Reflexão para Segunda-feira da 31ª Semana do Tempo Comum: Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos

A esperança que não morre: da memória dos que partiram ao compromisso com os que vivem

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos nos reúne em torno de uma experiência profundamente humana: a saudade daqueles que partiram, a dor provocada pela morte e a esperança de que a vida não termina no túmulo. A Liturgia da Palavra deste dia, entretanto, não nos convida a olhar a morte como quem contempla passivamente o passado. Ela nos coloca diante do Deus da vida e nos desafia a compreender que a esperança na ressurreição precisa transformar nossa maneira de viver, de amar e de nos comprometer com a história.

À luz da Leitura Popular da Bíblia, recordar nossos mortos significa também recordar suas lutas, seus sonhos interrompidos e suas esperanças. Significa, sobretudo, reconhecer que a fé na ressurreição não pode ser separada da defesa da vida daqueles que continuam sendo ameaçados pela fome, pela violência, pela exploração, pelo racismo, pela concentração da terra e pela negação de seus direitos.

1. Jó 19,1.23-27a: a esperança que nasce em meio ao sofrimento

O livro de Jó apresenta uma das mais profundas reflexões bíblicas sobre o sofrimento humano. Jó é um homem justo que experimenta a perda dos bens, dos filhos e da própria saúde. Sua tragédia não é apenas física ou material: ele também sofre com a incompreensão dos amigos, que procuram explicar sua dor como consequência de alguma culpa pessoal. A teologia retributiva de seus interlocutores não consegue acolher o sofrimento de um inocente.

No trecho proclamado, encontramos uma das mais comoventes declarações de esperança de toda a Escritura: “Eu sei que o meu redentor está vivo”. A expressão hebraica go’el designa aquele que resgata, defende e assume a causa de alguém que sofreu uma injustiça. Na tradição de Israel, o go’el era aquele que não permitia que um familiar desamparado permanecesse sem proteção. Jó, portanto, manifesta a esperança de que alguém se levantará em sua defesa, mesmo quando todas as garantias humanas parecem ter desaparecido.

O desejo de que suas palavras sejam gravadas na rocha revela que Jó não quer que seu sofrimento seja esquecido. Ele reivindica memória, justiça e reconhecimento. Sua esperança não nasce da negação da dor, mas da resistência diante de uma realidade que parece não oferecer saída.

A interpretação cristã encontra nessa passagem uma profunda afinidade com a esperança pascal. Embora o texto não apresente ainda uma formulação plenamente desenvolvida da fé na ressurreição, ele testemunha a confiança de que a injustiça não terá a última palavra.

Quantos Josés, Marias, indígenas, trabalhadores rurais, mulheres violentadas, pessoas em situação de rua e famílias empobrecidas poderiam pronunciar palavras semelhantes às de Jó! Quantos carregam sofrimentos que não provocaram e enfrentam estruturas que lhes negam dignidade?

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) nos ajudam a reconhecer esses rostos concretos. A memória dos mortos, especialmente daqueles que tombaram na luta pela terra, pelos territórios e pelos direitos dos povos, não pode ser reduzida a uma recordação sentimental. É também denúncia das injustiças e compromisso com a continuidade de suas causas.

A fé no Redentor vivo nos impede de aceitar que a morte, a violência e a impunidade sejam consideradas destinos inevitáveis dos pobres.

2. 1Coríntios 15,20-24a.25-28: Cristo ressuscitado, primícias de uma nova humanidade

A comunidade de Corinto enfrentava dificuldades para compreender e acolher a fé na ressurreição dos mortos. Influenciados por concepções filosóficas que consideravam o corpo uma realidade inferior ou incompatível com a vida espiritual, alguns cristãos tinham dificuldade de admitir a ressurreição corporal. Paulo responde apresentando a ressurreição de Jesus como fundamento de toda a esperança cristã.

A afirmação central é contundente: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram”. A imagem das primícias remete às primeiras colheitas oferecidas a Deus, antecipando a abundância que viria depois. Cristo é, portanto, o primeiro fruto da humanidade renovada. Sua ressurreição não constitui um acontecimento isolado, mas inaugura uma realidade destinada a alcançar todos os que nele vivem.

Paulo estabelece um paralelo entre Adão e Cristo. Se em Adão a humanidade experimenta a morte, em Cristo recebe a promessa da vida. Não se trata simplesmente de uma compensação futura, mas da inauguração de uma nova condição humana, na qual a morte não possui a palavra definitiva.

O apóstolo acrescenta que Cristo precisa reinar até que todos os seus inimigos sejam colocados sob seus pés. E identifica explicitamente o último inimigo a ser destruído: a morte. O horizonte dessa reflexão é extraordinário: “para que Deus seja tudo em todos”.

Essa expressão revela a dimensão universal da esperança cristã. O projeto de Deus não consiste em salvar indivíduos isolados, indiferentes ao sofrimento coletivo, mas em conduzir toda a criação à plenitude da vida.

A Teologia encontra aqui um fundamento para sua insistência na relação inseparável entre fé e compromisso histórico. A ressurreição não nos autoriza a desprezar a realidade terrestre, esperando passivamente uma recompensa depois da morte. Pelo contrário, porque acreditamos que a vida vencerá, somos chamados a enfrentar tudo aquilo que produz morte no presente.

Quando uma criança morre por desnutrição, quando uma família é expulsa de seu território, quando um trabalhador perde a vida em condições degradantes, quando um povo indígena vê suas terras ameaçadas e quando uma mulher é assassinada pela violência de gênero, estamos diante de manifestações concretas daquilo que Paulo identifica como inimigo de Deus.

A CPT, ao acompanhar trabalhadores e trabalhadoras do campo, e o CIMI, ao defender os direitos dos povos indígenas, testemunham que a esperança pascal exige resistência diante dos mecanismos que produzem sofrimento e morte. Não se pode proclamar a vitória de Cristo sobre a morte e permanecer indiferente às estruturas que sacrificam vidas humanas em benefício de interesses econômicos e políticos.

A celebração de Finados, nessa perspectiva, é também profissão de fé na ressurreição dos injustiçados. Deus não abandona aqueles cuja existência foi desprezada pela sociedade. A vida dos pobres, dos indígenas, dos camponeses, dos negros e de todos os excluídos está compreendida na promessa de que Deus será tudo em todos.

3. Lucas 12,35-40: permanecer vigilantes, com as lâmpadas acesas

O Evangelho de Lucas apresenta uma pequena parábola dirigida aos discípulos: “Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas”. A imagem remete ao contexto cultural do Oriente Antigo, no qual as pessoas utilizavam vestes longas. Cingir os rins significava recolher as vestes para estar preparado para caminhar, trabalhar ou enfrentar uma situação inesperada.

As lâmpadas acesas, por sua vez, indicam a atitude de quem permanece desperto durante a noite, aguardando o retorno do senhor. Jesus compara os discípulos aos empregados que esperam o patrão regressar de uma festa de casamento, prontos para abrir a porta quando ele chegar.

Há um detalhe especialmente significativo: o senhor, ao encontrar os empregados vigilantes, inverte os papéis e passa a servi-los. Ele mesmo os faz sentar à mesa e os serve. Essa inversão revela algo essencial sobre o Reino de Deus: o senhorio de Jesus manifesta-se no serviço. Aquele que é Senhor não domina, mas se coloca a serviço dos seus.

A vigilância cristã, portanto, não deve ser confundida com medo do fim do mundo, especulações sobre datas ou uma espiritualidade de fuga da história. O próprio contexto de Lucas aponta para uma comunidade chamada a permanecer fiel à missão enquanto aguarda a manifestação definitiva do Senhor.

O versículo 40 amplia a advertência: “Ficai preparados, porque na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá”. A vigilância é uma disposição permanente, que envolve escolhas, atitudes e compromissos concretos.

Na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, essa passagem adquire uma ressonância especial. Recordamos que nossa existência é passageira e que não conhecemos o momento de nosso encontro definitivo com Deus. Entretanto, a melhor preparação para esse encontro não consiste em viver assustados diante da morte, mas em fazer da própria vida uma resposta ao amor.

As Comunidades Eclesiais de Base são expressão dessa vigilância quando mantêm suas portas abertas, organizam a solidariedade, promovem a formação bíblica e política, acompanham famílias em situação de vulnerabilidade e fazem da Palavra de Deus uma força de transformação social.

A CPT permanece vigilante quando denuncia a violência no campo, acompanha os trabalhadores ameaçados e defende a terra como espaço de vida, não como simples mercadoria. O CIMI mantém acesa a lâmpada do Evangelho quando caminha com os povos originários, reconhecendo sua dignidade, sua cultura, sua espiritualidade e seu direito aos territórios ancestrais.

A vigilância evangélica também exige que nossas comunidades estejam atentas às novas formas de exclusão: o racismo, a xenofobia, a intolerância religiosa, o abandono das pessoas idosas, a exploração do trabalho, a violência contra as mulheres e a destruição ambiental.

Uma Igreja vigilante não é aquela que vive contando os dias para a chegada do Senhor, mas aquela que reconhece sua presença nos pequenos, nos pobres e nos que sofrem. Afinal, o próprio Jesus ensinou que aquilo que fazemos aos mais pequeninos é a ele que fazemos.

4. Finados: fazer memória é assumir o compromisso com a vida

A Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos não pode ser reduzida a uma celebração marcada exclusivamente pela saudade ou pela contemplação da morte. A memória cristã possui uma dimensão pascal: recordamos aqueles que partiram porque acreditamos que a vida está nas mãos de Deus. Mas também recordamos porque suas histórias continuam interpelando nossa consciência e nossa responsabilidade histórica.

Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, é importante perguntar: de quais mortos estamos fazendo memória? Apenas daqueles cujos nomes estão registrados em nossos livros de família? Ou também daqueles que a história oficial tentou apagar?

Precisamos recordar os povos indígenas exterminados, os negros escravizados, as mulheres vítimas do patriarcado, os trabalhadores assassinados na luta pela terra, os defensores dos direitos humanos, os mártires das comunidades eclesiais e todos aqueles que perderam a vida por causa de estruturas de injustiça.

A memória desses homens e mulheres não pode ser instrumentalizada nem transformada em discurso vazio. Deve produzir compromisso. Uma Igreja que celebra seus mártires, mas não se compromete com as causas pelas quais eles entregaram a vida, corre o risco de transformar a memória em simples ritual.

As CEBs, a CPT e o CIMI nos ajudam a compreender que a fidelidade ao Evangelho passa pela construção de uma sociedade na qual ninguém precise morrer por falta de alimento, atendimento médico, moradia, terra, água potável ou reconhecimento de sua dignidade.

É necessário, portanto, que nossas comunidades promovam ações concretas: acompanhamento das famílias enlutadas, solidariedade com os que perderam seus entes queridos, defesa dos direitos dos povos originários, enfrentamento da violência no campo e nas cidades, formação de consciência crítica e cuidado com a Casa Comum.

A esperança na ressurreição deve ser experimentada já agora, mediante relações mais humanas, partilha dos bens, justiça social e compromisso com os que permanecem à margem.

Conclusão: a última palavra pertence à vida!

As três leituras desta Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos de 2026 nos conduzem a uma mesma certeza: o sofrimento não é eterno, a injustiça não é definitiva e a morte não possui a última palavra.

Jó proclama sua confiança no Redentor vivo, mesmo quando a dor parece consumir todas as suas forças. Paulo anuncia que Cristo ressuscitado é a primícia de uma humanidade destinada à vida plena. Lucas nos recorda que devemos permanecer vigilantes, com as lâmpadas acesas, preparando-nos para o encontro com o Senhor mediante uma existência marcada pelo serviço.

A esperança cristã não é alienação. É força para resistir, coragem para denunciar, disposição para servir e perseverança na construção de um mundo mais justo. Não esperamos a ressurreição de braços cruzados: trabalhamos para que a vida seja respeitada em todas as suas manifestações.

Neste 2 de novembro, enquanto depositamos flores sobre os túmulos daqueles que amamos, somos convidados a cultivar a memória daqueles que fizeram da própria existência uma entrega em favor da vida. Que seus testemunhos não sejam esquecidos e que suas lutas encontrem continuidade em nossas comunidades.

A melhor maneira de honrar nossos mortos é não permitir que os vivos continuem sendo sacrificados pela injustiça. A fé no Ressuscitado nos compromete com a vida desde agora, até que Deus seja tudo em todos.

Afinal, a esperança pascal que professamos diante dos túmulos precisa tornar-se compromisso concreto diante dos pobres, dos injustiçados e dos excluídos. Porque, para quem acredita em Cristo ressuscitado, a última palavra nunca será da violência, da opressão ou da morte. A última palavra pertence à Vida!


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