Entre a esperança que sustenta a vida e a humildade que transforma as relações
Por Pe. Hermes A. Fernandes
1. Introdução: o Evangelho que questiona nossas prioridades
As leituras da Liturgia Eucarística deste sábado da 30ª Semana do Tempo Comum nos convidam a refletir sobre dois aspectos fundamentais da vida cristã: a esperança que sustenta a missão, mesmo diante das adversidades, e a humildade que rompe com a busca de privilégios e transforma as relações humanas. Em Filipenses 1,18b-26, Paulo testemunha uma existência inteiramente orientada para Cristo, na qual a própria vida se torna serviço ao Evangelho. Em Lucas 14,1.7-11, Jesus questiona a disputa pelos primeiros lugares à mesa e propõe uma inversão de valores: quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.
À luz da Teologia Latino-americana e da Leitura Popular da Bíblia, esses textos não podem ser reduzidos a conselhos individuais sobre perseverança ou boas maneiras. Eles nos provocam a examinar as estruturas sociais, econômicas, políticas e religiosas que produzem exclusão, concentram privilégios e negam aos pobres a possibilidade de viver com dignidade. A Palavra de Deus, acolhida nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), ilumina a caminhada de quem luta pela terra, pelos territórios tradicionais, pelo pão cotidiano e pelo reconhecimento de sua dignidade.
A Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), cada qual em sua missão específica, ajudam a Igreja a perceber que seguir Jesus exige compromisso concreto com os trabalhadores e trabalhadoras do campo, os povos indígenas e todas as pessoas atingidas pela violência e pela negação de direitos.
2. Filipenses 1,18b-26: viver é servir, morrer é ganhar
A Carta aos Filipenses foi escrita por Paulo em situação de prisão. O apóstolo experimenta a incerteza quanto ao próprio futuro, mas não permite que o sofrimento seja a última palavra sobre sua existência. Sua alegria não nasce da ausência de conflitos, e sim da certeza de que Cristo continua sendo anunciado, mesmo quando as circunstâncias são adversas.
Ao afirmar que Cristo será glorificado em seu corpo, quer Paulo viva, quer morra, o apóstolo apresenta uma compreensão profundamente cristã da existência: a vida não se justifica pela acumulação de bens, pela conquista de prestígio ou pela preservação egoísta dos próprios interesses. Ela encontra seu sentido no testemunho do Evangelho. Por isso, declara: “Para mim, de fato, o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1,21). Essa frase não expressa desprezo pela vida, mas a radicalidade de uma existência inteiramente comprometida com Jesus e sua missão.
O contexto da passagem também revela a tensão entre o desejo de partir e estar com Cristo e a necessidade de permanecer junto às comunidades. Paulo reconhece que sua permanência é importante para o progresso e a alegria da fé dos filipenses (Fl 1,24-25). O critério de sua decisão não é a conveniência pessoal, mas o bem da comunidade. Eis uma dimensão essencial do ministério cristão: colocar os próprios dons a serviço da vida dos outros.
Na perspectiva da Teologia Latino-americana, essa espiritualidade ganha concretude quando a esperança cristã se transforma em resistência diante de tudo aquilo que ameaça a vida. Para os pobres, a esperança não pode ser uma promessa abstrata que os convide a suportar passivamente a injustiça. Ela deve fortalecer a organização popular, a solidariedade e a busca de transformações sociais.
As CEBs testemunham essa esperança quando reúnem o povo para rezar, estudar a Bíblia e organizar ações comunitárias. A CPT a encarna quando acompanha famílias ameaçadas pela concentração fundiária, pelo trabalho escravo e pela violência no campo. O CIMI a expressa quando caminha ao lado dos povos indígenas na defesa de seus territórios, culturas, direitos e formas próprias de organização.
Paulo nos ajuda, assim, a compreender que a fidelidade a Cristo não se mede pelo lugar que ocupamos na sociedade ou na Igreja, mas pela capacidade de tornar nossa vida fecunda para os demais. Uma fé que não produz solidariedade e compromisso com quem sofre corre o risco de anunciar Cristo apenas com os lábios, sem testemunhá-lo nas escolhas concretas.
3. Lucas 14,1.7-11: os primeiros lugares e a lógica do Reino
O Evangelho situa Jesus à mesa, num sábado, na casa de um dos chefes dos fariseus. O ambiente é marcado pela observação atenta de Jesus, e ele, por sua vez, observa o comportamento dos convidados, que procuram ocupar os primeiros lugares. A refeição, espaço de convivência e reconhecimento social, torna-se ocasião para revelar as contradições de uma sociedade organizada segundo critérios de prestígio, honra e posição.
No mundo mediterrâneo do século I, a disposição dos lugares à mesa expressava a hierarquia social. O assento ocupado podia indicar importância, influência e proximidade com os poderosos. Jesus percebe que a busca pelo primeiro lugar não é apenas uma questão de etiqueta: revela uma mentalidade que mede o valor das pessoas pela posição que conquistaram.
Sua parábola propõe que o convidado escolha o último lugar, para que o anfitrião possa chamá-lo a uma posição melhor. A conclusão sintetiza o ensinamento: “Pois todo aquele que se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado” (Lc 14,11). A referência à elevação e à humilhação ultrapassa a prudência social. Jesus questiona a lógica da competição e ensina que, no Reino de Deus, a grandeza não se fundamenta na superioridade sobre os outros, mas na disponibilidade para servir.
Essa inversão está presente em toda a tradição bíblica e aparece de modo especial no Magnificat, quando Maria proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes (Lc 1,52). Não se trata de glorificar o sofrimento ou recomendar que os pobres aceitem passivamente a opressão. Trata-se de anunciar que Deus não legitima uma ordem social em que alguns se exaltam à custa da dignidade de outros. Portal do CEBI+1
À luz da Teologia Latino-americana, esse Evangelho interpela também nossas comunidades eclesiais. A Igreja não pode reproduzir, em sua organização e em suas práticas pastorais, os mesmos mecanismos de distinção, exclusão e privilégio que Jesus questiona. Os ministérios, os títulos e as responsabilidades devem ser compreendidos como serviços, não como instrumentos de prestígio ou dominação.
As CEBs tornam visível essa proposta quando valorizam a participação dos leigos e leigas, a voz das mulheres, o protagonismo da juventude e a sabedoria das pessoas simples. A leitura comunitária da Bíblia reconhece que os pobres não são apenas destinatários da evangelização: são sujeitos da fé, portadores de experiências e capazes de contribuir para a transformação da Igreja e da sociedade.
Essa perspectiva exige escutar os povos indígenas, respeitar seus territórios e suas tradições, acolher as famílias camponesas ameaçadas pela violência e reconhecer a dignidade de quem vive nas periferias urbanas. A CPT e o CIMI ajudam a Igreja a permanecer próxima dessas realidades, denunciando injustiças e promovendo caminhos de defesa da vida.
O Evangelho nos convida, portanto, a perguntar: quem ocupa os primeiros lugares em nossas comunidades? Quem permanece invisível? Quem tem sua palavra valorizada e quem continua sem voz? A conversão cristã começa quando deixamos de disputar espaços para nós mesmos e passamos a abrir espaço para aqueles que historicamente foram excluídos.
4. Da mesa de Jesus à mesa dos pobres: compromissos pastorais
As duas leituras se iluminam mutuamente. Paulo ensina que viver é colocar-se a serviço de Cristo e das comunidades; Jesus mostra que esse serviço exige renunciar à busca de honrarias e romper com as hierarquias que ferem a dignidade humana. A esperança cristã e a humildade evangélica tornam-se, assim, fundamentos de uma prática pastoral comprometida com a justiça.
Esse compromisso pode concretizar-se em algumas iniciativas:
- Nas Comunidades Eclesiais de Base: fortalecer os círculos bíblicos, a leitura popular da Bíblia e a participação comunitária nas decisões pastorais, garantindo que a voz dos pobres seja ouvida e respeitada.
- Na ação da Comissão Pastoral da Terra: apoiar a organização das famílias camponesas, defender o direito à terra e à água, denunciar a violência no campo e combater o trabalho escravo e a exploração dos trabalhadores rurais.
- Na caminhada com o Conselho Indigenista Missionário: defender os direitos constitucionais dos povos indígenas, seus territórios e sua autonomia, promovendo o diálogo intercultural e denunciando as ameaças que comprometem sua existência.
- Na vida eclesial e social: rever práticas que privilegiam os poderosos, promover relações fraternas e solidárias e garantir que as pessoas marginalizadas participem efetivamente dos espaços de decisão.
- Na celebração eucarística: fazer da mesa do Senhor um sinal de comunhão que ultrapassa as divisões sociais, levando a comunidade a reconhecer Cristo nos pobres e a transformar a partilha sacramental em compromisso cotidiano com a partilha do pão, da terra, dos direitos e da esperança.
Essas ações expressam uma Igreja que não se limita a falar dos pobres, mas caminha com eles, reconhecendo neles a presença de Cristo e a força transformadora do Espírito Santo.
5. Conclusão: uma Igreja que escolhe servir
Neste sábado da 30ª Semana do Tempo Comum, a Palavra de Deus nos recorda que a vida cristã não se mede pelos lugares que ocupamos, mas pelo amor que oferecemos e pela esperança que ajudamos a construir. Paulo nos ensina que a existência ganha sentido quando se torna serviço ao Evangelho. Jesus nos mostra que o Reino de Deus não se organiza segundo a disputa por privilégios, mas segundo a gratuidade, a fraternidade e a valorização de cada pessoa.
Para a Teologia Latino-americana, essa mensagem conduz a uma opção concreta pelos pobres, marginalizados e excluídos de ontem e de hoje. Não basta escolher simbolicamente o último lugar; é necessário trabalhar para que ninguém seja condenado a viver sem terra, sem moradia, sem alimento, sem direitos ou sem voz. A verdadeira humildade cristã não conserva estruturas injustas: ela nos leva a renunciar aos privilégios que impedem a vida plena de nossos irmãos e irmãs.
As CEBs, a CPT e o CIMI, em suas respectivas missões, testemunham que a fé se torna fecunda quando caminha com os povos, defende a dignidade humana e assume a causa da justiça. Celebrar a Eucaristia é acolher Cristo, que se entrega para que todos tenham vida, e deixar que essa entrega transforme nossas relações e nossas escolhas.
Que o Espírito Santo nos conceda a esperança perseverante de Paulo e a humildade libertadora de Jesus. E que nossas comunidades sejam sinais do Reino, onde os últimos sejam reconhecidos como irmãos, os excluídos encontrem lugar à mesa e ninguém precise disputar dignidade, porque todos serão acolhidos no amor de Deus.
Deixe um comentário