“De onde lhe vem esta sabedoria e esses milagres?” (Mt 13,54-58): Jesus rejeitado em sua própria terra e o desafio de reconhecer Deus nas periferias da história
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
O texto de Mateus 13,54-58 apresenta um dos momentos mais significativos do ministério de Jesus: o retorno à sua terra natal e a rejeição que experimenta entre seus próprios conterrâneos. Depois de anunciar o Reino de Deus por meio de parábolas (Mt 13,1-53), Jesus volta a Nazaré, sua comunidade de origem, e encontra resistência daqueles que não conseguem reconhecer a ação de Deus na simplicidade de sua humanidade.
O drama narrado pelo evangelista não é apenas um episódio biográfico sobre Jesus. Trata-se de uma questão teológica profunda: como Deus se manifesta na história? Onde encontramos os sinais do Reino? Quem são aqueles que conseguem reconhecer a presença divina?
A partir da Teologia Latino-Americana e da Leitura Popular da Bíblia, este texto revela um conflito permanente: Deus frequentemente se manifesta a partir dos pequenos, dos pobres e dos lugares considerados insignificantes, enquanto estruturas sociais e religiosas podem tornar-se incapazes de acolher a novidade libertadora do Reino.
A rejeição de Jesus em Nazaré continua atual. Muitas vezes, a sociedade e até comunidades religiosas têm dificuldade de reconhecer a voz de Deus quando ela surge das periferias, dos pobres, dos povos marginalizados e daqueles que não possuem prestígio social.
1. O contexto histórico e social de Nazaré
O Evangelho de Mateus afirma: “Jesus foi para sua terra e ensinava na sinagoga deles, de modo que ficaram admirados.” (Mt 13,54)
A “terra” mencionada é Nazaré, uma pequena aldeia da Galileia. Diferentemente de Jerusalém, centro político e religioso do judaísmo, Nazaré era uma comunidade simples, sem grande importância econômica ou cultural.
A própria tradição bíblica revela o desprezo que regiões pobres sofriam. No Evangelho de João, Natanael pergunta: “De Nazaré pode sair algo de bom?” (Jo 1,46)
A pergunta expressa uma mentalidade presente naquele contexto: as grandes coisas deveriam vir dos grandes centros, dos lugares reconhecidos, das elites religiosas e políticas.
Jesus, porém, rompe essa lógica.
O Messias esperado por Deus não aparece no palácio de Herodes, nem entre os sacerdotes do Templo, nem nos círculos dos poderosos. Ele surge entre trabalhadores simples de uma aldeia esquecida. Essa escolha divina é fundamental para compreender a teologia de Mateus.
2. Exegese de Mateus 13,54-58
2.1. “De onde lhe vem esta sabedoria?” (Mt 13,54)
A reação inicial dos habitantes de Nazaré é de admiração: “De onde lhe vêm essa sabedoria e esses milagres?” Eles reconhecem que há algo extraordinário em Jesus. Percebem sua autoridade, sua palavra e seus sinais. Mas essa admiração rapidamente se transforma em escândalo.
O problema não é a falta de evidências. O problema é a incapacidade de aceitar que Deus possa agir através de alguém tão próximo e tão simples. Jesus não corresponde às expectativas de um Messias poderoso segundo os critérios humanos. Ele é um homem do povo.
2.2. “Não é ele o filho do carpinteiro?” (Mt 13,55)
A pergunta revela o preconceito social contra Jesus: “Não é ele o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria?” Os moradores de Nazaré conheciam a origem humilde de Jesus. Sabiam que Ele vinha de uma família simples.
A palavra grega téktōn (τέκτων), geralmente traduzida como “carpinteiro”, possui um significado mais amplo: trabalhador manual, artesão, alguém que trabalhava com madeira e outros materiais.
Jesus não pertence à elite intelectual nem religiosa. Ele vem do mundo dos trabalhadores.
Aqui encontramos uma das grandes afirmações da fé cristã: Deus assume a condição humana concreta, incluindo a realidade do trabalho humilde e da vida cotidiana. A encarnação não acontece fora da história dos pobres. Deus entra na história a partir das margens.
3. O escândalo da encarnação: Deus presente no simples
Mateus afirma: “E ficaram escandalizados por causa dele.” (Mt 13,57). O termo “escândalo” vem da palavra grega skandalon, indicando uma pedra de tropeço, algo que impede o caminho. Jesus torna-se escândalo porque revela um Deus diferente daquele imaginado pelos sistemas religiosos e sociais. O Deus de Jesus não se manifesta pelo poder, pela riqueza ou pelo prestígio.
Ele aparece:
- no filho de um trabalhador;
- numa aldeia pobre;
- entre pessoas simples;
- junto aos marginalizados.
Esse é o grande desafio da fé: reconhecer Deus onde os olhos humanos costumam não procurar.
4. “Um profeta só não é honrado em sua própria terra” (Mt 13,57)
Jesus interpreta sua rejeição como parte da tradição profética de Israel. Os profetas frequentemente foram rejeitados porque denunciavam injustiças e chamavam o povo à conversão.
Profetas como Amós, Jeremias e Isaías enfrentaram resistência porque suas palavras questionavam estruturas de poder. A rejeição de Jesus segue essa mesma dinâmica.
Ele não é rejeitado porque falta verdade em sua mensagem, mas porque sua presença questiona certezas e privilégios. A palavra profética incomoda quando revela aquilo que a sociedade deseja esconder.
5. “Não fez ali muitos milagres por causa da incredulidade deles” (Mt 13,58)
Esse versículo não significa que Jesus perdeu poder diante da incredulidade humana. A questão é mais profunda.
Os milagres, em Mateus, são sinais do Reino. Eles não são espetáculos destinados a convencer pessoas resistentes, mas manifestações da misericórdia divina onde existe abertura para acolher a ação de Deus.
A incredulidade de Nazaré representa um fechamento interior. Eles não conseguem ver porque já decidiram quem Jesus deveria ser. O preconceito impede a experiência da graça.
6. A leitura popular da Bíblia: quando Deus fala a partir das margens
A Leitura Popular da Bíblia, desenvolvida na América Latina especialmente por meio das Comunidades Eclesiais de Base, ensina que a Palavra deve ser interpretada a partir da realidade concreta do povo.
Perguntar pelo sentido de Mateus 13,54-58 hoje significa perguntar:
- Quem são os “Nazarenos” que ainda não conseguem reconhecer Deus nos pequenos?
- Quais vozes são rejeitadas porque vêm das periferias?
- Quais pessoas são consideradas incapazes de anunciar a verdade?
A história de Jesus em Nazaré revela uma realidade muito presente:
Muitas vezes, a sociedade valoriza pessoas pelo lugar que ocupam, pelo dinheiro que possuem ou pelo conhecimento acadêmico que apresentam, esquecendo que Deus também fala através dos simples.
A sabedoria do Reino pode nascer:
- das comunidades pobres;
- das mulheres que sustentam suas famílias;
- dos trabalhadores;
- dos povos indígenas;
- das comunidades negras;
- dos jovens das periferias;
- dos defensores da vida e da Casa Comum.
7. A contribuição da Teologia Latino-Americana: Deus escolhe os pobres
A Teologia Latino-Americana afirma que a revelação de Deus possui uma dimensão histórica e concreta. A opção pelos pobres não é uma preferência ideológica, mas nasce do próprio testemunho bíblico: Deus escuta o clamor dos oprimidos e se coloca ao lado dos pequenos.
Como afirma Gustavo Gutiérrez, a reflexão teológica deve partir da realidade dos pobres e do compromisso histórico com sua libertação.
Jesus de Nazaré é a expressão máxima desse movimento divino. Ele não apenas fala sobre os pobres; Ele pertence ao mundo dos pobres. Sua rejeição em Nazaré mostra que o Reino de Deus entra em conflito com critérios humanos baseados em status, poder e reconhecimento social.
8. Dimensão sociotransformadora: reconhecer Jesus hoje
A pergunta dos habitantes de Nazaré continua ecoando: “Não é ele o filho do carpinteiro?”
Hoje ela aparece em novas formas:
- “O que essa pessoa simples pode ensinar?”
- “Quem são esses pobres para falar sobre Deus?”
- “Por que ouvir aqueles que vivem nas periferias?”
A parábola desafia a Igreja a rever seus critérios. Uma Igreja fiel a Jesus precisa aprender a reconhecer a presença de Deus nos lugares onde o mundo não procura.
9. Caminhos pastorais a partir de Mateus 13,54-58
9.1. Valorizar a sabedoria popular
A pastoral deve reconhecer que o Espírito Santo atua também através da experiência do povo. As comunidades pobres não são apenas destinatárias da evangelização; são protagonistas da missão.
9.2. Superar uma Igreja distante dos pobres
Jesus não anunciou o Reino a partir de uma posição privilegiada. Ele caminhou com o povo.
A Igreja precisa estar presente:
- nas periferias urbanas;
- nos territórios indígenas;
- nas comunidades rurais;
- junto aos migrantes;
- junto às pessoas excluídas.
9.3. Formar uma espiritualidade da escuta
Muitas vezes Deus nos fala através daqueles que não possuem voz social. Escutar os pobres é uma atitude espiritual.
9.4. Combater preconceitos que impedem reconhecer Deus
A comunidade cristã deve denunciar:
- racismo;
- machismo;
- preconceito contra povos tradicionais;
- exclusão econômica;
- intolerância religiosa;
- desprezo pelas culturas populares.
10. Jesus de Nazaré: a esperança dos pequenos
O texto de Mateus revela uma grande inversão do Reino: O que era considerado insignificante torna-se lugar da manifestação de Deus.
Nazaré, uma pequena aldeia, torna-se o lugar de onde vem o Salvador.
O trabalhador simples torna-se o revelador do rosto de Deus.
O excluído torna-se aquele que anuncia a libertação.
Essa lógica continua presente na história da Igreja quando homens e mulheres simples tornam-se testemunhas proféticas do Evangelho.
Conclusão
Mateus 13,54-58 apresenta um dos maiores desafios espirituais do Evangelho: reconhecer Deus quando Ele se apresenta de maneira humilde e inesperada.
Os habitantes de Nazaré não rejeitaram Jesus porque não conheciam sua história; rejeitaram-no porque conheciam demais sua origem humilde e não conseguiam imaginar que Deus pudesse agir através de alguém tão simples.
A Teologia Latino-Americana e a Leitura Popular da Bíblia ajudam-nos a perceber que Jesus continua sendo encontrado nas periferias da humanidade. Ele está presente nos pobres que lutam por dignidade, nos excluídos que clamam por justiça, nos povos ameaçados e em todos aqueles que defendem a vida.
A pergunta de Nazaré permanece atual: Somos capazes de reconhecer Deus nos pequenos?
A resposta a essa pergunta define a autenticidade da nossa fé e o compromisso da nossa pastoral.
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