Por Pe. Hermes A. Fernandes
1. Um livro singular no coração das Escrituras
O Cântico dos Cânticos, conhecido também como Cantares, ocupa um lugar singular na Bíblia. Com apenas oito capítulos, constitui uma coletânea de poemas que celebram o amor entre uma mulher e um homem. Seu título, em hebraico Shir haShirim, significa literalmente “Cântico dos Cânticos”, uma expressão superlativa que pode ser compreendida como “o mais belo dos cânticos”.
Tradicionalmente, o livro foi associado a Salomão, conforme indica seu primeiro versículo (Ct 1,1). Entretanto, a pesquisa bíblica contemporânea considera que sua composição provavelmente ocorreu em período posterior, possivelmente no período pós-exílico, reunindo poemas de diferentes tradições. A atribuição a Salomão pode representar uma referência à sabedoria e à tradição literária vinculadas a esse rei.
O livro pertence à terceira parte do cânon hebraico, os Escritos (Ketuvim), e sua presença na Bíblia testemunha algo extraordinário: a experiência humana do amor, inclusive em sua dimensão corporal e erótica, possui dignidade suficiente para integrar a Palavra de Deus.
Durante muitos séculos, as tradições judaica e cristã privilegiaram interpretações alegóricas: a mulher representaria Israel ou a Igreja, enquanto o homem representaria Deus ou Cristo. Essas leituras produziram uma rica espiritualidade. Entretanto, é importante recuperar também o sentido primeiro da obra: a celebração do amor humano, da atração, do desejo e da reciprocidade. Não precisamos opor essas interpretações. A experiência humana do amor pode ser reconhecida como lugar de manifestação da bondade divina.
2. A poesia do amor: uma experiência de liberdade e reciprocidade
Uma das características mais interessantes do Cântico dos Cânticos é a presença marcante da voz feminina. A mulher não aparece simplesmente como objeto do desejo masculino, mas como sujeito de sua própria história, de seus sentimentos e de suas escolhas.
Logo no início, ela declara: “Que me beije com os beijos de sua boca!” (Ct 1,2). É ela quem toma a iniciativa, manifesta seu desejo e expressa sua liberdade afetiva. Essa voz feminina atravessa o livro, revelando uma relação na qual o amor não deveria ser fundamentado na dominação, mas na reciprocidade.
Outro versículo merece especial atenção: “Eu sou do meu amado, e meu amado é meu” (Ct 6,3). A relação é apresentada como pertencimento mútuo, não como posse ou submissão. A mulher e o homem encontram-se na liberdade de quem ama e é amado.
Também é significativa a afirmação de Ct 7,11, na qual a mulher manifesta seu desejo pelo amado. Alguns estudiosos identificam nesse texto uma contraposição ao imaginário de dominação masculina presente em Gn 3,16. O Cântico apresenta uma possibilidade de relacionamento marcada pela mutualidade, em vez da sujeição da mulher ao homem.
A linguagem poética utiliza imagens da natureza: vinhas, jardins, flores, perfumes, animais, montanhas e fontes. O corpo humano é celebrado sem constrangimento. A criação inteira parece participar da alegria dos enamorados.
Em Ct 2,10-13, o amado convida sua companheira a levantar-se e sair, pois o inverno passou e a primavera chegou. A natureza torna-se metáfora da renovação da vida. O amor é movimento, encontro, esperança e possibilidade de recomeço.
Há, contudo, uma passagem particularmente profunda: “O amor é forte como a morte […] Suas chamas são chamas de fogo, uma labareda de Javé” (Ct 8,6). O amor verdadeiro possui uma força extraordinária. Não pode ser comprado, comercializado ou submetido aos interesses econômicos. Por isso, o versículo seguinte afirma que nem mesmo grandes riquezas seriam suficientes para adquiri-lo (Ct 8,7).
Aqui encontramos uma das grandes mensagens teológicas do livro: aquilo que é essencial à vida humana não pode ser reduzido ao valor de mercado.
3. O Cântico dos Cânticos e a Teologia Latino-americana
A Teologia Latino-americana parte da realidade concreta dos povos, especialmente daqueles que experimentam a pobreza, a exclusão e a negação de seus direitos. Sua reflexão não nasce de uma abstração, mas do encontro entre a Palavra de Deus e a realidade histórica.
Nessa perspectiva, o Cântico dos Cânticos oferece uma contribuição importante. Em uma sociedade que frequentemente transforma os corpos em mercadorias, explora a sexualidade, desrespeita as mulheres e estabelece relações de poder e dominação, celebrar o amor como reciprocidade constitui também uma forma de resistência.
O livro nos ajuda a recuperar a dignidade do corpo humano. O corpo não é inimigo da espiritualidade, tampouco deve ser tratado como instrumento de exploração. É parte constitutiva da pessoa, lugar de encontro, comunicação, afeto e realização humana.
Essa compreensão possui consequências pastorais e sociais. Uma Igreja comprometida com o Evangelho precisa enfrentar todas as formas de violência contra as mulheres, o feminicídio, o abuso sexual, a exploração de crianças e adolescentes, o tráfico de pessoas e a mercantilização dos corpos.
A espiritualidade cristã não pode legitimar relações de submissão ou apresentar o sofrimento das mulheres como uma condição natural. O Deus da vida não deseja a dominação, mas relações fundamentadas no respeito, na liberdade, na justiça e no amor.
O Cântico dos Cânticos também nos convida a reconhecer a beleza da vida em meio às contradições sociais. Os pobres não são apenas destinatários da solidariedade e da assistência. São homens e mulheres capazes de amar, sonhar, construir relações, celebrar a existência e cultivar esperanças. A pobreza não lhes retira a dignidade nem o direito à alegria.
4. A caminhada das CEBs: comunidades que aprendem a amar
A caminhada das Comunidades Eclesiais de Base encontra no Cântico dos Cânticos uma inspiração profundamente evangélica. As CEBs são espaços nos quais a fé se encontra com a vida cotidiana, a Palavra ilumina a realidade e a fraternidade se transforma em compromisso.
Quando uma comunidade se reúne para escutar a Palavra, partilhar o pão, celebrar a vida e organizar sua caminhada, está testemunhando que o amor não pode permanecer restrito aos sentimentos individuais. Ele precisa adquirir dimensão comunitária, social e política.
A afirmação “Eu sou do meu amado, e meu amado é meu” (Ct 6,3) pode inspirar uma espiritualidade de pertença e corresponsabilidade. Nas comunidades, ninguém deveria ser tratado como objeto, instrumento ou propriedade de outra pessoa. Todos são sujeitos, portadores de dignidade e participantes da construção do Reino de Deus.
O Cântico também nos ajuda a compreender a importância da ternura na ação pastoral. Nem tudo se transforma pelo confronto. Há mudanças que nascem da escuta, da proximidade, do cuidado e da capacidade de reconhecer a beleza presente no outro.
As CEBs são chamadas a cultivar essa espiritualidade do encontro, na qual a solidariedade não seja apenas uma obrigação religiosa, mas expressão concreta de uma comunidade que aprendeu a amar.
Essa experiência se torna particularmente significativa quando as comunidades caminham ao lado da Comissão Pastoral da Terra (CPT), do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e de outras organizações comprometidas com os Direitos Humanos e a justiça socioambiental.
Defender a terra, os territórios indígenas, as águas, as florestas e os modos de vida tradicionais também significa defender as condições necessárias para que os povos possam viver, celebrar, amar e transmitir suas tradições às novas gerações.
O amor celebrado no Cântico não pode ser separado do compromisso com a vida. Uma comunidade que contempla a beleza da criação, mas permanece indiferente à destruição da Casa Comum, ainda não compreendeu plenamente a profundidade dessa mensagem.
5. Uma espiritualidade que celebra a vida
O Cântico dos Cânticos termina sem apresentar uma conclusão convencional. Sua última imagem é um convite ao encontro: “Foge, meu amado, e sê semelhante à gazela ou ao filhote da corça sobre os montes perfumados” (Ct 8,14).
O livro permanece aberto, como permanece aberto o caminho daqueles que acreditam na força transformadora do amor.
Para as CEBs, essa mensagem representa um chamado a construir comunidades nas quais a alegria, a ternura, a amizade, a justiça e a solidariedade sejam expressões concretas da espiritualidade cristã. Não existe verdadeira evangelização onde a vida é desprezada, onde os corpos são violentados, onde as mulheres são silenciadas e onde os pobres são privados de seus direitos.
A experiência do amor humano, celebrada poeticamente nas Escrituras, ajuda-nos a compreender que Deus não é inimigo da alegria humana. Pelo contrário, a vida em sua plenitude, com seus afetos, encontros, sonhos e esperanças, é dom que merece ser acolhido e protegido.
O Cântico dos Cânticos nos recorda que amar também é resistir a tudo aquilo que desumaniza. É afirmar que nenhuma estrutura de poder, nenhuma riqueza e nenhuma ideologia podem substituir a beleza de uma relação construída na liberdade e na reciprocidade.
Que nossas Comunidades Eclesiais de Base sejam, portanto, espaços onde o amor não seja apenas anunciado, mas experimentado; onde a ternura se transforme em solidariedade; onde a espiritualidade produza compromisso; e onde a defesa da vida seja expressão maior de nossa fidelidade ao Evangelho.
Afinal, como proclama o próprio Cântico, o amor é uma chama que não se deixa apagar.
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