Por Pe. Hermes A. Fernandes
Mateus 7,6.12-14 encontra-se na parte final do Sermão da Montanha (Mt 5–7), onde Jesus reúne ensinamentos fundamentais para a vida dos discípulos. À luz da Leitura Popular da Bíblia, este texto não pode ser compreendido apenas como um conjunto de orientações morais individuais, mas como um chamado à construção de uma nova forma de convivência humana, inspirada no Reino de Deus, especialmente entre os pobres e excluídos.
O contexto do texto
A perícope reúne três ensinamentos aparentemente distintos:
- O cuidado com aquilo que é santo (v. 6);
- A chamada “Regra de Ouro” (v. 12);
- O convite para entrar pela porta estreita (vv. 13-14).
Entretanto, os três elementos possuem uma profunda unidade: tratam do discernimento necessário para viver o projeto do Reino em meio a um mundo marcado pela injustiça, pela violência e pela exclusão.
“Não deis aos cães as coisas santas” (Mt 7,6)
“Não deis aos cães as coisas santas, nem atireis vossas pérolas aos porcos”
À primeira vista, este versículo parece duro e até contraditório em relação à misericórdia pregada por Jesus. Por isso, exige atenção exegética.
No contexto judaico do século I, “cães” e “porcos” eram imagens utilizadas para representar pessoas ou grupos que desprezavam aquilo que era sagrado. O ensinamento não autoriza discriminação contra pessoas, mas alerta para a necessidade de discernimento pastoral.
O Reino de Deus é um tesouro precioso, uma pérola de grande valor (cf. Mt 13,45-46). Jesus adverte seus discípulos para que não desperdicem energias em ambientes ou estruturas que se fecham completamente à vida, à justiça e à verdade.
Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, este versículo pode ser compreendido como um chamado à sabedoria dos pobres organizados. Muitas vezes, comunidades populares investem enormes esforços em estruturas que reproduzem opressão e violência. Jesus convida ao discernimento: é preciso identificar onde a semente do Reino encontra terreno fértil e onde ela está sendo sistematicamente destruída.
Não se trata de excluir ninguém, mas de reconhecer que a evangelização libertadora exige estratégias, prioridades e discernimento histórico.
“Tudo quanto quereis que os outros vos façam…” (Mt 7,12)
“Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles.”
Este versículo é considerado o resumo de toda a Lei e dos Profetas.
Enquanto muitas tradições antigas formulavam esta regra de forma negativa (“não faças ao outro o que não queres que te façam”), Jesus a apresenta de maneira positiva e ativa.
Não basta evitar o mal; é necessário promover o bem.
A exegese mostra que Jesus desloca o centro da religião dos ritos para as relações humanas. O critério para avaliar a fidelidade a Deus passa a ser a forma como tratamos os outros.
Na Leitura Popular da Bíblia, este texto ganha enorme força política e social.
Perguntas surgem naturalmente:
- Desejo ter alimento? Então devo lutar para que todos tenham alimento.
- Desejo trabalho digno? Então devo colaborar para que todos tenham acesso ao trabalho.
- Desejo respeito? Então devo construir relações de respeito.
- Desejo justiça? Então devo comprometer-me com a justiça para todos.
A Regra de Ouro desmonta qualquer espiritualidade individualista. O amor a Deus torna-se inseparável da solidariedade concreta.
Para as comunidades populares, este versículo é uma convocação permanente à organização comunitária, à defesa dos direitos humanos e à construção de relações marcadas pela fraternidade.
“Entrai pela porta estreita” (Mt 7,13-14)
“Entrai pela porta estreita.”
A imagem das duas portas e dos dois caminhos era comum na literatura sapiencial judaica.
Jesus contrapõe:
- a porta larga e o caminho espaçoso;
- a porta estreita e o caminho apertado.
A interpretação superficial poderia sugerir um caminho de sofrimento pelo sofrimento. Entretanto, o contexto do Evangelho mostra algo diferente.
A porta estreita é a opção pelo Reino. É estreita porque exige conversão. É estreita porque confronta os privilégios. É estreita porque exige solidariedade.É estreita porque desafia a lógica da acumulação e do egoísmo.
Já a porta larga representa a adesão às estruturas de morte que parecem mais fáceis e atraentes.
Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, a porta estreita é o caminho assumido pelos pobres que resistem à opressão, organizam-se em comunidades, defendem seus direitos e mantêm viva a esperança mesmo diante das dificuldades.
A experiência das Comunidades Eclesiais de Base, das pastorais sociais, dos movimentos populares e de tantos cristãos comprometidos com a justiça social mostra que seguir Jesus frequentemente significa nadar contra a corrente dominante.
Dimensão sociotransformadora
Este texto apresenta três atitudes fundamentais para a transformação da sociedade:
- Discernimento crítico diante das estruturas que rejeitam a vida e a dignidade humana.
- Solidariedade ativa expressa na Regra de Ouro.
- Fidelidade ao projeto do Reino, mesmo quando ele exige escolhas difíceis.
Jesus não propõe uma fé alienada. Pelo contrário, chama seus seguidores a construírem relações sociais novas, fundamentadas na reciprocidade, na justiça e na defesa da vida.
A porta estreita torna-se, assim, o caminho da resistência evangélica diante das forças que produzem pobreza, exclusão e morte.
Pistas para a ação pastoral
A partir deste texto, algumas práticas pastorais podem fortalecer o compromisso cristão com os pobres:
- Promover círculos bíblicos que relacionem a Palavra de Deus com os desafios concretos da comunidade.
- Fortalecer iniciativas de economia solidária e organização comunitária.
- Incentivar a participação dos cristãos nos conselhos, movimentos e espaços de defesa dos direitos sociais.
- Desenvolver uma pastoral que forme para o discernimento crítico diante das falsas promessas de prosperidade individual.
- Valorizar experiências de solidariedade concreta com famílias empobrecidas.
- Estimular uma espiritualidade do compromisso, que una oração, reflexão bíblica e ação transformadora.
Conclusão
Mateus 7,6.12-14 apresenta um discipulado marcado pela sabedoria, pela reciprocidade e pela coragem. Jesus convida seus seguidores a discernirem os sinais do Reino, a praticarem uma solidariedade ativa e a escolherem o caminho exigente da justiça.
À luz da Leitura Popular da Bíblia, a porta estreita não é um caminho de resignação, mas de compromisso histórico com a vida. É o caminho percorrido pelos pobres que acreditam na força transformadora do Evangelho e pelas comunidades que fazem da fé uma prática concreta de fraternidade, justiça e esperança. Nessa perspectiva, entrar pela porta estreita significa optar diariamente pelo Reino de Deus e por sua justiça, caminhando ao lado dos pobres, que são os destinatários privilegiados da Boa Nova anunciada por Jesus.
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