Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
Uma das grandes disputas presentes na história do cristianismo diz respeito à compreensão do Reino de Deus. Enquanto determinadas correntes teológicas reduziram o Evangelho à salvação individual da alma, à moral privada e à preparação para a vida futura (meramente celeste), a tradição bíblica apresenta o Reino como intervenção concreta de Deus na história, inaugurando relações de justiça, fraternidade e libertação.
Na América Latina, essa tensão tornou-se particularmente evidente diante da pobreza estrutural, da violência, do colonialismo, do racismo e das diversas formas de exclusão. A Teologia Latino-Americana recuperou o caráter histórico do Reino anunciado por Jesus, afirmando que a fé cristã não pode ser separada da transformação da realidade.
Mateus 13,44-52 oferece um importante horizonte para esse debate. As parábolas do tesouro, da pérola e da rede revelam que o Reino exige ruptura com valores estabelecidos, discernimento histórico e compromisso radical. Lidas à luz da realidade latino-americana, tornam-se uma crítica contundente ao patriarcado, ao moralismo religioso e às espiritualidades alienadas.
O contexto de Mateus 13
O capítulo 13 reúne o chamado “Discurso das Parábolas”. Jesus ensina às multidões utilizando imagens do cotidiano dos trabalhadores rurais, pescadores e pequenos comerciantes da Galileia.
A Galileia do século I vivia sob dupla exploração:
- o domínio imperial romano;
- a aristocracia sacerdotal de Jerusalém.
A concentração de terras expulsava famílias camponesas. Os impostos eram abusivos. A fome era permanente. As mulheres viviam submetidas ao sistema patriarcal. A religião legitimava muitas dessas desigualdades por meio das categorias de pureza e impureza. É justamente nesse contexto que Jesus anuncia o Reino.
Não como realidade apenas futura. Mas como algo que já começa a transformar a história.
O Reino vale mais que toda a ordem existente
As duas primeiras parábolas apresentam imagens semelhantes. Um homem encontra um tesouro. Outro encontra uma pérola preciosa. Ambos vendem tudo para adquirir aquilo que encontraram.
As leituras espiritualistas costumam interpretar o texto como um chamado ao desapego individual para “ganhar o céu”. Entretanto, a linguagem de Jesus é muito mais revolucionária. O Reino não é apenas um prêmio espiritual. É uma nova lógica de vida.
Quem encontra o Reino percebe que toda a estrutura anterior perdeu seu valor.
Isso significa abandonar:
- relações de exploração;
- sistemas religiosos opressores;
- formas patriarcais de exercer autoridade;
- projetos econômicos baseados na acumulação.
O Reino reorganiza completamente a existência.
Contra o patriarcado
Grande parte das espiritualidades conservadoras preserva uma leitura patriarcal da Bíblia.
Nelas:
- o homem governa;
- a mulher obedece;
- a autoridade nunca é questionada;
- a hierarquia aparece como vontade divina.
Jesus rompe continuamente essa lógica.
Ao longo de todo o Evangelho de Mateus:
- as mulheres tornam-se discípulas;
- participam da missão;
- são modelos de fé;
- ocupam lugar privilegiado entre no processo de libertação dos pobres.
O Reino anunciado nas parábolas vale mais que qualquer sistema de dominação. Inclusive o patriarcado religioso. A verdadeira autoridade nasce do serviço.
- Não do controle.
- Não do poder masculino.
- Não da submissão feminina.
A Teologia Latino-Americana recorda que o Reino restitui dignidade às pessoas historicamente marginalizadas. Isso inclui mulheres, crianças, pobres, estrangeiros e todos aqueles cuja humanidade foi negada.
Contra o moralismo religioso
Outra consequência das leituras espiritualistas é transformar o cristianismo numa religião da vigilância moral. Os pecados individuais passam a ocupar quase todo o discurso religioso.
Enquanto isso: a fome; a violência; o desemprego; a exploração do trabalho; o racismo; a destruição ambiental; a concentração de renda tornam-se temas secundários.
Essa inversão não corresponde ao Evangelho. Jesus nunca separa espiritualidade de justiça. O Reino exige conversão pessoal e também conversão das estruturas sociais.
A venda de “tudo” nas parábolas significa abandonar não apenas vícios pessoais. Significa romper com sistemas de pecado institucionalizados.
Uma leitura sincera da Palavra de Deus denomina essas realidades como pecado estrutural.
Contra a espiritualidade alienada
Talvez o maior desafio contemporâneo seja enfrentar uma espiritualidade que promete prosperidade individual enquanto naturaliza o sofrimento coletivo.
Essa espiritualidade:
- despolitiza o Evangelho;
- reduz a oração a técnica para alcançar bênçãos;
- transforma Deus em fornecedor de milagres privados;
- culpabiliza os pobres;
- desresponsabiliza os ricos;
- abandona qualquer compromisso histórico.
Nas parábolas de Mateus ocorre exatamente o contrário. Encontrar o Reino transforma toda a existência. Não apenas os sentimentos O discípulo reorganiza prioridades. Muda sua relação com os bens. Muda sua forma de exercer poder Muda sua compreensão da economia. Muda sua maneira de viver a comunidade.
O Reino não aliena. Compromete.
A parábola da rede: discernimento histórico
A terceira parábola apresenta uma rede lançada ao mar. Ela recolhe peixes de toda espécie. Somente depois ocorre a separação. Muitas interpretações utilizam esse texto para alimentar discursos de condenação. Entretanto, a imagem principal não é o medo. É o discernimento.
A comunidade do Reino convive com ambiguidades. Nem tudo o que parece religioso expressa o Reino. Nem toda espiritualidade nasce do Evangelho. É necessário discernir.
Na América Latina isso significa perguntar:
- Que tipo de Igreja estamos construindo?
- Uma Igreja preocupada apenas com regras?
- Ou uma Igreja comprometida com a justiça?
- Uma Igreja voltada para privilégios?
- Ou para os crucificados da história?
O escriba discípulo do Reino
O texto termina com uma imagem surpreendente. O escriba discípulo tira do tesouro coisas novas e antigas.
Jesus não rompe simplesmente com a tradição. Ele a ressignifica. A Escritura permanece. Mas precisa ser lida desde o Reino.
A Leitura Popular da Bíblia insiste justamente nisso. A Palavra nasce novamente quando encontra a vida dos pobres. O novo não elimina o antigo.
Liberta-o das interpretações opressoras.
A contribuição da Teologia Latino-Americana
A Teologia Latino-Americana recupera o sentido original dessas parábolas.
O Reino possui dimensão:
- espiritual;
- comunitária;
- política;
- econômica;
- ecológica.
Não existe oposição entre oração e compromisso social. Entre fé e transformação histórica. Entre contemplação e justiça.
Como afirmou Gustavo Gutiérrez, a espiritualidade cristã é seguimento histórico de Jesus. Leonardo Boff recorda que a mística cristã nasce do cuidado com toda a criação. Jon Sobrino insiste que o lugar privilegiado da revelação continua sendo o mundo dos pobres. Frei Carlos Mesters mostra que a Bíblia somente recupera sua força quando volta às comunidades populares.
Desafios pastorais
Mateus 13 desafia nossas comunidades a:
- superar espiritualidades individualistas;
- denunciar o patriarcado presente nas estruturas eclesiais e sociais;
- combater o moralismo seletivo que ignora as injustiças estruturais;
- formar comunidades comprometidas com os pobres;
- recuperar a dimensão profética da missão da Igreja;
- promover uma espiritualidade encarnada, que una oração, justiça e solidariedade;
- fortalecer as Comunidades Eclesiais de Base como espaços de leitura popular da Bíblia, discernimento comunitário e compromisso transformador.
Conclusão
O tesouro escondido e a pérola de grande valor não simbolizam uma fuga do mundo, mas a descoberta de uma nova maneira de habitá-lo. Quem encontra o Reino de Deus reconhece que nenhuma riqueza, privilégio ou sistema de dominação pode ser colocado acima da dignidade humana. Por isso, vende “tudo”: renuncia aos ídolos do poder, do patriarcado, do moralismo e da religião alienante para acolher a novidade do Evangelho.
A Teologia Latino-Americana ajuda a recuperar essa força subversiva das parábolas de Mateus. O Reino anunciado por Jesus não legitima desigualdades nem acomoda os discípulos diante do sofrimento dos povos. Ao contrário, convoca-os a participar da construção de uma sociedade marcada pela justiça, pela igualdade, pela fraternidade e pelo cuidado da criação.
Assim, o verdadeiro tesouro da Igreja não está na acumulação de bens, na manutenção de privilégios ou na defesa de uma moral desconectada da vida, mas na fidelidade ao projeto histórico de Jesus de Nazaré: uma comunidade que reconhece nos pobres, nas mulheres, nos povos indígenas, na população negra, nos trabalhadores explorados e em todos os excluídos os primeiros destinatários da Boa Nova e os protagonistas do Reino de Deus.
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