Deus nos chama a partir da história – Parte 31: Felipe e Natanael — quando Deus encontra quem procura sentido

Por Karina Moreti

O Novo Testamento começa em meio a um povo que esperava. Israel carregava séculos de promessas, dores, esperanças e silêncios. Aos olhos de muitos, Deus parecia distante, porém continuava agindo dentro da história humana. Ao longo do nosso caminho, já contemplamos homens e mulheres alcançados por esse agir divino. Recordamos João, que reconheceu a presença de Deus e apontou para aquele que viria. Encontramos André, o discípulo que ouviu o chamado no meio das redes e compreendeu que o encontro com Cristo não termina em si mesmo, pois conduz outros ao encontro. Percebemos que Deus não escolhe pessoas prontas; Ele chama pessoas reais e abre diante delas novos horizontes. Agora chegamos a Felipe e Natanael, dois discípulos que ajudam a compreender que Deus continua chamando pessoas concretas, dentro de situações concretas, carregando perguntas e esperanças igualmente concretas.

A narrativa de João 1,43–51 começa com um movimento simples: Jesus decide partir para a Galileia e encontra Felipe. O evangelista narra o acontecimento de maneira direta: “siga-me” (Jo 1,43). Não há grandes discursos nem explicações detalhadas sobre o chamado. Existe apenas um encontro que muda o rumo da história de alguém. Felipe era de Betsaida, cidade de pescadores, o mesmo ambiente de André e Pedro. Sua vida acontecia entre o trabalho cotidiano, os limites impostos pela realidade e a esperança, compartilhada por tantos israelitas, de que Deus finalmente visitasse seu povo.

O chamado de Jesus rompe a rotina sem destruir a história que Felipe já carregava. O Evangelho não apresenta um homem extraordinário; apresenta alguém comum sendo encontrado por Deus em meio à vida comum. João situa esse encontro no início do ministério público de Jesus, quando Ele decide partir para a Galileia (cf. Jo 1,43). Felipe era de Betsaida, cidade próxima ao lago e conhecida pela atividade pesqueira, o mesmo ambiente de André e Pedro. Embora o texto não descreva exatamente o que Felipe fazia naquele momento, sua origem revela alguém inserido na vida simples da Galileia, entre o trabalho cotidiano e a expectativa de que Deus visitasse novamente seu povo. E algo chama atenção imediatamente: Felipe não guarda para si aquilo que recebeu. O encontro com Jesus o coloca em movimento. Ele procura Natanael e anuncia: “Encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei e também os profetas: é Jesus de Nazaré, o filho de José” (Jo 1,45).

Felipe não oferece uma explicação sistemática nem constrói uma argumentação complexa. Ele testemunha. Seu anúncio nasce da experiência. Quem encontra Cristo descobre que a fé possui uma dimensão comunitária: ela convida, aproxima e abre caminhos para que outros também façam sua experiência.

Natanael, porém, reage com desconfiança: “de Nazaré pode sair coisa boa?” (Jo 1,46). Sua pergunta não deve ser entendida apenas como preconceito geográfico. Ela revela algo profundamente humano: a dificuldade de reconhecer que Deus age a partir do pequeno, do cotidiano e dos lugares que julgamos improváveis. Natanael conhecia as Escrituras, esperava o Messias e buscava compreender os sinais de Deus na história. Ainda assim, tinha dificuldade para imaginar que a promessa pudesse surgir de Nazaré, um lugar sem destaque.

A resposta de Felipe é breve e profundamente evangelizadora: “Venha, e você verá” (Jo 1,46). Ele compreende algo essencial: existem experiências que não podem ser substituídas por explicações. Existe um momento em que é necessário caminhar, aproximar-se e permitir-se encontrar.

Quando Natanael se aproxima, Jesus o surpreende dizendo: “eis aí um israelita verdadeiro, sem falsidade” (Jo 1,47). O diálogo continua até o momento em que Jesus afirma: “antes que Filipe chamasse você, eu o vi quando você estava debaixo da figueira” (Jo 1,48). Na tradição judaica, a figueira frequentemente aparece associada ao lugar de descanso, oração, estudo e encontro com a Palavra. O texto sugere algo profundamente consolador: Natanael procurava Deus antes mesmo de perceber que Deus já o havia encontrado.

A resposta de Natanael nasce desse reconhecimento: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o rei de Israel!” (Jo 1,49). Aquele que iniciou o caminho desconfiando termina reconhecendo a presença de Deus. Não porque recebeu todas as respostas, mas porque fez uma experiência de encontro.

Felipe e Natanael ajudam a iluminar os nossos dias. Muitas pessoas continuam esperando um momento ideal para responder aos próprios sonhos, recomeçar ou acreditar que ainda existe esperança. Outras estão cansadas demais para procurar e carregam a sensação de que Deus chama apenas os fortes, os preparados ou aqueles que possuem todas as certezas.

O Evangelho apresenta outro caminho. Jesus encontra Felipe no meio da rotina e encontra Natanael no meio das perguntas. O chamado de Deus acontece dentro da história concreta, no trabalho, nos encontros, nas dúvidas, no cansaço e nos dias em que parece que nada está acontecendo.

Felipe ouviu: “Segue-me”. Natanael ouviu: “Eu já te vi”.

Talvez esta seja uma das grandes notícias do Evangelho para o nosso tempo: antes que alguém encontre Deus, frequentemente descobre que já era procurado por Ele.


Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.


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