Reflexão para o Sábado da 11ª Semana do Tempo Comum – (Mt 6,24-34)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

No Evangelho da liturgia deste Sábado, temos uma continuidade do que foi proclamado na liturgia de ontem. Mateus 6,24-34 ocupa um lugar central no Sermão da Montanha (Mt 5–7), onde Jesus apresenta os valores fundamentais do Reino de Deus. Trata-se de um texto profundamente desafiador porque aborda questões que atravessam toda a experiência humana: o dinheiro, a segurança, o medo do futuro e a confiança em Deus.

À luz da Leitura Popular da Bíblia, esta passagem não pode ser reduzida a um convite à resignação diante da pobreza nem a uma espiritualidade desencarnada. Pelo contrário, ela revela uma crítica radical às estruturas econômicas que geram exclusão e uma convocação à construção de uma sociedade fundada na justiça do Reino.

O contexto do texto

O Evangelho de Mateus foi escrito para comunidades que viviam em meio a dificuldades econômicas, perseguições e incertezas do século I. Muitos dos primeiros cristãos pertenciam aos setores populares e experimentavam diariamente a insegurança quanto ao alimento, ao vestuário e à sobrevivência.

É nesse contexto que Jesus dirige suas palavras aos discípulos.

O texto pode ser dividido em três partes:

  • O conflito entre Deus e as riquezas (v. 24);
  • O ensinamento sobre a confiança em Deus (vv. 25-32);
  • O chamado a buscar o Reino e sua justiça (vv. 33-34).

Essas três dimensões formam uma unidade inseparável.

“Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24)

O texto começa com uma afirmação contundente:

“Ninguém pode servir a dois senhores: pois, ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro.”

Jesus apresenta uma incompatibilidade fundamental entre Deus e Mamon (um termo originário do aramaico que pode significar “dinheiro”, “riqueza” ou “lucro”).

“Mamon” não significa simplesmente dinheiro. A palavra designa a riqueza transformada em poder absoluto, capaz de dominar pessoas e organizar relações sociais.

Jesus não afirma que possuir bens seja necessariamente pecado. O problema está em transformar a riqueza em senhor da vida.

No mundo do Império Romano, a acumulação de riqueza por poucos estava diretamente ligada à exploração de muitos. Grandes proprietários ampliavam suas terras enquanto camponeses perdiam seus meios de subsistência.

Nesse contexto, servir a Mamon significava colaborar com uma lógica que produzia pobreza e exclusão.

A exegese bíblica mostra que Jesus apresenta uma escolha radical: ou se organiza a vida em torno do projeto de Deus, ou em torno da lógica da acumulação.

Não existe neutralidade.

“Não vos preocupeis” (Mt 6,25-32)

A segunda parte do texto costuma ser uma das mais mal compreendidas do Evangelho.

Jesus afirma:

“Não vos preocupeis com a vossa vida, com o que haveis de comer ou beber.”

Algumas interpretações transformaram essas palavras em incentivo à passividade. Entretanto, isso contradiz toda a prática de Jesus.

O verbo utilizado por Mateus refere-se à ansiedade excessiva, à preocupação que paralisa e escraviza.

Jesus não está condenando o trabalho nem a responsabilidade. Ele denuncia a lógica do medo permanente que nasce de uma sociedade organizada pela competição e pela acumulação.

As imagens das aves do céu e dos lírios do campo não incentivam a inatividade. Elas mostram que a criação inteira participa da generosidade de Deus.

Enquanto os sistemas humanos produzem escassez para muitos e abundância para poucos, Deus deseja uma ordem baseada na partilha e na vida para todos.

Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, estas palavras são dirigidas principalmente aos pobres que vivem sob constante insegurança.

Jesus não ignora suas dificuldades. Pelo contrário, reconhece que elas existem e proclama que Deus não é indiferente ao sofrimento dos seus filhos.

A leitura popular do texto

As comunidades populares da América Latina frequentemente leem esta passagem a partir de uma pergunta concreta:

Como não se preocupar quando falta alimento na mesa?

A resposta não está na resignação, mas na solidariedade.

A Leitura Popular da Bíblia percebe que Jesus não fala a indivíduos isolados, mas a uma comunidade.

A confiança em Deus se concretiza quando os irmãos e irmãs se organizam para que ninguém passe necessidade.

Por isso, o texto está intimamente ligado à experiência das primeiras comunidades cristãs, nas quais os bens eram partilhados e os mais pobres eram colocados no centro da vida comunitária.

A providência divina não acontece magicamente. Ela se manifesta através da ação solidária do povo de Deus.

Quando uma comunidade cria redes de apoio, organiza mutirões, promove campanhas de solidariedade e luta por direitos sociais, ela se torna sinal concreto da providência de Deus.

“Buscai primeiro o Reino de Deus e sua justiça” (Mt 6,33)

Este versículo é o coração da passagem.

“Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça.”

Jesus não diz apenas para buscar o Reino.

Ele acrescenta:

“e a sua justiça”.

No Evangelho de Mateus, justiça (dikaiosýnē) não significa apenas comportamento moral individual. Refere-se à realização concreta da vontade de Deus na história.

É uma justiça que restaura relações, protege os vulneráveis e promove a vida.

Buscar o Reino e sua justiça significa colocar os pobres no centro das preocupações da comunidade.

Significa construir relações econômicas mais humanas.

Significa lutar para que todos tenham acesso aos bens necessários para viver com dignidade.

A justiça do Reino não é apenas uma promessa futura. Ela começa a ser construída aqui e agora.

A dimensão sociotransformadora

A força transformadora deste texto aparece na crítica que Jesus faz ao sistema baseado na acumulação.

O medo do futuro frequentemente nasce da desigualdade.

Quanto mais injusta é uma sociedade, maior é a insegurança dos mais pobres.

Jesus propõe uma alternativa baseada na confiança, na partilha e na solidariedade.

A comunidade cristã torna-se sinal do Reino quando:

  • combate as estruturas que geram pobreza;
  • promove a dignidade humana;
  • defende os direitos dos trabalhadores;
  • denuncia a idolatria do mercado;
  • fortalece experiências de economia solidária;
  • constrói relações baseadas na fraternidade.

O Reino de Deus não elimina a responsabilidade humana; ao contrário, exige compromisso ativo com a transformação da realidade.

Pistas para a ação pastoral

À luz deste Evangelho, algumas práticas pastorais podem fortalecer o compromisso cristão com os pobres:

1. Formação para uma espiritualidade da partilha

Promover reflexões sobre o uso cristão dos bens, combatendo a cultura do consumismo e do individualismo.

2. Apoio às iniciativas de economia solidária

Incentivar cooperativas, associações comunitárias, hortas coletivas e outras experiências que fortaleçam a autonomia das comunidades.

3. Defesa dos direitos sociais

Estimular a participação dos cristãos em espaços de promoção da cidadania e defesa dos direitos dos mais vulneráveis.

4. Criação de redes de solidariedade

Organizar campanhas permanentes de apoio às famílias em situação de vulnerabilidade.

5. Leitura comunitária da realidade

Promover círculos bíblicos que relacionem a Palavra de Deus com os desafios concretos da vida do povo.

Conclusão

Mateus 6,24-34 apresenta uma das mais profundas propostas de Jesus para a vida dos discípulos. Diante da idolatria das riquezas e da ansiedade gerada por uma sociedade desigual, Jesus proclama a soberania de Deus e convida seus seguidores a colocarem sua confiança no Pai.

À luz da Leitura Popular da Bíblia, este texto não legitima a pobreza nem incentiva a passividade diante das injustiças. Pelo contrário, denuncia a lógica da acumulação, convoca à partilha e aponta para a construção de uma sociedade onde todos possam viver com dignidade.

Buscar primeiro o Reino de Deus e sua justiça significa assumir o compromisso concreto de transformar as estruturas que produzem exclusão, colocando os pobres no centro da missão cristã. É fazer da fé não apenas uma experiência espiritual, mas uma força histórica capaz de gerar fraternidade, justiça e esperança para todos.


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