“Perseverai na comunhão, na Palavra, na partilha e no serviço aos pequenos”
Queridas Comunidades Eclesiais de Base, irmãs e irmãos que se reúnem nas comunidades, nas capelas, nos bairros, nas periferias urbanas e rurais, nos campos, nas florestas, nas aldeias, nas comunidades tradicionais e nos tantos lugares onde o Povo de Deus continua a alimentar a esperança:
Recebei esta carta como um abraço fraterno, como uma palavra de gratidão e, ao mesmo tempo, como um convite à perseverança. Em tempos marcados por tantas incertezas, divisões, violências, desigualdades e tentações de desânimo, queremos recordar que as Comunidades Eclesiais de Base não nasceram apenas de uma necessidade organizativa da Igreja. Elas brotaram da escuta da Palavra de Deus, da fé vivida no cotidiano e da certeza de que Jesus Cristo continua a caminhar com seu povo, sobretudo com os pobres, os pequenos, os esquecidos e os que têm sua dignidade ameaçada.
As Comunidades Eclesiais de Base são chamadas a permanecer fiéis à sua vocação mais profunda: ser comunidades de Jesus, reunidas pela Palavra, fortalecidas pela fraternidade, alimentadas pela Eucaristia e comprometidas com a transformação da realidade.
Por isso, hoje ecoa com força a palavra dos Atos dos Apóstolos:
“Eles eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2,42).
Esta é a imagem que continua a inspirar o sonho e a missão das CEBs. A primeira comunidade cristã não era uma comunidade perfeita, sem conflitos ou dificuldades. Era uma comunidade que aprendia a perseverar. Sua força não estava no poder, no prestígio ou na riqueza. Sua força nascia da fé em Jesus ressuscitado, da escuta da Palavra, da comunhão entre as pessoas e da partilha dos dons.
1. Perseverar na Palavra que ilumina a vida
Queridas irmãs, queridos irmãos; perseverai na Palavra de Deus!
Não permitais que a Bíblia se torne apenas um livro distante, reservado aos especialistas ou utilizado para justificar interesses alheios ao Evangelho. A Palavra foi entregue ao povo para iluminar a vida, alimentar a esperança, denunciar as injustiças e abrir caminhos de libertação.
Continuai a reunir-vos para ler, meditar, rezar e partilhar as Escrituras. Conservai viva a Leitura Popular da Bíblia, que aproxima a Palavra da vida e a vida da Palavra. Perguntai sempre: o que o texto dizia ao povo de seu tempo? O que diz à nossa realidade? O que Deus nos chama a fazer hoje?
A Palavra de Deus não nos afasta da história. Ao contrário, ensina-nos a reconhecer a presença de Deus no clamor dos pobres, nas lutas por justiça, na defesa da vida, na busca da paz e na construção de relações mais fraternas.
Quando a comunidade abre a Bíblia, Deus continua a falar. E quando a comunidade escuta com sinceridade, descobre que a fé não pode permanecer indiferente diante da fome, da violência, do racismo, da exclusão, do abandono dos povos indígenas, da destruição da natureza, da exploração dos trabalhadores e de todas as formas de negação da dignidade humana.
2. Perseverar na comunhão fraterna
Os Atos dos Apóstolos afirmam que os primeiros cristãos eram perseverantes “na comunhão fraterna” (cf. At 2,42).
A comunhão não é uniformidade. Não significa que todos devem pensar da mesma maneira ou que as diferenças precisam ser silenciadas. A verdadeira comunhão nasce da capacidade de reconhecer no outro uma irmã e um irmão, acolhendo a diversidade e construindo a unidade a partir do Evangelho.
As CEBs são chamadas a ser espaços onde ninguém se sente invisível; onde os pobres têm voz; onde as mulheres participam plenamente; onde os jovens encontram acolhida e responsabilidade; onde os idosos são respeitados; onde as crianças são protegidas; onde as diferentes culturas são valorizadas; e onde cada pessoa pode oferecer seus dons para o bem comum.
Não deixeis que a lógica do individualismo enfraqueça a vida comunitária. A sociedade frequentemente nos ensina a competir, acumular e buscar apenas o próprio interesse. Jesus, porém, reúne, aproxima, partilha e serve.
A comunidade cristã é chamada a ser sinal de uma humanidade reconciliada.
Por isso, cuidai uns dos outros. Visitai os enfermos. Acompanhai as famílias em sofrimento. Escutai quem está só. Fortalecei quem perdeu a esperança. Acolhei quem chega. Procurai quem se afastou. Não permitais que ninguém carregue sozinho o peso da vida.
3. Perseverar na fração do pão e na partilha dos bens
A comunidade de Atos não se limitava a rezar. Sua fé se expressava em gestos concretos:
“Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e colocavam tudo em comum” (At 2,44).
E o texto acrescenta:
“Entre eles não havia necessitados” (At 4,34).
A partilha era consequência da fé. A experiência do Cristo ressuscitado transformava a maneira de viver, de possuir e de se relacionar.
A fração do pão, celebrada na Eucaristia, não pode ser separada do pão repartido na mesa da vida. Não podemos proclamar a comunhão com Cristo e permanecer indiferentes diante de pessoas que passam fome. Não podemos celebrar o amor de Deus e aceitar como natural uma sociedade marcada pela desigualdade e pela exclusão. Cada vez que a comunidade celebra a Eucaristia, Jesus nos recorda: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16).
A mesa do Senhor nos envia para as mesas vazias do mundo. O pão consagrado nos compromete com o pão partilhado. A comunhão com Cristo nos conduz à comunhão com os irmãos e irmãs.
Por isso, perseverai na solidariedade. Fortalecei as redes de ajuda mútua, as iniciativas comunitárias, as pastorais sociais, as ações de defesa dos direitos humanos e os projetos que promovem vida digna. Onde houver uma pessoa sem alimento, uma família sem moradia, um trabalhador explorado, um povo sem terra, um migrante rejeitado ou uma comunidade ameaçada, a Igreja de Jesus é chamada a estar presente.
4. O programa de Jesus: “O Espírito do Senhor está sobre mim”
No Evangelho de Lucas, Jesus entra na sinagoga de Nazaré, abre o livro do profeta Isaías e proclama:
“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e a recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar um ano da graça do Senhor” (Lc 4,18-19).
Depois, Jesus afirma:
“Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (Lc 4,21).
Esse “hoje” continua a ressoar em nossas comunidades.
Jesus não apresenta apenas uma bela mensagem religiosa. Ele anuncia um projeto de vida. Sua missão é marcada pela Boa-Nova aos pobres, pela libertação dos oprimidos, pela restauração da dignidade e pela chegada do Reino de Deus.
As CEBs são chamadas a manter vivo esse programa de Jesus.
Quando uma comunidade acolhe uma família em necessidade, o Evangelho se cumpre hoje.
Quando cristãos defendem a dignidade dos trabalhadores, o Evangelho se cumpre hoje.
Quando mulheres encontram apoio e proteção diante da violência, o Evangelho se cumpre hoje.
Quando os povos indígenas têm seus direitos reconhecidos e seus territórios respeitados, o Evangelho se cumpre hoje.
Quando a comunidade combate o racismo, a discriminação e toda forma de preconceito, o Evangelho se cumpre hoje.
Quando a criação é cuidada e defendida contra a destruição, o Evangelho se cumpre hoje.
Quando os pobres deixam de ser apenas destinatários de ajuda e se tornam sujeitos de sua própria história, o Evangelho se cumpre hoje.
Não permitais que a fé seja reduzida a práticas desligadas da vida. A oração é indispensável, mas a oração cristã conduz ao compromisso. A espiritualidade verdadeira não nos retira do mundo: envia-nos ao encontro das pessoas e de suas dores.
5. “Tudo o que fizestes a um destes pequenos…”
O Evangelho de Mateus apresenta uma das palavras mais exigentes de Jesus:
“Tudo o que fizestes a um só destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40).
Jesus se identifica com quem tem fome, sede, está sem roupa, é estrangeiro, está enfermo ou se encontra preso. Ele não diz apenas que devemos ajudar os pobres. Ele revela que está presente neles.
Por isso, o encontro com Cristo não acontece somente no templo. Encontramos Jesus também na pessoa que sofre, no trabalhador explorado, na mulher vítima de violência, na criança abandonada, no jovem sem oportunidades, no idoso esquecido, no migrante rejeitado e em todos aqueles cuja dignidade é desprezada.
Mateus 25 nos recorda que a fé será reconhecida por seus frutos de misericórdia. Não bastará dizer: “Senhor, Senhor”. Será necessário mostrar que aprendemos a amar como Jesus amou.
As Comunidades Eclesiais de Base devem continuar a ser escolas de misericórdia ativa. Não uma misericórdia que apenas sente pena, mas uma misericórdia que se aproxima, escuta, acolhe, organiza, defende direitos e transforma estruturas que produzem sofrimento.
A caridade cristã não é assistencialismo que mantém as pessoas dependentes. É compromisso com a dignidade, com a justiça e com a libertação.
6. Não tenhais medo de permanecer fiéis ao Evangelho
Sabemos que nem sempre é fácil viver o projeto de Jesus.
Há comunidades enfraquecidas. Há lideranças cansadas. Há pessoas que se afastaram. Há lugares onde a participação diminuiu. Há dificuldades para formar novas lideranças e envolver as juventudes.
Também existem pressões para que a Igreja se afaste dos pobres, abandone sua dimensão profética ou reduza a fé a experiências individualistas. Em alguns contextos, o compromisso social é visto com desconfiança, como se defender a vida e a justiça fosse algo estranho ao Evangelho. Mas não desanimeis.
A fidelidade ao Evangelho nem sempre é acompanhada de aplausos. Jesus foi incompreendido, rejeitado e perseguido porque anunciou um Reino que questionava os poderes que oprimiam e excluíam.
As CEBs não precisam abandonar sua identidade para se tornarem relevantes. Precisam aprofundar suas raízes no Evangelho e encontrar novas formas de viver a mesma missão.
É tempo de renovar as comunidades sem perder sua memória.
É tempo de escutar os jovens sem desprezar a sabedoria dos mais velhos.
É tempo de acolher novas linguagens e novos desafios.
É tempo de fortalecer a participação das mulheres.
É tempo de formar lideranças comprometidas com a Palavra, a comunidade e a transformação social.
É tempo de unir fé e vida, oração e ação, contemplação e compromisso.
7. Comunidades em saída, a serviço do Reino
As Comunidades Eclesiais de Base não existem para cuidar apenas de si mesmas. Elas são chamadas a sair, encontrar, escutar e servir.
Uma comunidade viva não espera que todos venham até ela. Vai ao encontro das pessoas.
Vai às periferias.
Vai às casas.
Vai aos lugares de sofrimento.
Vai onde a vida está ameaçada.
Vai onde a esperança parece ter desaparecido.
Vai onde os direitos são negados.
Vai onde o povo luta por terra, moradia, trabalho, saúde, educação e dignidade.
A missão não é conquistar pessoas para aumentar números. É testemunhar o amor de Deus e colaborar para que o Reino aconteça na história.
O Reino de Deus se manifesta quando os famintos são alimentados, quando os oprimidos são libertados, quando os excluídos são acolhidos, quando a justiça floresce e quando a paz se torna possível.
Por isso, as CEBs devem continuar a caminhar com as pastorais sociais, os movimentos populares, as organizações de defesa dos direitos humanos e todas as iniciativas que promovem a vida.
A Igreja não perde sua identidade quando se aproxima das lutas do povo. Ao contrário, torna-se mais fiel a Jesus, que caminhou com os pobres e anunciou a libertação.
8. Perseverai: a esperança continua viva
Queridas Comunidades Eclesiais de Base, perseverai.
Perseverai na escuta da Palavra.
Perseverai na oração.
Perseverai na comunhão.
Perseverai na fração do pão.
Perseverai na partilha.
Perseverai na defesa da vida.
Perseverai na opção pelos pobres.
Perseverai na construção da justiça.
Perseverai na esperança.
Mesmo quando o caminho parecer longo, não abandoneis a missão.
Mesmo quando as comunidades forem pequenas, não desprezeis a força das sementes.
Mesmo quando houver cansaço, procurai cuidar uns dos outros.
Mesmo quando surgirem dificuldades, recordai que o Espírito Santo continua a conduzir a Igreja.
A primeira comunidade cristã não possuía poder político, grandes estruturas ou riquezas. Possuía a força do Evangelho, a comunhão dos irmãos e a presença do Espírito. Essa mesma força continua presente. Jesus ressuscitado caminha com seu povo. O Espírito continua a suscitar novos caminhos. A Palavra continua a iluminar. O pão continua a ser repartido. Os pobres continuam a evangelizar a Igreja. E o Reino de Deus continua a crescer, muitas vezes silenciosamente, como uma pequena semente lançada na terra. Que nossas comunidades possam dizer, com a vida:
“Hoje se cumpre esta Palavra.”
Hoje, quando acolhemos.
Hoje, quando partilhamos.
Hoje, quando defendemos a vida.
Hoje, quando caminhamos com os pobres.
Hoje, quando enfrentamos as injustiças.
Hoje, quando construímos fraternidade.
Hoje, quando reconhecemos Cristo nos pequenos.
Que Maria, mulher do Magnificat, que cantou a misericórdia de Deus e a esperança dos pobres, acompanhe nossas comunidades.
Que os mártires da América Latina fortaleçam nossa coragem.
Que o Espírito Santo renove nossas forças.
E que Jesus, pobre, servidor e libertador, permaneça sempre no centro de nossas comunidades.
Comunidades Eclesiais de Base, não desanimeis! Permanecei firmes na Palavra, na comunhão, na partilha e na missão. Continuai sendo Igreja que nasce do povo, caminha com o povo e serve ao Reino de Deus.
Com fraternidade, esperança e compromisso,
uma voz irmã, a serviço da Palavra, da Comunidade e do Reino;
Pe. Hermes A. Fernandes
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