Reflexão para Quinta-feira da 19ª Semana do Tempo Comum – Memória de Santa Dulce dos Pobres – (Mt 18,21-19,1)

Perdoar para reconstruir a Vida: a Misericórdia como prática de Libertação em Mt 18,21-19,1

Por Pe. Hermes A. Fernandes

O texto de Mt 18,21–19,1 encontra-se no interior do chamado “discurso comunitário” de Jesus (Mt 18), dedicado à construção de uma comunidade fundada na fraternidade, na correção fraterna, no cuidado com os pequenos e na reconciliação. Depois de ensinar que a comunidade não deve abandonar aquele que se perde e que os conflitos precisam ser enfrentados de maneira restauradora (Mt 18,15-20), Jesus apresenta o perdão como condição indispensável para a vida comunitária. A Leitura Popular da Bíblia nos convida, portanto, a perguntar: que relações humanas e sociais são reconstruídas quando o perdão deixa de ser apenas uma atitude individual e se transforma em prática comunitária?

1. “Quantas vezes devo perdoar?” — Mt 18,21-22

Pedro aproxima-se de Jesus e pergunta: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mt 18,21). A pergunta revela uma mentalidade ainda marcada pela lógica do limite: até onde deve ir a misericórdia? Pedro já parece ultrapassar a medida convencional ao propor sete vezes. Jesus, porém, rompe com qualquer contabilidade: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,22).

O sentido da expressão não está em estabelecer 490 ocasiões de perdão (70 multiplicado por 7), mas em afirmar que a misericórdia não pode ser submetida a uma lógica matemática. O perdão torna-se uma característica permanente da comunidade do Reino.

Para a Teologia Latino-Americana, entretanto, é necessário evitar uma interpretação individualista desse ensinamento. Perdoar não significa aceitar passivamente a injustiça, silenciar diante da violência ou exigir que a vítima simplesmente esqueça o sofrimento. Perdão cristão não é cumplicidade com o mal. A reconciliação verdadeira exige verdade, justiça, reparação e transformação das relações que produzem sofrimento.

Assim, a pergunta de Pedro pode ser atualizada: quantas vezes uma sociedade está disposta a recomeçar com aqueles que foram descartados? Quantas oportunidades oferecemos aos pobres, aos encarcerados, aos moradores das periferias, aos migrantes, aos dependentes químicos, às pessoas em situação de rua e a todos aqueles que carregam o peso da exclusão?

2. A parábola do servo perdoado — Mt 18,23-27

Jesus apresenta então a parábola de um rei que decide acertar as contas com seus empregados. Um deles possui uma dívida gigantesca, absolutamente impagável. O rei inicialmente ordena que ele e sua família sejam vendidos, conforme práticas econômicas e jurídicas daquele mundo. Diante da súplica do homem, porém, o rei se compadece e cancela toda a dívida.

A desproporção da narrativa é intencional. Jesus utiliza uma quantia extraordinariamente elevada para mostrar que aquilo que o homem jamais conseguiria quitar é gratuitamente cancelado. O centro da parábola está na compaixão que interrompe a lógica da dívida, da punição e da exclusão.

Aqui encontramos uma chave profundamente significativa para a leitura latino-americana. Em uma sociedade marcada por desigualdades, a pergunta do Evangelho não pode ser somente: “Quem deve a quem?”, mas também: “Que estruturas produzem dívidas, dependências e exclusões?”

O Deus anunciado por Jesus não aparece como aquele que deseja esmagar o endividado, mas como aquele que se deixa tocar pela sua situação. A misericórdia abre uma possibilidade de vida nova.

3. A contradição: quem foi perdoado não sabe perdoar — Mt 18,28-30

A parábola dá uma reviravolta. O mesmo servo que recebeu o perdão de uma dívida impagável encontra um companheiro que lhe deve uma quantia incomparavelmente menor. Em vez de reproduzir a misericórdia que recebeu, ele o agarra, exige o pagamento e manda prendê-lo.

Jesus denuncia, assim, a contradição de quem deseja receber misericórdia, mas continua reproduzindo relações de opressão.

A Leitura Popular da Bíblia permite reconhecer aqui uma realidade ainda presente. Muitas vezes, pessoas e instituições proclamam a misericórdia, mas sustentam práticas que humilham, excluem e criminalizam os pobres. Fala-se de perdão enquanto se aceita a fome; proclama-se fraternidade enquanto trabalhadores são explorados; celebra-se a vida cristã enquanto pessoas são abandonadas nas periferias.

O Evangelho questiona essa incoerência: não é possível experimentar a misericórdia de Deus e permanecer indiferente à vida ameaçada do irmão e da irmã.

4. “Não devias tu também ter compaixão?” — Mt 18,31-35

Quando o rei toma conhecimento da atitude do servo, questiona-o: “Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?” (Mt 18,33). A misericórdia recebida cria uma responsabilidade: quem experimenta a graça deve tornar-se agente de graça.

Essa é uma das dimensões sociotransformadoras mais fortes do texto. O perdão cristão não termina no coração do indivíduo. Ele precisa transformar relações, comunidades e estruturas.

Por isso, a Igreja não pode limitar sua ação pastoral a ensinar as pessoas a “perdoar umas às outras”. Deve também criar condições para que os conflitos sejam enfrentados, as vítimas sejam protegidas, os culpados sejam responsabilizados e os excluídos tenham possibilidade concreta de reconstruir sua existência.

Perdoar, nesse horizonte, significa romper o ciclo da violência e abrir caminhos para uma nova convivência. Significa substituir a vingança pela justiça restaurativa, a exclusão pela reintegração e a indiferença pela solidariedade.

5. “Jesus deixou a Galileia” — Mt 19,1

O versículo 19,1 encerra o discurso e inaugura uma nova etapa da caminhada de Jesus: “Ao terminar esses discursos, Jesus deixou a Galileia e veio para o território da Judeia, além do Jordão.”

A mudança geográfica possui também um significado narrativo e teológico. Jesus continua seu caminho em direção a Jerusalém, onde enfrentará o conflito definitivo com os poderes estabelecidos. A misericórdia ensinada à comunidade não permanece uma teoria: ela acompanha Jesus no caminho concreto da missão, do conflito e da entrega da própria vida.

6. Uma pastoral do perdão que enfrente a exclusão

Lido a partir da Teologia Latino-Americana e da Leitura Popular da Bíblia, Mt 18,21–19,1 convida a Igreja a recuperar uma pastoral da misericórdia com compromisso social.

Isso significa:

  • criar comunidades capazes de acolher quem caiu e oferecer caminhos reais de recomeço;
  • promover círculos comunitários de escuta, reconciliação e justiça restaurativa;
  • acompanhar famílias marcadas pela violência, pelo desemprego, pela fome e pela exclusão;
  • lutar contra estruturas econômicas que transformam pessoas em números e vidas em mercadorias;
  • defender os direitos dos pobres, presos, migrantes, moradores de rua e demais grupos marginalizados;
  • unir perdão, verdade, justiça e reparação, especialmente quando existem vítimas de violência;
  • transformar as comunidades cristãs em espaços onde ninguém seja descartado definitivamente.

O Evangelho não propõe simplesmente que o pobre perdoe sua pobreza, que a vítima perdoe a violência ou que o excluído aceite sua exclusão. Jesus anuncia uma misericórdia que desarma a lógica da vingança e, ao mesmo tempo, reconstrói a dignidade humana.

Conclusão

Mt 18,21–19,1 apresenta o perdão como uma das marcas fundamentais da comunidade de Jesus. Pedro pergunta pelo limite; Jesus responde com a ilimitada misericórdia. A parábola revela que todos somos dependentes da graça, mas essa graça recebida exige responsabilidade diante do outro.

Para a Igreja latino-americana, o texto se transforma em chamado à conversão pessoal e comunitária. Perdoar é libertar-se da lógica da vingança; reconciliar é reconstruir relações; fazer justiça é devolver dignidade; acolher o excluído é testemunhar o Reino.

A pergunta de Jesus permanece provocadora: “Não devias tu também ter compaixão?” (Mt 18,33). Diante dos pobres e marginalizados de ontem e de hoje, essa pergunta torna-se um imperativo pastoral. A comunidade cristã só será verdadeiramente sinal do Reino quando a misericórdia recebida de Deus se transformar em solidariedade concreta, defesa da vida e compromisso com aqueles que a sociedade insiste em deixar à margem.


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