Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
O capítulo 8 do Evangelho de Mateus marca o início da ação concreta de Jesus após o grande discurso do Sermão da Montanha (Mt 5–7). Se no monte Jesus anuncia os valores do Reino, agora Ele os torna visíveis através de gestos que restauram vidas e devolvem dignidade às pessoas marginalizadas.
A perícope de Mateus 8,5-17 reúne três episódios profundamente significativos: a cura do servo do centurião (vv. 5-13), a cura da sogra de Pedro (vv. 14-15) e a cura de muitos enfermos e possessos (vv. 16-17). O texto apresenta Jesus como aquele que atravessa fronteiras sociais, étnicas, religiosas e culturais para manifestar a presença libertadora de Deus.
Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, esta passagem revela um Deus que escuta o clamor dos pequenos e chama a comunidade cristã a construir relações marcadas pela solidariedade, pela inclusão e pela defesa da vida.
Contexto exegético
Mateus escreve seu Evangelho para comunidades compostas majoritariamente por cristãos vindos do judaísmo, vivendo tensões entre fidelidade à tradição e abertura aos novos povos.
Depois do Sermão da Montanha, Jesus realiza uma sequência de dez milagres (Mt 8–9), que podem ser compreendidos como sinais concretos do Reino de Deus. Esses milagres não são demonstrações de poder extraordinário, mas manifestações da misericórdia divina diante do sofrimento humano.
Os três episódios de Mateus 8,5-17 possuem um elemento comum: todos envolvem pessoas que, por diferentes razões, ocupam posições de fragilidade ou de exclusão.
- Um servo estrangeiro e provavelmente escravizado;
- Uma mulher idosa cuja função social era invisibilizada;
- Uma multidão de doentes e possessos considerados impuros pela religião oficial.
Jesus aproxima-se justamente daqueles que estavam nas periferias da sociedade.
O centurião: um estrangeiro que ensina o caminho da fé
O primeiro personagem de Mt 8,5-17 é um centurião romano. Trata-se de um oficial do exército responsável por aproximadamente cem soldados. Ele representa o poder político e militar do Império Romano, responsável pela ocupação da Palestina. Seria esperado que Jesus mantivesse distância desse homem. Tratava-se de um representante da opressão romana. Entretanto, o centurião demonstra uma atitude surpreendente. Ele não pede nada para si, mas para o seu servo, alguém considerado socialmente descartável. A preocupação com um escravo revela uma sensibilidade pouco comum numa sociedade marcada pela desigualdade.
Sua profissão de fé é uma das mais belas do Evangelho:
“Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa; dize apenas uma palavra, e o meu servo será curado.”
Na Leitura Popular da Bíblia, essa fala possui enorme força simbólica. Quem se reconhece necessitado de Deus é justamente alguém considerado “de fora”. Enquanto muitos religiosos acreditavam possuir privilégios diante de Deus, um estrangeiro manifesta uma confiança absoluta na Palavra de Jesus.
Por isso Jesus afirma:
“Em verdade vos digo: em ninguém de Israel encontrei uma fé tão grande.”
Mateus mostra que o Reino rompe qualquer exclusivismo religioso ou cultural. A pertença ao Reino não depende de origem, nacionalidade, classe social ou pureza ritual, mas da confiança na ação libertadora de Deus.
A sogra de Pedro: a mulher restaurada para o serviço
Ao entrar na casa de Pedro, Jesus encontra sua sogra deitada com febre. Na cultura bíblica, a febre representa muito mais do que uma enfermidade física. Ela impede a participação na vida comunitária e no trabalho cotidiano.
Jesus aproxima-se, toca sua mão e a levanta. O verbo utilizado (“levantar”) é o mesmo empregado posteriormente para falar da ressurreição. A cura, portanto, não significa apenas recuperação física, mas uma verdadeira reinserção na vida.
O texto afirma:
“Ela levantou-se e começou a servi-lo.”
O serviço aqui não expressa submissão feminina, mas discipulado. Enquanto muitos discutem posições de poder, a primeira pessoa apresentada servindo a comunidade é uma mulher restaurada pela misericórdia de Jesus.
Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, este episódio reconhece o protagonismo das mulheres nas primeiras comunidades e denuncia todas as estruturas que continuam invisibilizando sua participação na Igreja e na sociedade.
Jesus e os doentes: Deus está do lado dos que sofrem
Ao cair da tarde, numerosas pessoas são levadas até Jesus. Mateus destaca que Ele cura todos e expulsa os espíritos malignos.
O evangelista interpreta esse acontecimento à luz de Isaías 53:
“Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças.”
Jesus não elimina o sofrimento mantendo distância dele. Ele assume sobre si as dores do povo. Na tradição bíblica, Deus não salva de longe; Deus caminha com os pobres, sofre com os injustiçados e age na história através da solidariedade.
A cura torna-se um sinal da restauração integral da pessoa:
- restauração do corpo;
- restauração das relações sociais;
- restauração da dignidade;
- restauração da esperança.
A Leitura Popular da Bíblia
A Leitura Popular da Bíblia parte da vida para compreender a Palavra e retorna à vida para transformá-la. Lido a partir das periferias, Mateus 8,5-17 revela que Jesus constrói uma comunidade onde ninguém é considerado descartável.
O centurião lembra os migrantes, os refugiados e todos aqueles que vivem sob preconceitos culturais. O servo representa os trabalhadores explorados, empregados invisibilizados e pessoas submetidas a relações injustas de trabalho.
A sogra de Pedro simboliza as mulheres cujo trabalho cotidiano sustenta famílias e comunidades, mas raramente recebe reconhecimento.
Os enfermos representam milhões de pessoas privadas do acesso à saúde, vítimas da pobreza, da violência e do abandono do Estado.
O Reino anunciado por Jesus acontece quando essas pessoas deixam de ser invisíveis e passam a ocupar o centro da vida comunitária.
Dimensão sociotransformadora
Este Evangelho desafia profundamente as comunidades cristãs. Não basta professar uma fé correta; é necessário construir relações que gerem vida. Jesus rompe fronteiras étnicas ao acolher um romano. Rompe fronteiras sociais ao preocupar-se com um escravo. Rompe fronteiras patriarcais ao devolver protagonismo a uma mulher. Rompe fronteiras religiosas ao tocar pessoas consideradas impuras.
Sua prática torna-se uma crítica permanente às comunidades que ainda hoje constroem muros de exclusão.
A Igreja é chamada a reconhecer Cristo presente:
- nas pessoas em situação de rua;
- nos migrantes e refugiados;
- nas populações negras vítimas do racismo estrutural;
- nos povos indígenas ameaçados;
- nas mulheres submetidas à violência;
- nos trabalhadores explorados;
- nos idosos esquecidos;
- nas crianças privadas de direitos.
Seguir Jesus significa fazer da misericórdia uma prática social e política.
Pistas para a ação pastoral
A leitura deste texto inspira algumas atitudes concretas para as comunidades cristãs:
1. Desenvolver uma pastoral da acolhida
Criar espaços onde ninguém seja julgado por sua origem, condição econômica, aparência ou situação de vida.
2. Valorizar os invisíveis
Reconhecer o protagonismo das mulheres, dos idosos, dos trabalhadores simples e de todos aqueles que sustentam silenciosamente a vida comunitária.
3. Defender políticas públicas de saúde e assistência
As curas de Jesus recordam que cuidar da vida é responsabilidade coletiva. Defender um sistema de saúde acessível e de qualidade também é expressão do Evangelho.
4. Promover uma espiritualidade da solidariedade
A fé do centurião mostra que Deus age onde há confiança, humildade e compromisso com o outro.
5. Construir comunidades samaritanas
Comunidades que não perguntam primeiro quem merece ajuda, mas que se aproximam, tocam as feridas e devolvem dignidade às pessoas.
Conclusão
Mateus 8,5-17 apresenta um Jesus profundamente comprometido com a vida dos excluídos. Sua autoridade manifesta-se não no domínio, mas na compaixão; não na imposição, mas no cuidado; não no privilégio, mas na proximidade com quem sofre.
Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, este Evangelho continua sendo um convite para que a Igreja caminhe ao lado dos pobres e marginalizados, reconhecendo neles o lugar privilegiado da presença de Deus.
Cada cura realizada por Jesus anuncia que o Reino já começou a acontecer onde a dignidade humana é restaurada, onde as fronteiras da exclusão são derrubadas e onde a fé se transforma em compromisso concreto com a justiça, a fraternidade e a vida plena para todos.
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