O caminho da humildade e a mesa da inclusão: o Reino de Deus não admite lugares reservados
Por Pe. Hermes A. Fernandes
A Liturgia da Palavra desta terça-feira da 31ª Semana do Tempo Comum nos apresenta duas passagens profundamente relacionadas pela lógica do Reino de Deus: o hino cristológico da Carta aos Filipenses, que proclama o esvaziamento e a exaltação de Jesus, e a parábola do grande banquete, narrada por Lucas, na qual os pobres, os marginalizados e os excluídos são convidados a ocupar os lugares daqueles que inicialmente haviam sido chamados, mas recusaram o convite.
A articulação entre esses textos revela uma das características fundamentais do Evangelho: Deus não se manifesta segundo a lógica do poder, do prestígio e dos privilégios, mas pela humildade, pelo serviço e pela acolhida. O Cristo que se esvazia de si mesmo é o mesmo que abre as portas do banquete do Reino para aqueles que a sociedade costuma deixar do lado de fora.
À luz da Leitura Popular da Bíblia, somos convidados a reconhecer que essa Palavra não diz respeito apenas a uma realidade espiritual futura. Ela interpela nossas comunidades eclesiais, nossas relações sociais e nossas estruturas econômicas e políticas, exigindo uma Igreja comprometida com a dignidade humana, a justiça social e a defesa da vida.
1. Filipenses 2,5-11: o esvaziamento de Cristo como caminho de libertação
A Carta aos Filipenses foi escrita pelo apóstolo Paulo em um contexto de prisão. A comunidade de Filipos, situada na Macedônia, era uma comunidade querida pelo apóstolo, mas também enfrentava tensões internas e desafios relacionados à convivência, à unidade e à perseverança na fé.
No capítulo 2, Paulo exorta os cristãos a cultivarem os mesmos sentimentos de Jesus Cristo. Para fundamentar essa orientação, apresenta um belíssimo hino cristológico, provavelmente uma composição litúrgica anterior, incorporada à sua carta e reconhecida pela tradição cristã como uma das mais profundas sínteses da fé em Jesus.
O texto afirma que Cristo, “existindo em condição divina”, não considerou como presa a ser conservada a sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos seres humanos.
A expressão grega ekenōsen, traduzida como “esvaziou-se”, está na origem da reflexão teológica conhecida como kénosis. Não significa que Jesus tenha deixado de ser divino, mas que sua maneira de manifestar a condição divina foi radicalmente diferente da lógica da dominação. Ele não se valeu de sua condição para obter privilégios. Escolheu o caminho da proximidade, da solidariedade e do serviço.
O hino prossegue afirmando que Jesus se humilhou e foi obediente até a morte, e morte de cruz. Essa referência possui enorme força histórica. A crucifixão era uma forma de execução romana destinada especialmente a escravizados, rebeldes e pessoas consideradas perigosas para a ordem imperial. Era uma morte pública, humilhante e exemplar, utilizada para intimidar os povos submetidos ao poder de Roma.
Portanto, proclamar um Messias crucificado significava anunciar que Deus havia se identificado com aquele que o sistema imperial havia condenado. A cruz revela a solidariedade divina com os humilhados e violentados da história.
Entretanto, o hino não termina na cruz. Deus exalta Jesus e lhe concede o nome que está acima de todo nome, para que todo joelho se dobre e toda língua proclame que Jesus Cristo é Senhor.
A aclamação “Jesus Cristo é Senhor” também possuía uma dimensão histórica e pública. Em um ambiente marcado pela autoridade imperial, confessar a soberania de Cristo significava reconhecer que nenhum poder humano poderia ocupar o lugar de Deus.
Como embasamento teológico, essa passagem constitui um fundamento importante para uma Igreja que não busca privilégios, mas assume a condição de servidora. O verdadeiro seguimento de Jesus exige despojamento, proximidade com os pobres e renúncia às estruturas que reproduzem desigualdade e dominação.
Uma Igreja que se apresenta como discípula do Cristo servidor não pode permanecer indiferente diante da concentração da riqueza, da exploração dos trabalhadores, da violência contra os povos indígenas e da exclusão de milhões de pessoas do acesso aos direitos fundamentais.
As Comunidades Eclesiais de Base encontram nesse hino uma inspiração para viver a sinodalidade, a participação e a corresponsabilidade. A autoridade cristã não se mede pela capacidade de impor decisões, mas pela disposição de servir, escutar e caminhar junto com o povo.
A CPT e o CIMI também expressam essa dimensão da kénosis quando se colocam ao lado dos trabalhadores rurais, dos povos originários e das comunidades ameaçadas em seus territórios. É o testemunho de uma presença eclesial que não pretende falar pelos pobres sem escutá-los, mas reconhece neles sujeitos de sua própria história.
2. Lucas 14,15-24: o banquete do Reino e a subversão das exclusões
O Evangelho de Lucas apresenta Jesus participando de uma refeição na casa de um dos chefes dos fariseus. O contexto imediato é significativo: Jesus acabara de questionar a prática de convidar apenas amigos, parentes e pessoas capazes de retribuir a hospitalidade. Em vez disso, recomenda que sejam convidados os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos (Lc 14,12-14).
É nesse ambiente que alguém, provavelmente impressionado com as palavras de Jesus, exclama: “Feliz aquele que come o pão no Reino de Deus!”. Jesus responde contando a parábola de um homem que prepara um grande banquete e convida muitas pessoas.
Quando chega a hora da refeição, os convidados começam a apresentar desculpas. Um comprou um campo, outro adquiriu cinco juntas de bois e um terceiro acabara de se casar. As justificativas representam compromissos legítimos da vida cotidiana, mas, na narrativa, tornam-se sinais de uma recusa: os convidados colocam seus interesses particulares acima do convite recebido.
O proprietário, então, ordena ao empregado que percorra rapidamente as praças e ruas da cidade, trazendo os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. Quando o empregado informa que ainda há lugares disponíveis, recebe uma nova ordem: sair pelos caminhos e atalhos e insistir para que as pessoas entrem, a fim de que a casa fique cheia.
O banquete constitui uma imagem bíblica da salvação e da comunhão definitiva com Deus. No Antigo Testamento, a refeição abundante aparece frequentemente associada à esperança messiânica e à realização das promessas divinas. Em Lucas, entretanto, essa imagem ganha uma dimensão particularmente provocadora: os primeiros convidados não ocupam necessariamente os lugares mais importantes. A mesa é preenchida justamente por aqueles que a sociedade costuma desprezar.
Os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos não são mencionados por acaso. São pessoas que, naquele contexto social, frequentemente experimentavam dependência econômica, estigmatização religiosa e marginalização comunitária. Ao colocá-las no centro do banquete, Jesus questiona os critérios humanos de reconhecimento, honra e pertencimento.
É importante observar também a expressão “obriga as pessoas a entrar”. O verbo grego anankazō expressa insistência, forte persuasão, o empenho de quem não deseja que ninguém permaneça de fora. Não se deve interpretar essa passagem como autorização para qualquer forma de violência religiosa ou imposição da fé. O convite do Reino é expressão da generosidade divina.
A parábola não deve ser utilizada para condenar indistintamente um povo ou uma tradição religiosa. Sua crítica dirige-se à recusa do convite e às atitudes que impedem a participação na comunhão oferecida por Deus. A questão central é a abertura à graça e a disposição de acolher aqueles que foram historicamente excluídos.
A Leitura Popular da Bíblia reconhece nessa narrativa uma das expressões mais fortes da opção preferencial de Deus pelos pobres. Não se trata de afirmar que os pobres sejam automaticamente melhores ou que a pobreza seja desejável, mas de reconhecer que Deus escuta o clamor dos que sofrem e questiona uma sociedade que transforma privilégios em direitos exclusivos.
A parábola nos obriga a perguntar: quem está sentado à mesa de nossas comunidades? Quem permanece do lado de fora? Nossas celebrações são espaços de verdadeira fraternidade ou reproduzem distinções sociais, econômicas, culturais e religiosas?
Uma comunidade que celebra a Eucaristia, mas não encontra lugar para os pobres, os indígenas, os migrantes, as pessoas com deficiência, a população negra, as mulheres violentadas e os trabalhadores explorados, precisa rever sua compreensão do próprio Evangelho.
3. A mesa eucarística e a construção de uma Igreja sem exclusões
A aproximação entre Filipenses e Lucas permite perceber uma profunda unidade teológica. Em Filipenses, contemplamos o Cristo que se esvazia e assume a condição de servo. Em Lucas, encontramos o Reino representado por uma mesa que se abre para aqueles que não costumavam ser convidados.
O mesmo movimento está presente nos dois textos: Deus rompe com a lógica dos privilégios e inaugura uma nova maneira de estabelecer relações.
Essa perspectiva possui consequências pastorais muito concretas.
As Comunidades Eclesiais de Base são chamadas a fazer da Palavra de Deus uma experiência de organização popular, participação e transformação social. Não basta convidar os pobres para ocupar os bancos das igrejas: é necessário reconhecer sua capacidade de participar das decisões, exercer ministérios, interpretar as Escrituras e contribuir para a construção dos caminhos pastorais.
A Comissão Pastoral da Terra nos recorda que não existe mesa verdadeiramente fraterna quando trabalhadores rurais são expulsos de suas terras, quando comunidades são ameaçadas pela concentração fundiária e quando a produção de riqueza se sobrepõe à dignidade humana. A defesa da reforma agrária, da agricultura familiar, da soberania alimentar e dos direitos dos trabalhadores integra o compromisso cristão com o banquete da vida.
O Conselho Indigenista Missionário, por sua vez, nos ajuda a compreender que não há Reino de Deus onde os povos originários são privados de seus territórios, de sua cultura, de sua identidade e de sua autonomia. Os povos indígenas não devem ser tratados como destinatários passivos de assistência, mas reconhecidos como sujeitos de direitos, portadores de saberes e protagonistas de sua história.
A ação pastoral precisa, portanto, superar uma caridade meramente assistencialista. A solidariedade que distribui alimentos e roupas é necessária, mas deve caminhar junto com a denúncia das causas da pobreza e com a defesa dos direitos sociais.
É preciso construir comunidades que promovam:
- Acolhida efetiva às pessoas historicamente discriminadas, garantindo-lhes participação e protagonismo eclesial.
- Formação bíblica e consciência crítica, relacionando a Palavra de Deus com os conflitos e as injustiças da realidade.
- Defesa da terra, da água, dos territórios indígenas e dos direitos das populações tradicionais.
- Enfrentamento do racismo, do machismo, da violência, da intolerância religiosa e das diferentes formas de exploração.
- Economia solidária, partilha dos bens, segurança alimentar e iniciativas comunitárias de cuidado.
- Uma espiritualidade encarnada, que reconheça a presença de Cristo nos crucificados de ontem e de hoje.
A Eucaristia não pode ser compreendida como uma celebração desligada da realidade. A mesa do Senhor nos compromete com a construção de mesas onde ninguém passe fome, onde ninguém seja humilhado e onde todos tenham reconhecida sua dignidade.
Conclusão: uma Igreja que se esvazia para que os excluídos tenham lugar
A Palavra desta terça-feira da 31ª Semana do Tempo Comum apresenta um caminho exigente para o discipulado. Paulo nos convida a assumir os sentimentos de Cristo, que não se apegou aos privilégios, mas escolheu o caminho do serviço e da entrega. Lucas nos apresenta o banquete de Deus, cuja mesa permanece aberta até que todos encontrem lugar.
O Cristo que se esvazia de si mesmo é aquele que nos ensina a esvaziar nossas comunidades de preconceitos, vaidades, disputas por poder e estruturas de exclusão. E o banquete do Reino nos recorda que a Igreja não existe para proteger privilégios, mas para testemunhar a gratuidade do amor de Deus.
Não basta anunciar que todos são convidados para o banquete do Reino; é preciso trabalhar para que ninguém continue sendo impedido de participar dele.
Que nossas CEBs sejam casas de portas abertas; que a CPT continue defendendo a terra como espaço de vida; que o CIMI permaneça caminhando com os povos originários; e que nossas comunidades eclesiais sejam sinais concretos de uma sociedade na qual a dignidade humana esteja acima dos interesses econômicos e dos privilégios.
Afinal, o Evangelho não nos convida a ocupar os melhores lugares à mesa, mas a trabalhar para que todos tenham lugar. É nessa disposição de servir, partilhar e acolher que a Igreja manifesta os mesmos sentimentos de Cristo Jesus e antecipa, na história, a alegria do banquete definitivo do Reino de Deus.
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