiritual valorizava a liberdade, a criatividade e a responsabilidade.

O diálogo entre Berdiaev e Maritain contribuiu para ampliar a reflexão cristã sobre a pessoa. A liberdade não pode ser compreendida apenas como ausência de limites. Ela possui uma dimensão ética e espiritual.

Ser livre significa orientar a própria vida para a verdade, para o amor e para o bem.

Essa visão é importante diante de ideologias que utilizam a religião para justificar autoritarismos. A fé cristã não deve eliminar a liberdade, mas promovê-la.

11. O humanismo integral: uma proposta para o mundo moderno

Uma das principais contribuições de Jacques Maritain foi o conceito de humanismo integral.

Em sua obra Humanismo Integral, publicada em 1936, Maritain criticou os modelos de sociedade que reduziam o ser humano à economia, à política, à raça, ao Estado ou ao indivíduo isolado.

Para ele, o ser humano possui uma dimensão material, social, cultural, ética e espiritual. Uma sociedade verdadeiramente humana precisa reconhecer todas essas dimensões.

O humanismo cristão não deve impor a fé pela força. Deve contribuir para a construção de uma sociedade na qual a dignidade humana seja respeitada.

Maritain propunha uma nova cristandade, não entendida como domínio político da Igreja, mas como presença inspiradora dos valores evangélicos na vida social.

Essa proposta defendia:

  • o respeito à dignidade de cada pessoa;
  • a liberdade religiosa;
  • a participação democrática;
  • a defesa dos direitos humanos;
  • a justiça social;
  • a valorização das comunidades;
  • o compromisso com o bem comum;
  • a abertura à transcendência.

Sua reflexão foi particularmente importante diante do crescimento dos totalitarismos no século XX. Maritain criticou o fascismo, o nazismo e as formas de autoritarismo que negavam a dignidade da pessoa.

Ao mesmo tempo, criticou o individualismo que transforma a liberdade em egoísmo.

12. Maritain, democracia e direitos humanos

Após a Segunda Guerra Mundial, Jacques Maritain participou de debates internacionais sobre os direitos humanos. Atuou como embaixador da França junto à Santa Sé e esteve ligado aos debates que contribuíram para a elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada em 1948.

Maritain compreendia que pessoas de diferentes tradições religiosas e filosóficas poderiam chegar a acordos práticos sobre a dignidade humana, mesmo sem compartilhar a mesma visão metafísica.

Essa ideia foi fundamental para o diálogo democrático.

Não é necessário que todos pensem da mesma maneira para defender direitos fundamentais. É possível construir consensos éticos baseados na dignidade da pessoa. Essa perspectiva possui grande relevância no mundo atual, marcado por polarizações políticas, religiosas e culturais. A democracia não exige uniformidade. Exige respeito, diálogo, participação e compromisso com o bem comum.

O pensamento de Maritain recorda que a fé cristã não deve ser confundida com um partido ou uma ideologia. Os cristãos são chamados a participar da vida pública, mas devem preservar a autonomia da consciência e a liberdade de todos.

13. A importância de Maritain para o pensamento cristão de seu tempo

No século XX, Jacques Maritain contribuiu para superar diversas formas de fechamento presentes no pensamento cristão.

Ele ajudou a mostrar que:

  1. a fé pode dialogar com a razão moderna sem abandonar sua identidade;
  2. a tradição tomista pode ser criativa e atual, não apenas repetitiva;
  3. a democracia pode ser valorizada pelos cristãos como espaço de participação e defesa da dignidade humana;
  4. os direitos humanos possuem profunda afinidade com a visão cristã da pessoa;
  5. a Igreja deve dialogar com o mundo, sem perder sua missão evangélica;
  6. a cultura e a arte possuem valor próprio, podendo revelar dimensões profundas da existência;
  7. a política deve estar orientada para o bem comum, e não para interesses particulares;
  8. a pessoa humana deve estar acima do Estado, do mercado e das ideologias.

Sua obra ajudou a formar gerações de intelectuais cristãos, educadores, políticos, teólogos e agentes pastorais.

14. A atualidade de Jacques Maritain

A contribuição de Maritain permanece relevante no século XXI.

Vivemos em uma época marcada pela polarização política, pelo crescimento de discursos autoritários, pela desigualdade econômica, pela crise ambiental, pela fragilidade dos vínculos sociais e pela utilização da religião como instrumento de poder.

Nesse contexto, seu pensamento oferece importantes caminhos.

14.1. Contra a polarização

Maritain ensina que a verdade não deve ser usada como arma contra os outros. O diálogo não significa relativismo, mas disposição para reconhecer a dignidade de quem pensa de modo diferente.

14.2. Contra o individualismo

A pessoa não se realiza sozinha. A vida humana exige solidariedade, participação e responsabilidade comunitária.

14.3. Contra o autoritarismo

Nenhum Estado, partido ou líder possui direito absoluto sobre a pessoa. A dignidade humana deve ser respeitada.

14.4. Contra a instrumentalização da fé

A religião não pode ser reduzida a instrumento eleitoral ou ideológico. O Evangelho deve manter sua liberdade profética.

14.5. Em favor dos direitos humanos

A defesa da vida, da liberdade, da justiça e da dignidade continua sendo tarefa fundamental dos cristãos.

14.6. Em favor do diálogo

A sociedade plural exige capacidade de convivência. Maritain oferece fundamentos para uma cultura do encontro baseada na dignidade humana.

15. Maritain e a Teologia Latino-Americana

Embora Jacques Maritain não pertença diretamente à Teologia Latino-Americana, alguns elementos de seu pensamento contribuíram para criar condições favoráveis ao desenvolvimento de uma reflexão cristã comprometida com a história e com a transformação social.

Sua defesa da dignidade humana, do bem comum e da participação política encontrou ressonância em diferentes contextos latino-americanos.

A Teologia Latino-Americana aprofundou questões que Maritain tratou de modo mais filosófico. Enquanto o filósofo refletia sobre a pessoa e a sociedade, os teólogos latino-americanos colocaram no centro a realidade dos pobres, dos povos marginalizados e das vítimas das estruturas de injustiça.

A opção preferencial pelos pobres, afirmada pelas Conferências Episcopais Latino-Americanas, amplia a exigência ética do humanismo cristão.

A partir da Leitura Popular da Bíblia, pode-se afirmar que a dignidade humana não é uma ideia abstrata. Ela se manifesta concretamente na defesa da vida dos pobres, na luta contra a fome, no cuidado com os excluídos e na construção de relações de justiça.

Nesse sentido, o humanismo integral pode ser enriquecido pela pergunta: quem são hoje as pessoas cuja dignidade está sendo negada? Essa pergunta conduz a uma fé comprometida com a realidade.

Conclusão

Jacques Maritain foi um dos grandes pensadores cristãos do século XX porque soube unir filosofia, fé, cultura, política e responsabilidade social.

Sua obra não pode ser separada das amizades que cultivou. Raïssa Maritain, Léon Bloy, Charles Péguy, Georges Rouault, Étienne Gilson, Emmanuel Mounier, Yves Congar, Henri de Lubac, Simone Weil e Nicolas Berdiaev representam diferentes caminhos de busca pela verdade.

Essas amizades mostram que o pensamento cristão se desenvolve no encontro. A verdade não é propriedade de um grupo, mas uma realidade que convida ao diálogo, à contemplação e ao compromisso.

A grande contribuição de Maritain foi afirmar que a fé cristã pode participar da construção de uma sociedade democrática, plural e solidária.

Para o presente, sua mensagem permanece clara: a pessoa humana não pode ser reduzida ao mercado, ao Estado, à ideologia ou à utilidade econômica.

A política deve servir ao bem comum. A cultura deve promover a dignidade. A Igreja deve dialogar com o mundo. A fé deve conservar sua liberdade profética.

Em uma sociedade marcada pela desigualdade e pela polarização, Jacques Maritain continua a lembrar que a verdadeira renovação humana exige a união entre liberdade, verdade, justiça e amor.

Seu legado pode ser resumido em uma convicção fundamental:

Uma sociedade será verdadeiramente humana quando reconhecer a dignidade de cada pessoa e organizar suas instituições a serviço do bem comum.

Por isso, estudar Jacques Maritain não é apenas olhar para o passado. É buscar inspirações para construir, no presente, uma cultura do encontro, uma política orientada pela justiça e uma fé comprometida com a dignidade de todos.

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