SER CONTRA AS VACINAS, É SER CONTRA A VIDA!

Fé cristã, Teologia Latino-Americana e Leitura Popular da Bíblia diante das campanhas antivacina

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução: quando a defesa da vida é colocada à prova

A defesa da vida constitui uma das grandes tarefas da fé cristã. Desde as primeiras páginas da Bíblia, a existência humana aparece como dom de Deus e responsabilidade confiada ao ser humano. O Deus bíblico é aquele que escuta o clamor dos que sofrem, liberta os escravizados, alimenta os famintos, cura os enfermos e deseja que todos tenham vida em abundância.

Por isso, falar sobre vacinas não é tratar apenas de medicina, ciência ou política pública. Para a comunidade cristã, existe também uma questão profundamente ética e religiosa: o que significa cuidar da vida que Deus nos confiou?

A Teologia Latino-Americana nos ensinou a olhar a realidade a partir dos pobres, dos pequenos, dos vulneráveis e daqueles cuja vida é ameaçada. A Leitura Popular da Bíblia, por sua vez, convida o povo a colocar a Escritura em diálogo com a realidade concreta. A Bíblia não é lida para fugir do mundo, mas para compreender a realidade e transformá-la à luz do projeto de Deus.

Nesse horizonte, as campanhas que promovem o medo das vacinas, espalham informações falsas ou apresentam a vacinação como uma ameaça à liberdade individual precisam ser enfrentadas com seriedade. Não se trata de condenar quem possui dúvidas, receios ou questionamentos. A consciência precisa ser respeitada e formada. O problema está quando a desinformação transforma o medo em instrumento de morte e coloca em risco sobretudo aqueles que possuem menos condições de se proteger.

A questão fundamental pode ser formulada de maneira simples: Se Deus é o Deus da vida, como pode a fé cristã permanecer indiferente diante de práticas que aumentam desnecessariamente o risco de adoecimento e morte dos mais vulneráveis?

1. O Deus da Bíblia é o Deus da Vida

A primeira chave para uma reflexão cristã sobre a vacinação encontra-se na própria compreensão bíblica de Deus. O Deus de Israel não é indiferente ao sofrimento humano. Ele vê, escuta e age: “Eu vi a opressão do meu povo no Egito, ouvi o seu clamor (…) conheço os seus sofrimentos.” (Ex 3,7) Essa afirmação possui enorme força para a Teologia Latino-Americana. Deus não contempla a realidade de maneira neutra. Ele toma partido da vida ameaçada.

A revelação bíblica apresenta um Deus comprometido com aqueles cuja existência está ameaçada pelas estruturas de morte. O Êxodo torna-se, assim, paradigma da ação divina: Deus ouve o clamor dos pobres e intervém para libertá-los.

A partir da Leitura Popular da Bíblia, podemos perguntar: Quem são hoje aqueles cuja vida está mais ameaçada pelas doenças?

São as pessoas idosas, crianças pequenas, pessoas imunologicamente vulneráveis, populações empobrecidas, moradores de regiões sem acesso adequado aos serviços de saúde, comunidades indígenas, pessoas em situação de rua e tantas outras pessoas que não possuem os mesmos recursos para enfrentar uma epidemia.

Portanto, a pergunta cristã não pode ser apenas: “Eu quero ou não quero tomar a vacina?” É necessário perguntar: “Minha decisão afeta a vida de quem está ao meu redor?” Essa mudança de perspectiva é essencialmente evangélica.

2. “Eu vim para que tenham vida” (Jo 10,10)

Talvez nenhuma afirmação de Jesus seja tão significativa para esta reflexão quanto aquela encontrada no Evangelho de João: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.” (Jo 10,10) Jesus apresenta sua missão como serviço à vida.

A vida abundante anunciada pelo Cristo não é uma vida individualista, protegida apenas para alguns. É vida compartilhada. É vida que se torna possível quando a comunidade se organiza para que ninguém seja descartado.

A Teologia Latino-Americana compreendeu esse texto a partir da realidade concreta dos povos. Vida abundante significa pão, saúde, moradia, trabalho, dignidade, educação, justiça, paz e participação social. Por isso, a saúde também pertence ao anúncio do Reino de Deus.

Não podemos anunciar a salvação e permanecer indiferentes diante do sofrimento concreto das pessoas. Não podemos falar de vida eterna desprezando a vida presente. Não podemos proclamar que Jesus veio para dar vida e, simultaneamente, alimentar discursos que colocam em risco a saúde daqueles que estão mais fragilizados.

A defesa da vacinação, quando fundamentada na responsabilidade pelo bem comum, pode ser compreendida como uma expressão concreta do mandamento do amor.

3. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”

Jesus resume a Lei no amor a Deus e ao próximo. O amor cristão, entretanto, não é apenas sentimento. É responsabilidade. A pergunta decisiva é: Quem é o meu próximo?

A parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) oferece uma resposta revolucionária. O próximo é aquele cuja vida está ameaçada e diante de quem não podemos passar indiferentes. O samaritano não pergunta se o homem ferido pertence ao seu grupo. Não pergunta se ele pensa como ele. Não investiga sua religião, sua ideologia ou sua origem. Ele vê uma vida ameaçada e decide cuidar.

A Leitura Popular da Bíblia nos permite transportar essa cena para a realidade contemporânea.

Imagine uma pessoa idosa, uma criança, alguém com imunidade fragilizada ou uma pessoa pobre que depende do sistema público de saúde. O cristão pode dizer: “Eu tenho liberdade para fazer o que quiser.” Mas o Evangelho pergunta: “E o que acontece com o outro?”

A liberdade cristã nunca pode ser confundida com individualismo. São Paulo escreve: “Ninguém procure o seu próprio interesse, mas o dos outros.” (1Cor 10,24) A liberdade cristã é inseparável da responsabilidade.

4. A vida não é propriedade privada

Existe uma compreensão profundamente individualista da liberdade que tem penetrado também no discurso religioso. Segundo essa lógica, cada pessoa poderia decidir absolutamente tudo sobre seu corpo sem considerar as consequências para a comunidade.

O cristianismo não compreende a pessoa humana dessa maneira. Na visão bíblica, somos seres relacionais. Ninguém vive sozinho. A existência humana está ligada à comunidade. São Paulo utiliza a imagem do corpo para falar da Igreja: “Vós sois o corpo de Cristo e sois membros, cada um por sua parte” (1Cor 12,27). Essa imagem possui uma extraordinária atualidade.

Quando uma parte do corpo sofre, todo o corpo sofre. Quando uma pessoa é ameaçada, toda a comunidade é chamada à solidariedade.

A pandemia do COVID 19 tornou essa verdade evidente. Uma doença transmissível não permanece restrita ao indivíduo. Ela atravessa famílias, comunidades, escolas, locais de trabalho, transportes públicos, hospitais e espaços religiosos. Portanto, a responsabilidade sanitária é também responsabilidade comunitária.

A vacinação, nesse contexto, pode ser entendida como uma das formas pelas quais uma sociedade procura proteger especialmente aqueles que não conseguem se proteger sozinhos.

5. A opção preferencial pelos pobres e a questão das vacinas

Aqui encontramos uma das contribuições mais importantes da Teologia Latino-Americana. A opção preferencial pelos pobres não significa apenas oferecer assistência aos pobres depois que eles adoecem. Significa perguntar quais estruturas sociais produzem vulnerabilidade e quais decisões podem proteger aqueles que possuem menos recursos.

As doenças não atingem todas as pessoas da mesma maneira. Quem possui dinheiro pode procurar atendimento particular, comprar medicamentos, afastar-se do trabalho, permanecer isolado e buscar diferentes formas de proteção.

O pobre frequentemente não possui essas possibilidades. Pode morar em uma casa pequena e superlotada. Pode depender do transporte coletivo. Pode trabalhar mesmo estando doente porque precisa sustentar a família. Pode não ter acesso rápido a atendimento médico. Por isso, a questão da vacinação possui uma dimensão de justiça social.

Quando uma comunidade promove a proteção coletiva, não está cuidando apenas daqueles que possuem melhores condições. Está também protegendo aqueles que vivem nas periferias da sociedade.

A defesa da vacinação, portanto, pode ser compreendida como parte de uma política de solidariedade.

6. Jesus diante dos enfermos

Os Evangelhos apresentam Jesus constantemente próximo dos doentes. Ele toca os leprosos, aproxima-se dos cegos, escuta os enfermos, acolhe os excluídos e restaura pessoas à convivência comunitária.

A enfermidade, na sociedade do tempo de Jesus, frequentemente carregava também um peso religioso e social. O doente podia ser considerado impuro, pecador ou alguém afastado de Deus. Jesus rompe essa lógica. Ele não transforma a doença em motivo de condenação. Ao contrário, aproxima-se.

A atitude de Jesus é essencialmente pastoral: diante do sofrimento, aproximar-se, cuidar e restaurar a dignidade. Por isso, uma Igreja que deseja seguir Jesus precisa ser uma Igreja que cuida da saúde do povo. Não pode abandonar os enfermos. Não pode desprezar a ciência. Não pode transformar a doença em instrumento de disputa ideológica. Não pode utilizar o nome de Deus para disseminar medo.

7. A ciência também pode ser instrumento do cuidado de Deus

Uma das grandes tentações do fundamentalismo religioso consiste em colocar fé e ciência como inimigas. Entretanto, essa oposição não encontra fundamento necessário na tradição cristã. A inteligência humana é também dom de Deus.

A capacidade de pesquisar, descobrir, compreender a natureza e desenvolver meios para proteger a vida pode ser entendida como expressão da vocação humana de cuidar da criação.

A Bíblia afirma: “O Senhor criou a ciência medicinal e dela se serve o médico.” (cf. Eclo 38) O texto de Eclesiástico 38 é particularmente significativo. Ele apresenta o conhecimento médico como algo que pode estar relacionado à ação providente de Deus. O autor bíblico não considera a medicina uma negação da fé. Pelo contrário, afirma: “Honre os médicos por seus serviços, pois também o médico foi criado pelo Senhor” (Eclo 38,1). Essa perspectiva é extremamente importante.

Quando um médico pesquisa uma doença, quando um cientista desenvolve uma vacina, quando uma enfermeira administra uma dose, quando um agente comunitário orienta uma família, podemos reconhecer nessas ações uma expressão concreta do cuidado humano pela vida.

Deus não precisa ser colocado contra a ciência. A fé cristã pode dialogar com a ciência porque ambas podem estar a serviço da verdade e da vida.

8. A Leitura Popular da Bíblia pergunta: a quem beneficia o medo?

A Leitura Popular da Bíblia ensina que a Palavra de Deus deve ser lida a partir da realidade concreta. Por isso, diante das campanhas antivacina, não basta perguntar: “Quem disse isso?”

É preciso perguntar também: “Que consequências essa mensagem produz?” Uma mensagem provoca medo. Outra estimula solidariedade. Uma provoca desconfiança. Outra ajuda a comunidade a proteger os vulneráveis. Uma transforma a saúde em disputa ideológica. Outra reconhece a saúde como direito e responsabilidade coletiva.

A Bíblia nos ensina a discernir os frutos. Jesus afirma: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,16). Essa palavra de Jesus oferece um importante critério de discernimento.

Se determinada campanha produz desprezo pelos enfermos, desconfiança generalizada, perseguição aos profissionais de saúde, recusa irracional de tratamentos preventivos e aumento da exposição dos vulneráveis ao sofrimento, é necessário perguntar:Esses frutos correspondem ao Evangelho da vida?

9. O mandamento “não matarás” e as formas modernas de violência

O mandamento “não matarás” (Ex 20,13) não deve ser interpretado apenas como proibição de homicídios diretamente praticados.

A tradição profética da Bíblia amplia a compreensão da responsabilidade pela vida. Os profetas denunciam estruturas que produzem sofrimento, exploração, fome e morte. Isaías denuncia aqueles que: “transformam o direito em veneno e o fruto da justiça em absinto” (cf. Am 6,12).

Amós denuncia uma sociedade na qual os pobres são esmagados.

Jeremias denuncia aqueles que proclamam “paz” quando não existe paz.

A Bíblia nos ensina, portanto, que também podemos participar de estruturas de morte por omissão, indiferença ou mentira. Isso nos conduz a uma questão delicada.

Quando uma pessoa possui acesso a informações confiáveis e, mesmo assim, deliberadamente espalha falsidades que podem levar outras pessoas a rejeitar medidas de proteção à saúde, existe uma responsabilidade ética.

Não se trata de afirmar que toda pessoa que não se vacina deseja a morte de alguém. Seria injusto e contrário à caridade cristã.

Mas é preciso afirmar com clareza: A disseminação irresponsável de desinformação que coloca vidas em risco não pode ser apresentada como expressão de fidelidade ao Evangelho.

10. Não transformar dúvidas em pecado

É necessário, entretanto, evitar outro extremo.

Existem pessoas que têm dúvidas sinceras. Algumas tiveram experiências negativas com instituições. Outras receberam informações contraditórias. Outras possuem medo de procedimentos médicos. A Igreja precisa saber escutar. Jesus nunca tratou as pessoas como números. A pastoral cristã deve aproximar-se, conversar, esclarecer e acompanhar.

Não podemos combater uma cultura de desinformação criando uma cultura de condenação. A resposta cristã não deve ser: “Você é ignorante porque tem medo.” Deve ser: “Vamos conversar. Vamos buscar a verdade. Vamos cuidar da sua vida e da vida dos outros.” Essa é uma atitude profundamente pastoral. A verdade não precisa da violência para ser defendida.

11. A verdade como compromisso cristão

Jesus afirma: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). A verdade possui importância central no Evangelho. Por isso, a mentira deliberada não é um problema pequeno.

Vivemos em uma época na qual informações falsas podem circular em poucos segundos. Uma mensagem pode alcançar milhares de pessoas antes que alguém consiga verificar sua autenticidade.

A comunidade cristã precisa desenvolver uma verdadeira pastoral da verdade. Isso significa ensinar os fiéis a:

  • verificar informações;
  • consultar fontes confiáveis;
  • desconfiar de mensagens alarmistas;
  • não compartilhar informações simplesmente porque confirmam aquilo em que já acreditamos;
  • respeitar profissionais de saúde;
  • procurar orientação médica;
  • combater teorias conspiratórias sem fundamento;
  • diferenciar opinião pessoal de conhecimento científico.

A Leitura Popular da Bíblia também pode contribuir para isso, pois ensina uma pedagogia de discernimento: ler, interpretar, confrontar com a realidade e agir.

12. A Igreja não pode ser instrumento de campanhas antivacina

É particularmente grave quando discursos antivacina procuram utilizar símbolos, autoridades ou argumentos religiosos para adquirir legitimidade. Uma imagem de Jesus, uma citação bíblica ou uma referência a Deus não transforma uma informação falsa em verdade. O nome de Deus não pode ser utilizado para legitimar a mentira.

Jesus adverte contra aqueles que colocam pesados fardos sobre os outros (Mt 23,4). O Evangelho é libertador, não instrumento de manipulação.

  • Uma Igreja comprometida com os pobres deve perguntar: Quem sofrerá mais se a cobertura vacinal diminuir? Não serão, em primeiro lugar, os mais ricos.
  • Serão aqueles que já enfrentam desigualdades sociais.
  • Serão os que dependem do SUS.
  • Serão os moradores das periferias.
  • Serão os idosos.
  • Serão aqueles que não possuem condições de escolher onde morar, trabalhar ou estudar.

Por isso, uma Igreja dos pobres precisa estar ao lado da vida concreta do povo.

13. O Bom Samaritano como paradigma de uma pastoral da saúde

O Bom Samaritano continua sendo um dos maiores ícones da espiritualidade cristã.

  • Ele vê.
  • Ele se aproxima.
  • Ele toca.
  • Ele cuida.
  • Ele utiliza os recursos disponíveis.
  • Ele leva o ferido a um lugar seguro.
  • Ele assume responsabilidades.

Esse itinerário pode inspirar uma verdadeira pastoral da vacinação.

Ver: identificar as doenças e os grupos vulneráveis.

Aproximar-se: escutar as pessoas que têm medo ou dúvidas.

Cuidar: promover informações confiáveis e estimular a prevenção.

Proteger: defender especialmente os mais vulneráveis.

Acompanhar: não abandonar aqueles que apresentam dificuldades.

A pastoral da saúde não pode restringir-se a visitar os doentes no hospital. Ela também precisa trabalhar para que as pessoas não adoeçam quando existem meios responsáveis de prevenção.

Prevenir também é amar. Vacinar, quando indicada pelas autoridades sanitárias e pelos profissionais de saúde, pode ser uma forma concreta de dizer: “Sua vida me importa.”

14. “Tudo o que fizestes a um dos menores…” (Mt 25,40)

O capítulo 25 do Evangelho de Mateus oferece uma das chaves mais poderosas para a Teologia Latino-Americana.

Jesus identifica-se com os pequenos: “Eu estava doente e cuidastes de mim” (Mt 25,36). E conclui: “Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). Aqui encontramos uma verdadeira espiritualidade da saúde.

  • Quando cuidamos de um enfermo, cuidamos de Cristo.
  • Quando protegemos uma criança, protegemos Cristo.
  • Quando cuidamos de um idoso, cuidamos de Cristo.
  • Quando defendemos a saúde de uma pessoa vulnerável, defendemos Cristo.
  • Mas a lógica pode ser invertida:

Quando uma sociedade abandona os enfermos, abandona Cristo. Quando despreza os pobres, despreza Cristo. Quando transforma a saúde pública em campo de guerra ideológica, coloca os pequenos novamente em situação de vulnerabilidade. É por isso que a defesa da vida precisa ser concreta.

15. A vacinação como gesto de solidariedade

Talvez seja possível resumir toda essa reflexão numa palavra: solidariedade. A vacina não deve ser apresentada apenas como uma escolha individual. Existe nela uma dimensão comunitária.

Quando uma pessoa se protege de uma doença transmissível, pode contribuir para diminuir sua circulação e proteger pessoas que, por diferentes razões, possuem maior vulnerabilidade. Isso nos recorda a espiritualidade das primeiras comunidades cristãs: “Todos os que abraçavam a fé eram unidos e colocavam tudo em comum” (At 2,44).

A comunidade cristã primitiva não estava estruturada em torno do individualismo. Ela compartilhava bens, preocupações e responsabilidades. A pergunta não era apenas: “O que é melhor para mim?” Era: “O que podemos fazer para que ninguém passe necessidade?” Essa lógica precisa inspirar também a ética contemporânea da saúde.

16. A defesa da vida precisa ser integral

Existe uma incoerência quando alguém afirma defender a vida em determinadas situações, mas permanece indiferente diante de outras formas de ameaça.

A Teologia Latino-Americana insiste numa visão integral da vida. Defender a vida significa defender:

  • a vida do nascituro;
  • a vida da criança;
  • a vida da pessoa idosa;
  • a vida dos trabalhadores;
  • a vida das populações indígenas;
  • a vida das pessoas negras;
  • a vida das mulheres vítimas de violência;
  • a vida dos migrantes;
  • a vida dos pobres;
  • a vida dos enfermos;
  • a vida dos que vivem nas periferias;
  • a vida do planeta e da Casa Comum.

Nesse horizonte, a vacinação também integra uma ética maior de cuidado. Não é possível proclamar: “Defendo a vida!” e, ao mesmo tempo, ser indiferente à vida daqueles que podem ser protegidos contra doenças graves. A defesa cristã da vida precisa ser coerente, universal e integral.

17. Contra a cultura da morte, uma cultura do cuidado

São João Paulo II falou sobre a necessidade de construir uma “cultura da vida”. A Teologia Latino-Americana pode aprofundar essa expressão acrescentando uma dimensão fundamental: a cultura da vida precisa tornar-se cultura do cuidado. Cuidar significa reconhecer que ninguém se salva sozinho.

  • A pandemia do COVID 19 revelou dramaticamente nossa interdependência.
  • Precisamos uns dos outros.
  • Precisamos dos médicos.
  • Precisamos dos enfermeiros.
  • Precisamos dos agentes comunitários.
  • Precisamos dos pesquisadores.
  • Precisamos dos trabalhadores da limpeza.
  • Precisamos dos profissionais que mantêm os serviços de saúde funcionando.
  • Precisamos do Estado.
  • Precisamos da comunidade.
  • Precisamos da solidariedade.

E, para os cristãos, precisamos também reconhecer que, por trás de cada rosto vulnerável, existe um irmão e uma irmã.

18. Uma Igreja que defende a vacina também evangeliza

Tal afirmação pode parecer surpreendente, mas possui profundo sentido pastoral.

  • Quando uma comunidade paroquial ajuda idosos a chegar ao posto de saúde, ela evangeliza.
  • Quando uma pastoral combate informações falsas que ameaçam os pobres, ela evangeliza.
  • Quando uma comunidade acolhe alguém que tem medo e conversa com respeito, ela evangeliza.
  • Quando uma Igreja promove campanhas de prevenção, ela evangeliza.
  • Quando os cristãos defendem o SUS e políticas públicas que garantem acesso universal à saúde, podem estar expressando concretamente a opção preferencial pelos pobres.

Evangelizar não significa apenas falar de Deus. Significa também testemunhar o Deus que se revela na defesa da vida.

19. Uma proposta pastoral para as comunidades

A partir da Teologia Latino-Americana e da Leitura Popular da Bíblia, as comunidades cristãs podem desenvolver uma verdadeira Pastoral da Vida e da Saúde, que inclua:

1. Círculos bíblicos sobre saúde e vida

Textos como Ex 3,7-10; Lc 4,16-21; Lc 10,25-37; Jo 10,10; Mt 25,31-46 e At 2,42-47 podem ser lidos em diálogo com a realidade sanitária.

2. Formação contra a desinformação

As comunidades podem ajudar seus membros a reconhecer notícias falsas e procurar informações confiáveis.

3. Parceria com profissionais de saúde

Médicos, enfermeiros, agentes comunitários e outros profissionais podem participar de encontros pastorais para esclarecer dúvidas.

4. Defesa da saúde pública

A Igreja pode assumir a defesa do acesso universal à saúde como dimensão concreta da opção preferencial pelos pobres.

5. Atenção aos mais vulneráveis

Idosos, crianças, pessoas imunologicamente vulneráveis e populações socialmente excluídas devem estar no centro da ação pastoral.

6. Respeito à consciência

A pastoral deve escutar dúvidas e medos sem humilhar ninguém, mas ajudando cada pessoa a formar sua consciência com responsabilidade e verdade.

7. Oração pela saúde do povo

A oração comunitária pode incluir os enfermos, profissionais de saúde, pesquisadores, famílias e todos aqueles que trabalham para preservar a vida.

20. “Que todos tenham vida”

A grande pergunta que atravessa toda a Bíblia é a pergunta sobre a vida.

Deus pergunta a Caim: “Onde está o teu irmão?” (Gn 4,9). Essa pergunta continua ecoando. Onde está teu irmão?

  • Está doente?
  • Está com medo?
  • Está desinformado?
  • Está sem acesso à saúde?
  • Está numa fila do SUS?
  • Está numa periferia?
  • Está numa aldeia indígena?
  • Está num hospital?
  • Está sozinho?

A resposta cristã não pode ser: “Isso não é problema meu.” A resposta cristã precisa ser: “Eu sou responsável por meu irmão e por minha irmã.”

É nesse ponto que a vacinação deixa de ser apenas uma questão técnica e assume uma dimensão ética e espiritual. Não se trata de transformar a vacina em sacramento. Não se trata de afirmar que toda pessoa que possui dúvidas é inimiga da fé. Não se trata de substituir a medicina pela religião.

Trata-se de reconhecer algo muito mais simples e profundo: cuidar da vida é uma exigência do Evangelho.

Conclusão: escolher a vida

  • A Bíblia coloca diante do povo uma escolha: “Escolhe, pois, a vida, para que vivas tu e a tua descendência” (Dt 30,19). Escolher a vida significa muito mais do que evitar a morte. Significa construir uma sociedade na qual as pessoas possam viver com dignidade.
  • Significa proteger os frágeis.
  • Significa cuidar dos doentes.
  • Significa combater a fome.
  • Significa defender o meio ambiente.
  • Significa lutar contra todas as formas de violência.
  • Significa promover políticas públicas de saúde.
  • Significa valorizar a ciência quando ela está colocada a serviço do bem comum.
  • Significa combater a mentira e a desinformação.
  • Significa colocar a fraternidade acima do individualismo.

Por isso, diante das campanhas que promovem irresponsavelmente a rejeição das vacinas, a comunidade cristã precisa levantar uma voz profética. Não uma voz de condenação. Uma voz de cuidado. Não uma voz de medo. Uma voz de esperança. Não uma voz de manipulação. Uma voz comprometida com a verdade. E, sobretudo, não uma voz que defenda apenas alguns. Mas uma voz que proclame: toda vida é sagrada.

  • A vida da criança.
  • A vida do idoso.
  • A vida do pobre.
  • A vida do enfermo.
  • A vida do trabalhador.
  • A vida daquele que pensa diferente.
  • A vida daquele que está vulnerável.
  • A vida de cada pessoa.
  • Porque o Deus revelado nas Escrituras é o Deus que escuta o clamor dos que sofrem.
  • Porque Jesus veio para que todos tenham vida.
  • Porque o próximo é aquele cuja vida está ameaçada.
  • Porque no enfermo encontramos o próprio Cristo.
  • Porque a fé sem amor se torna vazia.
  • Porque a liberdade sem responsabilidade pode transformar-se em egoísmo.
  • Porque a ciência pode ser colocada a serviço do cuidado.
  • E porque uma Igreja verdadeiramente fiel ao Evangelho não pode permanecer indiferente diante da morte evitável.

Ser contra a vida é negar o projeto de Deus. E, quando a rejeição irresponsável das vacinas contribui para colocar vidas vulneráveis em risco, ela precisa ser enfrentada profeticamente pela comunidade cristã.

  • Não por medo.
  • Não por ideologia.
  • Não por interesses políticos.

Mas por aquilo que está no coração do Evangelho: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.” (Jo 10,10). Essa é a missão da Igreja. Essa é a missão dos discípulos e discípulas de Jesus. Essa é a opção pelos pobres. Essa é a espiritualidade do cuidado. Essa é a fé que se transforma em compromisso.

Escolher a vida é escolher o irmão.
Escolher a vida é escolher a solidariedade.
Escolher a vida é escolher o cuidado.
Escolher a vida é escolher o Evangelho.


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