Deus nos chama a partir da história – Parte 38: Os Doze, quando Jesus chama pessoas reais

Por Karina Moreti

Chegamos a um daqueles momentos em que é preciso olhar para trás, não para simplesmente encerrar uma história, mas para compreender o caminho que percorremos. Ao longo desta série, fomos entrando nas histórias de homens e mulheres que, de maneiras muito diferentes, foram alcançados pelo chamado de Deus. Algumas dessas histórias chegaram até nós com muitos detalhes; outras sobreviveram apenas em poucas linhas. Algumas pessoas ocuparam o centro das narrativas evangélicas; outras permaneceram quase escondidas entre nomes que corremos o risco de ler rapidamente. Entretanto, quando deixamos de olhar apenas para a quantidade de informações disponíveis e começamos a perceber a densidade humana dessas histórias, descobrimos que cada uma delas guarda uma pergunta sobre a vocação. O que Deus faz quando entra na vida de uma pessoa concreta? O que acontece quando o chamado encontra alguém que já possui uma história, uma profissão, uma família, uma memória, convicções, medos, desejos e contradições? É justamente nesse terreno humano, feito de encontros, escolhas, quedas, recomeços e esperanças, que precisamos reencontrar os Doze.

Talvez seja essa uma das primeiras coisas que aprendemos ao percorrer suas histórias: ninguém chega diante de Deus como uma página em branco. Cada pessoa traz consigo aquilo que viveu, aquilo que aprendeu, aquilo que espera e também aquilo que ainda não conseguiu compreender sobre si mesma. Os Doze não foram diferentes. Antes de serem discípulos, eram homens concretos, inseridos em uma sociedade marcada por desigualdades, conflitos, expectativas religiosas e pela dominação romana. Tinham profissões, famílias, temperamentos, perguntas, convicções e limites. Jesus não os encontrou depois que tudo isso estivesse resolvido. Encontrou-os justamente no meio de suas histórias. E foi ali, dentro da vida que já possuíam, que pronunciou sobre eles um chamado capaz de abrir um caminho novo.

É por isso que, ao chegarmos ao final desta etapa, não queremos simplesmente repetir os nomes dos Doze nem organizar aquilo que já foi dito. Queremos olhar novamente para eles e perguntar o que suas histórias revelam sobre o próprio modo como Deus chama. Porque, quando os Evangelhos nos apresentam esses homens, não estamos diante de personagens perfeitos que receberam uma missão porque já estavam preparados para cumpri-la. Estamos diante de pessoas que precisaram aprender enquanto caminhavam. Pessoas que tiveram medo, que duvidaram, que erraram, que compreenderam lentamente e que precisaram recomeçar. Pessoas cuja vocação não apagou suas histórias, mas foi transformando o modo como passaram a viver dentro delas.

Os Evangelhos apresentam esse grupo como uma escolha deliberada de Jesus. Marcos afirma que Jesus “subiu ao monte e chamou os que desejava escolher. E foram até ele” (Mc 3,13). A frase é breve, mas possui uma força extraordinária. O chamado começa na iniciativa de Jesus. Antes que qualquer discípulo pudesse apresentar seus méritos, demonstrar sua capacidade ou provar que seria fiel até o fim, havia apenas uma coisa: Jesus chamou! O discipulado não nasceu de um processo seletivo baseado naquilo que aqueles homens poderiam oferecer. Nasceu de uma relação iniciada por aquele que os convocou. Depois de chamá-los, o Evangelho afirma que Jesus constituiu Doze “para que estivessem com ele e para enviá-los a pregar” (Mc 3,14). A sequência é fundamental. Antes do envio existe a convivência; antes da missão existe a presença; antes do anúncio existe o estar com Jesus. A vocação cristã não começa pela eficiência da missão, mas pela disposição de permanecer junto daquele que chama.

Essa escolha dos Doze também possui um significado histórico e simbólico que não pode ser reduzido a uma simples contagem. O número doze evocava as tribos de Israel e carregava consigo a esperança de que Deus reuniria novamente seu povo. Ao constituir os Doze, Jesus realizava um gesto carregado de significado para dentro da história de Israel. Não estava apenas formando uma equipe de colaboradores para acompanhá-lo pelas aldeias da Galileia. Estava sinalizando, por meio de um gesto concreto, que algo novo estava acontecendo na relação de Deus com seu povo. O Reino anunciado por Jesus não surgia fora da história de Israel, como se Deus tivesse abandonado tudo o que havia acontecido antes. Ao contrário, o chamado dos Doze se insere na memória das promessas, das rupturas, das esperanças e das feridas de um povo que vivia sob a dominação romana e aguardava uma intervenção de Deus. A escolha dos Doze, portanto, carregava uma dimensão comunitária, histórica e escatológica: Deus continuava chamando seu povo e reunindo-o em torno de uma nova experiência de Reino.

É justamente por isso que não podemos imaginar os Doze como um grupo homogêneo. Eles não possuíam a mesma profissão, a mesma personalidade, a mesma visão de mundo ou a mesma trajetória social. Pedro, André, Tiago e João estavam ligados ao universo da pesca e conheciam a dureza do trabalho cotidiano junto ao lago da Galileia. Mateus, identificado como cobrador de impostos, carregava outra relação com as estruturas econômicas e administrativas de seu tempo. Simão era chamado de Zelota, designação que, embora não permita afirmar automaticamente que ele pertencesse ao movimento político organizado conhecido posteriormente por esse nome, revela ao menos uma identificação associada ao zelo e à resistência que marcavam determinadas correntes judaicas diante da dominação estrangeira. Filipe aparece como alguém que pergunta e procura compreender; Natanael chega carregando desconfiança em relação à origem de Jesus. Tomé nos obriga a levar a sério a experiência da dúvida. Tiago Menor, Judas Tadeu e os demais discípulos menos desenvolvidos narrativamente nos lembram que a importância de uma vocação não pode ser medida pelo espaço que a literatura reserva ao seu nome.

Há algo profundamente provocador nessa composição. Jesus não escolheu pessoas semelhantes para construir uma comunidade confortável. Reuniu pessoas diferentes e colocou-as diante do mesmo caminho. O Evangelho não apresenta a comunidade dos discípulos como um lugar onde as diferenças desaparecem. Pelo contrário, as diferenças permanecem, e com elas surgem incompreensões, disputas, expectativas equivocadas e conflitos. Os discípulos discutem sobre quem seria o maior, interpretam de maneira diferente o caminho de Jesus e, muitas vezes, não conseguem compreender aquilo que ele anuncia. A comunidade apostólica não nasceu pronta. Ela precisou aprender a ser comunidade. Essa constatação é importante porque impede que transformemos a Igreja primitiva em uma espécie de comunidade ideal, sem tensões e sem contradições. Desde o princípio, aqueles que receberam o chamado precisaram aprender, lentamente, que seguir Jesus significava abandonar a lógica da competição e aprender a construir relações a partir do serviço.

Nesse sentido, o chamado dos Doze é muito mais profundo do que uma convocação individual. Jesus não chamou apenas pessoas; chamou-as para uma comunidade. Cada discípulo precisaria descobrir que sua vocação não poderia ser vivida isoladamente. A experiência de seguir Jesus seria construída no encontro com os outros, inclusive com aqueles que pensavam de maneira diferente, carregavam histórias diferentes ou despertavam desconfiança. A vocação cristã possui, desde suas origens, uma dimensão comunitária que não pode ser eliminada sem que o próprio sentido do chamado seja deformado. Não basta perguntar “para que Deus me chama?”; é preciso perguntar também “com quem Deus me chama a caminhar?”. O Evangelho apresenta os Doze justamente para mostrar que o Reino não seria anunciado por indivíduos solitários, mas por uma comunidade em formação.

Pedro talvez seja um dos exemplos mais evidentes dessa pedagogia do caminho. Aquele que posteriormente seria lembrado como uma das principais referências da comunidade apostólica também foi o discípulo que teve medo, que tentou compreender Jesus a partir de suas próprias expectativas e que chegou a negá-lo. Sua história nos impede de confundir vocação com impecabilidade. Jesus não chamou Pedro porque estivesse diante de um homem já acabado e pronto para a missão. Chamou-o em meio àquilo que Pedro ainda estava se tornando. A mesma dinâmica aparece de maneiras diferentes nos outros discípulos. Tomé não deixou de ser discípulo porque precisou enfrentar a dúvida. Mateus não foi impedido de seguir Jesus por causa de sua profissão anterior. Os discípulos que aparecem pouco nas narrativas não tiveram uma vocação menor simplesmente porque seus nomes receberam menos espaço. O chamado não depende da visibilidade que a história concede ao indivíduo.

Essa percepção nos ajuda também a compreender a presença de Judas Iscariotes entre os Doze. Sua história é dolorosa e não pode ser romantizada. A traição possui responsabilidade e consequências. Entretanto, quando olhamos para Judas dentro da narrativa do chamado, somos obrigados a reconhecer uma realidade ainda mais desconcertante: a proximidade com Jesus não transformou automaticamente a liberdade humana em fidelidade. Judas ouviu, caminhou, participou da missão e compartilhou da vida daquele grupo. Sua presença demonstra que a vocação não funciona como uma espécie de mecanismo que elimina a possibilidade de escolha. Deus chama, mas o ser humano continua responsável pelo modo como responde. O chamado oferece uma possibilidade de vida; não transforma a pessoa em alguém incapaz de escolher outros caminhos.

Talvez essa seja uma das razões pelas quais os Evangelhos não tenham preservado os Doze como figuras idealizadas. Eles nos mostram homens que aprendem lentamente. Homens que perguntam, erram, discutem, interpretam mal, têm medo e precisam recomeçar. Os Evangelhos não apagaram suas fragilidades para tornar mais gloriosa a origem da Igreja. Ao contrário, conservaram muitas dessas fragilidades. Pedro negou. Tomé duvidou. Os demais também fugiram diante da paixão. Mesmo depois da Ressurreição, os Evangelhos continuam mostrando que a compreensão dos discípulos não foi instantânea. A comunidade cristã nasceu, portanto, carregando a memória de que suas primeiras testemunhas não eram homens perfeitos, mas pessoas transformadas progressivamente pelo encontro com o Ressuscitado.

Existe aqui uma verdade profundamente pastoral que não podemos perder. Muitas pessoas imaginam que precisam primeiro organizar completamente a própria vida para depois responder ao chamado de Deus. Pensam que a vocação começará quando o medo desaparecer, quando as dúvidas forem resolvidas, quando o passado deixar de incomodar ou quando finalmente se sentirem espiritualmente preparadas. Os Doze contam uma história diferente. Jesus os encontrou enquanto trabalhavam, enquanto procuravam, enquanto exerciam suas profissões e enquanto carregavam suas próprias compreensões sobre a vida. O chamado aconteceu antes da maturidade plena. A caminhada com Jesus é que se tornou o lugar onde eles aprenderam, pouco a pouco, aquilo que significava ser discípulo.

É por isso que a vocação não pode ser compreendida como uma fuga da história pessoal. Deus não chama pessoas para que deixem de ser quem são no sentido de apagar sua humanidade. O chamado transforma justamente aquilo que a pessoa traz consigo, colocando sua história a serviço de uma realidade maior. O pescador continua conhecendo as redes, o homem acostumado às contas continua sabendo lidar com números, aquele que pergunta continua perguntando e aquele que precisa de tempo para compreender continua aprendendo. A graça não precisa destruir a história para começar algo novo. Ela pode atravessá-la, iluminá-la e redirecioná-la.

Ao percorrermos os Doze, encontramos também uma verdade que nossa própria história confirma: nem sempre saberemos imediatamente por que fomos chamados. Os discípulos certamente não compreenderam, no primeiro momento, toda a dimensão do caminho que estavam começando. Eles esperavam muitas coisas de Jesus e, em diversos momentos, suas expectativas entraram em choque com o modo como ele compreendia o Reino. O chamado, portanto, não entregou aos discípulos um mapa completo do futuro. Entregou-lhes uma pessoa a seguir. Eles não receberam todas as respostas antes de começar a caminhar. Foram compreendendo enquanto caminhavam.

Talvez seja essa a imagem mais bonita para fechar nossa caminhada pelos Doze: Jesus não entregou a eles uma explicação completa; entregou-lhes um caminho. E um caminho só pode ser compreendido verdadeiramente por quem aceita percorrê-lo. A vocação cristã não é a posse antecipada de todas as certezas. É a confiança suficiente para dar o próximo passo, mesmo quando ainda não conseguimos enxergar todo o percurso.

Quando olhamos novamente para os Doze, depois de termos conhecido suas histórias, já não conseguimos enxergá-los apenas como nomes de uma lista. Pedro deixa de ser simplesmente Pedro e passa a ser aquele homem que precisou aprender que coragem não significa ausência de medo. André deixa de ser apenas o irmão de Pedro e aparece como alguém capaz de conduzir outros ao encontro de Jesus. Mateus deixa de ser apenas o cobrador de impostos e se torna testemunho de que uma história profissional e socialmente marcada não precisa determinar o futuro. Tomé deixa de ser reduzido à dúvida e passa a testemunhar uma fé que precisou atravessar a experiência concreta da ausência e das feridas. Judas Tadeu, Simão, o Zelota, Tiago Menor e os demais deixam de ser nomes secundários e passam a representar também todos aqueles cuja fidelidade não dependeu da quantidade de vezes que foram mencionados.

E Judas Iscariotes permanece como uma pergunta difícil dentro dessa memória. Sua história não nos permite simplificar o mistério da liberdade humana, nem transformar o chamado em uma espécie de garantia contra a queda. Ao contrário, lembra-nos que toda vocação envolve uma resposta que precisa ser renovada. Ninguém vive da resposta que deu ontem. O chamado acontece na história, mas a fidelidade também precisa acontecer dentro dela, escolha após escolha, dia após dia.

Depois de tudo o que percorremos, talvez possamos finalmente compreender o título desta série de uma maneira ainda mais profunda. Deus nos chama a partir da história porque não existe vocação fora da vida concreta. Deus chama pessoas que possuem nomes, rostos, profissões, famílias, memórias, feridas, sonhos e contradições. Chama gente que ainda não terminou de se compreender. Chama pessoas que precisarão aprender no caminho. Chama pessoas que talvez nem consigam imaginar, no primeiro momento, a dimensão daquilo para o qual estão sendo convocadas.

Os Doze não chegaram prontos diante de Jesus. Chegaram com aquilo que eram.

E foi a partir dali que o caminho começou. Essa talvez seja a grande herança que eles deixam para nós. Não precisamos esperar nos tornar pessoas perfeitas para responder a Deus. Não precisamos esconder nossa história para nos aproximarmos dele. Não precisamos apagar nossas perguntas para começar a caminhar. O chamado não acontece depois da história; acontece dentro dela. É ali, no terreno concreto de nossa existência, que Deus continua pronunciando nomes e abrindo caminhos.

Por isso, fechar a história dos Doze não significa encerrar a vocação. Significa reconhecer que aquilo que começou com Jesus continuou abrindo caminhos para além do tempo de sua presença física entre os discípulos. A morte e a Ressurreição não colocaram um ponto final na missão; abriram uma nova etapa, na qual a comunidade precisaria aprender a caminhar sem a presença de Jesus como os discípulos a haviam conhecido. Agora seria necessário discernir, à luz daquilo que tinham vivido com ele, os passos que deveriam ser dados. O grupo dos Doze, marcado pela ausência deixada por Judas Iscariotes, também precisaria enfrentar a própria ruptura e compreender que a fidelidade ao chamado recebido não significava permanecer imóvel diante da perda, mas encontrar, comunitariamente, caminhos para continuar a missão.

É nesse momento que um novo nome aparece. Matias não pertence ao grupo daqueles que foram chamados diretamente por Jesus durante seu ministério público. Sua escolha acontece depois da Páscoa, quando a comunidade reunida em Jerusalém percebe que a ausência de Judas não poderia ser simplesmente ignorada e que o testemunho apostólico precisava ser recomposto. Atos dos Apóstolos apresenta a comunidade reunida em oração e discernimento, procurando alguém que tivesse acompanhado Jesus desde o batismo de João até a ascensão, para que pudesse tornar-se, com os demais, testemunha da Ressurreição (At 1,21-22). Entre aqueles que haviam caminhado com Jesus desde os primeiros tempos, a comunidade reconhece em Matias alguém capaz de assumir aquele lugar.

A história de Matias, portanto, nos conduz a uma pergunta diferente. Se, até aqui, acompanhamos homens chamados por Jesus no caminho da Galileia, no próximo capítulo encontraremos alguém cuja entrada no grupo dos Doze acontece depois da Páscoa, no interior de uma comunidade que precisa discernir como continuar a missão recebida. O chamado, agora, atravessa uma nova circunstância histórica: Jesus já não está fisicamente entre eles, e os discípulos precisam aprender a reconhecer os caminhos de Deus dentro da própria comunidade. A vocação não desaparece quando uma geração termina seu percurso; ela encontra novas formas de permanecer viva na história.

Talvez seja justamente essa a beleza do caminho que estamos percorrendo: Deus continua chamando, mesmo quando aqueles que primeiro ouviram o chamado já não estão aqui. A história dos Doze termina, portanto, sem terminar de verdade. Ela abre uma passagem. E nessa passagem, entre a memória de Jesus e a missão que agora precisa continuar, surge um novo nome: Matias. Mas essa fica para o próximo capítulo.


Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.

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