Uma Igreja com cheiro de povo: as Comunidades Eclesiais de Base como realização dos sonhos do Concílio Vaticano II e esperança para a Igreja do Brasil

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

Ao longo de sua história, a Igreja no Brasil conheceu inúmeras formas de anunciar o Evangelho. Grandes catedrais foram construídas, ordens religiosas fundaram escolas e hospitais, missionários percorreram sertões e florestas, homens e mulheres consagrados deram a vida pela evangelização e milhões de pessoas encontraram na fé cristã sentido para suas vidas.

Entretanto, existe uma experiência eclesial que marcou profundamente a identidade da Igreja latino-americana e, de maneira especial, da Igreja brasileira: as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).

Mais do que uma estrutura pastoral, elas representam uma maneira de compreender a Igreja a partir do Evangelho de Jesus Cristo: uma Igreja que nasce do encontro das pessoas, que se reúne para ouvir a Palavra, que celebra a vida, que compartilha o pão e que transforma a fé em compromisso histórico com a justiça e a dignidade humana.

As CEBs são fruto da recepção criativa do Concílio Vaticano II e da caminhada das Conferências Episcopais Latino-Americanas. Nelas, a Igreja assumiu definitivamente um rosto popular, missionário, participativo e profundamente identificado com os pobres.

Num tempo em que muitos cristãos experimentam uma religiosidade marcada pela espetacularização da fé, pela centralização do poder e pela valorização excessiva da estética litúrgica, recordar a experiência das Comunidades Eclesiais de Base significa reencontrar uma fonte de renovação espiritual e pastoral.

Talvez a grande crise da Igreja contemporânea não seja a falta de devoção, mas a falta de compromisso. Não seja a ausência de celebrações, mas a distância entre o altar e a vida. Não seja a pobreza dos ritos, mas o empobrecimento da profecia.

Por isso, revisitar a história das CEBs é também perguntar qual Igreja desejamos construir para o futuro.

1. A Igreja antes do Concílio: entre o poder e a missão

A presença da Igreja Católica no Brasil acompanha a própria formação do país. Desde a chegada dos portugueses, em 1500, a evangelização esteve profundamente ligada ao projeto colonial. A chamada cristandade fazia com que Igreja e Estado caminhassem praticamente unidos, compartilhando interesses, símbolos e formas de organização.

É impossível negar o extraordinário trabalho missionário desenvolvido por inúmeras congregações religiosas. Jesuítas, franciscanos, beneditinos, carmelitas, dominicanos e tantas outras famílias religiosas contribuíram para a educação, a assistência social e a formação cultural do povo brasileiro.

Ao mesmo tempo, porém, a estrutura eclesial permaneceu durante séculos fortemente clericalizada. O sacerdote ocupava praticamente todo o espaço da ação pastoral. Os leigos eram, na maioria das vezes, receptores da evangelização e não sujeitos ativos da missão. A vida cristã girava em torno da frequência aos sacramentos, das devoções populares e da obediência às autoridades eclesiásticas.

Apesar disso, nunca deixou de existir uma fé profundamente popular. Nas festas dos santos, nas romarias, nas novenas, nos mutirões comunitários, nas rezas do terço, nas procissões e nas pequenas capelas do interior, o povo construía uma espiritualidade marcada pela solidariedade e pela resistência.

Era o Espírito Santo preparando um novo tempo.

2. O Concílio Vaticano II: um novo Pentecostes

Quando São João XXIII convocou o Concílio Vaticano II, desejava realizar um verdadeiro aggiornamento, isto é, uma atualização da Igreja diante dos desafios do mundo contemporâneo. O Concílio recuperou imagens fundamentais presentes nas primeiras comunidades cristãs. A Igreja voltou a ser compreendida como Povo de Deus. A missão deixou de ser privilégio do clero e passou a ser responsabilidade de todos os batizados. A liturgia aproximou-se da realidade das comunidades. A Bíblia voltou ao centro da vida cristã. O diálogo substituiu a condenação. O serviço tornou-se o modelo da autoridade.

O Magistério resultante do Concílio Vaticano II, inspirou e impulsionou. A Constituição Lumen Gentium afirma que todos os fiéis participam do sacerdócio comum de Cristo. Dei Verbum incentiva o acesso do povo à Sagrada Escritura. A Gaudium et Spes proclama que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias da humanidade, sobretudo dos pobres, são também as alegrias e esperanças da Igreja. Poucas vezes documentos eclesiais aproximaram tanto a fé da realidade histórica.

A Igreja deixava de olhar apenas para si mesma e voltava seu olhar para o mundo.

3. Medellín: quando o Concílio ganhou rosto latino-americano

Em 1968, os bispos da América Latina reuniram-se em Medellín para interpretar o Concílio à luz da realidade do continente.

Foi um momento decisivo.

Pela primeira vez, a pobreza deixou de ser vista apenas como objeto de caridade e passou a ser compreendida como consequência de estruturas injustas. Os bispos denunciaram a violência institucionalizada, a concentração de renda e a exclusão social.

Mais ainda: afirmaram que a evangelização deveria caminhar junto com a promoção humana. Nascia oficialmente uma Igreja comprometida com a libertação integral da pessoa humana.

É nesse contexto que as Comunidades Eclesiais de Base florescem em todo o continente.

4. As Comunidades Eclesiais de Base: uma nova forma de ser Igreja

As CEBs não surgiram como um movimento entre outros. Elas constituíram uma experiência eclesial profundamente inovadora.

Sua inspiração era simples:

A comunidade reunida em nome de Jesus.

A Palavra iluminando a vida.

A vida iluminando a Palavra.

A oração conduzindo à ação.

A ação retornando à oração.

Nas periferias das cidades, nas pequenas comunidades rurais, nas regiões amazônicas e nos bairros operários, milhares de grupos passaram a reunir-se semanalmente.

Ali todos podiam falar.

Todos podiam interpretar a realidade.

Todos podiam rezar.

Os ministérios passam a ser compreendidos como serviço e dever de todos, decentralizando da figura clerical.

Era a realização concreta da eclesiologia do Concílio Vaticano II.

5. A formação de leigos e leigas: a maior escola de participação da Igreja brasileira

Talvez nenhuma experiência pastoral tenha formado tantas lideranças quanto as Comunidades Eclesiais de Base.

Nas CEBs surgiram: catequistas, ministros da Palavra, animadores de celebrações, coordenadores comunitários, agentes de pastorais sociais, lideranças juvenis, lideranças femininas, missionários leigos, educadores populares.

Milhares de pessoas descobriram que seguir Jesus não significa apenas frequentar celebrações religiosas. Significa assumir responsabilidades na transformação da sociedade. As reuniões comunitárias tornaram-se verdadeiras escolas de democracia.

Aprendia-se a ouvir.

Aprendia-se a dialogar.

Aprendia-se a decidir coletivamente.

Aprendia-se a assumir responsabilidades.

Muitos líderes comunitários, sindicalistas, educadores e defensores dos direitos humanos iniciaram sua formação exatamente nesses pequenos grupos de reflexão bíblica.

6. A Leitura Popular da Bíblia: Deus continua falando através do povo

Uma das maiores riquezas das CEBs foi a Leitura Popular da Bíblia. Ela parte de uma convicção fundamental: a Palavra de Deus não é apenas memória do passado. Ela é Palavra viva que continua acontecendo na história. O povo lê sua própria vida à luz das Escrituras. O Êxodo inspira as lutas pela terra. Os profetas denunciam a corrupção. Maria canta a esperança dos humildes. Jesus caminha com os excluídos. Os Atos dos Apóstolos revelam comunidades onde tudo era colocado em comum. Essa leitura produz espiritualidade comprometida. Não é uma Bíblia utilizada para justificar privilégios. É uma Bíblia que provoca conversão pessoal e transformação social.

7. Os mártires das Comunidades de Base

A caminhada das CEBs foi marcada pelo testemunho de inúmeros homens e mulheres que assumiram a defesa dos pobres.

Catequistas assassinados.

Lideranças indígenas perseguidas.

Missionários ameaçados.

Religiosas que deram a vida pelos trabalhadores rurais.

Bispos que enfrentaram poderes econômicos.

Padres comprometidos com a reforma agrária.

Leigos que morreram defendendo comunidades tradicionais.

Seu sangue tornou-se semente de esperança.

Eles compreenderam que seguir Jesus significa assumir a cruz da justiça.

Como dizia Dom Pedro Casaldáliga: “A esperança tem duas filhas muito bonitas: a indignação e a coragem.”

8. A Igreja estética e a crise do sentido

Hoje vivemos hoje um fenômeno preocupante. Nunca houve tantas celebrações transmitidas pela internet. Nunca houve tantos eventos religiosos. Nunca houve tanta produção de conteúdo espiritual. Nunca houve tanta preocupação com vestimentas, cerimônias, títulos e imagens.

Entretanto, cresce simultaneamente o vazio existencial. Há comunidades lotadas e pessoas profundamente solitárias. Há templos magníficos e periferias abandonadas. Há liturgias impecáveis e relações comunitárias fragilizadas. A estética, quando desligada da ética, transforma a fé em espetáculo. A beleza deixa de conduzir ao mistério para tornar-se instrumento de autopromoção.

Jesus, porém, nunca buscou reconhecimento. Seu lugar era a mesa dos pobres. Sua glória era servir. Sua autoridade era lavar os pés. Sua riqueza era a confiança no Pai.

Uma Igreja preocupada apenas com sua imagem corre o risco de esquecer sua missão.

9. A Igreja da participação como resposta ao vazio contemporâneo

As Comunidades Eclesiais de Base oferecem uma resposta profundamente atual. Elas recordam que a Igreja não é um palco. É uma mesa. Não é uma empresa religiosa. É uma família de discípulos.

Não é uma instituição destinada ao consumo espiritual. É uma comunidade missionária.

As pessoas desejam ser conhecidas pelo nome. Querem participar. Querem ser escutadas. Querem colocar seus dons a serviço. Querem experimentar fraternidade. Tudo isso sempre foi vivido nas pequenas comunidades.

Ali não existem espectadores. Todos são protagonistas. Essa talvez seja a maior riqueza das CEBs para o século XXI.


10. A opção preferencial pelos pobres: o coração do Evangelho de Lucas

Toda essa caminhada encontra seu fundamento nas palavras de Jesus narradas pelo evangelista Lucas.

Na sinagoga de Nazaré, Jesus proclama:

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos, a recuperação da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos e proclamar um ano da graça do Senhor.” (Lc 4,18-19)

Esse texto não é apenas um programa espiritual. É o projeto do Reino de Deus.

Ao longo do Evangelho de Lucas, Jesus aproxima-se sempre daqueles que a sociedade exclui. Ele come com pecadores. Acolhe mulheres marginalizadas. Escuta estrangeiros. Toca os doentes. Defende crianças. Valoriza viúvas. Partilha com samaritanos. Conta a parábola do rico e de Lázaro para denunciar uma sociedade construída sobre a indiferença. No Magnificat, Maria anuncia um Deus que derruba os poderosos de seus tronos, eleva os humildes, sacia os famintos e despede os ricos de mãos vazias.

Tudo isso revela uma verdade fundamental:

Deus possui uma predileção pelos pobres, não porque sejam moralmente superiores, mas porque são aqueles cuja dignidade foi negada pela história. A opção preferencial pelos pobres é, portanto, uma consequência direta do seguimento de Jesus. Não é uma estratégia pastoral. Não é uma ideologia. É uma exigência do Evangelho.

Conclusão: uma Igreja que volte a caminhar com o povo

Talvez a maior conversão que a Igreja brasileira precise realizar seja retornar ao caminho de Emaús: o Cristo ressuscitado não aparece nos palácios nem nos centros do poder. Ele caminha ao lado dos discípulos desanimados. Escuta suas dores. Explica as Escrituras. Parte o pão. E desaparece para que a comunidade continue sua missão.

As Comunidades Eclesiais de Base representam exatamente esse modo de ser Igreja. Uma Igreja que escuta antes de ensinar. Que participa antes de comandar. Que serve antes de exigir. Que partilha antes de acumular. Que caminha antes de condenar. Que faz da Palavra uma força libertadora e da Eucaristia um compromisso concreto com a fraternidade.

Num tempo marcado pela sedução das aparências, pela lógica do mercado religioso e pela busca incessante de prestígio, as CEBs continuam proclamando silenciosamente que a verdadeira grandeza da Igreja não está no brilho de suas vestes, mas na poeira de suas sandálias; não está na grandiosidade de seus templos, mas na simplicidade das casas onde irmãos e irmãs se reúnem para rezar e repartir a vida; não está na proximidade com os poderosos, mas na fidelidade ao Jesus de Nazaré que anunciou aos pobres a Boa Nova.

Enquanto existir uma comunidade que leia a Bíblia com os olhos do povo, que transforme a fé em solidariedade, que celebre a vida em torno da mesa comum e que faça dos pobres sujeitos de sua própria história, o sonho do Concílio Vaticano II permanecerá vivo. E a Igreja continuará sendo, como desejava Jesus, fermento na massa, luz do mundo e sal da terra: uma Igreja com cheiro de povo, com mãos calejadas pelo serviço e com o coração inteiramente voltado para o Reino de Deus.


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