Por Frei Jacir de Freitas Faria [1]
As leituras bíblicas desse último domingo de julho, dia 26, remetem-nos à reflexão sobre a sabedoria, a justiça nas relações e, por tabela, o Dia dos Avós e dos Idosos, por causa da celebração da memória de Sant`Ana e São Joaquim, os avós maternos de Jesus. Foi o Papa Gregório XIII que instituiu a festa de Sant’Ana e São Joaquim, em 1584. Já a relação deles com o Dia dos Avós começou em 1913. Em 2021, o saudoso Papa Francisco estabeleceu que o dia 26 de julho seria considerado o Dia mundial dos Avós e dos Idosos.
Diante desses fatos, vamos apresentar a história de Joaquim e Ana na tradição da Bíblia Apócrifa e refletir sobre o desafio de ser idoso, hoje, tendo como ponto de partida as leituras bíblicas da liturgia dominical.
A primeira leitura de 1Reis 3,5-12 recorda-nos a atitude de sabedoria do rei Salomão, que reinou em Israel entre os anos 970 a 938 a. E.C., ao suplicar sabedoria a Deus para governar. Ele pede um coração, que na Bíblia significa razão, que saiba ser compreensivo, capaz de governar o povo e discernir entre o bem e o mal. Salomão pede sabedoria para governar com justiça. Considerando Salomão nas perspectivas crítica e social, haveremos de constatar a sua ambiguidade: ele era governante sábio, mas profundamente opressor. Ele teve sabedoria para decidir questões legais, mas explorou os pobres na construção do Templo de Jerusalém. Após seu reinado, Israel não mais foi o mesmo. Seu filho Roboão foi mais cruel ainda com o povo. O país ficou dividido em duas nações, O norte (Israel) e sul (Judá). Qualquer semelhança com o nosso tempo, é mera coincidência.
A segunda leitura fala do chamado divino para vivermos de forma justa nas nossas relações. Já evangelho Mt 13,44-46, do Reino dos Céus, suas exigências e implicações em nossas vidas. A comunidade de Mateus apresenta-nos três parábolas, isto é, três comparações com o quotidiano da vida, para falar do Reino dos Céus. O Reino dos Céus é como um tesouro escondido num campo. Certo homem, encontra-o e o escondeu de novo. Cheio de alegria, ele vai e vende tudo o que tinha e compra aquele campo. O Reino dos céus também é como um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo o que tinha e a comprou. Reino dos céus é ainda como uma rede que é lançada ao mar e apanha toda sorte de peixes. Quando está cheia, os pescadores a puxam para a praia. Então se assentam e juntam os peixes bons em cestos, mas jogam fora os ruins. Para adquirir o reino é preciso ter sabedoria para discernir o bem e o mal que está presente na comunidade e na sociedade, bem como ser dedicado ao serviço de conservar e discernir.
Passemos agora para a reflexão Ana e Joaquim e a luta dele pela sabedoria na vida idosa. O nome Ana significa Graça, Joaquim, Deus prepara ou fortalece. Como a Graça atuou na vida deles?
A Bíblia canônica não menciona Joaquim e Ana. É na Bíblia Apócrifa que vamos encontrar informações sobre eles. Um evangelho apócrifo conhecido como Protoevangelho de Tiago ou Natividade de Maria, escrito entre os anos 150 a 200 E.C., serviu para situar Jesus na sua história familiar, sobretudo com Maria, sua mãe. O tempo de sua escrita era a reflexão sobre a humanidade e divindade de Jesus. Ele, sendo divino, teria que ter também laços humanos de parentesco, caso contrário, seria considerado somente divino. Os evangelhos de Mateus e Lucas, com suas genealogias, já haviam deixado registrado a ancestralidade de Jesus até José e Maria, mas faltava dizer que eram os seus avós.
Protoevangelho de Tiago,[2] na Idade Média (1513), serviu para estabelecer a celebração litúrgica da festa de São Joaquim e Sant’Ana. Ele foi escrito em Alexandria, no Egito, por um judeu-cristão, que o compôs em grego, e foi atribuído a Tiago Menor, um dos filhos do primeiro casamento de São José, e primeiro bispo de Jerusalém, depois da morte de Jesus.
Mais tarde, em 1854, Protoevangelho de Tiago serviu também para a Igreja estabelecer o dogma da Imaculada Concepção de Maria.
Em síntese, esse apócrifo narra que o idoso Joaquim foi fazer a sua oferta no Templo de Jerusalém, mas ela foi rejeitada pelo sacerdote Rubén, pelo fato de ele não ter dado descendência para Israel. Joaquim volta triste para a casa e retira-se em jejum e oração, no deserto, por quarenta dias e quarenta noites. Ana, sua esposa, entristecida, se veste de luto e lamenta sua viuvez e esterilidade. Pouco tempo depois, a pedido de sua serva Judite, ela se veste de noiva e vai para o jardim passear. Levantando os olhos ao céu, Ana viu um ninho de passarinho num pé de louro. Ela lamenta diante de Deus, no jardim, e não templo, o dia de seu nascimento, sua expulsão do Templo e seu ventre estéril. Um anjo do Senhor lhe aparece e anuncia que sua oração foi ouvida e que ela conceberia e daria à luz a uma criança, sobre a qual toda a terra falaria de sua descendência. Outro anjo avisa-a que Joaquim estava voltando do deserto. Quando Joaquim chega na cidade, Ana vai ao seu encontro, o abraça e anuncia a sua concepção. Joaquim volta ao Templo e suas ofertas são aceitas. No nono mês, Ana deu à luz uma filha, que recebeu o nome de Maria.
A narrativa continua falando de Maria. A história é muito bonita. O que dizer dessa narrativa de fé? A trama expressa a dor do casal, a humilhação de Joaquim, o sofrimento de Ana, a súplica atendida por Deus, o encontro místico de Ana com Joaquim na porta da cidade e a promessa da continuidade da ação de Deus na história do povo eleito a partir de dois idosos e estéreis.
Sem esse apócrifo, conservado pela devoção popular, a Igreja não teria a base histórica e afetiva para celebrar as festas litúrgicas da Natividade de Maria e o dia Sant’Ana e São Joaquim, bem como o Dia dos Idosos. A história de Joaquim e Ana é crucial para mostrar como Deus acolhe os marginalizados de seu tempo. Na cultura judaica antiga, a esterilidade era vista como uma “punição divina”, motivo de vergonha pública e exclusão da vida religiosa no Templo de Jerusalém. Outro detalhe importante é que o sofrimento de Joaquim no deserto e o choro de Ana no jardim humanizam a dor. A reviravolta na vida deles ensina-nos que a persistência na oração e a Graça divina ressignificam o sofrimento humano. Eles eram também idosos.
Nossos avós não são, necessariamente, idosos, mas avó ou avô sempre nos remete ao ser idoso. Envelhecer é uma fase natural e inevitável da vida, mas que deve ser vivida com dignidade e justiça. Ser avó é um tempo de graça. Eles transmitem a fé aos filhos que pais e mães esqueceram de dar ou não importam por causa do ritmo acelerado da vida moderna. Aliás, muitos filhos são criados com as avós e, por isso, a elas dedicam grande afeição e estima, muitas vezes mais que aos pais.
Vimos que o Reino de Deus é amor, é justiça e acolhimento. E é a isso esse somos convocados a devolver para os nossos avós e para as pessoas idosas. Eles só querem ser amados pelas suas famílias e tratados com carinho pelas instituições que estão a serviço deles.
Que a reflexão que fizemos sobre a tradição de fé sobre Sant’Ana e São Joaquim e os textos bíblicos possam levar a Igreja a vivenciar com sabedoria e entusiasmo os valores do Reino de Deus, tesouro de fé do qual ela é depositária e anunciadora. Assim seja!

[1]Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (PIB). Professor de Exegese Bíblica há três décadas. Presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Professor de exegese bíblica EaD e no Seminário Sagrado Coração de Jesus. Referência no Brasil na pesquisa da literatura apócrifa do Segundo Testamento. Autor de treze livros e coautor de dezessete. Oferece curso on-line sobre a Bíblia Apócrifa. Disponível em: www.bibliaapocrifa.com Última publicação: Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento (Vozes, 2025). São 784 páginas com a tradução de 67 apócrifos do Novo Testamento. Canal no Youtube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos. https://www.youtube.com/channel/UCwbSE97jnR6jQwHRigX1KlQ No Instagram e Tiktok @freijacir
[2] FARIA, Jacir de Freitas, Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento, Petrópolis: Vozes, Vozes, 2026, 4ª reimpressão, p. 121-137.
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