Por Seny Giannini*
1. A EXPERIÊNCIA DO SAGRADO COMO DIMENSÃO CONSTITUTIVA DA VIDA HUMANA
Contribuições antropológicas para a compreensão da religião
A experiência do sagrado constitui uma dimensão estrutural da existência humana e atravessa todas as sociedades conhecidas ao longo da história. Do ponto de vista antropológico, não existem registros de grupos humanos — antigos ou contemporâneos — que não tenham desenvolvido algum tipo de relação simbólica com aquilo que transcende o imediato, o utilitário e o puramente funcional. A religião, nesse sentido, não pode ser compreendida como fenômeno acessório, mas como elemento constitutivo das culturas humanas.
Émile Durkheim, em sua análise clássica da religião, afirma que os sistemas religiosos expressam formas socialmente construídas de organização da vida coletiva. Para o autor, a religião não se refere primariamente ao conteúdo sobrenatural, mas à função simbólica que exerce no interior da sociedade. Nessa perspectiva, Durkheim afirma: “não existem religiões falsas; todas são verdadeiras à sua maneira” (DURKHEIM, 1996, p. 36). Trata-se de uma afirmação fundamental para as ciências da religião, pois desloca o debate do campo da veracidade doutrinária para o da função antropológica e social do sagrado. Mircea Eliade aprofunda esse horizonte ao afirmar que o ser humano é estruturalmente religioso, um homo religiosus, cuja experiência do mundo se organiza a partir da distinção entre o sagrado e o profano. Para Eliade, o sagrado não é uma construção arbitrária, mas uma realidade que se impõe à consciência humana como experiência de ruptura da ordem ordinária da vida. Como afirma o autor:
O sagrado manifesta-se sempre como uma realidade de ordem totalmente diversa das realidades “naturais”. Não se trata de uma simples construção do espírito, mas de algo que se oferece à experiência humana como realidade absolutamente diferente e poderosa (ELIADE, 2010, p. 17).
Essa compreensão é decisiva para afastar leituras reducionistas que tratam a religião como simples ilusão ou resíduo do pensamento pré-científico. Mesmo em contextos de forte secularização, a experiência do sagrado não desaparece; ela se desloca e assume novas formas simbólicas, frequentemente desvinculadas das instituições religiosas tradicionais. Nessa mesma direção, Clifford Geertz compreende a religião como sistema cultural, argumentando que ela opera por meio de símbolos capazes de organizar a visão de mundo e sustentar disposições duradouras nos indivíduos. Segundo o autor, a religião é “um sistema de símbolos que atua para estabelecer disposições e motivações poderosas, penetrantes e duradouras nos indivíduos” (GEERTZ, 1989, p. 67). Essa definição reforça a ideia de que o sagrado se expressa em linguagens culturais concretas, produzindo efeitos reais na vida social, ética e afetiva das pessoas. Essas abordagens convergem ao reconhecer que a experiência religiosa não pode ser reduzida ao âmbito da crença individual. Ela envolve corpo, afetividade, ritos, narrativas, memória coletiva e práticas sociais, configurando o que as ciências da religião compreendem como fenômeno humano total. Tal compreensão é essencial para o ensino religioso e para a teologia pastoral, pois impede a redução da fé à mera transmissão de conteúdos doutrinários.
É a partir desse fundamento antropológico que se pode compreender a dinâmica contemporânea da religião. Como observa Hugo Brandão (2025), a religião na pós-modernidade não desaparece, mas passa por um processo de ressignificação profunda, no qual novas mediações simbólicas assumem papel central na construção da experiência religiosa. As transformações digitais e tecnológicas participam ativamente desse deslocamento do sagrado. Nesse sentido, a emergência das inteligências artificiais não inaugura a busca humana pelo sagrado, mas interfere nas formas pelas quais essa busca é mediada, interpretada e organizada simbolicamente. A experiência do sagrado permanece, mas passa a circular também por ambientes digitais e dispositivos tecnológicos. Assim, compreender o sagrado como dimensão constitutiva da existência humana é o ponto de partida indispensável para analisar criticamente as relações entre religião, pós-modernidade e inteligência artificial. Sem esse fundamento antropológico, corre-se o risco de interpretar os fenômenos religiosos contemporâneos como simples efeitos da tecnologia, quando, na realidade, eles expressam uma necessidade humana antiga, continuamente ressignificada ao longo da história.
2. A SOCIEDADE PÓS-MODERNA E O FENÔMENO RELIGIOSO
Características da pós-modernidade e seus reflexos na vivência da fé
A passagem da modernidade para a pós-modernidade alterou profundamente as condições de produção e recepção do fenômeno religioso. Se a modernidade se caracterizou pela confiança cega na razão técnico-científica, pela centralidade do sujeito e pela expectativa de uma secularização total que faria a religião desaparecer, a pós-modernidade emerge como o cenário da desilusão em relação às grandes narrativas totalizantes.
Zygmunt Bauman, ao diagnosticar a contemporaneidade por meio do conceito de “modernidade líquida”, aponta que as instituições sólidas — inclusive as igrejas tradicionais — perderam sua capacidade de fornecer molduras identitárias rígidas e duradouras. Na sociedade líquida, tudo é temporário, mutável e orientado pela lógica do consumo. A religião, consequentemente, sofre um processo de desinstitucionalização. A busca pelo sagrado desvincula-se da pertença comunitária e dogmática, transformando-se em uma busca individualizada, fragmentada e frequentemente sincrética. Como bem aponta Bauman (2013), o mal-estar da pós-modernidade não decorre da falta de liberdade, mas da angústia de uma liberdade desprovida de referenciais estáveis.
Nesse contexto líquido, a vivência da fé enfrenta o desafio do subjetivismo ético e da privatização do religioso. A religião deixa de ser uma verdade partilhada publicamente e passa a ser tratada como uma escolha de estilo de vida ou um recurso terapêutico individual. É o que se convencionou chamar de “espiritualidade sem religião”, um fenômeno tipicamente pós-moderno em que o indivíduo construa suas próprias convicções a partir de fragmentos de diferentes tradições, sem assumir compromissos com uma comunidade concreta ou com uma tradição teológica histórica. Thomas Luckmann (2014) já apontava essa tendência ao diagnosticar que a religião moderna torna-se invisível, deslocando-se para a esfera privada da vida cotidiana. Adicionalmente, Danièle Hervieu-Léger (2015) descreve esse cenário como uma ruptura da cadeia de memória, transformando o fiel contemporâneo na figura do “peregrino” ou do “convertido”, caracterizados por uma adesão móvel e personalizada.
3. O IMPÉRIO DOS ALGORITMOS E A “SÍNDROME DE BABEL” DIGITAL
A Inteligência Artificial como desafio antropológico e teológico
Se a liquidez contemporânea descentralizou a fé, o advento da virada digital e do avanço algorítmico introduziu uma reconfiguração ainda mais radical. Como aponta Hugo Brandão (2025), a Inteligência Artificial não deve ser vista apenas como um conjunto de ferramentas avançadas, mas como uma nova matriz cultural que redefiniu a forma como o ser humano compreende a si mesmo, comunica-se e se relaciona com a transcendência. Contudo, torna-se imperativo desmistificar discursos pseudocientíficos: o neurocientista Miguel Nicolelis (2011) demonstra que a IA não possui inteligência real nem consciência, tratando-se meramente de sistemas estatísticos sofisticados de reconhecimento de padrões baseados em grandes volumes de dados.
A Encíclica Magnifica Humanitas (2026) do Papa Leão XIV capta essa transformação com precisão ao alertar sobre o risco de uma nova “Síndrome de Babel” na era digital. No relato do Gênesis, Babel representa uma obra imposta pela uniformidade, pelo orgulho da auto-suficiência e pelo sacrifício da dignidade humana em nome da pura eficiência técnica. Na pós-modernidade hiper tecnológica, essa tentação se atualiza na pretensão de uma linguagem única, estritamente digital, dedicada a traduzir tudo em dados, métricas e desempenhos — inclusive o próprio mistério incomensurável da pessoa humana.
O ponto crítico desse cenário não reside no uso da tecnologia em si mesma, mas na visão ideológica que lhe serve de base: o paradigma tecnocrático, fortemente criticado pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’ (2015). Quando o progresso técnico assume uma forma autônoma e desvinculada da ética, o ser humano passa a ser tratado como mera matéria a ser otimizada. Confiar a um algoritmo o poder de selecionar quem é “útil” ou “digno”, sem o peso da responsabilidade e do discernimento humano, significa excluir Deus do horizonte e reduzir o próximo a um mero dado quantificável.
Justiça Social e a Destinação Universal dos Bens Digitais
Além do desafio antropológico, a virada algorítmica aprofunda as fraturas da injustiça social. Retomando a vanguarda da Doutrina Social da Igreja, a Magnifica Humanitas expande o princípio teológico da destinação universal dos bens para a realidade imaterial do século XXI. Os bens da criação hoje não se limitam à terra ou aos recursos naturais; abrangem também as patentes, os códigos, as plataformas digitais, as infraestruturas de rede e os megadados (big data). Atualmente, o motor do desenvolvimento tecnológico é hegemonizado por corporações privadas transnacionais que detêm um poder econômico e político muitas vezes superior ao de Estados soberanos. Quando o conhecimento tecnológico e o controle dos algoritmos permanecem concentrados nas mãos de pouquíssimos atores, gera-se um abismo inédito entre incluídos e excluídos digitais. Essa concentração assimétrica sabota a justiça social e a solidariedade entre os povos.
Mais grave ainda é perceber que o funcionamento dessa engrenagem dita “imaterial” esconde, na verdade, uma vasta cadeia de exploração humana. A nova encíclica denuncia com firmeza o trabalho silencioso e invisível de milhões de seres humanos submetidos a condições precárias na periferia do capitalismo global — trabalhadores empregados na etiquetagem de dados brutos e na moderação de conteúdos violentos para treinar as inteligências artificiais do centro do mundo. Uma autêntica Pastoral do Cuidado não pode fechar os olhos a essas novas estruturas de servidão e descarte social alimentadas pelas redes digitais.
4. O CAMINHO DE NEEMIAS: DIÁLOGO, SINODALIDADE E PASTORAL DO CUIDADO
Da uniformidade mecânica à comunhão sinodal
Diante da encruzilhada histórica entre a desumanização mecânica e o isolamento líquido, a teologia cristã é interpelada a propor caminhos de esperança. Contrapondo-se à síndrome de Babel, a Igreja evoca o “Caminho de Neemias” como o itinerário metodológico para a era digital.
Neemias, ao contemplar as muralhas destruídas de Jerusalém, não impôs uma resposta centralizada ou tecnocrática vinda de cima; ele escutou a dor do povo e descentralizou a reconstrução, confiando a cada família a responsabilidade por um pedaço da muralha. O caminho de Neemias nos ensina que a comunidade humana não se reconstrói por meio da uniformização artificial dos algoritmos, mas por meio da corresponsabilidade partilhada e do diálogo autêntico. Como recordou o Papa Leão XIV em sua Saudação aos Missionários Digitais (2025), a evangelização digital não pode se reduzir à produção fria de conteúdos, mas deve visar à criação de espaços reais de encontro entre os corações.
Transposta para a nossa realidade pós-moderna, essa intuição bíblica exige o exercício ativo da sinodalidade. Reconstruir o tecido social dilacerado pela polarização digital e pelas bolhas algorítmicas significa reconhecer a pluralidade de vozes como uma riqueza, transformando a diversidade em um recurso comunitário. A Igreja deve atuar na promoção de uma ecologia da comunicação, onde a escuta mútua, a paciência e o diálogo substituam a impulsividade e as retóricas agressivas que colonizam as redes sociais digitais.
Critérios Práticos para uma Fé Adulta e Engajada
Uma fé adulta na era da Inteligência Artificial não se esquiva das complexidades do seu tempo através do medo estéril ou do isolamento fundamentalista; tampouco se deixa seduzir por entusiasmos ingênuos e acríticos em relação ao mercado tecnológico. Ela assume o canteiro de obras da história com discernimento evangélico, traduzindo os valores do Reino de Deus em ações públicas e institucionais concretas. O Papa Francisco, na exortação Amoris Laetitia (2016), bem nos lembra que nada do que é verdadeiramente humano cresce sem tempo e sem um caminho paciente de amadurecimento.
Uma ação pastoral e cuidado e em especial as Pastorais Sociais (como a Pastoral da Rua, da Ecologia Integral, da Criança, do Idoso e da Saúde), revigoradas por esse discernimento, devem atuar firmemente para a implementação de balizadores éticos estruturais:
- Avaliações de Impacto Humano e Social: Exigir que o desenvolvimento e a implementação de sistemas de IA passem por auditorias severas que priorizem a dignidade humana, a justiça e a paz.
- Alfabetização Digital Integral: Promover processos formativos e pedagógicos que capacitem educadores e estudantes a utilizarem os recursos digitais de forma crítica, criativa e autônoma, impedindo que as novas gerações sejam meras consumidoras passivas submetidas à lógica mercantilista dos fluxos de dados.
- Políticas Públicas de Trabalho Digno: Defender que a transição digital e a automação não resultem na exclusão e na inatividade forçada das maiorias, pressionando para que o acesso universal ao trabalho continue a ser a bússola ética da economia e do planejamento político, combatendo as formas invisíveis de exploração.
- Linguagem Evangélica da Paz: Romper com as narrativas maniqueístas e violentas que dividem o mundo digital entre aliados e inimigos, escolhendo uma linguagem de clareza que ilumina, aproxima e reata os laços comunitários destruídos, buscando uma cultura de paz, diálogo e empatia com o próximo.
CONCLUSÃO
A experiência do sagrado, que acompanha constitutivamente a caminhada da nossa espécie, não será sufocada pelas telas ou pelos processadores de silício. No entanto, a tarefa histórica que se impõe à nossa geração é garantir que a técnica permaneça como uma expressão da liberdade e da criatividade humana a serviço da vida, e não um ídolo desumanizador que exige o sacrifício dos mais vulneráveis. Na era da Inteligência Artificial, o apelo cristão ressoa com urgência profética: temos o dever de permanecer profundamente humanos. Esse compromisso exige recolocar Deus no horizonte das nossas buscas e o ser humano concreto no centro das nossas opções técnicas, econômicas e pastorais. Somente assim, tecendo redes de solidariedade encarnada e sinodal, seremos capazes de resistir à liquidez atomizada da pós-modernidade e erguer, no canteiro de obras do nosso tempo, a cidade fraterna onde a justiça floresce e a dignidade de cada filho e filha de Deus é soberanamente salvaguardada, em fiel seguimento Àquele que armou sua tenda entre nós para que todos tenham vida e a tenham em abundância.
REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
BÍBLIA. A Bíblia. Edições Paulinas, 2023
BRANDÃO, Hugo. A religião pós-moderna e as inteligências artificiais: interfaces e tensões no século XXI. Caminhos – Revista de Ciências da Religião, Goiânia, v. 23, n. 2, e15273, 2025.
CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes. Vaticano, 1965.
DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
FRANCISCO. Evangelii Gaudium. São Paulo: Paulinas, 2013.
__________. Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.
__________. Amoris Laetitia: sobre o amor na família. São Paulo: Paulinas, 2016.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.
HERVIEU-LÉGER, Danièle. O peregrino e o convertido: a religião em movimento. Petrópolis: Vozes, 2015.
LEÃO XIV. Carta Encíclica Magnifica Humanitas: sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Vaticano, 2026.
LEÃO XIV. Saudação aos Missionários Digitais e Influencers Católicos. Vaticano, 29 jul. 2025.
LUCKMANN, Thomas. A religião invisível. São Paulo: Loyola, 2014.
NICOLELIS, Miguel. O cérebro relativístico. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
* Seny Giannini – pedagoga, socióloga, especialista em Dimensão Social da Fé e bacharelanda em teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB).
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