Reflexão para Quinta-feira da 12ª Semana do Tempo Comum

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

O texto de Mateus 7,21-29 encerra o Sermão da Montanha (Mt 5–7), considerado a grande carta de identidade do discípulo de Jesus. Depois de apresentar as bem-aventuranças, ensinar uma nova justiça e denunciar a hipocrisia religiosa, Jesus conclui seu discurso com um apelo decisivo: não basta ouvir suas palavras ou professar sua fé; é necessário colocar em prática a vontade do Pai.

A Leitura Popular da Bíblia, desenvolvida no contexto latino-americano, especialmente nas Comunidades Eclesiais de Base, compreende este texto como um chamado para que a fé se traduza em compromisso histórico com a vida, a justiça e a dignidade dos pobres. A Palavra não é apenas objeto de reflexão, mas força libertadora que impulsiona a transformação da realidade.

Contexto exegético do texto

Mateus escreve seu Evangelho para comunidades de origem judaica que enfrentavam conflitos internos e perseguições externas, provavelmente entre os anos 80 e 90 d.C. A destruição de Jerusalém havia abalado profundamente a identidade do povo, e surgiam diversos grupos religiosos disputando autoridade e legitimidade.

Nesse contexto, Mateus insiste que a verdadeira pertença ao Reino não depende de títulos religiosos, de discursos eloquentes ou de manifestações extraordinárias, mas da prática concreta da vontade de Deus.

O texto pode ser dividido em três partes:

  • Mt 7,21-23: a denúncia da religião sem compromisso;
  • Mt 7,24-27: a parábola das duas casas;
  • Mt 7,28-29: a reação do povo diante da autoridade de Jesus.

Essa estrutura mostra que o critério fundamental do discipulado é a coerência entre fé e vida.

“Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor”

Jesus inicia com uma afirmação surpreendente:

“Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai.”

No ambiente bíblico, repetir um nome (“Senhor, Senhor”) indica intensidade e devoção. Entretanto, Jesus denuncia uma religiosidade baseada apenas em palavras, ritos e manifestações exteriores.

Os milagres não substituem a justiça

Mais adiante, alguns apresentam seus “méritos”:

  • profetizaram;
  • expulsaram demônios;
  • realizaram milagres.

São atividades consideradas altamente religiosas. Contudo, Jesus responde:

“Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais o mal”

Em outras traduções, podemos encontrar: “Nunca vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais a injustiça” (Mt 7,23). A palavra grega anomia significa literalmente “ausência de lei”, mas no contexto do Evangelho indica quem vive contra o projeto de Deus, produzindo exclusão, exploração e opressão.

Assim, o problema não é a oração, a liturgia ou os carismas, mas a separação entre espiritualidade e compromisso com a justiça.

A vontade do Pai no Evangelho de Mateus

Em Mateus, fazer a vontade do Pai significa viver o projeto anunciado por Jesus ao longo do Sermão da Montanha:

  • promover a paz;
  • praticar a misericórdia;
  • ter fome e sede de justiça;
  • amar os inimigos;
  • repartir o pão;
  • buscar primeiro o Reino de Deus;
  • servir e não dominar.

A vontade de Deus não é um conjunto de normas abstratas, mas um modo concreto de organizar a vida em favor dos pequenos.

Essa interpretação encontra sua confirmação em Mateus 25, quando Jesus identifica sua própria presença nos famintos, nos estrangeiros, nos presos, nos doentes e nos pobres.

A parábola das duas casas

Jesus apresenta então uma imagem profundamente conhecida pelo povo:

“Quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática é como um homem prudente que construiu sua casa sobre a rocha.”

Na Palestina, durante o período seco, muitos cursos de água permaneciam vazios. Construir sobre a areia parecia mais fácil e rápido. Porém, quando chegavam as chuvas intensas e as enchentes, essas construções eram destruídas.

A casa representa a própria existência humana e também a comunidade.

A rocha representa a prática da Palavra.

A areia representa uma religião superficial, sem compromisso com a transformação da realidade.

O contraste não está entre ouvir e não ouvir. Ambos escutam Jesus.

A diferença está entre quem pratica e quem permanece apenas na escuta.

A autoridade de Jesus

O texto termina afirmando que as multidões ficaram admiradas porque Jesus ensinava “como quem tem autoridade”.

A autoridade de Jesus não deriva de cargos religiosos ou do reconhecimento institucional, mas da coerência entre sua palavra e sua prática.

Ele anuncia um Reino que vive:

  • aproxima-se dos pobres;
  • toca os leprosos;
  • acolhe os excluídos;
  • alimenta multidões;
  • enfrenta os poderes religiosos que utilizam Deus para justificar privilégios.

Sua autoridade nasce da fidelidade ao projeto do Pai.

Uma leitura à luz da realidade latino-americana

Na América Latina, milhões de pessoas continuam construindo suas vidas sobre terrenos frágeis:

  • moradias precárias;
  • empregos informais;
  • violência cotidiana;
  • ausência de políticas públicas.

A parábola das duas casas ganha, assim, uma dimensão profundamente concreta.

Construir sobre a rocha significa construir uma sociedade onde todos tenham direito:

  • à terra;
  • ao teto;
  • ao trabalho;
  • à educação;
  • à saúde;
  • à cultura;
  • à participação política.

O Reino anunciado por Jesus não é uma realidade distante, mas uma presença que começa quando os pobres recuperam sua dignidade e tornam-se sujeitos de sua própria história.

A leitura popular da Bíblia

A Leitura Popular da Bíblia pergunta sempre:

Onde esta Palavra acontece hoje?

Os “Senhor, Senhor” podem representar todas as formas de religião que se contentam com cerimônias, discursos e práticas devocionais, mas permanecem indiferentes ao sofrimento humano.

Quando comunidades rezam muito, mas ignoram a fome do bairro, a violência contra a juventude negra, o abandono dos idosos, o racismo estrutural ou a exclusão dos povos indígenas, correm o risco de construir sobre a areia.

Por outro lado, construir sobre a rocha significa organizar a vida comunitária em torno do Evangelho vivido.

A casa firme é a comunidade que partilha alimentos, acolhe os migrantes, acompanha as famílias empobrecidas, defende os direitos humanos e promove a solidariedade.

Na perspectiva da Leitura Popular, a Palavra de Deus torna-se uma força coletiva capaz de gerar novas relações sociais e novas formas de organização do povo.

Documento de Aparecida

A Conferência de Aparecida (2007) recupera essa mesma perspectiva quando afirma que:

“A opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós.”

O discípulo missionário não pode separar evangelização de promoção humana.

Escutar Jesus significa aproximar-se daqueles que vivem nas periferias geográficas e existenciais.

Por isso, Mateus 7 continua profundamente atual.

José Comblin e a prática libertadora

Pe. José Comblin insistia que o Evangelho não é uma teoria sobre Deus, mas um chamado à ação.

Para ele, Jesus forma discípulos capazes de transformar a sociedade.

A autoridade de Jesus não nasce do poder institucional.

Nasce da coerência entre palavra e prática.

Da mesma forma, a Igreja torna-se sinal do Reino quando:

  • caminha junto dos pobres;
  • assume os conflitos da realidade;
  • denuncia as estruturas de pecado;
  • anuncia novas possibilidades de vida.

A contribuição de Pablo Richard

Pe. Pablo Richard compreendia o Reino de Deus como uma alternativa histórica ao sistema de dominação.

Segundo sua leitura, o Sermão da Montanha apresenta uma espiritualidade de resistência diante do império e das elites religiosas.

Nesse contexto, Mateus denuncia uma religião que legitima privilégios enquanto abandona os pobres.

A verdadeira comunidade cristã é aquela que constrói novas relações sociais fundamentadas na igualdade, na partilha e na fraternidade.

A casa construída sobre a rocha é uma imagem da própria comunidade que permanece firme porque sua base é a justiça.

Carlos Mesters e a prática da Palavra

Frei Carlos Mesters frequentemente recorda que Jesus nunca separou oração e compromisso histórico.

Escutar a Palavra significa assumir a causa do Reino.

Por isso, construir sobre a rocha significa:

  • organizar a comunidade;
  • defender a vida ameaçada;
  • repartir os bens;
  • fortalecer os pequenos;
  • enfrentar estruturas injustas.

A Palavra torna-se prática social.

Não basta interpretar a Bíblia.

É necessário deixar-se interpretar por ela.

Dimensão sociotransformadora

Mateus 7,21-29 denuncia uma fé privatizada e individualista.

Jesus propõe uma espiritualidade comprometida com a construção histórica do Reino de Deus.

Isso significa:

  • substituir a religião do espetáculo pela religião do serviço;
  • substituir o assistencialismo pela promoção da dignidade humana;
  • substituir a indiferença pela solidariedade organizada;
  • substituir a busca de privilégios pela partilha dos bens.

Construir sobre a rocha é construir uma sociedade onde a vida dos pobres seja prioridade.

As tempestades continuam existindo: desemprego, violência, desigualdade, racismo, destruição ambiental e exclusão social.

Entretanto, comunidades fundamentadas na prática do Evangelho permanecem firmes porque sua força não está no poder econômico ou político, mas na solidariedade, na esperança e na ação coletiva.

Pistas para a ação pastoral

A partir deste Evangelho, algumas práticas pastorais tornam-se fundamentais:

  1. Valorizar círculos bíblicos e grupos de reflexão que relacionem a Palavra com a realidade do povo.
  2. Fazer das comunidades espaços de acolhida, participação e defesa da vida, especialmente dos pobres e marginalizados.
  3. Promover pastorais sociais que enfrentem as causas da pobreza e não apenas suas consequências.
  4. Incentivar a economia solidária, os mutirões comunitários, as redes de cuidado e as iniciativas de geração de renda para famílias vulneráveis.
  5. Desenvolver uma espiritualidade que una oração, celebração e compromisso social, superando a separação entre culto e vida.
  6. Formar lideranças capazes de exercer uma autoridade semelhante à de Jesus: serviço, proximidade com o povo e coerência entre palavra e prática.

Conclusão

Mateus 7,21-29 é um convite permanente para que a fé cristã seja construída sobre a rocha do compromisso concreto com o Reino de Deus. A Palavra escutada deve tornar-se prática libertadora, capaz de transformar pessoas, comunidades e estruturas sociais.

Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, a casa construída sobre a rocha é a comunidade que caminha ao lado dos pobres, faz da justiça sua missão e da solidariedade seu testemunho. Assim, mesmo diante das tempestades da história, permanece de pé, porque está fundada na prática do Evangelho de Jesus, cuja autoridade nasce do amor que se faz serviço e da esperança que se traduz em compromisso com os últimos, os marginalizados e os excluídos de ontem e de hoje.


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