Reflexão para o 22º Domingo do Tempo Comum – Ano A: (Jr 20,7-9; Rm 12,1-2 e Mt 16,21-27)

Discípulos de uma fé que se deixa transformar: Profecia, Renovação e Cruz

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Estamos no XXII Domingo do Tempo Comum. A liturgia nos convida a refletir sobre a Palavra de Deus presente em Jr 20,7-9; Rm 12,1-2 e Mt 16,21-27.

A palavra revelada não é indiferente à história. Ela nasce em contextos concretos, atravessados por conflitos, sofrimentos, injustiças e esperanças; e continua interpelando as comunidades cristãs diante dos desafios de cada tempo. A Teologia Latino-Americana, especialmente a partir da opção preferencial pelos pobres, desenvolveu uma leitura bíblica que procura relacionar a Escritura com a vida concreta dos povos, particularmente com a experiência daqueles que sofrem a pobreza, a violência e a exclusão. Essa perspectiva compreende que a leitura da Bíblia não pode permanecer apenas no âmbito individual ou espiritual, mas deve produzir uma práxis capaz de transformar as estruturas que negam a vida.

Os três textos propostos na liturgia apresentam uma mesma dinâmica: Deus chama, transforma e envia. Jeremias experimenta a força irresistível da vocação profética; Paulo convoca a comunidade a uma transformação profunda da mentalidade; Jesus anuncia aos discípulos o caminho da Cruz. Lidos conjuntamente, esses textos revelam que seguir Jesus, o Filho de Deus, significa deixar-se deslocar de uma fé acomodada para uma existência comprometida com a justiça, a dignidade humana e a vida dos pobres.

1. Jeremias: quando a Palavra se torna fogo no coração

Jr 20,7-9 pertence às chamadas “confissões de Jeremias”, textos nos quais o profeta expressa diante de Deus suas dores, crises e conflitos interiores. Jeremias vive em um período de profunda instabilidade política e religiosa de Judá, marcado pela ameaça babilônica e pela resistência das autoridades em reconhecer a gravidade da situação. Sua missão profética o coloca em confronto com os poderes estabelecidos.

Por isso, sua linguagem é surpreendentemente humana: “Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir”. O profeta não apresenta sua vocação como experiência romântica. Ela lhe trouxe sofrimento, incompreensão e rejeição. Quando anuncia a violência e a opressão, torna-se objeto de escárnio. Jeremias deseja silenciar, mas descobre que a Palavra de Deus é como fogo ardente a penetrar-lhe o corpo.

A experiência do profeta possui enorme força para uma espiritualidade latino-americana. A missão não nasce simplesmente de uma decisão pessoal, mas do encontro com uma Palavra que incomoda, denuncia e exige posicionamento. O profeta não consegue permanecer neutro diante das injustiças e violências.

Essa dimensão é particularmente importante para a Igreja. Uma comunidade cristã que perde a capacidade de denunciar aquilo que destrói a vida perde também uma dimensão essencial de sua missão profética. A Palavra não pode ser domesticada para legitimar privilégios, silenciar conflitos ou oferecer tranquilidade aos que vivem confortavelmente em estruturas de injustiça.

Na perspectiva da opção pelos pobres, a vocação profética implica colocar-se ao lado daqueles cuja voz não é ouvida. A Teologia Latino-Americana entende que a realidade dos oprimidos não é um elemento externo à reflexão teológica: o sofrimento dos pobres constitui lugar a partir do qual a fé precisa ser novamente pensada e praticada.

2. Romanos: não se conformar com este mundo

Em Rm 12,1-2, Paulo inicia uma nova etapa da Carta aos Romanos. Depois de apresentar uma ampla reflexão sobre a graça, a salvação e a ação de Deus; ele passa às consequências práticas da fé. “Oferecei os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus.”

O termo “corpos” não deve ser compreendido apenas como dimensão física. Paulo fala da pessoa inteira, de sua existência concreta. O culto verdadeiro não acontece somente no espaço litúrgico: acontece na maneira como os cristãos vivem no mundo.

Por isso, Paulo acrescenta: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovando vossa maneira de pensar e julgar”. A expressão não significa uma fuga da realidade. Ao contrário, significa não aceitar passivamente os padrões de uma sociedade que contradizem o projeto de Deus.

A transformação proposta por Paulo possui, portanto, dimensão pessoal, comunitária e social. O cristão precisa desenvolver uma nova maneira de pensar, discernindo “qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito”.

Para a Teologia Latino-Americana, essa afirmação possui enorme atualidade. Não se conformar significa não considerar normal a fome, o racismo, a violência contra as mulheres, a exploração do trabalho, a destruição ambiental, a exclusão dos povos indígenas, as condições degradantes em que vivem as pessoas em situação de rua ou a concentração desmedida de riquezas. A opção pelos pobres não consiste simplesmente em realizar ações assistenciais; implica também enfrentar as causas da pobreza e reconhecer os pobres como sujeitos de sua própria história.

A renovação da mente significa, nesse sentido, uma verdadeira conversão do olhar. O pobre deixa de ser visto como problema e passa a ser reconhecido como irmão, sujeito de direitos e interlocutor da comunidade cristã. A ação pastoral deixa de ser feita para os pobres e começa a ser construída com os pobres.

3. Jesus e a pedagogia da cruz

Em Mt 16,21-27 encontramos uma das passagens decisivas do Evangelho. Depois da profissão de fé de Pedro, Jesus começa a revelar que deverá ir a Jerusalém, sofrer, ser morto e ressuscitar.

Pedro rejeita imediatamente essa perspectiva. Ele esperava um Messias vitorioso, provavelmente associado às expectativas políticas e religiosas de libertação de Israel. Jesus, porém, apresenta um caminho diferente: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua Cruz e siga-me”.

É fundamental não interpretar essa passagem como uma glorificação do sofrimento. Jesus não ensina que Deus deseja a dor dos seres humanos, nem pede aos pobres que aceitem passivamente a opressão. A Cruz de Jesus é consequência de sua fidelidade ao Reino de Deus em uma sociedade marcada por relações de poder, violência e dominação.

A Cruz revela aquilo que acontece quando uma pessoa se coloca radicalmente do lado da vida, da verdade e dos vulneráveis em uma estrutura que prefere preservar seus privilégios. Jesus não procura o sofrimento; permanece fiel ao projeto do Pai, mesmo quando esse projeto entra em conflito com os poderes estabelecidos.

Por isso, “tomar a Cruz” não pode significar aceitar injustiças. Para uma hermenêutica latino-americana, significa assumir responsavelmente o preço do discipulado quando a defesa da vida confronta os mecanismos que produzem morte.

É necessário, portanto, distinguir Cruz assumida por amor de sofrimento imposto pela injustiça. A primeira pode ser consequência da fidelidade ao Evangelho; a segunda precisa ser combatida. Uma Igreja que pede aos pobres que suportem resignadamente sua pobreza não está seguindo o Jesus da Cruz, mas legitimando aquilo que o Evangelho denuncia.

4. Uma espiritualidade sociotransformadora

Os três textos convergem para uma espiritualidade profundamente dinâmica. Jeremias ensina que a Palavra de Deus não permite ao profeta permanecer indiferente. Paulo ensina que a fé exige transformação da mentalidade. Jesus ensina que o discipulado passa pela disposição de assumir as consequências da fidelidade ao Reino.

Essa perspectiva corresponde ao caminho desenvolvido pela Igreja latino-americana desde o Concílio Vaticano II, especialmente nas Conferências de Medellín e Puebla, que colocaram a opção pelos pobres no centro da reflexão e da ação pastoral.

A ação pastoral inspirada nesses textos precisa, portanto, superar uma evangelização reduzida à manutenção religiosa. Evangelizar significa colaborar com Deus na defesa da vida. Significa fortalecer comunidades capazes de ler a realidade, discernir suas causas e organizar respostas solidárias.

As Comunidades Eclesiais de Base, as pastorais sociais, a defesa dos povos indígenas e quilombolas, a Pastoral da Terra, a Pastoral Carcerária, a Pastoral da Ecologia Integral, as iniciativas de defesa dos migrantes e refugiados, e tantas outras experiências, podem expressar concretamente essa espiritualidade. As CEBs, particularmente, constituíram na América Latina um espaço privilegiado de articulação entre fé, leitura bíblica e compromisso social.

A pastoral precisa também recuperar a dimensão profética da denúncia. Não basta distribuir alimento aos que estão em situação de vulnerabilidade, se não questionamos as estruturas que produzem fome. Não basta acolher pessoas em situação de rua se não defendemos políticas públicas de habitação e inclusão. Não basta falar de cuidado da criação se permanecemos indiferentes aos povos atingidos pela mineração predatória, pelo desmatamento e pela destruição dos territórios.

A Palavra precisa transformar-se em ação.

Conclusão: uma Igreja que não se conforma

Jr 20,7-9, Rm 12,1-2 e Mt 16,21-27 apresentam uma pedagogia do discipulado: deixar-se tocar pela Palavra, transformar a própria mentalidade e assumir concretamente o caminho de Jesus.

Jeremias nos recorda que o profeta não consegue calar quando a Palavra arde dentro dele. Paulo nos desafia a não nos conformarmos com os padrões de uma sociedade que frequentemente transforma pessoas em objetos e vidas em mercadorias. Jesus nos mostra que a fidelidade ao Reino pode exigir coragem diante dos poderes que produzem sofrimento e morte.

A Teologia Latino-Americana ajuda a compreender que essa fidelidade precisa ser vivida a partir dos pobres e excluídos. A opção pelos pobres não é uma estratégia pastoral entre outras, mas uma consequência da própria experiência do Deus bíblico, que escuta o clamor dos que sofrem e deseja a vida para todos.

Assim, a pergunta decisiva para a Igreja de hoje não é apenas se somos capazes de falar sobre Deus, mas se somos capazes de reconhecer onde Deus está agindo na história. Ele está presente nos profetas que não se calam, nas comunidades que resistem, nos pobres que lutam por dignidade, nos povos que defendem seus territórios, nos trabalhadores que reivindicam justiça e em todos aqueles que, mesmo diante da Cruz, continuam acreditando que outro mundo é possível.

Seguir Jesus é deixar-se transformar enquanto pessoa para transformar o mundo. É permitir que o fogo da Palavra nos retire da acomodação e nos conduza para as periferias da história. É fazer da própria existência um “sacrifício vivo” oferecido à construção do Reino. E é compreender que a verdadeira Cruz Cristã não é a aceitação da injustiça, mas a fidelidade amorosa à vida quando essa fidelidade exige coragem, resistência e compromisso com os últimos.


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