Agora é tempo de amar!

É tempo de curar as feridas, reconstruir pontes e reencontrar o caminho de Jesus

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Vivemos tempos difíceis. O período que precedeu as eleições de 2026 foi marcado por intensas disputas, divergências e discórdias que, em muitos casos, ultrapassaram os limites do debate democrático. A defesa de candidatos, partidos e projetos políticos, que poderia constituir uma oportunidade para o exercício consciente da cidadania, acabou se transformando, para muitas pessoas, em motivo de afastamento, hostilidade e violência. Amizades foram abaladas, famílias experimentaram divisões e comunidades, inclusive as eclesiais, sentiram os efeitos de conflitos que feriram a fraternidade.

O processo eleitoral passou, mas nem todas as feridas foram curadas. Permanecem palavras que machucaram, acusações que romperam vínculos, mentiras que alimentaram ressentimentos e atitudes que fizeram do outro um inimigo. Por isso, este é o momento de nos perguntarmos: o que estamos fazendo com a nossa humanidade? Que sociedade estamos construindo quando permitimos que nossas convicções políticas sejam maiores do que nossa capacidade de reconhecer, no outro, um irmão ou uma irmã?

Agora é tempo de amar!

Não se trata de esquecer o que aconteceu, fingir que nada nos feriu ou silenciar diante das injustiças. Amar não significa concordar com tudo, abandonar as próprias convicções ou renunciar à responsabilidade política. O amor verdadeiro exige coragem para reconhecer os erros, disposição para pedir perdão e maturidade para reconstruir os vínculos rompidos. Exige, sobretudo, que não permitamos que nossas diferenças destruam aquilo que deveria nos unir: a dignidade humana e o compromisso com a vida.

São Paulo nos oferece uma orientação indispensável: “A ninguém pagueis o mal com o mal” (Rm 12,17). E acrescenta: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12,21). A superação do mal não acontece pela reprodução da violência, mas pela construção de relações fundadas na justiça, na verdade e na misericórdia. A lógica do Evangelho rompe com a espiral do ódio e nos convida a uma conversão que começa no coração, mas precisa alcançar nossas palavras, nossas escolhas e nossas práticas sociais.

Jesus foi ainda mais radical ao ensinar: “Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem” (Mt 5,44). Não se trata de uma exigência ingênua, como se as injustiças não existissem ou como se os responsáveis por violências não devessem responder por seus atos. Trata-se de impedir que o ódio determine nossas relações e nos transforme naquilo que combatemos. O amor cristão não elimina a necessidade de justiça; ele nos impede de confundir justiça com vingança.

Uma sociedade que deseja priorizar o Bem Comum precisa se disponibilizar à reconciliação. Existem diferentes projetos políticos, diferentes concepções de Estado e distintas propostas para enfrentar os problemas nacionais. O pluralismo faz parte da democracia. Entretanto, o Brasil não pertence exclusivamente a um partido, a uma corrente ideológica ou a um grupo social. O Brasil é de todos e precisa ser cuidado por todos, com especial atenção àqueles que historicamente tiveram seus direitos negados e suas vozes silenciadas.

A Doutrina Social da Igreja nos recorda que o Bem Comum consiste nas condições sociais que permitem a todas as pessoas e a todos os grupos alcançar mais plenamente sua realização humana. Por isso, a política, quando compreendida como serviço, é uma forma exigente de caridade. Não pode se reduzir à conquista do poder, à defesa de interesses particulares ou à destruição dos adversários. Sua finalidade deve ser a construção de uma sociedade em que ninguém seja descartado e em que a dignidade de cada pessoa seja efetivamente respeitada.

A Teologia Latino-americana nos ajuda a compreender que a reconciliação não pode ser separada da justiça social. Em um continente marcado pela concentração da riqueza, pela desigualdade, pelo racismo, pela violência contra os povos indígenas, pelos conflitos fundiários e pela negação de direitos fundamentais, não basta pedir que as pessoas se amem enquanto permanecem intactas as estruturas que produzem sofrimento e exclusão. A paz verdadeira não é o silêncio imposto aos injustiçados, mas o fruto de relações reconciliadas e de uma sociedade transformada pela justiça.

É nesse horizonte que a opção preferencial pelos pobres adquire toda a sua força evangélica. Não podemos permitir que as disputas políticas nos façam esquecer as famílias sem moradia, as pessoas que passam fome, os trabalhadores explorados, os povos indígenas ameaçados em seus territórios, as comunidades camponesas vítimas da violência e tantos homens e mulheres que lutam diariamente para viver com dignidade. Enquanto nos consumimos em discussões intermináveis sobre quem venceu ou perdeu, há irmãos e irmãs esperando que a sociedade se organize para que a vida possa florescer.

As Comunidades Eclesiais de Base, a Comissão Pastoral da Terra e o Conselho Indigenista Missionário nos recordam, por meio de sua caminhada, que a fé não pode permanecer indiferente diante do sofrimento dos pobres e da destruição da Casa Comum. A espiritualidade cristã precisa gerar compromisso, solidariedade e participação popular. O amor que nasce do Evangelho não nos afasta da realidade: envia-nos ao encontro daqueles cuja dignidade é negada, para que a fraternidade se torne experiência concreta de justiça.

Entretanto, a construção do Bem Comum exige renúncias. Precisamos renunciar ao ódio, à intolerância, às mentiras deliberadas, à manipulação das consciências e à alienação que nos impede de pensar criticamente. Precisamos abandonar a tentação de considerar moralmente inferiores todos aqueles que pensam de maneira diferente da nossa. Precisamos aprender a escutar, verificar informações antes de compartilhá-las, reconhecer nossos erros e rejeitar a violência, inclusive quando ela é praticada por aqueles com quem concordamos politicamente.

A unidade não significa uniformidade. Uma sociedade democrática não exige que todos pensem da mesma maneira, mas que ninguém seja privado de sua dignidade por pensar diferente. A verdadeira união nasce quando somos capazes de reconhecer que a diversidade não precisa se transformar em hostilidade e que o diálogo não exige a renúncia à verdade, mas a disposição de procurá-la com honestidade e respeito.

É também necessário recordar que a reconciliação não pode ser confundida com o esquecimento da história. As vítimas da violência precisam ser acolhidas; os direitos violados precisam ser reparados; a mentira precisa ser desmascarada; e as responsabilidades devem ser assumidas. Não existe fraternidade autêntica quando se exige dos feridos que se calem para preservar uma aparência de paz. Reconstruir a comunhão significa criar condições para que a verdade seja reconhecida, a justiça seja promovida e a misericórdia abra caminhos de transformação.

É aqui que precisamos voltar a Jesus. São Francisco de Assis, com sua vida inteiramente orientada pelo Evangelho, testemunhou que a paz começa quando deixamos de alimentar a lógica da dominação e nos colocamos a serviço dos irmãos. Seu testemunho não nos convida a uma religiosidade desencarnada, mas a uma fraternidade que alcança todas as criaturas e nos compromete com a reconciliação, a simplicidade e o cuidado com a Casa Comum. Na oração tradicionalmente atribuída a Francisco, pedimos para ser instrumentos da paz: onde houver ódio, levar o amor; onde houver ofensa, levar o perdão; onde houver discórdia, promover a união.

Voltar a Jesus é reencontrar aquele que se aproximava dos excluídos, acolhia os pecadores, denunciava a hipocrisia dos poderosos e anunciava um Reino no qual a vida humana possui valor inegociável. É recordar que, diante de Deus, não podemos transformar adversários políticos em inimigos absolutos, nem usar o nome de Cristo para legitimar desprezo, perseguição ou violência. A fidelidade ao Evangelho deve ser reconhecida não pela agressividade com que defendemos nossas opiniões, mas pelos frutos de amor, justiça e misericórdia que produzimos.

Jesus nos deixou um critério decisivo: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,35). Não disse que seríamos reconhecidos como seus discípulos pela capacidade de vencer debates, humilhar adversários ou impor nossas preferências. Seremos reconhecidos pelo amor que se torna serviço, pela verdade que liberta, pela justiça que restitui a dignidade e pela capacidade de construir pontes sem compactuar com o mal.

O tempo eleitoral passou. O tempo da responsabilidade cidadã, porém, continua. A democracia precisa ser cuidada todos os dias, assim como a amizade, a família, a comunidade e a nossa própria humanidade. Não podemos permitir que a disputa por projetos de poder nos faça perder de vista o projeto maior de uma sociedade fraterna, solidária e justa.

Agora é tempo de amar! Tempo de curar as feridas sem esconder a verdade; de perdoar sem abandonar a justiça; de dialogar sem abrir mão da dignidade; de discordar sem odiar; de participar da política sem transformar pessoas em inimigos. Tempo de compreender que nenhum projeto político pode ser colocado acima da vida e que nenhuma vitória eleitoral justifica a destruição da fraternidade.

Que nossas comunidades sejam espaços de encontro, e não de aprofundamento das divisões. Que nossas famílias voltem a ser lugares de diálogo. Que nossas redes sociais deixem de ser instrumentos de agressão e se tornem espaços de informação responsável e de aproximação. Que nossas Igrejas não alimentem polarizações, mas anunciem, com coragem profética, o Evangelho da reconciliação e o compromisso com os pobres.

O Brasil precisa de cidadãos comprometidos com o Bem Comum, de lideranças capazes de servir e de comunidades dispostas a reconstruir os laços que a intolerância rompeu. Precisa de pessoas que compreendam que a esperança não nasce da destruição do outro, mas da disposição coletiva de construir um futuro em que todos possam viver com dignidade.

Que São Francisco de Assis nos inspire a desarmar o coração. Que a Palavra de Deus ilumine nossas escolhas. E que Jesus, Príncipe da Paz, nos ensine a transformar nossas diferenças em oportunidade de diálogo, nossa indignação em compromisso com a justiça e nossa fé em serviço à vida.

Afinal, acima das disputas partidárias, das divergências ideológicas e dos ressentimentos que nos dividem, permanece o chamado fundamental do Evangelho: amar a Deus e ao próximo, reconhecendo em cada pessoa uma dignidade que não pode ser anulada por nenhuma diferença.

Agora é tempo de amar. Porque o Brasil é de todos. Porque a fraternidade é responsabilidade coletiva. E porque seguir Jesus significa escolher, todos os dias, o caminho do amor que liberta, reconcilia e transforma.


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