A catequese que escuta o grito da terra: ecologia integral no chão do Rio de Janeiro

Seny Giannini*

Nos dois textos anteriores, vimos que a defesa dos vulneráveis está na raiz da catequese — no Êxodo, na samaritana, na Didaqué — e que a Igreja transformou essa defesa em magistério: de Medellín às Diretrizes 2026-2032, a catequese tem uma dimensão social irrenunciável. Ficou, porém, uma pergunta no ar: e a terra? O grito da terra que a Laudato Si’ menciona junto com o grito dos pobres — onde ele entra na catequese? Este texto responde: no mesmo lugar. Porque o grito da terra e o grito dos pobres são o mesmo grito.

Uma observação antes de começar: o Rio de Janeiro é um recorte, não o horizonte. A Laudato si’ é um documento para a Igreja universal — vale para toda paróquia, em qualquer cidade, em qualquer bioma. Escolho falar sobre o Rio porque é onde caminho, onde respiro e onde os dados me interpelam. O leitor de Manaus, de Recife ou de Porto Alegre encontrará, no seu próprio chão, o mesmo grito com outro endereço. O que muda é o CEP; o que não muda é a escuta que a fé exige.

O ar que respiramos: o grito que não se vê

Deixe-me começar pelo que eu vejo. Integro um projeto de análise e enfrentamento dos impactos da baixa qualidade do ar na cidade do Rio de Janeiro, desenvolvido pela Pastoral da Ecologia Integral da Arquidiocese, com apoio do ISER — Instituto de Estudos da Religião — e da iniciativa global Breathe Cities. E o que os dados mostram é duro.

Um estudo de 2025, baseado no sistema EpiRio da Prefeitura, concluiu que a poluição do ar pode ter contribuído para a morte de 8,5% das crianças de até cinco anos na Zona Oeste do Rio — em Bangu e Santa Cruz, bairros onde a mortalidade infantil já era a mais alta da cidade. Os pesquisadores estimaram que esses óbitos poderiam ser evitados caso o limite da Organização Mundial da Saúde fosse respeitado. É preciso ler devagar: crianças morrem mais cedo porque o ar que respiram é poluído — e são as crianças dos bairros mais pobres.

Aqui está o ponto teológico: a poluição do ar não é democrática. Ela se concentra onde mora o povo pobre — perto das vias expressas, das indústrias, dos aterros. O mesmo ar que fere a criação fere os pequenos. É exatamente o que o Papa Francisco nomeou na Laudato si’: “ouvir tanto o grito da terra como o grito dos pobres” (LS 49). No Rio de Janeiro, esses dois gritos têm o mesmo endereço.

A Ruah: o sopro de Deus é o ar

E aqui a Bíblia nos dá algo que nenhum relatório ambiental dá. No segundo relato da criação,

“o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o hálito da vida, e o homem tornou-se um ser vivente” (Gn 2,7).

Esse hálito — Ruah em hebraico — é sopro, vento, ar, espírito. É a mesma palavra para o Espírito de Deus que pairava sobre as águas (Gn 1,2) e para o vento que abre o mar (Êx 14,21). A vida humana começa quando Deus sopra ar.

E o sopro não parou no primeiro dia. O Salmo 104 canta:  “quando lhes tiras o hálito, morrem e voltam ao seu pó; quando envias o teu Espírito, são criados, e tu renovas a face da terra” (Sl 104,29-30).

A Ruah é o sopro que sustenta a vida a cada instante — não só a criou, mas a renova sem cessar. Cada respiração é um eco desse sopro contínuo de Deus. Por isso, o ar que as crianças de Bangu e Santa Cruz respiram é o mesmo ar que Deus sopra para dar e sustentar a vida. Quando a poluição fere esse ar, ela fere, no mesmo gesto, o dom primeiro de Deus — o sopro que faz viver e que renova a face da terra. A Ruah não é metáfora distante: é o oxigênio que enche os pulmões de cada catequizando. Uma catequese que fala do Espírito Santo e não cuida do ar que respira é uma contradição.

E o Novo Testamento confirma: no Pentecostes, o Espírito desce “como um vento impetuoso” (At 2,2) — de novo Ruah, de novo ar em movimento. A Igreja nasce de um sopro. Cuidar do ar é, portanto, cuidar da matéria-prima da vida e da matéria-prima da missão.

E há uma consequência que vai além do ar. Se a vida começa com o sopro de Deus e termina quando ele retira o hálito (Sl 104,29), então a vida inteira é território do Imago Dei — a imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27) que deve ser respeitada da concepção à morte natural. Entre esses dois extremos, porém, muita coisa pode acontecer: o ar poluído que mata aos poucos, a fome que desgasta, a violência que amedronta, a negligência que apaga rostos. A defesa da vida não se limita a defender os dois extremos — ela exige dignificar a vida no meio do caminho, onde ela é lentamente corroída. É o que as Diretrizes 2026-2032 unem no mesmo compromisso: a promoção da dignidade humana “da concepção ao fim natural” inclui o ar que se respira, a água que se bebe e o bairro em que se vive. Uma catequese que defende a vida no seu início e no seu fim, e não cuida da vida no seu meio, defende o Imago Dei pela metade.

A Laudato Si’: a criação como questão de fé

Por que uma catequista falaria de ar? Porque a Igreja manda — e manda há muito tempo.

A Laudato Si’ (2015) não é uma carta sobre meio ambiente. É uma carta sobre ecologia integral: a convicção de que tudo está interligado — a terra, os pobres, a economia, a política, a espiritualidade. “Tudo está interligado”, repete Francisco (LS 117, 138, 240). E a encíclica é explícita: “um verdadeiro enfoque ecológico converte-se sempre num enfoque social” (LS 49). Não existe ecologia sem justiça, nem justiça sem cuidado da criação.

E aqui está o que interessa à catequese: no capítulo 6, a Laudato si’ nomeia a catequese como um dos âmbitos educativos da conversão ecológica — “a escola, a família, os meios de comunicação, a catequese, e outros” (LS 213). A educação ambiental, diz o Papa, deve criar uma “cidadania ecológica” que não se limite a informar, mas faça amadurecer hábitos (LS 211). E as comunidades cristãs têm um papel importante nessa educação (LS 214).

Repare: a Laudato si’ não pede que a catequese fale de ecologia. Pede que a catequese eduque para o cuidado — que forme hábitos, que crie cidadania. É a mesma lógica do Diretório de 1997 com a doutrina social: não é tema opcional, é âmbito educativo nomeado pelo Papa.

A criação na Bíblia: o clamor que Deus ouve

Quem acompanha a série sabe que eu sempre volto às raízes. E a Bíblia é clara: Deus ouve o clamor da terra ferida.

No Êxodo, Deus desce porque ouviu o clamor dos escravizados (Êx 3,7-8). O clamor, porém, não é só humano. A terra pertence a Deus, e os humanos são hóspedes e peregrinos:

A terra não deve ser vendida em perpetuidade, porque a terra é minha” (Lv 25,23). Os profetas falam da terra que pranteia (Os 4,1-3), da criação que geme (Rm 8,19-22). E o Salmo 24 afirma: “ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se encontra”.

A Didaqué, aquele primeiro catecismo cristão que já vimos, ordenava repartir com o necessitado — e repartir inclui a terra e seus frutos. A doutrina social da Igreja consolidou o destino universal dos bens da terra: os bens da criação são para todos, não para poucos (CIC 2402-2406).

Ou seja: quando a catequese ensina que Deus criou o mundo e o entregou ao cuidado humano  (Gn 2,15 — “para que o cultivasse e o guardasse“), ela está ensinando ecologia. Não ecologia de partido, mas ecologia de fé: a terra é dom, e dom se cuida.

As Diretrizes 2026-2032: o cuidado da Casa Comum como caminho

E no Brasil de hoje? As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora 2026-2032 (Documento 114) colocaram o cuidado da Casa Comum à luz da ecologia integral como um dos três compromissos do quinto caminho — o Serviço à Vida Plena — junto com a opção pelos pobres e a promoção da dignidade humana.

Note a estrutura: opção pelos pobres e cuidado da Casa Comum no mesmo caminho. Não são duas pastorais separadas — são um só compromisso. É a Laudato Si’ virando programa da Igreja no Brasil: quem cuida dos pobres cuida da terra que eles habitam; quem cuida da terra cuida dos pobres que a cultivam.

E o segundo caminho — a Iniciação à Vida Cristã — é o território da catequese. Ou seja: nas Diretrizes de 2026, a catequese e a ecologia integral são dois caminhos do mesmo documento, chamados a se atravessar. É a Laudato si’ n. 213 de novo — a catequese como âmbito educativo da conversão ecológica — agora com endereço brasileiro através da CNBB. 

O  que isso significa para nós, catequistas

Se o Texto 2 mostrou que a catequese tem dimensão social irrenunciável, este texto mostra que essa dimensão inclui a criação — e que, no chão do Rio de Janeiro, isso não é abstração. Na prática, quatro consequências.

Primeiro: ensinar ecologia é catequese, não militância. A Laudato si’ nomeou a catequese como âmbito educativo (LS 213) e as Diretrizes 2026-2032 colocaram o cuidado da Casa Comum entre os compromissos da evangelização. Quando a catequese ensina que a terra é dom de Deus e que o ar poluído fere os pequenos, ela está fazendo o que a Igreja manda — não está fazendo política ambiental.

Segundo: o grito da terra tem endereço. No Rio, são Bangu e Santa Cruz, a Zona Oeste, os bairros onde a mortalidade infantil por causa do ar é a mais alta. Catequizar nesses bairros é catequizar no epicentro do grito. E a catequese que não escuta esse grito está deixando de fora uma parte da sua tarefa que não pode ser negligenciada — não sei quantificar se é metade, se é um terço; sei que é parte essencial, e parte essencial não se deixa de fora.

Terceiro: a conversão ecológica se aprende em pequenos gestos. A Laudato Si’ é clara: a educação deve motivar para “pequenas ações diárias” até dar forma a um estilo de vida (LS 211). Na catequese, isso pode ser simples: uma horta comunitária no quintal da paróquia, a separação do lixo como gesto litúrgico do cotidiano, uma caminhada de escuta do bairro — onde as crianças e os adultos aprendem a ver o que o ar esconde.

Quarto: o cuidado é espiritualidade, não só técnica. A Laudato Si’ termina com duas orações — uma para partilhar com todos, outra para os que creem em Jesus (LS 246). A conversão ecológica é, antes de tudo, conversão: passar do consumismo à gratuidade, da indiferença ao cuidado. E isso se aprende rezando — e respirando, porque cada respiração é um eco da Ruah que Deus soprou no primeiro dia.

No fim, a pergunta que este texto deixa é a mesma da série, agora com o ar como endereço: a minha catequese escuta o grito da terra que as crianças do meu bairro respiram? A resposta, a Igreja já deu — da Laudato Si’, para a Igreja inteira, em qualquer cidade. Resta a nós responder com a vida, aqui onde Deus nos plantou. E é descendo ao encontro dos pequenos — os da Zona Oeste, os do ar poluído, os da horta comunitária — que a catequese cumpre a sua vocação: anunciar um Deus que soprou a Ruah no pó da terra, e que ouve, no mesmo ouvido, o grito da terra e o grito dos pobres.

Referências

Documentos do magistério:

Bíblia:

·       Bíblia Sagrada: Gênesis 1,2; 1,26-27; 2,7; 2,15; Êxodo 3,7-8; 14,21; Levítico 25,23; Oséias 4,1-3; Salmo 24,1; Salmo 104,29-30; Romanos 8,19-22; Atos 2,2.

Dados e contexto:

  1. AGÊNCIA BRASIL. “Poluição do ar pode ter causado morte de crianças na Zona Oeste do Rio” (3 ago. 2025). Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-08/poluicao-do-ar-pode-ter-causado-morte-de-criancas-na-zona-oeste-do-rio
  2. FOLHA DE S.PAULO. “Poluição do ar contribui para morte de crianças na zona oeste do Rio de Janeiro, diz estudo” (31 jul. 2025). Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2025/07/poluicao-do-ar-contribui-para-morte-de-criancas-na-zona-oeste-do-rio-de-janeiro-diz-estudo.shtml
  3. BREATHE CITIES. “Rio de Janeiro”. Disponível em: https://breathecities.org/cities/rio-de-janeiro/
  4. CLEAN AIR FUND. “Rio de Janeiro launches Breathe Cities initiative to tackle air pollution” (15 nov. 2024). Disponível em: https://www.cleanairfund.org/news-item/rio-de-janeiro-breathe-cities/
  5. DIDAQUÉ: a instrução dos doze apóstolos – 1ª Edição,  Londrina. Livraria Família Cristã.

*Seny Giannini — Bacharelanda em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco.


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