A Santidade que brota da Justiça: os Santos e a Esperança dos Pobres

Comentário bíblico-pastoral da Solenidade de Todos os Santos — Ap 7,2-4.9-14; 1Jo 3,1-3; Mt 5,1-12a

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A Solenidade de Todos os Santos nos convida a contemplar a multidão daqueles que, acolhendo o amor de Deus, fizeram de suas vidas testemunho do Reino. A santidade cristã, porém, não pode ser reduzida a uma realidade distante, reservada a pessoas extraordinárias ou desligada dos conflitos da história. À luz da Palavra de Deus e da Teologia Latino-americana, ser santo significa deixar-se transformar pelo Espírito, assumir o projeto libertador de Jesus e participar da construção de uma sociedade na qual a dignidade humana, a justiça e a vida sejam respeitadas. Os textos proclamados nesta celebração revelam que a esperança dos pobres, a fidelidade dos perseguidos e o compromisso com a justiça pertencem ao coração da santidade cristã.

1. Apocalipse 7,2-4.9-14: a multidão que atravessa a tribulação

O livro do Apocalipse foi escrito em um contexto de conflitos entre as comunidades cristãs e os poderes dominantes do Império Romano. Sua linguagem simbólica oferecia resistência à ideologia imperial e fortalecia a esperança de comunidades submetidas à perseguição, à exclusão e à pressão para abandonar sua fidelidade ao Cordeiro.

A marca colocada na fronte dos servos de Deus evoca a pertença ao Senhor e a proteção divina. O número dos assinalados, 144 mil, resulta de uma composição simbólica de doze por doze por mil, relacionada à plenitude do povo de Deus. Na sequência, João contempla uma multidão incontável, de todas as nações, tribos, povos e línguas, vestida de branco e com palmas nas mãos. A imagem amplia o horizonte da salvação: Deus reúne uma humanidade diversa, que não se limita a uma única origem étnica ou cultural.

Quando um dos anciãos pergunta quem são aqueles vestidos de branco, a resposta identifica-os como os que vieram da grande tribulação e lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro. Não se trata de glorificar o sofrimento em si, mas de reconhecer a fidelidade daqueles que atravessaram as provações sem abandonar o testemunho de Jesus. O sangue do Cordeiro remete à entrega de Cristo, cuja vitória não se realiza pela dominação, mas pelo amor que enfrenta a violência e permanece fiel até a morte.

Na realidade latino-americana, essa multidão nos recorda os mártires da caminhada: agentes pastorais, indígenas, quilombolas, camponeses, defensores dos direitos humanos e tantas pessoas assassinadas por resistirem à injustiça. A memória de Irmã Dorothy Stang, de tantos mártires da terra e de lideranças indígenas perseguidas encontra aqui uma ressonância pastoral, sem que isso signifique identificar automaticamente cada vítima com os símbolos específicos da visão apocalíptica.

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) ajudam a Igreja a reconhecer, nos conflitos fundiários, na invasão de territórios tradicionais, na violência contra comunidades e na destruição ambiental, situações que exigem discernimento evangélico e compromisso. A esperança apocalíptica não autoriza a passividade: anuncia que os poderes da morte não terão a última palavra e convoca os cristãos a defender a vida já no presente.

2. 1 João 3,1-3: filhos e filhas de Deus, chamados à transformação

A Primeira Carta de João recorda uma verdade fundamental da fé: “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos!” A identidade cristã nasce do amor gratuito de Deus, não de méritos individuais, posição social, riqueza ou prestígio religioso.

O texto afirma que ainda não se manifestou plenamente aquilo que seremos, mas que, quando Cristo se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos como ele é. A esperança futura, portanto, orienta a vida presente. A filiação divina não é um título abstrato: implica uma existência progressivamente configurada ao modo de ser de Jesus.

A santidade consiste em acolher esse amor e permitir que ele transforme nossas relações, nossas escolhas e nossas estruturas de convivência. Se todas as pessoas são chamadas a viver como filhas e filhos de Deus, nenhuma pode ser tratada como descartável. O racismo, a exploração do trabalho, a violência contra as mulheres, a expulsão de famílias de suas terras e a negação dos direitos dos povos indígenas contradizem a dignidade que a fé reconhece em cada ser humano.

Na perspectiva da Teologia Latino-americana, essa afirmação ganha força quando lida a partir dos pobres. A opção preferencial pelos pobres, reafirmada pelo Magistério da Igreja latino-americana, não significa excluir os demais, mas reconhecer que Deus escuta o clamor de quem sofre e chama toda a comunidade à conversão. As CEBs tornam concreta essa vocação quando promovem a leitura comunitária da Bíblia, a solidariedade, a formação da consciência crítica e a participação dos leigos e leigas na missão evangelizadora.

A esperança de nos tornarmos semelhantes a Cristo exige, desde agora, uma Igreja que se pareça com ele: próxima dos feridos, comprometida com a verdade, humilde no serviço e corajosa diante das injustiças. A santidade não é fuga do mundo, mas transformação da vida segundo o amor de Deus.

3. Mateus 5,1-12a: as bem-aventuranças e a santidade que subverte os valores dominantes

No Evangelho de Mateus, Jesus sobe à montanha, senta-se e começa a ensinar seus discípulos, enquanto a multidão permanece no horizonte da cena. A montanha evoca a tradição de Moisés e apresenta Jesus como aquele que interpreta plenamente a vontade de Deus. As bem-aventuranças inauguram o Sermão da Montanha e revelam a lógica do Reino dos Céus, que confronta os critérios de sucesso, poder e felicidade predominantes na sociedade.

“Felizes os pobres em espírito” não é uma exaltação da miséria nem uma justificativa para a desigualdade. A expressão aponta para aqueles que reconhecem sua dependência de Deus e não fazem da riqueza ou do poder o fundamento da existência. Em diálogo com a realidade dos pobres, essa bem-aventurança impede que a espiritualidade seja utilizada para legitimar a pobreza imposta e a concentração de bens.

“Felizes os que choram” anuncia consolo para aqueles atingidos pela violência, pelo luto, pela fome, pelo despejo e pela perda de seus territórios. “Felizes os mansos” não celebra a submissão diante da opressão, mas aponta para a força não violenta daqueles que recusam reproduzir a lógica da dominação. A promessa de que herdarão a terra adquire especial ressonância em um continente marcado pela concentração fundiária, pela grilagem e pelos conflitos territoriais.

“Felizes os que têm fome e sede de justiça” expressa uma busca profunda pela vontade de Deus e pela restauração de relações justas. Não basta praticar gestos isolados de caridade quando as estruturas continuam produzindo fome e exclusão. A misericórdia, por sua vez, leva a comunidade a aproximar-se de quem sofre, enquanto a pureza de coração exige coerência entre fé professada e prática cotidiana. Promover a paz significa construir relações reconciliadas sem ocultar a verdade nem silenciar as vítimas.

Jesus declara felizes os perseguidos por causa da justiça e aqueles que sofrem insultos por causa dele. A perseguição não torna automaticamente santa toda causa ou todo sofrimento; a bem-aventurança se refere à fidelidade ao Reino e à justiça de Deus. Na história latino-americana, ela ilumina o testemunho de quem enfrenta ameaças por defender camponeses, indígenas, quilombolas, trabalhadores e comunidades vulnerabilizadas.

A Teologia Latino-americana encontra nas bem-aventuranças um horizonte de libertação integral. Elas não prometem uma felicidade alienada, adiada exclusivamente para depois da morte. Anunciam a presença do Reino na história e convidam a comunidade cristã a participar de sua realização, mantendo viva a esperança de sua plenitude definitiva.

4. Da celebração à missão: construir comunidades de bem-aventurados

A Solenidade de Todos os Santos não é apenas uma recordação daqueles que chegaram à plenitude da vida em Deus. É também uma convocação dirigida à Igreja peregrina. A santidade celebrada na liturgia precisa tornar-se compromisso pastoral concreto, especialmente junto daqueles cuja dignidade é negada.

As Comunidades Eclesiais de Base são chamadas a fortalecer a leitura popular da Bíblia, a formação de lideranças, a participação das mulheres e dos jovens, a solidariedade com as famílias vulnerabilizadas e a organização comunitária em defesa dos direitos. Reunidas em torno da Palavra, da Eucaristia e da vida do povo, devem ser espaços de escuta, discernimento, participação e compromisso com a transformação social.

A Comissão Pastoral da Terra é chamada a continuar acompanhando os trabalhadores e trabalhadoras rurais, denunciando a violência no campo, apoiando a luta por terra e território e promovendo práticas de cuidado com a Casa Comum. O CIMI, por sua vez, contribui para que a Igreja caminhe ao lado dos povos indígenas na defesa de seus territórios, culturas, espiritualidades e direitos. Essas missões precisam ser realizadas com respeito ao protagonismo das próprias comunidades, sem paternalismo e sem substituir sua voz.

Na prática pastoral, isso significa transformar a solidariedade em ação organizada: acompanhar famílias ameaçadas de despejo, apoiar iniciativas de segurança alimentar, defender o acesso à moradia e ao trabalho digno, combater o racismo e a discriminação, promover a educação em direitos e fortalecer a participação popular. Significa também cultivar uma espiritualidade que una oração e compromisso, contemplação e serviço, celebração e responsabilidade histórica.

A Eucaristia, centro da vida cristã, envia a comunidade a reconhecer Cristo nos pobres e a construir fraternidade. Não existe verdadeira comunhão com o Senhor quando se permanece indiferente à fome, à violência ou à destruição da Casa Comum.

Conclusão

As leituras da Solenidade de Todos os Santos revelam uma santidade enraizada no amor de Deus, amadurecida na fidelidade a Cristo e testemunhada na busca da justiça. O Apocalipse proclama a vitória do Cordeiro e a esperança de uma humanidade reconciliada; a Primeira Carta de João recorda que somos filhos e filhas de Deus; e o Evangelho apresenta as bem-aventuranças como caminho de felicidade e transformação.

Na caminhada das CEBs, da CPT e do CIMI, essa Palavra torna-se convite à conversão pessoal e comunitária, à defesa dos pobres e à resistência diante de tudo o que ameaça a vida. Os santos e santas não nos afastam da história: mostram-nos como atravessá-la com fé, coragem e misericórdia.

Celebrar Todos os Santos é reconhecer que a santidade floresce onde o amor vence o egoísmo, onde a justiça enfrenta a opressão e onde a esperança sustenta os que lutam por um mundo mais fraterno. É assumir, como Igreja discípula, missionária e profética, que o Reino de Deus começa a manifestar-se sempre que a vida é defendida e os pobres deixam de ser invisíveis. A multidão vestida de branco continua a interpelar nossas comunidades: que nossas celebrações produzam compromisso, que nossa fé se traduza em justiça e que nossa esperança se torne caminho de libertação para todos os povos.


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