Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
A história da Igreja na América Latina não pode ser contada sem recordar homens e mulheres que fizeram do Evangelho um caminho concreto de libertação. Entre esses nomes, destaca-se Dom Pedro Casaldáliga (1928–2020), missionário claretiano, bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia e uma das maiores referências da Teologia Latino-americana. Sua vida testemunha que o seguimento de Jesus Cristo não se reduz a uma experiência espiritual intimista, mas exige compromisso histórico com os pobres, os povos indígenas, os trabalhadores rurais e todos aqueles que vivem à margem da sociedade.
Dom Pedro compreendeu que anunciar o Reino de Deus significava denunciar tudo aquilo que contradizia esse Reino: a concentração de terras, a violência contra os camponeses, a destruição da Amazônia, o racismo, a exploração econômica e todas as formas de exclusão. Sua existência tornou-se uma verdadeira parábola do Evangelho vivido em terras latino-americanas.
Um missionário que escolheu morar entre os pobres

Nascido em Balsareny, na Catalunha, Espanha, em 1928, Pedro Casaldáliga ingressou na Congregação dos Missionários Claretianos e chegou ao Brasil em 1968, período marcado pela ditadura militar, pela expansão do latifúndio e pelos grandes projetos econômicos que avançavam sobre a Amazônia Legal.
Quando chegou ao Araguaia, encontrou uma realidade profundamente marcada pela injustiça. Os grandes fazendeiros apropriavam-se das terras, expulsando posseiros e comunidades tradicionais. Trabalhadores eram submetidos a condições análogas à escravidão. Povos indígenas sofriam perseguições constantes e muitos eram exterminados.
Foi diante dessa realidade que Dom Pedro compreendeu que sua missão não consistia apenas em administrar sacramentos ou organizar estruturas eclesiais. Era preciso fazer da própria Igreja uma presença libertadora.
Inspirado pelo Evangelho, decidiu viver da maneira mais simples possível. Sua casa era humilde. Não utilizava os símbolos tradicionais do poder episcopal. Sua mitra era feita de palha; o báculo, de madeira simples; o anel episcopal, confeccionado com tucum, tornou-se símbolo de sua aliança com os pobres e da fidelidade ao Reino de Deus.
Essa opção possuía profundo significado teológico. Como ensina a Teologia Latino-americana, Deus revela-se privilegiadamente na história dos pobres. Aproximar-se deles significava aproximar-se do próprio Cristo.
A Teologia Latino-americana como horizonte de sua missão

A Conferência Episcopal de Medellín (1968) marcou profundamente a caminhada eclesial latino-americana ao afirmar que a pobreza não era uma fatalidade, mas consequência de estruturas injustas.
Mais tarde, Puebla (1979) reafirmaria a opção preferencial pelos pobres como dimensão constitutiva da evangelização.
Dom Pedro tornou-se uma das expressões mais vivas dessa opção. Sua pastoral não nasceu de teorias abstratas, mas do encontro cotidiano com trabalhadores explorados, mulheres marginalizadas, comunidades indígenas ameaçadas e pequenos agricultores expulsos de suas terras.
A Teologia Latino-americana compreende que Deus escuta o clamor do povo, assim como ouviu o grito dos escravos no Egito (Êxodo 3,7-8). Casaldáliga fazia dessa convicção um programa pastoral.
Seu lema episcopal era profundamente revelador:
“Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar.”
Cada uma dessas expressões resume um aspecto da espiritualidade libertadora:
- nada possuir: rejeitar a lógica da acumulação;
- nada carregar: viver com simplicidade evangélica;
- nada pedir: confiar na Providência;
- nada calar: denunciar profeticamente as injustiças;
- nada matar: promover sempre a vida.
Nesse lema encontram-se reunidas espiritualidade, profecia e compromisso histórico.
O Evangelho lido a partir dos pobres
Uma das maiores contribuições da Teologia Latino-americana foi recuperar a leitura comunitária da Bíblia. Dom Pedro incentivava intensamente as Comunidades Eclesiais de Base e a Leitura Popular da Bíblia. Para ele, o Evangelho precisava ser lido com “os pés na terra” e “os olhos voltados para o Reino”. Sua interpretação das Escrituras aproximava-se da experiência de Jesus junto aos pobres da Galileia. Quando lia as Bem-aventuranças (Mt 5), via nelas os trabalhadores sem terra. Ao contemplar o Êxodo, enxergava os povos indígenas lutando por seus territórios. Ao meditar os profetas, reconhecia a denúncia permanente contra os sistemas econômicos excludentes. Ao anunciar a Ressurreição, proclamava a esperança dos que continuam resistindo.
Sua leitura bíblica nunca foi meramente acadêmica. Era uma leitura comunitária, orante e transformadora.
Defesa dos povos indígenas

Poucos bispos assumiram com tanta radicalidade a causa indígena quanto Dom Pedro Casaldáliga.
Na região do Araguaia conviveu com diversos povos originários, aprendendo deles novas formas de compreender a criação, o território e a própria relação com Deus. Para ele, evangelizar jamais poderia significar destruir culturas. Pelo contrário.
A missão deveria reconhecer que Deus já estava presente na história desses povos muito antes da chegada dos missionários.
Essa compreensão aproxima-se da atual reflexão sobre a inculturação do Evangelho, posteriormente aprofundada pelo Magistério da Igreja, especialmente nos documentos relacionados à Amazônia.
Dom Pedro defendia que a terra não era mercadoria. Era dom de Deus. Era lugar de memória, identidade e vida.
O conflito com os poderes deste mundo
A fidelidade ao Evangelho custou caro. Dom Pedro recebeu inúmeras ameaças de morte. Foi perseguido pela ditadura militar. Grandes proprietários organizaram campanhas contra ele. Chegou a ser investigado pelos órgãos de repressão.
Muitos de seus colaboradores foram assassinados. Outros desapareceram. Ainda assim, nunca abandonou seu povo.
A Teologia Latino-americana compreende o martírio não apenas como derramamento de sangue, mas como consequência da fidelidade ao Reino. Embora Dom Pedro tenha morrido de causas naturais, viveu durante décadas sob permanente risco de assassinato. Seu cotidiano tornou-se um verdadeiro martírio vivido.
Uma Igreja pobre para os pobres

Muito antes de essa expressão ganhar força no pontificado do Papa Francisco, Dom Pedro já afirmava que a Igreja deveria abandonar toda forma de privilégio.
Defendia uma Igreja:
- missionária;
- pobre;
- servidora;
- participativa;
- comprometida com os direitos humanos;
- aberta ao diálogo;
- profundamente inserida na realidade do povo.
Sua prática antecipava muitos elementos que hoje aparecem como centrais na reflexão eclesial sobre a sinodalidade.
A espiritualidade da esperança
Apesar das perseguições, Dom Pedro jamais foi um homem pessimista. Sua poesia revela uma profunda esperança cristã.
Escreveu centenas de poemas onde a luta popular aparece sempre iluminada pela esperança do Reino. Para ele, esperança não significava esperar passivamente. Era continuar caminhando mesmo quando tudo parecia perdido.
Essa espiritualidade recorda São Paulo:
“A esperança não decepciona” (Rm 5,5).
E também o Apocalipse, onde Deus enxuga toda lágrima e inaugura novos céus e nova terra.
Atualidade de Dom Pedro Casaldáliga
A vida de Dom Pedro permanece profundamente atual. Num contexto marcado pelo crescimento das desigualdades sociais, pela devastação ambiental, pela violência contra os povos indígenas e pela fragilização dos direitos dos trabalhadores, sua voz continua ecoando como um chamado profético.
Sua história recorda que a evangelização não pode separar anúncio e compromisso social. A fé cristã torna-se autêntica quando se traduz em solidariedade, justiça e defesa da dignidade humana. A Teologia Latino-americana continua encontrando em Dom Pedro um de seus maiores testemunhos vivos. Ele demonstrou que a Igreja pode ser presença libertadora quando escolhe caminhar com os pobres e aprender com eles.
Conclusão

Dom Pedro Casaldáliga fez da própria vida uma interpretação concreta do Evangelho. Sua existência foi marcada pela simplicidade, pela coragem profética e pela fidelidade aos pobres. Como os grandes profetas bíblicos, denunciou as estruturas de pecado que geram morte e anunciou, com palavras e gestos, a esperança do Reino de Deus.
À luz da Teologia Latino-americana, sua história revela que a missão da Igreja consiste em tornar visível o amor libertador de Deus na história concreta dos povos. A opção preferencial pelos pobres, longe de ser um posicionamento ideológico, nasce do próprio coração do Evangelho, onde Jesus se identifica com os pequenos, os excluídos e os que têm fome e sede de justiça.
Dom Pedro ensinou que a santidade não se mede pela distância do mundo, mas pela proximidade com os que sofrem. Seu legado permanece como inspiração para uma Igreja sinodal, missionária, inculturada e comprometida com a transformação da realidade. Sua memória continua a convocar cristãos e cristãs a viverem uma fé que una contemplação e ação, oração e compromisso, mística e profecia.
Como escreveu o próprio Dom Pedro:
“No entardecer da vida, seremos examinados no amor.”
Essa convicção resume toda a sua trajetória e continua sendo um horizonte para a Igreja latino-americana: uma Igreja que, seguindo Jesus de Nazaré, escolhe caminhar com os pobres para que todos tenham vida, e vida em abundância (Jo 10,10).
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