Por Pe. Hermes A. Fernandes
1. Introdução: a sabedoria como caminho de resistência e compromisso
O Livro da Sabedoria, também conhecido como Sabedoria de Salomão, ocupa um lugar significativo no conjunto dos livros sapienciais do Primeiro Testamento. Sua mensagem permanece profundamente atual, sobretudo quando lida a partir da realidade dos pobres, dos marginalizados e daqueles que têm sua dignidade ameaçada pelas estruturas de injustiça. Mais do que apresentar reflexões abstratas sobre a existência humana, o livro convida a reconhecer que a verdadeira sabedoria está vinculada à justiça, à defesa da vida e à fidelidade ao projeto de Deus.
Escrito originalmente em grego, provavelmente em Alexandria, no Egito, no final do século I a.C., o livro nasceu em um ambiente marcado pela diversidade cultural, pela influência helenística e pelas tensões enfrentadas pelas comunidades judaicas que viviam fora da Palestina. Essas comunidades precisavam preservar sua identidade religiosa e cultural diante de uma sociedade que frequentemente valorizava o poder, a riqueza, o prestígio e a assimilação cultural.
Nesse contexto, a sabedoria aparece como resistência. O autor procura demonstrar que a fé no Deus de Israel não representa atraso ou inferioridade cultural, mas um caminho de vida fundamentado na justiça. A sabedoria verdadeira não se encontra na dominação, na arrogância ou na acumulação de riquezas, mas na capacidade de reconhecer a presença de Deus e orientar a existência segundo seus desígnios.
A Leitura Popular da Bíblia encontra nessa perspectiva uma importante inspiração: a fé não pode permanecer indiferente diante das situações de sofrimento humano. Conhecer a Deus significa assumir o compromisso com a vida, especialmente quando ela é ameaçada pelos mecanismos de exploração, exclusão e violência.
2. A justiça como fundamento da verdadeira sabedoria (Sb 1,1-15)
O livro começa com uma convocação: amar a justiça e buscar o Senhor com sinceridade de coração (Sb 1,1). Essa afirmação constitui a chave interpretativa de toda a obra. A sabedoria não é apresentada como conhecimento reservado a uma elite intelectual ou religiosa, mas como disposição interior e prática concreta de quem deseja viver segundo a vontade de Deus.
No contexto original, essa exortação confrontava uma sociedade na qual o poder político, a riqueza e o prestígio social frequentemente determinavam o valor das pessoas. O autor apresenta outra lógica: a justiça é o critério pelo qual a vida humana deve ser compreendida e organizada.
O texto afirma que Deus não criou a morte e não se alegra com a destruição dos viventes (Sb 1,13). Essa declaração possui enorme força teológica. A morte, aqui, não deve ser compreendida apenas como acontecimento biológico, mas também em suas dimensões sociais e históricas: tudo aquilo que destrói a dignidade humana, impede a vida e produz sofrimento contradiz o projeto do Criador.
Na realidade brasileira, essa afirmação interpela diretamente a Igreja diante da fome, da violência, do racismo, do desemprego, da concentração fundiária e da destruição ambiental. Quando trabalhadores rurais são assassinados por defenderem seu direito à terra, quando povos indígenas são ameaçados em seus territórios e quando famílias são privadas de condições dignas de existência, estamos diante de situações que contradizem a sabedoria divina.
A Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) encontram nessa perspectiva um fundamento bíblico para sua atuação. Defender a terra, os territórios tradicionais e os direitos dos povos não é uma atividade secundária da missão eclesial: é participar da defesa da vida querida por Deus.
3. O justo perseguido: quando a sociedade rejeita aqueles que defendem a vida (Sb 2,1-24; 3,1-9; 5,1-23)
Um dos trechos mais contundentes do livro encontra-se em Sb 2,1-24. O autor apresenta o discurso dos injustos, que consideram a existência humana limitada à satisfação dos desejos, ao prazer e à conquista do poder. Para eles, os fracos não merecem consideração, os pobres podem ser explorados e os justos precisam ser eliminados quando sua presença incomoda.
O versículo 10 é particularmente significativo: os injustos propõem oprimir o pobre e não poupar a viúva nem respeitar os idosos. O justo torna-se uma ameaça porque denuncia suas práticas e afirma conhecer a Deus. Por isso, decidem submetê-lo à violência e à humilhação para testar sua fidelidade.
Essa passagem possui características de uma denúncia profética. O autor revela a lógica de uma sociedade que transforma a força em critério de verdade e considera descartáveis aqueles que não possuem poder econômico ou político. O justo perseguido representa todos os que, por defenderem a justiça, se tornam vítimas dos interesses dominantes.
Em Sb 3,1-9, entretanto, aparece uma afirmação fundamental: a vida dos justos está nas mãos de Deus. Mesmo quando parecem derrotados, sua esperança não desaparece. O texto desenvolve uma compreensão da vida que ultrapassa a experiência imediata da morte. Trata-se de uma das importantes expressões bíblicas da esperança na imortalidade e na comunhão definitiva com Deus.
Já Sb 5,1-23 apresenta a inversão das aparências: aqueles que foram desprezados e perseguidos são reconhecidos em sua dignidade, enquanto os injustos precisam confrontar as consequências de suas escolhas.
A Leitura Popular da Bíblia encontra nesses textos uma profunda aproximação com a memória dos mártires da caminhada. Pessoas que perderam a vida defendendo trabalhadores, comunidades, povos indígenas, quilombolas e populações empobrecidas não podem ser consideradas derrotadas. Sua memória permanece como denúncia da injustiça e testemunho de fidelidade ao projeto de Deus.
A atuação pastoral da CPT e do CIMI expressa essa dimensão da fé quando acompanha comunidades ameaçadas, denuncia assassinatos, reivindica justiça e mantém viva a memória daqueles que tombaram na defesa da terra e dos territórios. As CEBs, por sua vez, são chamadas a transformar a memória dos mártires em compromisso comunitário, evitando que suas histórias sejam reduzidas a homenagens sem consequências práticas.
4. A sabedoria de Deus não se compra: discernimento, justiça e responsabilidade (Sb 6,1–9,18)
Nos capítulos 6 a 9, o livro desenvolve uma reflexão sobre a origem e a natureza da sabedoria. O autor dirige-se especialmente aos governantes e às autoridades, recordando-lhes que o poder não é propriedade particular, mas responsabilidade diante de Deus.
Em Sb 6,1-11, os reis e juízes são advertidos de que serão julgados conforme a maneira como exercem suas responsabilidades. Quanto maior o poder, maior a exigência de justiça. Essa afirmação é particularmente importante porque rompe com a ideia de que a autoridade pode agir conforme seus próprios interesses.
A sabedoria não pode ser confundida com esperteza política, domínio econômico ou capacidade de manipular pessoas. Ela exige discernimento, prudência, justiça e responsabilidade pelo bem comum.
Em Sb 7,22–8,1, a sabedoria é apresentada como espírito inteligente, santo, único, múltiplo, penetrante e benéfico. Não se trata simplesmente de uma qualidade humana, mas de uma realidade que procede de Deus e participa de sua ação criadora. A sabedoria alcança todas as coisas e conduz à justiça.
No capítulo 9, encontramos uma oração que pede a Deus a sabedoria necessária para governar e discernir corretamente. O autor reconhece os limites humanos: sem a luz divina, o ser humano não consegue compreender plenamente os caminhos da justiça.
Essa perspectiva dialoga com a caminhada das CEBs, que procuram construir uma Igreja participativa, na qual a Palavra de Deus seja iluminada pela experiência concreta do povo. A leitura comunitária das Escrituras permite reconhecer que a sabedoria não pertence exclusivamente aos especialistas ou às autoridades religiosas. Deus também se manifesta na experiência dos pequenos, na resistência dos trabalhadores, na memória dos povos tradicionais e na solidariedade entre os empobrecidos.
A sabedoria bíblica questiona, portanto, uma Igreja excessivamente preocupada com estruturas de poder e pouco atenta à realidade daqueles que sofrem. Uma comunidade verdadeiramente sábia é aquela que escuta, discerne, acompanha e assume responsabilidades diante das injustiças.
5. Deus caminha com seu povo: memória do Êxodo e libertação (Sb 10,1–19,22)
Na última grande parte do livro, o autor realiza uma releitura da história de Israel, demonstrando como a sabedoria esteve presente na caminhada do povo. A memória dos acontecimentos do Êxodo ocupa lugar central nessa reflexão.
Em Sb 10,1-21, a sabedoria acompanha os patriarcas, protege os justos e conduz Moisés e o povo na experiência da libertação. O passado de Israel é interpretado como história de um Deus que não abandona seu povo diante da opressão.
Nos capítulos 11 e 12, o autor reflete sobre a ação de Deus durante a caminhada pelo deserto e destaca sua misericórdia. Deus poderia destruir os adversários, mas manifesta paciência e oferece oportunidades de conversão (Sb 11,23-26). A justiça divina não se identifica com a vingança: ela está relacionada à misericórdia e à possibilidade de transformação.
Os capítulos 13 a 15 apresentam uma crítica à idolatria. O autor denuncia a fabricação de imagens e a transformação das criaturas em objetos de adoração. Em uma sociedade marcada pela exploração, essa denúncia pode ser aproximada criticamente da absolutização de realidades humanas, como o dinheiro, o poder e a propriedade.
Não se deve, entretanto, identificar diretamente os ídolos antigos com as estruturas econômicas contemporâneas. A aproximação é teológica: quando uma realidade criada passa a ser tratada como absoluta, mesmo que sua manutenção exija a destruição de vidas, ela assume uma função idolátrica.
Essa reflexão ganha especial importância diante da destruição ambiental e da exploração dos territórios indígenas. A terra não pode ser reduzida a mercadoria, nem os rios, as florestas e os seres vivos podem ser tratados exclusivamente como recursos econômicos. A criação é dom de Deus e deve ser cuidada como condição de existência das gerações presentes e futuras.
Nos capítulos 16 a 19, a memória do Êxodo é retomada por meio de contrastes entre a experiência de Israel e a dos egípcios. A libertação é apresentada como manifestação da fidelidade de Deus. O livro termina recordando que Deus não abandona aqueles que escolheu e que a história está aberta à sua ação salvadora.
Para a Leitura Popular da Bíblia, essa memória é particularmente significativa. Assim como Deus ouviu o clamor dos hebreus escravizados no Egito, também hoje escuta o grito dos trabalhadores sem terra, dos povos indígenas ameaçados, das comunidades quilombolas, dos moradores das periferias e de todos aqueles que têm sua dignidade negada.
A leitura do Êxodo não permite uma espiritualidade de acomodação. Ela convoca a Igreja a caminhar com os que lutam por libertação e a reconhecer que a história da salvação acontece também nas lutas concretas pela justiça.
6. A sabedoria que se transforma em ação pastoral: uma Igreja comprometida com a vida
A leitura do Livro da Sabedoria, à luz da realidade latino-americana, conduz a uma conclusão fundamental: não existe verdadeira sabedoria cristã sem compromisso com a justiça. Conhecer a Deus significa aprender a olhar o mundo a partir de sua misericórdia e reconhecer que a dignidade humana não pode depender da condição econômica, da origem étnica ou da posição social de ninguém.
Essa compreensão exige uma ação pastoral que ultrapasse os limites de uma religiosidade individualista e se comprometa com a transformação da realidade.
As Comunidades Eclesiais de Base são chamadas a fortalecer a leitura popular da Bíblia, criando espaços nos quais a Palavra seja confrontada com a vida cotidiana. É necessário que as comunidades continuem sendo lugares de acolhida, organização popular, formação crítica, solidariedade e resistência. A celebração da fé precisa estar ligada à defesa da vida, à participação cidadã e à construção de relações mais justas.
A Comissão Pastoral da Terra encontra no Livro da Sabedoria uma inspiração para continuar denunciando a violência no campo, a concentração fundiária, a exploração dos trabalhadores e a destruição da natureza. Sua missão deve contribuir para que a Igreja compreenda que a questão agrária não é apenas um problema econômico ou político, mas também uma questão ética, social, ambiental e profundamente evangélica.
O Conselho Indigenista Missionário, por sua vez, é expressão de uma Igreja que procura caminhar com os povos indígenas, respeitando suas culturas, espiritualidades, territórios e direitos. Diante das ameaças, invasões territoriais e violências sofridas por essas populações, especialmente em regiões como o Mato Grosso do Sul, a Igreja não pode permanecer silenciosa. É preciso fortalecer a presença missionária, apoiar a autodeterminação dos povos, denunciar as violações de Direitos Humanos e exigir políticas públicas que garantam sua existência e seus territórios.
Também é necessário investir na formação das comunidades cristãs para superar preconceitos históricos, racismo, discriminação e práticas religiosas que desconsideram a diversidade cultural. A sabedoria de Deus não pode ser utilizada para justificar a dominação, mas deve favorecer o encontro, o respeito e a fraternidade.
Por fim, a ação pastoral precisa estabelecer uma relação inseparável entre espiritualidade e compromisso social. A oração deve conduzir à solidariedade; a Eucaristia, à partilha; a catequese, à formação de consciências comprometidas; e a missão, à presença junto daqueles que mais sofrem.
7. Conclusão: ser sábio é escolher a vida
O Livro da Sabedoria oferece à Igreja uma mensagem que atravessa os séculos: a verdadeira sabedoria está em reconhecer Deus como fonte da vida e orientar a existência segundo a justiça. O poder sem responsabilidade, a riqueza sem solidariedade e a religião sem compromisso com os sofredores representam caminhos contrários à sabedoria divina.
A Leitura Popular da Bíblia ajuda-nos a perceber que essa mensagem precisa ser acolhida a partir dos rostos concretos dos pobres. Não basta falar da sabedoria de Deus enquanto homens e mulheres continuam sendo expulsos de suas terras, povos indígenas têm seus territórios invadidos, trabalhadores são assassinados e crianças permanecem privadas de alimentação, educação e moradia digna.
A Igreja é chamada a ser uma comunidade que escuta o clamor dos pequenos e reconhece, na luta pela justiça, uma dimensão constitutiva de sua missão evangelizadora. As CEBs, a CPT e o CIMI expressam, cada qual em sua especificidade, essa presença eclesial que procura unir fé, vida, resistência e esperança.
A sabedoria que vem de Deus não nos afasta dos conflitos da história. Pelo contrário, oferece discernimento e coragem para enfrentá-los sem abandonar a misericórdia, a fraternidade e a esperança.
Ser sábio, portanto, é escolher a vida. É colocar-se ao lado daqueles cuja dignidade foi negada e compreender que a fidelidade a Deus passa necessariamente pelo compromisso com os pobres, marginalizados e excluídos de ontem e de hoje. Afinal, uma Igreja que busca a sabedoria divina precisa aprender a reconhecer que o rosto de Deus também se revela nos rostos daqueles que o mundo insiste em não enxergar.
Deixe um comentário