CIMI: uma Igreja que caminha com os povos indígenas – memória, profecia e compromisso com a vida

Memória histórica, Teologia Latino-americana e o clamor dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul

Por Pe. Hermes A. Fernandes

1. O nascimento de uma Igreja que decidiu caminhar com os povos indígenas

A história do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) está profundamente relacionada a um dos momentos mais significativos de renovação da Igreja Católica na América Latina. Criado em 1972, durante a ditadura militar brasileira, o CIMI nasceu da consciência de que a evangelização não poderia permanecer indiferente diante das políticas de exploração, violência, expropriação territorial e negação da identidade cultural dos povos indígenas.

Naquele período, o Estado brasileiro promovia grandes projetos de infraestrutura e desenvolvimento econômico, frequentemente acompanhados de políticas de integração forçada dos povos originários à sociedade nacional. A perspectiva predominante não reconhecia plenamente a diversidade cultural, a autonomia e os direitos históricos desses povos. Em nome de um suposto progresso, territórios tradicionais eram invadidos, comunidades eram deslocadas e culturas ancestrais eram ameaçadas.

Foi nesse contexto que Dom Ivo Lorscheiter, então secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), convocou missionários e missionárias para refletir sobre a realidade indígena e a responsabilidade da Igreja. Em 23 de abril de 1972, constituiu-se o primeiro núcleo do Conselho Indigenista Missionário. Entre as figuras que participaram de sua formação estavam Dom Pedro Casaldáliga, Dom Tomás Balduíno e Dom Erwin Kräutler.

O nascimento do CIMI aconteceu apenas quatro anos depois da Conferência de Medellín (1968), acontecimento que marcou profundamente a recepção do Concílio Vaticano II na América Latina. A Igreja começava a compreender, com maior clareza, que sua missão evangelizadora não poderia estar dissociada da realidade histórica dos povos, especialmente daqueles submetidos à pobreza, à opressão e à exclusão.

Desde seus primeiros passos, o CIMI assumiu três compromissos fundamentais: a defesa dos territórios indígenas, o reconhecimento e a valorização das culturas originárias e a promoção da autodeterminação dos povos. Não se tratava simplesmente de realizar uma assistência religiosa, mas de reconhecer os indígenas como sujeitos de sua própria história, protagonistas de seus projetos de vida e portadores de conhecimentos, espiritualidades e tradições que merecem respeito.

Assim, o CIMI representou uma importante mudança na compreensão da presença missionária da Igreja: em vez de considerar os povos indígenas destinatários passivos da evangelização, passou a reconhecê-los como sujeitos de direitos, de cultura, de espiritualidade e de uma história que não pode ser apagada.

2. O CIMI e a Teologia Latino-americana: evangelizar é assumir o compromisso com a vida

A trajetória do CIMI encontra profunda identificação com os fundamentos da Teologia Latino-americana. Essa perspectiva teológica parte da realidade concreta dos povos, reconhece as contradições sociais e históricas e procura compreender a Palavra de Deus a partir do clamor daqueles cuja dignidade é negada.

A opção preferencial pelos pobres, reafirmada em Puebla (1979) e aprofundada em Aparecida (2007), não pode ser compreendida de maneira restrita. Os povos indígenas, historicamente submetidos à expropriação de suas terras, à discriminação, ao racismo e à negação de seus direitos, estão entre aqueles que interpelam permanentemente a consciência cristã.

Entretanto, é necessário compreender que os povos indígenas não são pobres apenas porque lhes faltam recursos econômicos. Sua pobreza histórica está profundamente relacionada a processos de colonização, expulsão territorial, destruição cultural e negação de sua autonomia. Por isso, o compromisso pastoral exige mais do que ações assistencialistas: exige reconhecer seus direitos, respeitar suas identidades e caminhar ao lado de suas organizações e lideranças.

Nesse sentido, a atuação do CIMI aproxima-se da compreensão de uma Igreja que não existe para si mesma, mas que encontra sua razão de ser no serviço ao Reino de Deus.

A Leitura Popular da Bíblia nos ajuda a compreender essa missão. No livro do Êxodo, Deus escuta o sofrimento de seu povo e toma posição diante da opressão:

“Eu vi a aflição do meu povo que está no Egito, ouvi o seu clamor por causa dos seus opressores e conheço os seus sofrimentos. Desci para libertá-lo” (Ex 3,7-8).

O Deus bíblico não permanece indiferente. Ele escuta, conhece, desce e liberta. A experiência do Êxodo revela que a fé não pode ser utilizada para justificar estruturas de dominação, mas deve alimentar processos de libertação.

Também Jesus, ao anunciar sua missão na sinagoga de Nazaré, proclama a Boa-Nova aos pobres, a libertação aos oprimidos e a recuperação da dignidade daqueles que sofrem (Lc 4,16-21).

À luz dessa experiência, a presença missionária junto aos povos indígenas não pode ser confundida com imposição cultural ou religiosa. Evangelizar significa testemunhar o amor de Deus, estabelecer relações de diálogo, respeitar a alteridade e reconhecer que o Espírito Santo precede a ação missionária, manifestando-se também nas culturas e espiritualidades dos povos originários.

A Igreja precisa, portanto, abandonar qualquer resquício de mentalidade colonial que considere as culturas indígenas inferiores ou obstáculos à evangelização. A verdadeira missão não destrói identidades: promove encontros, estabelece relações fraternas e reconhece a dignidade de cada povo.

O CIMI tornou-se, nesse horizonte, uma expressão concreta de uma Igreja que procura fazer da opção pelos pobres uma prática pastoral, social e profética.

3. Mato Grosso do Sul: quando a violência ameaça a vida dos povos indígenas

A realidade dos povos indígenas no Mato Grosso do Sul constitui uma das situações que mais profundamente interpelam a consciência da sociedade brasileira e da própria Igreja.

Os povos Guarani e Kaiowá, Terena e outros grupos indígenas enfrentam uma longa história de expulsão de seus territórios tradicionais, confinamento em reservas superlotadas, conflitos fundiários, precariedade das condições de sobrevivência e dificuldades para a efetivação de seus direitos territoriais.

A demora nos processos de demarcação, associada às disputas pela posse da terra, alimenta situações de insegurança e violência. Em diversas comunidades, lideranças indígenas enfrentam ameaças, ataques armados, intimidações, destruição de moradias e plantações, e ações que colocam em risco a integridade física de famílias inteiras.

Os acontecimentos recentes tornam essa realidade ainda mais preocupante.

Em agosto de 2026, na retomada Aratikuty, nas proximidades da Reserva Indígena de Dourados, uma ação envolvendo a Polícia Militar resultou, segundo relatos reunidos pelo CIMI, em cinco indígenas presos e dois feridos por munição de impacto controlado. A comunidade denunciou a destruição de barracos e pertences, além de dificuldades para receber mantimentos. As versões sobre as circunstâncias da intervenção foram divergentes, e os acontecimentos exigem apuração responsável. Cimi

Entretanto, os episódios mais recentes, ocorridos no final de outubro de 2026, revelam uma situação ainda mais alarmante.

Conforme noticiado pela Agência Brasil em 29 de outubro, comunidades Guarani e Kaiowá denunciaram ameaças, intimidações e tentativas de assassinato. Segundo informações do CIMI, ao menos cinco casos de assassinatos na região, desde 24 de outubro, estavam sendo investigados. Também foram relatadas intimidações durante o período eleitoral, com o objetivo de provocar medo entre os indígenas. Agência Brasil

Um dos fatos que mais causam indignação é a denúncia de ameaça de envenenamento da água utilizada por comunidades indígenas no município de Tacuru. Áudios atribuídos a um servidor municipal, posteriormente afastado, continham manifestações de ódio contra indígenas e ameaças de colocar veneno na água utilizada pelas comunidades. O caso foi encaminhado às autoridades para investigação.

O CIMI também recordou que a utilização de agrotóxicos nas proximidades de territórios indígenas não constitui uma preocupação recente. Em Guyraroká, Caarapó e Panambi-Lagoa Rica, comunidades Guarani e Kaiowá já denunciaram situações de exposição a substâncias tóxicas, contaminação de águas e ataques relacionados aos conflitos territoriais. Cimi

Os dados do Relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil – dados de 2025, publicado pelo CIMI em agosto de 2026, dimensionam a gravidade dessa realidade. Mato Grosso do Sul registrou 37 assassinatos de indígenas em 2025, segundo os dados reunidos a partir de fontes oficiais de saúde. O estado também contabilizou 102 registros de violência contra a pessoa indígena, entre eles 18 tentativas de assassinato e 18 casos de lesão corporal. Cimi+1

Esses acontecimentos não podem ser tratados como episódios isolados, desprovidos de relação com a história de expropriação territorial e de negação dos direitos indígenas. É necessário reconhecer que a violência física está frequentemente acompanhada de outras formas de violência: o racismo, a discriminação, a negação de direitos, a precariedade das condições de vida e a omissão diante de situações que exigem providências do poder público.

Quando uma comunidade indígena teme pela própria água, quando suas crianças estão expostas à contaminação, quando suas lideranças são ameaçadas e quando famílias precisam viver sob o medo de ataques, estamos diante de uma grave violação da dignidade humana.

Não podemos naturalizar essa realidade!

4. A Igreja precisa assumir atitudes proféticas

Diante de acontecimentos dessa gravidade, a Igreja Católica não pode permanecer em silêncio. Sua missão profética exige que se coloque ao lado daqueles cuja vida está ameaçada, denunciando as injustiças e contribuindo para a construção de caminhos concretos de justiça e paz.

O profetismo bíblico nunca foi uma experiência de neutralidade diante da opressão. Os profetas levantaram a voz contra aqueles que acumulavam terras, exploravam os trabalhadores, praticavam injustiças e desprezavam a dignidade dos pequenos.

O profeta Isaías denuncia aqueles que acrescentam casa a casa e campo a campo, até se tornarem proprietários de tudo, deixando os demais sem espaço para viver (Is 5,8). Essa denúncia permanece profundamente atual quando observamos os conflitos territoriais que atingem os povos indígenas.

Também o profeta Amós proclama:

“Que o direito corra como água e a justiça como um rio caudaloso!” (Am 5,24).

Não se trata de transformar a Igreja em instrumento de disputas partidárias ou de substituir as responsabilidades dos órgãos públicos. Trata-se de compreender que a defesa da vida, da dignidade humana, dos direitos territoriais e da justiça não é uma opção política acessória à missão cristã: é uma exigência do Evangelho.

Por isso, algumas atitudes concretas precisam fazer parte do compromisso eclesial:

  • A CNBB e os bispos das Igrejas particulares: manifestar publicamente sua preocupação, denunciar as violações de direitos e cobrar das autoridades a investigação das ameaças e dos ataques, a proteção das comunidades e a responsabilização dos envolvidos.
  • As dioceses e paróquias: fortalecer a presença pastoral junto às comunidades indígenas, estabelecendo relações de proximidade, escuta, solidariedade e respeito às suas organizações.
  • As pastorais sociais: articular ações com o CIMI, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), as organizações indígenas e outras entidades comprometidas com a defesa da vida e dos Direitos Humanos.
  • A formação cristã: promover uma educação que supere preconceitos, reconheça a história dos povos originários e combata toda manifestação de racismo e discriminação.
  • A defesa dos territórios: acompanhar os processos de demarcação, exigir o cumprimento dos direitos constitucionais dos povos indígenas e apoiar medidas que garantam sua segurança e autonomia.
  • A proteção da vida: acompanhar especialmente mulheres, crianças, jovens e lideranças indígenas, denunciando ameaças, violência física, contaminação ambiental e outras violações.

A Igreja precisa compreender que sua presença junto aos povos indígenas não deve acontecer apenas em datas comemorativas, celebrações ou campanhas de solidariedade. É necessário caminhar com eles durante todo o ano, sobretudo quando sua existência é ameaçada.

5. O CIMI e a esperança de uma Igreja verdadeiramente samaritana

A parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) oferece uma chave importante para compreender a missão da Igreja diante da realidade indígena.

Jesus apresenta um homem ferido à beira do caminho. Algumas pessoas passam, observam e seguem adiante. O samaritano, porém, aproxima-se, cuida das feridas, oferece proteção e assume a responsabilidade de garantir a continuidade daquele cuidado.

A pergunta fundamental não é apenas quem é o próximo, mas quem se faz próximo de quem está sofrendo.

Essa pergunta precisa ecoar nas comunidades cristãs, nas dioceses, nas estruturas eclesiais e nos organismos da Igreja.

Diante dos povos indígenas ameaçados, de que lado estamos? Do lado daqueles que defendem a vida ou daqueles que se beneficiam da exploração e da violência? Do lado daqueles que reconhecem a dignidade dos povos originários ou daqueles que insistem em negar sua história e seus direitos?

O CIMI, ao longo de sua trajetória, procurou responder a essas perguntas por meio de uma presença missionária comprometida com a vida, a autonomia e a dignidade dos povos indígenas. Sua caminhada recorda à Igreja que a evangelização não pode ser separada da justiça e que a missão não pode reproduzir as estruturas colonizadoras que historicamente violentaram os povos originários.

Também nos ajuda a compreender que os povos indígenas não precisam ser transformados em cópias da sociedade dominante. Eles possuem o direito de viver sua identidade, preservar suas línguas, cultivar suas espiritualidades, transmitir seus conhecimentos ancestrais e decidir os caminhos de seu futuro.

Há, nessa experiência, uma contribuição fundamental para a própria Teologia Latino-americana: os povos originários não são somente destinatários de nossa solidariedade. São sujeitos históricos, culturais e espirituais que também evangelizam a Igreja, questionam nossos modelos de desenvolvimento e nos ensinam outras formas de compreender a vida, a comunidade, a terra e a relação com a natureza.

O Bem Viver, presente em diferentes tradições indígenas, oferece uma importante provocação à sociedade contemporânea, marcada pelo consumismo, pela concentração de riquezas e pela exploração indiscriminada da Casa Comum.

Por isso, defender os povos indígenas é também defender a criação, a biodiversidade, as águas, as florestas e o direito das futuras gerações de encontrar um planeta habitável.

6. Uma Igreja que não se cala diante da violência

A memória histórica do CIMI nos recorda que existem momentos em que a fidelidade ao Evangelho exige coragem. Em 1972, durante a ditadura militar, missionários e missionárias compreenderam que não poderiam permanecer indiferentes diante das políticas que ameaçavam a existência dos povos indígenas. Hoje, mais de cinco décadas depois, essa mesma consciência missionária precisa continuar viva.

Os acontecimentos no Mato Grosso do Sul exigem uma resposta eclesial firme, articulada e profética. Não podemos aceitar que ameaças de morte, ataques armados, racismo, destruição de moradias e ameaças contra a água sejam incorporados à normalidade da vida brasileira.

Não podemos permitir que a defesa dos territórios indígenas seja tratada como obstáculo ao desenvolvimento, pois nenhum projeto econômico pode justificar a destruição de povos, culturas e vidas humanas.

A Igreja precisa estar presente onde a vida está ameaçada. Precisa escutar as lideranças indígenas, acolher suas denúncias, acompanhar suas organizações, cobrar providências das autoridades e transformar a solidariedade em compromisso permanente.

A Teologia Latino-americana nos ensinou que a reflexão sobre Deus não pode estar distante do sofrimento humano. O Deus de Jesus Cristo é aquele que escuta o clamor dos oprimidos e convoca seus discípulos a construir uma sociedade fundamentada na justiça, na fraternidade e na dignidade de todas as pessoas.

Talvez seja justamente nesse compromisso que possamos reconhecer uma das expressões mais autênticas da missão da Igreja: não falar pelos povos indígenas quando eles próprios podem falar, mas garantir que suas vozes sejam ouvidas; não decidir por eles, mas respeitar seu protagonismo; não ocupar seus espaços, mas caminhar ao seu lado.

Uma Igreja que anuncia Jesus Cristo não pode fechar os olhos diante daqueles que têm sua vida ameaçada. Uma Igreja que celebra a Eucaristia precisa reconhecer que a terra, a água e a vida dos povos originários também fazem parte do compromisso com o Corpo de Cristo.

Que o CIMI continue sendo sinal de uma Igreja que não se conforma com as injustiças, que não se omite diante da violência e que compreende a missão como serviço à vida.

E que os bispos, presbíteros, diáconos, religiosos, religiosas e leigos e leigas compreendam que, diante do sofrimento dos povos indígenas, não basta rezar pela paz: é preciso trabalhar pela justiça que torna a paz possível.

Afinal, não existe fidelidade ao Evangelho onde a dignidade humana é negada, nem verdadeira evangelização onde a vida dos povos é ameaçada.


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